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	<title>a-belocidade-dos-problemas &amp;laquo; WordPress.com Tag Feed</title>
	<link>http://en.wordpress.com/tag/a-belocidade-dos-problemas/</link>
	<description>Feed of posts on WordPress.com tagged "a-belocidade-dos-problemas"</description>
	<pubDate>Mon, 28 Dec 2009 09:31:59 +0000</pubDate>

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<title><![CDATA[Eliminar as provas]]></title>
<link>http://ricardotaveiro.wordpress.com/2007/05/13/eliminar-as-provas/</link>
<pubDate>Sun, 13 May 2007 12:34:39 +0000</pubDate>
<dc:creator>Ricardo T.</dc:creator>
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<description><![CDATA[Como não suporto as despedidas sempre vou na estratégia do covarde. Deixo uma nota ou alguma mensage]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><p>Como não suporto as despedidas sempre vou na estratégia do covarde. Deixo uma nota ou alguma mensagem dizendo que sinto muitíssimo que tudo termine deste jeito (seja o jeito como for, quase nunca é para bem). É uma mágoa não podermos compartilhar mais tempo, seguiremos em contacto, etc, escreve ao email, telefona-me, agora não há distâncias, logo terás férias e voltarás, eu poderia ir alguma vez e outras mentiras. </p>
<p>Só que as mentiras sempre volvem, podem passar-se semanas, meses ou anos. Quanto mais tempo é pior, porque são como uma onda de tsunami que vai pegando força e força e quando chega às minhas costas arrasa-me. É o surpreendente o que acontece com a memória das pessoas; a tendência natural, eu penso que de auto-proteção, é só seleccionar os bons velhos momentos. Mas isto não quer dizer que <strong>esqueçam</strong> o demais, e quando fam memória de verdade, oi rapaz, aí é que tens um problema. No mundo real não existem elixires que apaguem memórias, e não tenho orçamento para contratar serviços secretos que eliminem as provas físicas, ou agentes de imprensa a defendarem a minha reputação.</p>
<p>Já não sei que queria dizer com isto.</p>
</div>]]></content:encoded>
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<title><![CDATA[Sem jeito...]]></title>
<link>http://ricardotaveiro.wordpress.com/2007/03/14/sem-jeito/</link>
<pubDate>Wed, 14 Mar 2007 17:47:55 +0000</pubDate>
<dc:creator>Ricardo T.</dc:creator>
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<description><![CDATA[ai, tantos dias sem nenhum jeito por cá. Sinto que estou a afogar entre a minha poeira privada e, o ]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><p>ai, tantos dias sem nenhum jeito por cá. Sinto que estou a afogar entre a minha poeira privada e, o que já é inadmissível, no remoinho de tormentos e angustias fingidas que entra pola janela. Nasces um lamúrias e morres um lamúrias, isso é o único que eu diria sobre o tema. Agora vim a descobrir que não som o único com tempo a perder em jogos sem importância, há milhões de pessoas bem-dispostas para serem cavalos dum ginete fantasma. Olhem as esporas, o pony express nunca descansa, cartas em círculos sem começo e sem final.</p>
<p>Qual é a melhor forma de solucionarem os conflitos? Antigamente cada bando escolhia um representante e fazia uma justa de Deus, lim sobre isto algures mas já não lembro o que faziam com o bando perdedor, fora de cagar na memória do seu caído. Talvez arrumavam as malas e iam outra parte, ou deixavam que o vento de deserto os enterrasse até a desaparição como fai com todos nós. Com tranquilidade. Anyway, era um método neolítico afastado da nossa mentalidade post-post-modernista, não há bandos mais, há exércitos de um contra o mundo, o que já parece um combate desigual desde o começo. A nossa desaparição futura não terá tantas redes de seguridade, felizmente. Adiantamos muito desde aquela.</p>
</div>]]></content:encoded>
</item>
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<title><![CDATA[La vera forza]]></title>
<link>http://ricardotaveiro.wordpress.com/2007/03/05/la-vera-forza/</link>
<pubDate>Mon, 05 Mar 2007 17:37:21 +0000</pubDate>
<dc:creator>Ricardo T.</dc:creator>
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<description><![CDATA[Imaginas que as câmaras municipais fossem como pequenos Estados independentes? Cada concelho estabel]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><p>Imaginas que as câmaras municipais fossem como pequenos Estados independentes?</p>
<p>Cada concelho estabeleceria regras sobre a cidadania dos seus moradores, diria quem tem direito (e obriga) a um bilhete de identidade permanente por uma questão de sangue e não de residência. A imigração estaria fortemente controlada e haveria controlos em todas as fronteiras. Para ir de Santiago a Corunha haveria que conseguir quatro ou cinco visados, embora fosse possível chegar a um acordo de livre circulação de trabalhadores. Os imigrantes ilegais seriam considerados perigosos, detidos &#8211; no sistema penitenciário municipal &#8211; e largados de volta ao seu concelho natal. Os apátridas teriam um regime especial e seriam esquecidos tranquilamente.</p>
<p>Estudar ou trabalhar fora seria complicado, só possível após ultrapassar várias barreiras burocráticas. Cada prefeitura contaria com embaixadas noutros concelhos para ajudar os vizinhos que estivessem a morar em concelhos estrangeiros &#8211; com todas as travas administrativas criadas polo próprio concelho.</p>
<p>Alguns autarcas seriam também automaticamente chefes de Estado, outros seriam eleitos numa votação diferente para este posto simbólico, e finalmente haveria outros que seriam Reis por desígnio divino e os seus descendentes herdariam o cargo indefinidamente. Estes últimos falariam sempre duma pretensa dignidade histórica como garante do seu status. Todos teriam um exército próprio. Fariam desfiles com bandeiras, tanques, aviões, militares desfilando na rua principal do povo sob as salvas de palmas dos seus vizinhos. Alguns concelhos teriam armas de destruição maciça como garantia da paz comarcal. Os mais poderosos seriam observados com receio polos lideres dos menos poderosos, e os lideres dos menos poderosos desconfiariam também dos mais poderosos. O medo estender-se-ia entre os cidadãos, que estarão a argalhar contra nós além da fronteira?</p>
<p>Os vereadores concordariam na importância de defender a soberania política, económica, cultural, militar, e afastariam interesses partidistas polo «bem municipal». Planeariam campanhas para atrair a inversão estrangeira mas também para manterem os sectores ditos estratégicos nas mãos dos empresários locais. O déficit comercial municipal seria combatido como um cancro.</p>
<p>Os media só informariam dos resultados dos representantes municipais, e ignorariam qualquer atenção a desportos onde não destacarem os seus heróis. As obras culturais locais teriam sempre um destaque não pola sua provável qualidade mas apenas por serem. Excepto uma pequena parte dele, o mundo seria ignorado.</p>
<p>Controlariam o ar e a terra e umas poucas milhas marítimas, as ondas radiofónicas, a ilegalidade da tristeza e a tolerância da alegria, o reparto da miséria, os prémios e os castigos, a voluntariedade e a obrigatoriedade, a expressão e a censura, o município espera cada homem cumprir o seu dever conforme ao decreto municipal 23/5347. Tudo seria imaginário e calado, excepto o poder. Os concelhos não seriam considerado de nenhum jeito um meio. Seriam fins, seriam em tão pouco valor um meio para os seus habitantes que se for preciso sacrificariam a sua existência por ele.</p>
</div>]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[Dedos de tinta]]></title>
<link>http://ricardotaveiro.wordpress.com/2007/03/02/dedos-de-tinta/</link>
<pubDate>Fri, 02 Mar 2007 08:54:06 +0000</pubDate>
<dc:creator>Ricardo T.</dc:creator>
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<description><![CDATA[Há sonhos mais cruéis. Sonhos que continuam o eco dos medos, onde as moças te deixam com uma carta e]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><p>Há sonhos mais cruéis. Sonhos que continuam o eco dos medos, onde as moças te deixam com uma carta e uma viagem de avião, o dia anterior ao aniversário como se fosse uma fugida da justiça. Nem era necessário. Mas como não há valor, deixam uma carta com todos os sinto e os não tinha pensado que fosse assim. São cartas estranhas, porque são tão nítidas que quase podes cheirar a tinta que se pega nos dedos. E são moças estranhas porque te amam durante um bocado</p>
<p>e desde há cinco minutos, ou talvez precisamente por isso</p>
<p>e parece que tudo vai bem e pensas que poderias ir com ela algures, a qualquer parte onde quisesse esta noite e ri como um cúmplice mas não nega. E depois vai, soa, como que assustada de tanta felicidade. Caramba, como há sonhos cruéis a 300 beats por segundo. Nada originais porque não tenho orçamento para mais, mas cruéis como montes crepusculares afogados nas rias.</p>
</div>]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[A íntima queda das cousas]]></title>
<link>http://ricardotaveiro.wordpress.com/2007/02/24/a-intima-queda-das-cousas/</link>
<pubDate>Sat, 24 Feb 2007 15:29:04 +0000</pubDate>
<dc:creator>Ricardo T.</dc:creator>
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<description><![CDATA[Avó. Chamou-me avó e não é o meu neto, é um cuidador tão preguiceiro como para não apreender o meu n]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><p>Avó. Chamou-me avó e não é o meu neto, é um cuidador tão preguiceiro como para não apreender o meu nome. Como pensam que não entendo nada, mas entendo, oh, claro que entendo. O que não quero é falar, é o meu único protesto possível neste cárcere tão limpo no que me confinaram. Que pensaria o meu homem? Não o aceitaria, tirar-me-ia daqui dalgum jeito, ele tinha mundo, andou embarcado polo mundo adiante, e até foram presos em Capetom. Já tinha idade como para se reformar e foi ele quem os sacou daí que bem se entendia com todo o mundo. E porque o mar fala galego, eh, que já o dizia ele, que falava um pouquechinho de inglês só que em galego e pronto, inglês em galego, há uma língua para tudo. A minha vizinha Maruja que estivo emigrada nas Bascongadas dizia que lá os cães só atendem basco ou ficam as ovelhas sem recolherem. Sei-cá não lhes presta outra língua.</p>
<p>E agora eu aqui com o aparelho ligado todo o santo dia, eu que nunca tanta tele vira porque sempre andei ocupada que nunca faltam trabalhos, só a novela seguía porque algum vício há que ter, e agora todo o dia com as notícias estrangeiras que nem entendo esse seu falar tão esquisito, como a avó já não distingue entre uma garrafa e um submarino, isso pensam, pois deixam este canal, ainda se tivesse o meu patrão para me traduzir alguma cousa. E eu não falo, só assisto imagens que parecem dos tempos da guerra, só que então não filmavam as tragédias e levamos o nosso, mas olha que também fomos pra diante com valentia e não enterrávamos os velhos em vida. Que uma cunca de caldo nunca lhes ia faltar na mesa, não senhor&#8230;</p>
<p>Eu estava tão bem na minha casa, eu governava lá, andava dum lado pra o outro e tinha a Micho que me fazia companha. Mas foi uma pequena queda e um braço roto. E já começaram que se ia velha e que uma casa tão grande pra mim. Eu feliz porque pensava que ia ter o morgado e a nora a cuidar-me, que ingenuidade. Agora a casa foi pra a imobiliária, eu pra a residência, e Micho sequestrado e adoptado pola neta.</p>
<p>E quando me visitam, quase nunca nestes dias que são sempre os mesmos, comentam como a avó reconhece a sua neta Marisa, está a sorrir, ha, e não é por isso, não. Eu quero bem à pequena mas sorrio é porque a cativa leva na roupa um pequeno cheiro ao gato. Micho sempre gostou de dormir nalgum embrulho perto da sua dona.</p>
</div>]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[A Cerimónia]]></title>
<link>http://ricardotaveiro.wordpress.com/2007/02/22/a-cerimonia/</link>
<pubDate>Thu, 22 Feb 2007 17:42:51 +0000</pubDate>
<dc:creator>Ricardo T.</dc:creator>
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<description><![CDATA[- Vem, Brat, que vai começar! Brad Pitt continuou a preparar o seu batido com estudada indiferença. ]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><p>- Vem, Brat, que vai começar!</p>
<p>Brad Pitt continuou a preparar o seu batido com estudada indiferença. Por dentro também desejava assistir à cerimónia desde o primeiro minuto, mas queria aparentar uma figura de tipo duro (uma como a que tão mal representa nos seus filmes). Oficialmente apenas a veria por acompanhar a Angelina Jolie. Sacrificou mais uns segundos, até que o frigorífico começou a apitar. Guardou o leite dentro, pegou o seu copo, olhou a piscina e o jardim adornado com arbustos em forma de ursos, e foi até o sofá entre as estátuas de gelo do corredor.</p>
<p>- Estão nos anúncios, querido, mas vai entrar já desde o tapete vermelho. Quase perdes o começo.</p>
<p>Angelina era fã, não haveria jeito de que ninguém a tirasse de diante do televisor, assim acabasse o mundo. A LXVII Cerimónia de Entrega dos Prémios aos Lixeiros Municipais era uma cita obrigada e agendada desde havia semanas. Os candidatos foram passeando polo tapete, desejando boa sorte aos outros e respondendo às brincadeiras dos jornalistas. Claro que com a tradução quase se perdia o sentido das piadas, e só tinham duas vozes em off, uma masculina e outra feminina que faziam de ventríloquos dos indicados e os seus acompanhantes. E havia muitos temas locais dos que nunca antes ouviram falar, mas Brad e Angelina riam igual com eles, os dous imaginavam com estarem lá (por separado, com alguém melhor como esse Técnico em Degradação de Recursos tão atraente, ou a Administrativa Auxiliar de laranja).</p>
<p>Na segunda hora Arturo Ferreira ganhou o prémio à categoria de Recolhida de Papel e Cartão. Brad e Angelina festejaram porque era o seu favorito de sempre, sentiam-se como se eles ganhassem também, e beijaram-se para imitarem a Arturo e a sua moça (da que já não gostavam tanto, Angelina pensou maliciosamente que levava um traje a rigor (do Berska, provavelmente) duas talhas por debaixo da sua, e que parecia mais gorda na tele que nas revistas). O mangalhão do Arturo subiu os seus 195 cms ao palco, com as gedelhas despenteadas, com as suas Adidas do trinque (um capricho para a ocasião), o seu jérsei a raias verdes e azuis, e começou o discurso:</p>
<p>«Obrigado, oh, estou tão obrigado a todos, é um grande honor estar cá com todos vós, com tantos grandes trabalhadores neste ano&#8230; só quero lembrar o meu chefe que confiou em mim quando ninguém o fazia, e que se atreveu a dar-me a oportunidade do camião principal, à política de contratação municipal de desempregados de longa duração, a meus pais, à minha namorada Lua&#8230;»</p>
<p>- Oh, como ele é belo! Eu deixava-lhe estacionar o seu camião na minha garagem! – disse uma porca Angelina.</p>
<p>-E eu também – pensou Brad.</p>
</div>]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[Duas Cores]]></title>
<link>http://ricardotaveiro.wordpress.com/2007/02/20/duas-cores/</link>
<pubDate>Tue, 20 Feb 2007 23:29:24 +0000</pubDate>
<dc:creator>Ricardo T.</dc:creator>
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<description><![CDATA[Sempre pensei que Cinza era alguém em que confiar. Não direi cá o tópico de que todos temos duas fac]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><p>Sempre pensei que Cinza era alguém em que confiar. Não direi cá o tópico de que todos temos duas faces e blá, blá, eu sei o que é ser contraditório e ter várias opiniões sobre o mesmo assunto, ser um camaleão dependendo da gente que te rodeia, eu tenho os meus dias luminosos e os meus dias azuis, etc, mas, olha, não tem nada a ver com a pura psicopatia.</p>
<p>Ao princípio sentira-me um bocadinho desapontado no meu novo posto. Na minha antiga secção sempre estávamos a fazer brincadeiras e as minhas companheiras Laranja e Violeta adoravam-me porque eu sou fácil de gostar (infelizmente, também sou muito mais singelo de esquecer). Cinza é sério como um juiz que não encontra culpáveis e ignora qualquer palavra ou careta não ligadas ao choio, e duvido que esqueça nada. Nunca.</p>
<p>Foi uma mudança importante. A Cinza só lhe importam os prazos e os objectivos. E uma pausinha para tomarmos um café? Uma piada sobre os de Psicologia Aplicada? Uma conversa sobre nada? E se ligamos o rádio durante uma hora tão só? Não, não, não, não. Expliquei-lhe vezes sem fim que os objectivos não eram para serem levados a sério, nós só os alcançáramos três ou quatro vezes (por acaso) e automaticamente foram incrementados. Mas ele está angustiado pola ideia de estar a fazer alguma cousa mal, assim que trabalha horas extraordinárias, não trapacea com os números (até onde eu sei, insólito neste negócio), e nunca improvisa.</p>
<p>Tolea-me. Para a empresa é um trabalhador modelo, para mim só é uma tortura. Mas não importa quantas vezes o preso bater a cabeça contra a parede que o funcionário só virá às horas assinaladas. Indirectamente sou obrigado a seguir o seu ritmo.  Anos de aprendizagem lenta e constante de como esquivar o trabalho duro para nada. Conseguimos os objectivos: não fizemos celebração, e automaticamente foram incrementados em três virgula cinco por cento. Não tinha muitas opções, e depois de trocar e-mails com as minhas ex-companheiras para me compadecer tontamente, aceitei o destino. Naveguei rio abaixo muito tempo, chegou o inverno e tenho de caminhar penosamente por cima da auga congelada com um cara-de-pau, isso farei.</p>
<p>Com estes antecedentes, surpreende-me quando se oferece a levar-me a casa. Nem imaginas o rápido que vai. Não consigo ler os cartazes (demasiada velocidade) e este não é o caminho. Deveria dizer qualquer cousa. Não digo nada e só reviso o cinto de segurança. Ainda pior é quando pergunta se quero divertir-me. Não quero mas não escuta, Cinza já não está comigo, está a fazer a sua própria viagem, está a aterrar num satélite desconhecido. Acelera até que deixamos atrás os últimos faróis, e apaga as luzes. Sorri e apaga as luzes. É um gesto singelo que transforma toda a nossa existência. Já não somos dous camaradas de volta à casa na noite sem lua. Agora somos um projéctil invisível a bater contra a casca do ar. </p>
<p>É como se estivesse a vê-lo desde fora. Como se estivesse a não ver desde fora. Plano relâmpago, a minha sombra através do pára-brisas; plano geral, os dous focos apagam-se, a figura metalizada desaparece da cena, a estrada e a terra chã desvanecem, a obscuridade acompanha a imagem durante uns segundos. Os títulos de crédito rolam branco sobre preto. Um muro, branco e de cimento vegetal, aguarda por nós algures.</p>
<p>A tinta espirra violentamente sobre o papel.</p>
</div>]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[Burroughs]]></title>
<link>http://ricardotaveiro.wordpress.com/2007/02/15/burroughs/</link>
<pubDate>Thu, 15 Feb 2007 21:34:50 +0000</pubDate>
<dc:creator>Ricardo T.</dc:creator>
<guid>http://ricardotaveiro.wordpress.com/2007/02/15/burroughs/</guid>
<description><![CDATA[Antes de começares a ler isto. Quero que penses em todas as cousas. Todas as que ninguém deve conhec]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><p>Antes de começares a ler isto. </p>
<p>Quero que penses em todas as cousas. Todas as que ninguém deve conhecer de ti. Sobre ti. Não penses que vai ficar oculto para sempre. Alguém já sabe, neste momento. Será revelado cedo ou tarde, se não fizeres nada. Arruma as provas e destruas. Já mesmo. Não as deixes em qualquer parte, não penses que nunca serão achadas, que ninguém tem interesse na tua vida privada. Todos querem saber. E uma vez comece, não poderás fazer nada. </p>
<p>Ficas advertido.</p>
<p>Antes de ter internete, António tinha outro jeito de apanhar o conhecimento musical livremente distribuído. O carro entrava na oficina, abriam-lhe uma ficha, o cliente ia tomar um café ou passear, o mecânico começava a reparação e antes de que tivesse tempo de tirar e pôr  filtro de óleo nenhum, já o Tó inspeccionara gavetas,  porta-luvas, e reprodutor para confiscar e copiar qualquer produção audiovisual interessante. Só tinha de ser rápido e, ainda, atender o seu trabalho administrativo.</p>
<p>À tardinha, com as portas fechadas e o chefe rumo a casa, reuniam-se os companheiros mais novos da turma (Luís, pintor, Xanzinho e Marcos, mecânicos, e mais ele, palhaço) e examinavam e experimentavam a pesca do dia. Às vezes trocavam os altifalantes dos computadores polo sistema de som dalgum Tiger ou dum G27, e tudo soava melhor dentro duma destas bestas esticados polos sofás. Até tinham reprodutor de DVD e não havia semana que não apanhassem algum filme do trinque, mas não gostavam muito dos filmes por causas diferentes (Marcos achava todo cinema contemporâneo uma perda de tempo porque os video-games eram o cinema do futuro, para Luís todo filme que não fosse albano-kosovar com legendas em turco não fazia sentido, o último que vira António era My Own Private Idaho havia séculos, etc&#8230;). </p>
<p>Ora, armaram-se em expertos musicais. Certo é que a qualidade era variável e que não podiam escolher ou seleccionar à vontade, mas dada uma mostra suficientemente grande o único que precisas apenas é de Paciência. As suas discotecas estavam a crescer com o mínimo esforço possível, e sempre tinham a opção de estender os círculos de redistribuição/compartilhamento. E para António não era a música, senão o tempo de estarem todos juntos a descontraírem. Como esse concerto com música da que nem gostas, mas adoras ao mesmo tempo apenas por estares aí.</p>
<p>Concedia-lhe vida extra mais outra noite, fazendo brincadeiras, discutindo sobre a última tolada do chefe e como o negócio os encarcerava mentalmente que já nem conseguiam ir a seguir da jornada. Talvez deveriam começar a dormir na nave, poupariam tempo porque de qualquer jeito dai quase só saiam pra ir dormir, mas, ei, assim é como funcionam as cousas neste país, e pior é não ter trabalho.</p>
<p>Também havia cousas mais bizarras: filmes pornô de companhias americanas e suecas, e algum filme home-made de pornô (de muito mais valor polo seu exotismo), cd’s com fotos da viagem às Canárias ou à Eslovénia, um rascunho digitalizado de uma banda desenhada (“Flopr e e os Esqueletos”, busquem nas suas lojas), uma base de dados (com dúzias de nomes, direcções e datas) duma empresa chamada «Tele Malhadas», exames de matemáticas e astronomia, cursos de russo para polacos, suspeitosos planos sobre o Banco Friwtger de Berna, Suiça, catálogos de parafernália nazi, havia um cd que tinha centos de listas de prós e contras desde deixar a mulher até trocar de marca de caramelos, todos os episódios de Egas e Becas, todas as versões e edições da Bíblia,&#8230; enfim, a gente é rara, ou eram raros os poucos bits conhecidos da sua vida, nesta altura qualquer idiota pode descarregar quer a receita dum caldo de cenouras, quer a da montagem duma bomba. É a era do conhecimento, o teu vizinho é uma célula e só está a esperar para estourar a sua sabedoria em mil pedaços pequenos.</p>
<p>Esta é a razão pola que limparás o teu carro antes da próxima reparação. Pola que mentirás ao teu médico. Pola que ocultarás a verdade ao teu advogado. Porque a intimidade não existe além da tua imaginação.</p>
<p>E agora, o final.</p>
<p>Essa tarde António escolheu o carro errado. O meu. </p>
<p>Levou-me tempo entender que acontecera alguma cousa. Demasiado nervoso. Só estava a cobrar mais uma factura. </p>
<p>Tenho olho para estas cousas e no entanto levava 70 kms de auto-estrada quando&#8230; Ele sabia-o. O disco, seguía no guarda-luvas mas com a cara de gravação ao invés de como a deixo sempre. Busquei uma saída, dei a volta.</p>
<p>Quando cheguei estavam a discutir com o aperto no coração. Diante do ecrã. Essas fotos eram privadas. Expliquei-lhes a situação, esse contido era proprietário e a licença custava mais dinheiro do que poderiam sonhar, não podia fazer a vista grossa, era uma questão de professionalidade. Assim que tirei mais umas fotos para a colecção. Quatro, para sermos precisos. Ficaram bastante bem, seria um collage bem interessante, um cenário inédito. Levou-me uma eternidade limpar. Fora o meu erro. Há que pensar em todas as cousas. Sempre.</p>
</div>]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[Sonho Duplo]]></title>
<link>http://ricardotaveiro.wordpress.com/2007/02/12/sonho-duplo/</link>
<pubDate>Mon, 12 Feb 2007 11:20:54 +0000</pubDate>
<dc:creator>Ricardo T.</dc:creator>
<guid>http://ricardotaveiro.wordpress.com/2007/02/12/sonho-duplo/</guid>
<description><![CDATA[Deus acordou com um berro silencioso. Tivera um pesadelo apavorante e tinha o corpo envolto em suor,]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><p>Deus acordou com um berro silencioso. Tivera um pesadelo apavorante e tinha o corpo envolto em suor, a barba branca enovelada, e muitas pulsações para ter estado em repouso total. Deu-se graças por não ter genitais porque neste momento nem os encontraria. Na sua omnisciência sabia que o melhor jeito de evitar os maus sonhos recorrentes é lembrá-los imediatamente. Tentou não mover um músculo para trazer os detalhes à memória, conjurou uma caneta do vazio e registou: </p>
<p>«Muitas traças de realidade, tamanhos reais, cores factíveis. Estou a dormir, estou deitado, intranquilo, mexo-me a um lado e outro, olho-me como se estivesse fora e adentro ao mesmo tempo. Acordo, suspiro, e caminho polo corredor até a casa de banho. Olho-me no espelho; estou careca e barbeado. Tb tenho máculas pola pele e sinto uma enorme comichão, começo a coçar e doe-me. Tento refrescar-me com auga e a pele derretesse como se eu fosse uma bruxa dos contos. Pânico. Rompo o espelho, os nós dos dedos ensanguentados. Tiro um papel do bolso onde está escrito «isto não é um sonho». Mente. Acordo.» </p>
<p>Foi até a casa de banho. A barba estava no seu sitio e seguia careca mas também estava ontem. Isso não devia tê-lo assustado. A pele estava bem.  Reparou em algo, tinha uma pequena espinha no nariz. E estava&#8230; como a crescer, oh, estava a acontecer outra vez? Não, não era nada. Odiava estes sonhos dos que era tão difícil sair, dos que pensas que acordaste e segues a sonhar, e acordas outra vez e outra e ainda estás na armadilha. Sonhos duplos, triplos, quadruples. Experimentara com uma técnica budista de sonhos lúcidos, mas fizera-lhe mais mal que bem. Não confiava no budismo, para ele era uma outra pseudoreligião de tolinhos, só que com mais estilo do que o comum. Deus era agnóstico.</p>
<p>Bateram na porta. Foi abrir e umas das chamadas Testemunhas perguntou-lhe se acreditava na sua própria existência. Todavia devia estar a sonhar.</p>
<p>«Porra. Eu não acredito é em vós! Fora da minha mente!» Tirou o papel: «isto não é um sonho».</p>
<p>Deus acordou com um berro silencioso. Tivera um pesadelo&#8230;</p>
</div>]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[A minha vida como robô]]></title>
<link>http://ricardotaveiro.wordpress.com/2007/02/11/a-minha-vida-como-robo/</link>
<pubDate>Sun, 11 Feb 2007 16:48:30 +0000</pubDate>
<dc:creator>Ricardo T.</dc:creator>
<guid>http://ricardotaveiro.wordpress.com/2007/02/11/a-minha-vida-como-robo/</guid>
<description><![CDATA[Abro o vidro e cheiro o ar frio e fino dos eucaliptos. Fecho o vidro. Estamos a entrevistar o grande]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><p>Abro o vidro e cheiro o ar frio e fino dos eucaliptos. Fecho o vidro. Estamos a entrevistar o grande poeta, Mónica e eu, Mó e mais eu, Mó, Mó, a minha mónica e eeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeu</p>
<p>Bem, eu só tiro as fotografias.</p>
<p>e a Mónica é a que faz as perguntas. </p>
<p>A sua é a parte que serve para encher os espaços nos que não podem ir nem em imagens nem em manchetes, click, não tão sério, porque todos sabemos que a maioria não vai ir além disso, click, descontrai, click. A gente gosta tanto de ser levada a sério&#8230; um par de perguntas e respostas sem ser interrompidas e serão felizes para sempre, a maioria das vezes nem sequer escutam as perguntas, simplesmente parolam do seu durante uma ou duas horas num monólogo auto-construtivo nada improvisado.</p>
<p>Pobre Mónica.</p>
<p>Comigo é diferente. Não sabem posar e podes brincar com eles durante um bocado, click, e se experimentamos algo diferente, click, sobe a esse valado e faz como se fosses um equilibrista, click, a maioria nem se queixa, click, porque uma má imagem vale muito mais que mil palavras boas. Ou isso pensam eles, click, óptimo. Durante uns minutos sou o verdadeiro master of puppets e depois desapareço, click, já está pronto, obrigado. Pode começar a entrevista de verdade, o senhor pode falar da sua obra imprescindível para o futuro da raça humana.</p>
<p>Antes estava pirado pola Mónica. E como sempre acontece, eu negava qualquer cousa além da amizade enquanto os da redacção já sabiam tudo. Amizade, e uma ova. E infelizmente até a Mónica tinha ouvidos, acho. Que todo o pessoal fosse ciente do meu fraquinho provocou algumas mudanças na minha rotina, já não vou tanto pola secretária da minha Mó, e não por falta de vontade&#8230; de falar um bocadinho do tempo e brincar dos chefes e do mundo, e desenhar raparigas de cabelos compridos e olhar triste nos seus postites e até escrever porcarias nas suas mãos quando mais atarefada estava para que as apagasse com saliva como com dissimulação, e deixei de lhe escrever mails sem símbolos tipográficos e nos que não contava nada. Deixei porque não queria parecer tão desesperado como de facto estava. Ou estou.</p>
<p>Já agora, apenas sou mais um bloco de gelo. Os blocos de gelo têm algumas vantagens, não molestam, não falam demais e podem fazer o seu trabalho refrigerante sem darem nenhum problema. Esquece o técnico, esquece o manual de instruções de merda. Ora, também não são o mais divertido do mundo. E derretem aginha.</p>
<p>Não conheço muito (nada) do poeta, e Mó emprestou-me o “Como matar pombas com a solidão”. É o que estou a ler agora, enquanto espero na carrinha. Estou estacionado por baixo da ponte dos comboios, ainda não passou nenhum, esta zona fica um pouco afastada de quase tudo. A verdade é que esta leitura não é assim tão ruim, há algumas linhas com força, eu nunca entendim o de deixar tanto espaço em branco porque há que matar muitas árvores para tão poucas palavras, claro que também são só 30 e poucas páginas&#8230; para quê mais&#8230; devo ter escritas muitas mais linhas doídas a Mó que as que há nestas folhas, claro&#8230; provavelmente. Só que de todas as palavras, só umas poucas dim qualquer cousa.</p>
<p>Penso nisso, e noutros temas nos que enfiar uma conversa na viagem de volta. Já se conhecem os dias e não escurece tão rápido, ainda voltamos com sol. E as minhas placas solares talvez consigam carregar totalmente as baterias, pouparei um bocado o consumo da rede. </p>
</div>]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[Arquivo]]></title>
<link>http://ricardotaveiro.wordpress.com/arquivo/</link>
<pubDate>Thu, 08 Feb 2007 20:22:27 +0000</pubDate>
<dc:creator>Ricardo T.</dc:creator>
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<description><![CDATA[Datas: Fevereiro 2007 22:&nbsp;Bandeiras de farrapos 22:&nbsp;Bloc Party, a banda do momento 22:]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><h3>Datas:</h3>
</hr>
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<title><![CDATA[Arson]]></title>
<link>http://ricardotaveiro.wordpress.com/2007/02/07/arson/</link>
<pubDate>Wed, 07 Feb 2007 18:53:20 +0000</pubDate>
<dc:creator>Ricardo T.</dc:creator>
<guid>http://ricardotaveiro.wordpress.com/2007/02/07/arson/</guid>
<description><![CDATA[Chama-se Manuel Oliveira, mas todos o conhecemos por Manolinho que talvez seja um diminutivo estranh]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><p>Chama-se Manuel Oliveira, mas todos o conhecemos por Manolinho que talvez seja um diminutivo estranho para um gajo que mede quase dous metros. Claro que não nasceu com esta altura e os nomes permanecem. Está sentado a dous passos de mim, e tem ordens de cobrar ou fazer-me dano. Muito dano.</p>
<p>Eu conheço-o desde há séculos, desde sempre. Morava na minha rua e de facto podias ver a sua casa desde a minha e ao invés. Apenas nos levamos um ano. Não é que fosse uma grande companha –não era precisamente o mais sabido nem o mais divertido da turma &#8211; , mas quase era melhor tê-lo como amigo que como qualquer outra cousa assim que tentávamos que não se nos afastasse muito. Manolinho sempre dizia que era difícil bater na gente, não porque isso lhe desse qualquer problema existencial senão porque têm demasiados ossos e partes duras e precisa dum jeito, não tão fácil como se pensa e tal. Ai estás a ver porque era melhor que estivesse perto de (e não sobre) ti.</p>
<p>Lembro que quando ainda éramos adolescentes tivemos uma estúpida briga porque os dous tínhamos um fraquinho pola mesma moça. Eu nunca fum um grande rival nestes assuntos de punhos, mas nessa altura pensava que não havia tanta diferença e que poderia compensar o tamanho com rapidez e agilidade. Um erro notável, só dá para bem nos filmes chineses. Em poucos segundos estava no chão com o nariz roto, com a respiração descompassada e recebendo pontapés dalgum estranho animal do tamanho dum edifício. Foi uma malhéira legendária, no mínimo eu não a esquecim nunca. Nem sei como acabou, suponho que algum dos rapazes, talvez Jacobo ou Chema, o tiraram de riba minha, já está bem, que o matas. Então eram outros tempos, e até o último parvo (eu, por exemplo) tinha de suportar toda essa merda durante um tempinho. </p>
<p>Nem fum ao hospital nem caralhadas, deitei-me no quarto enquanto minha nai soluçava e me dizia que não podia continuar assim e que aonde ia dar e tal. Meu pai não dizia nada, só estava abaixo sentado no sofá e lendo o jornal, o que até era um consolo. Acho que o velho também levara o seu na sua época e sabia que simplesmente estas cousas não se solucionam com lamúrias. Os poucos conselhos do velho sempre me foram de grande ajuda, a verdade.</p>
<p align="center">*</p>
<p>Manuel tem a vontade ganha de viver sem muitas complicações (ele é as complicações), porque afinal o seu é tempo emprestado por usar uma expressão da que gosta muito. Tempo emprestado, meu, lembras aquela noite? Poucos dias depois do nosso incidente, a sua casa começou a arder no meio da noite por todos os cantos. Os seus país e irmãos conseguiram sair logo da casa, mas esqueceram o irmão mais velho que era o único que dormia no andar superior. O fume era tão espesso que Manolinho estava desorientado e sem saber aonde ir. </p>
<p>Conseguiu uma ajudinha inesperada. Um tipo vestido de negro dos pés à cabeça entrou no seu quarto com uma singela máscara de respiração na boca e outra numa mão. Manuel pôs a mascarilha de sobra e seguiu o desconhecido por o único caminho livre de lumes, polo faiado até a clarabóia e daí um salto até o terraço dos vizinhos. Nunca ficou claro quem era o homem de negro, Manuelinho nunca chegou a ver-lhe a face e primeiro pensara que fora um bombeiro. Em realidade, os bombeiros chegaram dez minutos depois do seu resgate, e o homem de negro esvaeceu-se no ar sem deixar nada detrás.</p>
<p>Depois disso, a família de Manuel mudou de bairro. Ele seguía a vir por cá, mas já não era o mesmo e a distância inevitavelmente provocou algumas mudanças. Por exemplo, eu ganhei a moça pola que me partira a cara (não merecera a pena; mas isso soube-o depois, quando casamos). E a minha relação com Manolinho melhorou muito, não era o mesmo compartilhar todas as putas tardes que só as tardes e as noites do sábado. Logo éramos melhores amigos, como o pão e o leite.</p>
<p align="center">*</p>
<p>Os anos passaram e o nosso colega conseguiu dar com o «jeito», nem começou a trabalhar para Cobas (o senhor Cobas para ti) há&#8230; sim, os seus bons quatro meses e já diz conhecer quase todos os truques do ofício. Todavia pode ser considerado um amador do cobro organizado de dívidas, mas podes apostar a que tem talento no negócio.</p>
<p>E de apostas vai o assunto que nos tem hoje reunidos. Eu sabia que a sorte vai e vem como lhe peta e da importância de se retirar a tempo,&#8230; mas vira-o tão claro, foi como se o sonhasse, o nosso caro Rápido perdera os quatro últimos jogos de visitante mas não jogara mal, eram campos dificultosos,&#8230; e agora tinha as apostas 5.3 a 1. Os do Sporting não pareciam grande cousa, só valiam o russo da defesa e o brasileiro na extrema direita. Os demais, merda. Fiei-me da minha intuição (5.3 a 1, 5.3 a 1) porque os nossos rapazes mereciam a minha confiança. Afinal, eu ganhara apostando <strong>contra</strong> eles. Era hora de mudar o rumo.</p>
<p>Naturalmente perderam. Johanssem começou fazendo uma bola pra nós bem cedo no jogo, aos 10 ou 15 minutos, mas os do Sporting fizeram duas antes de terminar a primeira parte e nada aconteceu na segunda. Tudo tinha um ar como suspeitoso da tranquilidade com que se aceitou o resultado durante e a derrota depois, mas seria inútil fazer nenhum protesto, contra quem? Eu estava desapontado, como é bem natural. O normal quando apostas 5 a 1 é que perdas, mas até esse momento eu tivera fé no meu radar.</p>
<p>Manolinho não tardou em vir pola casa (eu levo uns dias sem pôr um pé fora). Ofereço-lhe uma cerveja porque afinal somos amigachos (teoricamente), e senta no sofá como sem dar polo assunto, metendo conversa com um colega e tal. Misturar amigos e negócios, já se sabe. Penso que talvez está à espera de que eu (e não ele) fale do meu futuro cadáver rio abaixo. É certo que ganhei algumas boas apostas lá atrás, mas também que as facturas não deixaram de chegar todo este tempo. </p>
<p>O meu amigo/cobrador não tem uma licenciatura em Económicas mas até ele deve saber que levo meses a gastar por cima das minhas possibilidades, um televisor do trinque (e não furtado, por uma vez), o carro a funcionar depois duma eternidade, a minha ex deixou de contar no bar os seus problemas para cobrar a pensão do filhote&#8230; as cousas estiveram a correr bem durante uma época para a cigarra, mas agora chegou o inverno e as formigas vão-lhe bater caso não pagar até o último cêntimo.</p>
<p>Falamos de negócios, agora?<br />
Tenho preparado o discurso. Começo a falar, esta aposta vai ser a tudo ou nada.</p>
<p align="center">*</p>
<p>Cobas examina a foto do meu corpo. Estou pálido e deitado contra os ladrilhos, um rio de sangue a nascer no monte da minha cabeça. Manolinho pede desculpa, foi um acidente e agora a dívida não se pode cobrar, não há problemas com o cadáver porque sabe tratar desses assuntos. Todavia é um amador e a merda acontece. Os demais pagarão mais rápido do que nunca.</p>
<p>É o bom de ter amigos. Às vezes podes contar com eles. Manolinho devia-me uma. Eu salvara-o. À partida pensou que mentia, que era talvez a pior escusa que podia ter inventado para salvar o cu. Tive de lhe ensinar o fato negro, as mascaras de quando fizera o curso de Formação de Pintura 101 (que abandonei imediatamente) e que nos concederam um pouco de ar essa noite&#8230; eu salvara-o, sim, sim, eu próprio, essa noite tinha pensado sair fazer um trabalhinho (a recuperar o tempo perdido) e só estava à espera de mais escuridade. Vira o lume desde a minha janela , baixei, peguei nas máscaras, cruzei a rua, subim as escadas do edifício vizinho, saltei desde o terraço até a clarabóia, fum polo faiado, atopei-no e ensinei-lhe o caminho de volta. O seu tempo emprestado era meu, devia-mo.</p>
<p>Não dissera nada porque nessa altura estávamos bem zangados e pensei que era melhor não me dar nenhum mérito, além de que me seria difícil justificar a minha indumentária e algumas das minhas pertenças ante bombeiros e polícias. Assim que deixei que fosse como um género de vingança maluca: malhas num colega e salva-che a vida, parecia um filme pra tv dos sábados de Antena 3.</p>
<p>O demais foi singelo, uma pouca de maquilhagem, sangue falso, alguma pancada de verdade para maior sensação de verdade, uma foto do cadáver, e um bilhete para algures, para nenhuma parte. Ia contra a sua ética profissional, mas eu era uma excepção. Devia-mo. E pra mim, era o único jeito de não deixar suspeitas, de não ter ninguém detrás e de conservar as ganâncias.</p>
<p>Já digo, quase melhor tê-lo como amigo que como qualquer outra cousa. Quase. Foi isso o que pensei há 12 anos quando provoquei o incêndio da sua casa para poder resgatar o pobre idiota (e de passagem afasta-lo um pouco da minha vida). Tinha razão meu pai. Ainda melhor que fazer amigos é fazer reféns. Nunca sabes quando os necessitarás.</p>
</div>]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[Os Ciúmes da Sexta]]></title>
<link>http://ricardotaveiro.wordpress.com/2007/02/04/os-ciumes-da-sexta/</link>
<pubDate>Sun, 04 Feb 2007 20:02:42 +0000</pubDate>
<dc:creator>Ricardo T.</dc:creator>
<guid>http://ricardotaveiro.wordpress.com/2007/02/04/os-ciumes-da-sexta/</guid>
<description><![CDATA[Foi Ela quem começou. As suas mentiras volviam-me tolo. Eu sabia o que fazia porque tinha o melhor d]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><p>Foi Ela quem começou. As suas mentiras volviam-me tolo. Eu sabia o que fazia porque tinha o melhor detetive do país, o Senhor Paciência. Todas as sextas às seis da tarde e seis minutos, Paciência vinha e contava-me com a sua voz monótona e profissional. Eu ficava lá na cadeira, olhando para um palhaço triste que temos num quadro, sem dizer nada. O palhaço e mais eu, os dous escutávamos sem mais aquela, o palhaço sustinha uma andorinha e eu uma bolinha anti-stress; de qualquer jeito acho que éramos bem parecidos, fulminando-nos o um ao outro. Paciência terminava, levava o seu ordenado semanal e mal saia pola porta pois volvia ao trabalho. </p>
<p>Durante as nossas sessões Paciência sempre deixava um seu ajudante, o Senhor Situação, mas o chefe não acreditava na sua competência profissional e o certo é ela já se lhe escapara um par de vezes. O informe da próxima semana sempre tinha qualquer cousa estranha nessas duas horas de vigilância de Situação, como se fossem situações que, conhecendo Ela como a conhecíamos, poderiam ter acontecido&#8230; mas que por alguma razão não tinham as traças de realidade como as de Paciência. As de Situação eram perfeitas. Demasiado perfeitas, qualquer história precisa dalgum erro de continuidade para ser verídica, é assim como distinguimos a ficção.</p>
<p>Fum ver Situação, sem lhe dizer nada a Paciência. Estava tão nervoso. Não foi difícil que se derrubasse. Não, nunca a seguira, não tinha talento para esses trabalhos, ele era feliz lá no seu escritório com a contabilidade, as facturas e os arquivos, atendendo telefone, combinando os encontros com os clientes. Sempre tinha trabalho. Sim, inventara tudo, não foi difícil, simplesmente pegava nos rascunhos de Paciência e modificava-os, já o fizera com outros clientes. Resta com mudar uns detalhes para ter uma história totalmente diferente. Sim, demasiado realistas, o senhor tem razão, não pensara nisso. Sinto-o muitíssimo. Não diga nada ao meu chefe, serei mais competente, farei o que o senhor quiser.</p>
<p>Foi então que tivem a ideia. Escreveria pra mim. Ou melhor dito, sobre mim pra ela. Inventaria historinhas parecidas às suas. Ou piores. Eu de protagonista, por fim entraria na sua vida como o actor principal. Fora do cenário que lá vou eu. Não foi difícil que Ela mordesse o engado. Situação ofereceu-se através de correios anónimos, tenho uma informação que lhe pode interessar. Ela acreditou em tudo desde o começo.</p>
<p>Sim, são esses cadernos. Asseguro-lhe que não há uma palavra verdadeira em todos eles. Situação e eu escrevemo-los como se fosse um roteiro, tenho álibis precisos para todas as páginas.</p>
<p>Não, não pensamos em que podia acontecer isto. É claro que não. Queríamos fazer-lhe dano, que sentisse ciúmes, só isso. Nunca pensamos que fora fazer isso. Olhe, eu nem sequer conhecia a senhorita Outra. Foi azar, qual é a possibilidade de que um personagem coincidisse com a senhorita Outra? Uma entre um milhão. Mesmo trabalho, mesmos cabelos, mesma altura, mesmo apartamento, mesmo nome, até tinha um cão idêntico só que de diferente nome, este último dado Ela não deveu comprovar. Outra não devia existir fora das páginas, estava no lugar errado. Sinto muito que isto acontecera.</p>
<p>Não, eu não sabia que Paciência também inventava tudo, como podia? Era muito melhor escritor que Situação, era simplesmente perfeito porque era mais imperfeito. De ter sabido&#8230; não, não sei onde pode estar Paciência. Perdeu-se algures no meu passado.</p>
</div>]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[Ganhar Tempo]]></title>
<link>http://ricardotaveiro.wordpress.com/2007/01/31/ganhar-tempo/</link>
<pubDate>Wed, 31 Jan 2007 18:44:52 +0000</pubDate>
<dc:creator>Ricardo T.</dc:creator>
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<description><![CDATA[Talvez o primeiro dia pensou: «Uh, sim, agora é que farei alguma cousa importante, logo que o Nosso ]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><p>Talvez o primeiro dia pensou: «Uh, sim, agora é que farei alguma cousa importante, logo que o Nosso Senhor me deu esta nova oportunidade e tal». Só porque era o primeiro, porque depois chegam o segundo e o terceiro e os outros. Não podia, que fazer, como superar uma ressurreição? Era o truque dos truques, era jogar noutra categoria, noutra liga, noutro planeta. Mais uns poucos anos no reino das lágrimas não seria grande cousa. No melhor dos casos, uma anedota dadas as circunstâncias. Uma nota ao pé da página. No pior, a tortura de enfrentar os olhos dos que tanto choraram por ele, qualquer expectativa que tivessem seria atraiçoada e cada erro seria uma decepção. «Volveu e ainda não deixou de fumar, será testám!» «Buuu, contou-me uma maçada sobre pesca, a sua paixão de sempre; e dizia que não lhe apetecia falar “disso”, que desagradecido» Lembras quando Buffy, a caçadora de vampiros, ressuscita após o conjuro da Willow? É isso mesmo, desespero, angustia, solidão, alienamento, não pode enfrentar o mundo, não outra vez, como seguir na mesma? </p>
<p>Quando Lázaro ressuscita não pode continuar como se nada acontecera. Não vai dar palestras de 10.000 € a hora sobre “Como Estar Morto”, não vai assistir a reuniões de Ressuscitados Anónimos, não vai ir da mão de Tony Soprano junto da analista, não há unidades de atenção para a sua patologia. Nada. E porém, a gente quer conhece-lo, quer perguntar-lhe como se sente, que pensa fazer, como foi&#8230; os fariseus querem mata-lo (again). E ele só quer esquecer e desejar que isto nunca tivesse acontecido. As crises de angustia suceder-se-iam constantemente. Acordar envolto em suor frio, pensando que os lençóis são parte da mortalha.</p>
<p>Eu tenho uma teoria, narrativamente falando, que explica esta situação de beco fechado e a pretensa inutilidade. Jesus e Lázaro, porventura, são a mesma pessoa. Como Superman e Clark Kent. Primeiro matas a pessoa, e depois o herói. Isso explicaria a súbita aparição e desaparição de Lázaro, irmão figurado de Marta e Maria Madalena. Morre, ressuscita, e esvaece-se no ar? Julgo que Lázaro só é uma licença poética, como um desdobramento da personalidade ou um treino em petit comité. Só pra a família e amigos, a função chegará no seu momento, vaiam comprando bilhetes enquanto o artista prepara o espectáculo mais grande do mundo, vão ficar de boca aberta.</p>
<p>Ainda, este ardil é a gota que faz transbordar o próprio Jesus. Tiveram muita paciência enquanto exorcizava demos e curava leprosos e cegos mas pôr os mortos a caminhar foi demais. É ressuscitar Lázaro e nesse momento (umas linhas por baixo, literalmente) Caifás decide que o assunto foi além do aceitável, os fariseus decidem matar Lázaro e Jesus. É a hora da conspiração. O alucinado evangelho de São João precipita-se.</p>
</div>]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[Negócios]]></title>
<link>http://ricardotaveiro.wordpress.com/2007/01/29/negocios/</link>
<pubDate>Mon, 29 Jan 2007 17:13:20 +0000</pubDate>
<dc:creator>Ricardo T.</dc:creator>
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<description><![CDATA[Eu só quero ajudar a equipa. Não serve de nada que eu fizer golos se não ganharmos os joguinhos. O m]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><table width="481" cellspacing="20" border="0">
<tr>
<td>Eu só quero ajudar a equipa. Não serve de nada que eu fizer          golos se não ganharmos os joguinhos. O meu esforço pessoal só vai ser pra somar.</td>
<td>Espero que esses caralhos joguem a bola pra mim. Com o contrato que assinei devo fazer estatística à brava. Senão estes cabrões de jornalistas vão-me matar. São simpáticos até que cheiram o sangue.</td>
</tr>
<tr>
<td>Estou à disposição do mister. Sei que cá há um grande grupo e não espero ganhar a titularidade polo meu nome, senão polo meu trabalho. A modéstia e o sacrifício são as minhas ferramentas.</td>
<td>Claro que vou ser titular sempre e desde agora mesmo. Ainda bem. Como iam jogar por diante minha essas patas de pau? Sejamos sérios, não tenho competência.</td>
</tr>
<tr>
<td>É uma grande satisfação, certo. O meu desejo sempre foi jogar num clube grande como este e agora só quero dignificar a equipa e a cidade. Seria um honor terminar a minha carreira cá, depois de muitos anos e títulos.</td>
<td>Foi o único contrato que apanhei, a verdade. Tinha a esperança  de pôr rumo à Inglaterra, polo das libras esterlinas e isso mas não deu e não deu. Sei que esta equipa não é lá muita cousa, oxalá não me danifique.</td>
</tr>
<tr>
<td>Nada disso era certo como já foi esclarecido. Não vou responder mais perguntas sobre especulações absurdas que nada têm a ver com o futebol. Não deixo que os boatos me afectem nem pessoal nem profissionalmente</td>
<td>Que filhos da puta. Não posso crer que todavia perguntem por isso. Quantas vezes expliquei que eu não sabia que ela era menor. Cometes um erro e a paga-lo o resto da vida.</td>
</tr>
<tr>
<td>Tenho boas lembranças da minha passagem por esse clube e não guardo rancor a ninguém. Foram anos com momentos bons e maus, e prefiro ficar só co positivo</td>
<td>Que se danem! Já estava farto desses mamalões que não desculpavam nem um treino. E o da dieta foi como para dizer chega. As leitugas não ganham os jogos. A gente cega-se com os detalhes e esquece a perspectiva.</td>
</tr>
<tr>
<td>Com certeza. Temos de trabalhar duro e conscientes de que vai ser uma época longa com três competições. Joga-se como se treina, tás a ver?</td>
<td>Nenhum treino ganha os jogos, eu sou quem os ganha. Como posso fazer goles com treino? Como melhorarmos com treino? Treino, treinar? Estão tolos, eu não sou futebolista de treinos. Aliás, treina-se o que não vale pra outra cousa. Tu treinas para fazer estas perguntas de merda? Isso pensava.</td>
</tr>
<tr>
<td>Ainda sou novo e tenho muito futebol por dar nestes próximos anos. No futuro gostaria de trabalhar com os          miúdos para transmitir o meu amor por este desporto. Há que afastar os nossos cativos das drogas e das ruas e pode-se fazer graças ao exercício.</td>
<td>Com 24 anos era uma promessa e agora com 29 já me querem fazer mais um reformado. Pois antes ainda che          tenho que ganhar o que tenho assinado, até o último cêntimo. Depois compro uma ilha tropical e vou-me a fume de caroço longe          deste país. Afastar-me da relva, isso farei.</td>
</tr>
<tr>
<td>As claques deste clube são as melhores do país. Foi mesmo emocionante que cantassem o meu nome. Estou realmente contento de receber este espantoso apoio do público e só espero poder devolver-lhes logo o que hoje me deram na apresentação.</td>
<td>Todos são iguais, sabes? O único que mudam são as cores de fundo. O pessoal segue a ser uma massa indefinida de cretinos. Enquanto pagarem os bilhetes por mim tá bem, mas espero que molestem só durante os 90&#8242; porque estou farto          de os esquivar a toda hora. Eu tenho uma vida à margem disto.
</td>
</tr>
<tr>
<td>Numa palavra? Feliz.</td>
<td>Numa palavra? Negócios.          A palavra sempre é negócios.</td>
</tr>
</table>
</div>]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[Ligações]]></title>
<link>http://ricardotaveiro.wordpress.com/ligacoes/</link>
<pubDate>Thu, 25 Jan 2007 21:28:30 +0000</pubDate>
<dc:creator>Ricardo T.</dc:creator>
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<description><![CDATA[A Ilusão da Visão A Livraria das Obras Inéditas A Praia Ãngelo Apocalipse do porco Aspirina B Avatar]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><ul>
<li><a title="A Ilusão da Visão" href="http://ailusaodavisao.blogspot.com"> A Ilusão da Visão</a></li>
<li><a title="A Livraria das Obras Inéditas" href="http://livrariaobrasineditas.wordpress.com/"> A Livraria das Obras Inéditas</a></li>
<li><a title="A Praia" href="http://a-praia.blogspot.com"> A Praia </a></li>
<li><a title="Ãngelo" href="http://angelopineda.blogspot.com"> Ãngelo </a></li>
<li><a title="Apocalipse do porco" href="http://apocalipsedoporco.blogaliza.org"> Apocalipse do porco</a></li>
<li><a title="Aspirina B" href="http://aspirinab.weblog.com.pt"> Aspirina B </a></li>
<li><a title="avatares de um desejo" href="http://avatares-de-desejo.blogspot.com"> Avatares de um Desejo</a></li>
<li><a title="Beliscos Pequenos" href="http://beliscospequenos.blogspot.com/"> Beliscos Pequenos</a></li>
<li><a title="Caminhos Cruzados" href="http://caminhos.gzpt.org"> Caminhos Cruzados </a></li>
<li><a title="cinco dias" href="http://5dias.net"> Cinco Dias </a></li>
<li><a title="Coroas de Pinho" href="http://pinhoada.blogspot.com/index.html"> Coroas de Pinho </a></li>
<li><a title="Diario Docil" href="http://diariodocil.blogspot.com"> Diário Dócil </a></li>
<li><a title="Dias felizes" href="http://last-tapes.blogspot.com"> Dias felizes </a></li>
<li><a title="Estado Civil" href="http://estadocivil.blogspot.com"> Estado Civil </a></li>
<li><a title="homedareia" href="http://homedareia.blogspot.com"> Homedareia </a></li>
<li><a title="Moderno de merda" href="http://modernodemerda.blogspot.com"> Moderno de Merda </a></li>
<li><a title="O Absurdo" href="http://absurdo.wordpress.com/"> O Absurdo </a></li>
<li><a title="O demo me leve" href="http://odemo.blogaliza.org/"> O Demo me Leve </a></li>
<li><a title="O fole do acordeão " href="http://acordeom.blogspot.com"> O fole do acordeão</a></li>
<li><a title="O Porto dos Escravos" href="http://oportodosescravos.blogspot.com"> O Porto dos Escravos </a></li>
<li><a title="O Quilombo" href="http://oquilombo.blogspot.com/">O Quilombo</a>
<li><a title="O Reverso" href="http://jmouteiro.blogspot.com/">O Reverso</a></li>
<li><a title="O Tangaranho Vermelho" href="http://tangaranhovermelho.blogspot.com"> O Tangaranho Vermelho </a></li>
<li><a title="ovnis e isoglossas" href="http://www.agal-gz.org/blogues/index.php?blog=10"> Ovnis e Isoglossas </a></li>
<li><a title="Portal Galego da L�ngua" href="http://www.agal-gz.org "> Portal Galego da Língua </a></li>
<li><a title="post scriptum" href="http://postscriptum.wordpress.com"> Post Scriptum </a></li>
<li><a title="Silly Talks" href="http://morior.wordpress.com/"> Silly Talks </a></li>
<li><a title="Spectrum" href="http://spectrum.weblog.com.pt/"> Spectrum </a></li>
<li><a title="Vidas verticais" href="http://vidasverticais.blogspot.com"> Vidas verticais </a></li>
</ul>
</div>]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[A Vida Escarpada (III)]]></title>
<link>http://ricardotaveiro.wordpress.com/2007/01/25/a-vida-escarpada-iii/</link>
<pubDate>Thu, 25 Jan 2007 17:06:36 +0000</pubDate>
<dc:creator>Ricardo T.</dc:creator>
<guid>http://ricardotaveiro.wordpress.com/2007/01/25/a-vida-escarpada-iii/</guid>
<description><![CDATA[Acordei quando ainda não saíra o sol. Sentia-me confuso e desorientado, parecida à sensação de esper]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><p>Acordei quando ainda não saíra o sol. Sentia-me confuso e desorientado, parecida à sensação de espertar num sítio no que não esperávamos. Não lembrava muito da noite passada mas Sara dormia no outro lado da cama, totalmente vestida. Tentei pôr-me em pé lentamente enquanto inspeccionava os danos. Tudo parecia estar bem, doía-me a cabeça (pouco) mas isso já formava parte de todas as minhas manhãs. Sara dormia sem mover um músculo, sem fazer um ruído. Normalmente eu acordava muito mais tarde, normalmente acordava no sofá, normalmente não havia ninguém nesta casa, mas esta não era uma manhã qualquer.</p>
<p>Baixei silenciosamente até a cozinha. O dia anterior tinha passado boa tarde da tarde arrumando e limpando e já estava feito uma lixeira outra vez. Belo. Apanhei uma lata de cerveja no frigorífico e fum até o sofá do comedor pensando em vaguear algumas horas. Surpreende-me topar o estojo do violino, sim, trouxera o violino para tocar qualquer cousa? Lembrava o princípio da noite, mas  nem muito menos o resto nem, por exemplo, como acabáramos na cama. Certamente superara as minhas expectativas, embora dadas as minhas condições de saúde era melhor não fazer-se ilusões sobre como fora realmente.</p>
<p>Tentei abrir o estojo mas não abria. Tinha uma puxador mas não cedia. Clack. Clack. Reparei em que também tinha um género de feche de seguridade, como os de algumas malas. Três dígitos (de 0 a 9) numa roda à esquerda e três à direita. Hum, os violinos deviam ser bastante caros, mas não seria tão difícil furtar o estojo todo e pronto, desde quando se necessitava tanta seguridade? Vivemos em sociedades paranóicas.</p>
<p>Inevitavelmente sentia que devia abrir o feche dalgum jeito. As proibições estimulam. Só que eram muitas possibilidades, seis dígitos com dez posições possíveis dão demasiadas combinações. Provei algumas à toa, 000 e 000. 111 e 111. 012 e 012. 123 e 456. Pensava que havia alguma probabilidade de que os números da esquerda fossem os mesmos que os da direita, para que fossem mais singelos de lembrarem. Parei depois duns minutos, isso podia levar-me a manhã toda.</p>
<p>Deixei o estojo na mesa. Mal me deitei, dei em pensar uma última cousa sem nenhuma possibilidade. Lentamente rodei os números até pôr a minha data de nascimento: dia-mês-ano (as duas últimas cifras). A probabilidade era ínfima, mas experimentar não fazia mal. Premim o puxador e abriu-se.</p>
<p>Tardei uns quantos minutos em entende-lo, em convencer-me de que não estava a sonhar ou em pleno delírio. Inspirei profundamente e revisei as fotos agora mais lentamente. Eu saindo da casa, eu indo de autocarro, eu passeando pola praia. Detrás de cada foto uma nota de hora e lugar. Também havia outras séries de fotos, homens pegos em situações quotidianas sob um olho vigilante oculto. Eles tinham uma foto que ainda faltava na minha série: na última sempre apareciam dormindo ou isso parecia. Também havia alguns cadernos e alguns frascos sem etiquetas. Nenhum violino, claro.</p>
<p>Voltei ao quarto sem dar polo ruído. A minha princesa estava fria como o gelo, devia levar morta umas quantas horas. Agora lembrava mais cousas. Depois da ceia preparei uns copos, deixei-nos na mesa e voltei à cozinha um bocado. Deveu botar o veneno então, só que ao chegar eu troquei os copos outra vez porque preferia o meu copo de sempre. Beber sempre do mesmo recipiente ajuda à ressaca, ou isso pensava. Aceitei o que me ofereceu sem piar, mas sei fazer jogos de mãos e asso. Brindamos e logo adormeceu. Fiquei desapontado, levei-na em braços e acostei-na na cama sem mais aquela. Eu continuei bebendo um bocado sentado no tapete até que decidim ficar ai mesmo, e passar castamente a noite compartilhando lençóis e mais nada. Questão de sorte, porque ela fizera o seu papel perfeitamente.</p>
<p>Ouvim um motor. Um carro estava a estacionar no quintal e eu já sabia quem era. A minha ex-mulher vinha comprovar se o trabalho fora bem sucedido. Isso já eram dous problemas, tinha um cadáver na cama e outro em caminho. Decidi-no aginha, sim, mas não sei se tinha outra opção dadas as circunstâncias. Mais que vingança era sobrevivência, ela era capaz de tudo e se fora quem de chegar até o meu buraco uma vez, podia tenta-lo outra, com melhores métodos e obviando a subtileza. Esta noite faria uma pequena viagem nesse mesmo carro e enterraria dous pacotes na cala mais escondida da costa. Tinha a certeza de que ninguém sabia que elas estavam aqui e passariam muitos dias até que alguém desse polas desaparecidas (fosse quem fosse a violinista da morte). </p>
<p>Eu seria o principal suspeitoso, é claro, mas tinha tempo para preparar uma boa história para a polícia. Ainda não estávamos divorciados, nuns poucos semanas volveria à cidade e anularia o processo de separação de bens (eu não tinha nada, diga-se a verdade). Ter estado tão perto da morte foi como uma catarse instantânea, o destino joga com cartas marcadas e agora que por acaso tinha quatro ases era hora de renascer. </p>
<p>Ia ser uma noite longa.</p>
</div>]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[A Vida Escarpada (II)]]></title>
<link>http://ricardotaveiro.wordpress.com/2007/01/24/a-vida-escarpada-ii/</link>
<pubDate>Wed, 24 Jan 2007 19:33:19 +0000</pubDate>
<dc:creator>Ricardo T.</dc:creator>
<guid>http://ricardotaveiro.wordpress.com/2007/01/24/a-vida-escarpada-ii/</guid>
<description><![CDATA[Estou a adiantar-me. Voltemos atrás, a quando me conservava entre os meus amigos Jameson e os 100 Ga]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><p>Estou a adiantar-me. Voltemos atrás, a quando me conservava entre os meus amigos Jameson e os 100 Gaiteiros. Normalmente, abastecia-me na loja entre as senhoras que faziam a compra e botabam uma parolada enquanto me olhavam de fite. No entanto, o meu ego impedia-me arrasar com a secção de licores. Suponho que era quase um monge mas ainda não chegara a nenhum estado zen e continuava a ter os mesmos traumas de sempre. Trauma polo que podia fazer qualquer estupidez sempre que o ocultasse à vistas alheias. Simplesmente não queria que pensassem que o seu vizinho era um bêbedo (cousa que efectivamente era), assim que comprava o mínimo para sobreviver.</p>
<p>As grandes compras fazia-as em Reiro. Ia de autocarro e enchia o saco nalgum supermercado onde não sabiam onde vivia ou se estava a comprar bebidas para uma festa (e era, a minha festa diária). Não gostava da viagem, 45 minutos num autocarro que ia dando voltas lentamente polas aldeias dos montes das redondezas. Velocidade de tartaruga mas não tinha mais opção.</p>
<p>Nessa viagem estava especialmente mal, levava três dias complicados porque a minha ex conseguira localizar-me e enviara-me uma carta na que me acusava de cousas horríveis e falsas das que não me molestarei em falar, e que quê caralho andava a fazer na casa dos seus avós e que já podia ir pensando noutro sítio onde apodrecer. Tinha a cabeça a dar voltas e, como não consigo ler nos transportes, só olhava pra fora através do cristal. </p>
<p>Na terceira parada à nossa espera havia uma moça realmente bela se sabes o que quero dizer, de riscos afiados como as rochas mas com boa cor, meia-melena negríssima e olhos inevitavelmente míopes (sem carregar óculos). Mais ou menos da minha idade, porque não tinha um carro próprio? Talvez gostava de viajar em transporte público, podia ser uma ecologista radical assentada realmente no rural, embora todos os ecologistas que eu conhecia não colocavam um pé fora da cidade nem que os matassem. Ou talvez não queria ter um ou o que fosse, era melhor deixar de analisar tudo, deixar de inventar vidas à gente.</p>
<p>O caso é. As típicas fantasias de homem começaram a aparecer, e se tal e qual? Com as mulheres é diferente, claro, ou isso é o que pensamos. Mecanismos evolutivos diferentes. O autocarro estava quase vazio mas eu comecei a fazer força mental para que se sentasse no assento do meu lado. Para animar a viagem, talvez poderia dizer alguma cousa e engatá-la dalgum jeito. Leia e traduzia sobre situações como estas quase todos os dias, mas visto agora havia muita distância com a realidade.</p>
<p>O autocarro começou a rodar e talvez para não seguir a caminhar no corredor a moça sentou-se ao meu carom. Perfeito, a situação ideal. Se isto fosse um documentário da National Geographic agora entrariam os violinos e Richard Attemboroug dizendo: “o predador vigia a sua presa, ccomprova a direcção do vento, prepara-se para o ataque”. O certo é que nunca fum um grande predador e não sabia o que dizer nem por onde começar. Isto não era o liceu e este tipo de relações sociais precisam doutros cenários ou quase que se consideram um ataque. Discoteca de milhão de decibélios com corpos macerados em álcool: bem. Autocarro com condições acústicas perfeitas: mal. Não sei o porquê disto.</p>
<p>No entanto, foi ela a que falou primeiro. Estava na boa maré.</p>
<p>«Não viajas muito nesta linha, não é?»- Tampouco parecia tão difícil iniciar uma conversa.</p>
<p>«Não, a verdade é que não, alguma vez para ir visitar a cidade e não acabar feito um ermitão. Dar uma voltinha, tás a ver? A verdade é que trabalho desde a casa e tal, faço traduções técnicas e isso, e então&#8230;»‘- Não ia mal. Muito melhor que dizer. “naaa, só quando subo para comprar mais álcool”</p>
<p>«Simm&#8230; ha, eu vou para as aulas de violino- e ensinou-me o estojo do instrumento-, dou aulas, sabes?»</p>
<p>«Genial, sempre quisse apreender a tocar alguma cousa, poderias ensinar-me»- Sorriso falso.</p>
<p>«Talvez» Outro sorriso falso. «Mas não és daqui seguro, onde estás a viver?»</p>
<p>«Em Fogarinho, na casa laranja afastada da aldeia. Tou a passar um tempinho por cá» Tentei pôr uma careta agradável, «Olha, porque sentaches comigo? Nem que me pareça mal, ao contrário, mas a gente não é demasiado faladoira»</p>
<p>E assim continuamos, parece que apenas queria falar com alguém desconhecido, e nuns minutos já éramos como velhos amigos confessando-nos os últimos anos que passamos sem sabermos do outro. A cousa prometia. Talvez era hora de mudar a sorte, e tentei combinar com ela para ir tomar um café após as suas aulas mas era-lhe impossível.</p>
<p>«Porque não me convidas a ceiar? Há muito tempo que não baixo a Fogarinho»</p>
<p>Isso era mexer-se. Assim que conseguira muito mais do que esperava e comecei a adorar o autocarro de merda que subia em terceira. Este sítio era uma mina. Sim, talvez era hora de ter um contacto mais perto com a população local. Sobretudo com a feminina e com a sua representante. </p>
<p>«Oh, que tonta! Nem sequer che dissem o meu nome, chamo-me Sara e ti?»</p>
<p>«Miguel, um prazer»- Não é o meu verdadeiro nome mas já tinha desenvolvido o hábito de dar nomes falsos. Sentim-me mal por mentir tão cedo. As mentiras deviam chegar mais tarde. Enfim, seria Miguel por esta noite. Chegamos e baixamos e eu fum dar a minha “voltinha” e ela pra as suas aulas. Tinha que pensar em que fazer de ceia, alguma cousa singela.</p>
</div>]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[A Vida Escarpada]]></title>
<link>http://ricardotaveiro.wordpress.com/2007/01/23/a-vida-escarpada/</link>
<pubDate>Tue, 23 Jan 2007 22:06:20 +0000</pubDate>
<dc:creator>Ricardo T.</dc:creator>
<guid>http://ricardotaveiro.wordpress.com/2007/01/23/a-vida-escarpada/</guid>
<description><![CDATA[Morar em Fogarinho tinha algumas vantagens. Dalgum jeito o povo (umas poucas casas, 300 vizinhos) es]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><p>Morar em Fogarinho tinha algumas vantagens. Dalgum jeito o povo (umas poucas casas, 300 vizinhos) escapara à febre urbanística que assolava o resto da costa e quase todos os residentes moravam lá todo o ano efectivamente. Alguns turistas vinham inevitavelmente no verão a visitarem o faro e as ondas a darem contra rochas, apampados como vacas comentando que linda era a paisagem, mas não gostavam de terem um mar tão aberto e em geral preferiam as vilas da parte interior da ria, com mais vida nocturna e mais serviços. Aqui só vinham de passagem. </p>
<p>Claro que também tinha alguns inconvenientes. Estávamos um pouco isolados e só tínhamos uma pequena papelaria-quiosque (onde eu era o único que comprava alguma cousa além dos jornais), uma loja-supermercado, um médico, um carteiro e quatro bares (todo um recorde dada a população: talvez foi este índice estatístico o que me levou aqui, isso e que não que tinha que pagar o aluguer da casa). Eu podia ter todo o que precisava com isto, mas logo mudei de ideias e ai começou a dar no torto.</p>
<p>Normalmente trabalhava durante a tarde depois do jantar (que também era almoço) porque sempre levantava com ressaca a meio-dia. Escrevia durante umas poucas horas e quando tinha prontas as linhas do dia começava a beber (claro), dava um passeio pola praia, outro polos bares, e volvia e continuava bebendo até ficar dormido no sofá. Uma vez à semana, mais ou menos, fazia uma visita à papelaria para comprar algum livro (o best-seller de turno), e na voltinha mercava comida para a semana (no entanto, pensando-o agora surpreende-me o pouco que comia nessa altura: o álcool era a minha principal fonte calórica, suponho). Não posso dizer que fosse uma vida muito estimulante mas o certo é que avançava nas traduções, os cheques seguíam chegando, e o meu alcoolismo não era um problema porque conseguia pagar os copos.</p>
<p>É o mesmo com todas as adições; enquanto continues a nutri-las não há problema. Agora pago uma hipoteca, antes pagava um alcoolismo. Um carro, um reprodutor de DVD, uma lavadora, rebaixas, um passeio polo parque os domingos, estantes arrumados, filmes que aborreço nos multicines, kebabs turkos ou kurdos ou o que for, facturas, telejornais, notícias e mais notícias, propaganda, um clube de leitura. Antes não precisava nada disto, restava-me com vinho, cervejas, e whisky, a Santa Trindade e um único Deus verdadeiro. A modo, as cousas foram apoderando-se da minha vida e agora esperto todos os domingos perguntando-me quem está a dormir comigo e o que acontecerá com o Euribor e que caralho passou com a minha vida. </p>
<p>E sinto-me culpável polo que acontece no Iraque ou no Sudão mas não faço nada para o evitar, se percebes o que quero dizer. Se George W. Bush decidir amanhã bombardear um outro país eu estarei diante da TV mastigando o meu rancor polos cantos como mais um ruminante, mas não moverei nem um dedo. Nem a ponta da unha. Antes o único que me importava era que não se acabasse o subministro, e isso sempre podia amanha-lo. Agora estou indefeso ante o mundo, e a publicidade converteu a realidade numa paródia de si mesma. Num gigantesco anúncio de móveis suecos e mortos do terceiro-mundo. Entretanto, eu viro o bico ao prego e faço figura de zombi à la George A. Romero. Buuu&#8230; Claro que isto não é uma defesa de nada, mas uma constatação.</p>
</div>]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[Em Fila Indiana]]></title>
<link>http://ricardotaveiro.wordpress.com/2007/01/20/em-fila-indiana/</link>
<pubDate>Sat, 20 Jan 2007 14:32:54 +0000</pubDate>
<dc:creator>Ricardo T.</dc:creator>
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<description><![CDATA[É difícil seguir a corrente, é fácil seguir a corrente. É difícil porque tenho dúvidas sobre os meus]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><p>É difícil seguir a corrente, é fácil seguir a corrente. </p>
<p>É difícil porque tenho dúvidas sobre os meus guias. A seguridade das suas palavras contrasta com a realidade dos nossos dias que avançam devagarinho. Todas as manhãs acordamos às cegas e prometem que hoje será o último dia. E a intranquilidade do amencer esvaece-se com canções de ânimo, como a brêtema que sinto na pele desaparece com o sol. A meio-dia já estamos mais confusos, mas ainda esperançados. Ao sol-pôr, com a descida de temperatura, temos vontade de berrar a valer. Quando chega a noite melhora, porque já só estamos intranquilos e tristes.</p>
<p> É fácil porque não há outro sítio aonde ir, não há mais guias que estes. Cortaram-me a língua, tiraram-me os olhos. Estou mudo, estou cego. Culpável em todos os pontos. Sedição, conspiração, traição. Agora caminho colhido duma corda atada a outro cego e a outro e a outro. Imos apalpando as paredes com a esperança de chegarmos hoje e não amanhã. Não acredito em Deus, não acredito em nada, não acredito no futuro. Conformo-me com não deixar de escutar os altifalantes que com empenho chamam por nós desde algures.</p>
</div>]]></content:encoded>
</item>
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<title><![CDATA[Costumes]]></title>
<link>http://ricardotaveiro.wordpress.com/2007/01/09/costumes/</link>
<pubDate>Tue, 09 Jan 2007 21:36:30 +0000</pubDate>
<dc:creator>Ricardo T.</dc:creator>
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<description><![CDATA[Centro comercial, um desses Mall americanos que antes víamos nos filmes, antes de que se começassem ]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><p>Centro comercial, um desses Mall americanos que antes víamos nos filmes, antes de que se começassem a construir também na Galiza (e também nos planetas vizinhos) para contribuírem à confusão geral na batalha secreta entre a realidade e a ficção. O típico, adolescentes e post-adolescentes que assistem o último filme sobre crimes policiais modernos (sector: salas de cinema), casais que fam compras no super (sector: alimentação), parelhas mais novas e grupos de moças que assaltam as rebaixas (sector: têxtil), gente que passeia (sector: ladrilhos). </p>
<p>Um homem vulgar (sector: impacientes) de pé no médio da rua interior falsificada parece falar com os seus botões. Espera pola sua mulher (sector: conversa) que, dous passos por diante, está a falar (e não com os botões senão polos cotovelos e incansavelmente) com uma sua conhecida. Teoricamente o homem está a cuidar também da filha dos dous, mas isso apenas significa ter um olho posto no banco próximo, nessa figura que chama de filha (sector: autismo). Nada do que se preocupar, na realidade. Antes de ter filhos sonhara com algum dos problemas previsíveis que pode dar um cativo ou uma cativa: digamos que brigas no colégio, choros e protestos, a vontade ganha de levar a contrária sempre, por aí. Uma imitação ou aproximação da sua própria infância. Não deu assim, e a sua filha aborrece-os com todas as suas forças mas não é das que armam sarilhos, limita-se a ficar em silêncio e a tratar seus país como dous cuidadores provisionais não especialmente dotados. Uns aos que há explicar tudo devagarinho em frases curtas e lacónicas.</p>
<p>Assim que fica à espera entre uma filha que o ignora e uma mulher que já não sente a necessidade de introduzi-lo nas conversas com outras pessoas. Nem nas suas próprias, diga-se a verdade. Porque já não fala com ele? Serviria com o mesmo que está a contar agora mesmo, e a uma pessoa que não verá mais em meses ou anos. Seja quem for, pouco interessada pode estar nos problemas para esquivar o engarrafamento da manhã ou a nova dieta da sua dona. Que diria ele de ter a ocasião? Depende, mas nunca uma resposta honesta. Estudaria o que se esperá de ele, e continuaria com um roteiro sem viradas chocantes, remataram os dias nos que se esperava ou suportava dele qualquer parvada criativa.</p>
<p>Pergunta-se se haverá muita gente como ele neste mesmo momento. Idiotas esperando que remate de vez uma conversa perdida que não vai levar a nenhuma parte, a sua vida não vai mudar nem uma vírgula, não haverá um terremoto do outro lado do Atlântico. Idiotas que não compreendem o momento justo em que se afastaram do resto da humanidade, como foi que se passou isto para acabar perdido e silencioso e sossegado entre o caminhar da multidão.</p>
<p>Então levanta as asas e sai voando. Bate contra o tecto de cristal, quebra-o e vai fora na noite.</p>
</div>]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[Todos os Espelhos]]></title>
<link>http://ricardotaveiro.wordpress.com/2007/01/01/todos-os-espelhos/</link>
<pubDate>Mon, 01 Jan 2007 17:09:14 +0000</pubDate>
<dc:creator>Ricardo T.</dc:creator>
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<description><![CDATA[Joaquim era probabelmente a pessoa mais tímida da terra. Um homem com tanta bergonha da sua própria ]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><p>Joaquim era probabelmente a pessoa mais tímida da terra. Um homem com tanta bergonha da sua própria boz que falaba num tom baixinho demais que obrigaba a achegar-nos além do que aconselha a proxémica mais elementar. Era mais uma complicação porque a proximidade física só o angustiaba mais, deixaba de falar um bocado, afastaba-se, começaba outra bez, aproximabas-te para perceber, paraba, afastaba-se e assim o tempo todo. Para conbersar com ele quase habia que apreender um género de dança maluca.</p>
<p>Contudo era isso ou não prestar atenção nenhuma ao que dizia, algo habitual a primeira bez que o conhecias (aliás, o seu objectibo era passar o mais despercebido possíbel), mas logo mudabas a tua atitude. Felizmente, Joaquim não tinha uma teoria sobre tudo (o que era uma nobidade entre toda a gente que eu conhecia) e lebaba muito cuidado em dar qualquer opinião (por medo a que fosse uma ridiculez), mas tinha ideias bem interessantes e contos empolgantes que, ironicamente, faziam que sempre houbesse gente interessada em ir dar com ele. A sua moça estaba tolinha por ele, nunca ficaba a mais de dous metros sua e afinara os oubidos para perceber o joaquinês à primeira e sem esforço. O rapaz tinha encanto, não só entre as gajas senão com o pessoal que conseguia conhece-lo e escuta-lo, e de ter outro carácter bem poderia ter sido um líder natural.</p>
<p>Debagarinho outros souberam das qualidades do Jô, do seu singular carisma medroso, e não foram poucos os que roubaram as suas palabras e pensamentos para os seus próprios fins sabendo que ele nunca protestaria. Estes mesmos eram os que faziam troça dele, porque quando conheces a debilidade duma pessoa é singelo explorá-la. Isso logo enfastiou o Joaquim e um dia rompeu todos os espelhos da casa, talbez a primeira biolência berdadeira da sua bida. Tentámos ajudar-lhe mas a nossa atenção era o problema e não a solução. </p>
<p>E então chegou o truque. Joaquim desapareceu diante dos nossos próprios olhos. Talbez estábamos a fita-lo demasiado, não o sei, primeiro empalideceu (assustamo-nos, alguém perguntou que caralho se passaba), transluciu-se, deu um lampejo como de flash fotográfico e já não estaba. A sua moça era a única que parecia calma como se de algum modo soubesse que isto inebitabelmente ia acontecer.</p>
<p>Penso nisto sempre que passeio polas ruas e bejo pessoas esquibando as suas imagens reflectidas, um deles é Joaquim escondido de todos os espelhos.</p>
</div>]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[Olheiras]]></title>
<link>http://ricardotaveiro.wordpress.com/2006/12/30/olheiras/</link>
<pubDate>Sat, 30 Dec 2006 20:38:35 +0000</pubDate>
<dc:creator>Ricardo T.</dc:creator>
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<description><![CDATA[Não é que -eu- me importe com isso, mas as olheiras perenes de Natália são das que não lebam a conta]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><p>Não é que -eu- me importe com isso, mas as olheiras perenes de Natália são das que não lebam a conta das horas dormidas. Demasiadas ou poucas horas, abondo ou nada, as suas olheiras não se dão por isso. Debe ser alguma cousa hereditária ou falta de bitamina k, ou por aí bai. Eu sempre digo que não poderia ter melhor carta de apresentação porque as olheiras são trilhas perfeitas até os seus olhos e daí a nenhuma parte, caminhos de ferro perdidos na tundra para comboios de desejo e amor.</p>
<p>N. nunca fala disto mas eu sei com certeza que ela gostaria de estar deitada ao meu carom para me dizer que é a menina mais triste da terra e que nada no mundo pode muda-la. No entanto prefere não dizer nada, apenas inspirar e expirar saudades, acalmar, e ficar dormida até um nobo dia. Eu outra bez desterrado a chamar as suas portas.</p>
</div>]]></content:encoded>
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