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	<title>contra-a-interpretacao &amp;laquo; WordPress.com Tag Feed</title>
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	<description>Feed of posts on WordPress.com tagged "contra-a-interpretacao"</description>
	<pubDate>Fri, 25 Dec 2009 05:28:31 +0000</pubDate>

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<title><![CDATA[O leitor sem qualidades]]></title>
<link>http://oquecaidosdias.wordpress.com/2009/06/25/o-leitor-sem-qualidades/</link>
<pubDate>Thu, 25 Jun 2009 15:07:42 +0000</pubDate>
<dc:creator>João Ventura</dc:creator>
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<description><![CDATA[Porque é preciso nunca falhar a ocasião da leitura, estes são os livros que leio e sobre os quais, n]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><p><img class="alignnone size-full wp-image-1162" title="o leitor sem qualidades" src="http://oquecaidosdias.wordpress.com/files/2009/06/o-leitor-sem-qualidades.jpg" alt="o leitor sem qualidades" width="460" height="153" /></p>
<p>Porque é preciso nunca falhar a ocasião da leitura, estes são os livros que leio e sobre os quais, numa fulguração momentânea, até mesmo Kafka, contrariando todos os seus intérpretes futuros, teria dito: «atravessando as palavras há restos de luz». Nesta minha nova morada - a que chamei <a href="http://oleitorsemqualidades.blogspot.com/"><strong>O leitor sem qualidades</strong> </a> - que herda algumas das <em>qualidades</em> do que me foi <em>caindo dos dias</em> retomarei o método de trabalho benjaminiano, isto é, o da montagem literária de alguém que não tendo nada para dizer, apenas procurará mostrar. E, ainda, o procedimento vila-matiano de «conversão do texto numa máquina de citações literárias que ajudam a criar sentidos diferente». Auto-ficções, portanto, de um leitor sem qualidades. Representações, citações, histórias, imaginários, deambulações, funambulismos perseguindo «um rasto já há muito extinto no ar ou na água [mas que continua] visível, [ali, naquele no novo blog]», como diria W.G. Sebald.</p>
<p style="text-align:center;"><a href="http://oleitorsemqualidades.blogspot.com/"><strong>http://oleitorsemqualidades.blogspot.com/</strong></a></p>
</div>]]></content:encoded>
</item>
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<title><![CDATA[Os livros dentro dos livros]]></title>
<link>http://oquecaidosdias.wordpress.com/2009/04/23/os-livros-dentro-dos-livros-2/</link>
<pubDate>Thu, 23 Apr 2009 10:42:53 +0000</pubDate>
<dc:creator>João Ventura</dc:creator>
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<description><![CDATA[Encontro sempre outros livros nos livros que leio. E leio-os procurando escapar às tentações hermenê]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><p><img class="alignnone size-full wp-image-1122" title="gregory-colbert-ashes-and-snow-v1" src="http://oquecaidosdias.wordpress.com/files/2009/04/gregory-colbert-ashes-and-snow-v1.jpg" alt="gregory-colbert-ashes-and-snow-v1" width="460" height="221" /></p>
<p>Encontro sempre outros livros nos livros que leio. E leio-os procurando escapar às tentações hermenêuticas que sustentam uma certa leitura crítica, profissionalizante, controladora do sentido dos textos através de uma axiomática que procura iluminar o oculto, e que Foucault descrevia como uma «vontade de verdade». Não, não vou por aí, perseguindo a ilusória linha contínua da hybris do novo iluminismo. Prefiro os labirintos benjaminianos embebidos na tinta dos livros. E, por isso, prefiro os livros onde se recorta a trama da vida, com as suas cesuras que remetem para outras vidas contadas noutros livros. Gosto, então, de livros onde ecoam outros livros, outros autores, outras tramas. Livros que remetem, que aludem, que citam. Livros onde um só fragmento, uma evocação pode levar a outros caminhos que neles se bifurcam. Livros que abrem para outras possibilidades de leitura. Livros que se fazem e desfazem enquanto os lemos. Todas as leituras são provisórias, porque nunca relemos um livro da mesma maneira que o lemos da primeira vez. Logo, a leitura é arriscada. Como a vida. Escapar, assim, à imanência do texto, através de uma hipertextualidade não tecnológica, perscrutando no vestido do texto as passagens para outros textos. «Perder-se numa cidade como se perde numa floresta exige toda uma educação», escreveu Walter Benjamin. Sim, perder-me num livro e reencontrar-me noutro. Não para me confortar, mas para abanar convicções. A leitura, então, como experiência do mundo, mesmo que o livro seja um clássico, até que, por definição, clássicos são aqueles livros que permanecem actuais, pois neles «surpreende que um rasto já há muito extinto no ar ou na água possa continuar visível, aqui, no papel». Nada está oculto nesta definição de leitura oferecida por W. G. Sebald. Nada está oculto nos livros que me são dados a ler, pois neles também se faz e desfaz, à medida que os leio, &#8211; como escreveu Bataille &#8211; a «experiência interior que corresponde à necessidade em que me acho em cada momento». Por isso, porque também sou escritor desses livros que leio, renego aquilo a que Deleuze chamava de «interpretose» e que continua a assolar a crítica universitária contemporânea. Porque é preciso nunca falhar a ocasião da leitura, o que só acontece se soubermos adentrarmo-nos nos mundos paralelos que se bifurcam nos livros. Não em todos, claro, apenas naqueles que escolhemos como quem escolhe um bem precioso. Esses são os livros que leio e sobre os quais, numa fulguração momentânea, até mesmo Kafka, contrariando todos os seus intérpretes futuros, escreveu: «atravessando as palavras há restos de luz».</p>
<p>[Reposição de um texto aqui editado em 2007, para lembrar, neste Dia Mundial do Livro, citando Kafka, que «atravessando as palavras há restos de luz». Também, por isso, regressarei, ainda, para concluir, à série <em>Na cidade dos livros</em>].</p>
</div>]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[Dramaturgia orgânica]]></title>
<link>http://oquecaidosdias.wordpress.com/2009/03/29/dramaturgia-organica/</link>
<pubDate>Sun, 29 Mar 2009 17:34:32 +0000</pubDate>
<dc:creator>João Ventura</dc:creator>
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<description><![CDATA[A apresentação, ontem, no TEMPO, de La omisión de la familia Coleman foi uma verdadeira festa cénica]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><p><img class="alignnone size-full wp-image-1076" title="lafamiliacoleman1" src="http://oquecaidosdias.wordpress.com/files/2009/03/lafamiliacoleman1.jpg" alt="lafamiliacoleman1" width="460" height="305" /></p>
<p>A apresentação, ontem, no TEMPO, de <em>La omisión de la familia Coleman</em> foi uma verdadeira festa cénica, num auditório lotado com um público maioritariamente jovem, constituindo para muitos o seu baptismo teatral. Mas a peça que Claudio Tolcachir criou através de um processo de experimentação com jovens actores na escola que instalou na sua própria casa foi, sobretudo, um soco no estômago, neste tempo de crise que vamos vivendo.</p>
<p>Tolcachir é uma espécie de benjamin da formidável geração de Alejandro Tantanián, Javier Daulte e Rafael Spregelburd numa Argentina onde o teatro é sempre «o paciente magnífico», como dizia George Kauffmann, citado no El País, porque embora falte quase sempre o dinheiro, nunca esmorece o sentido da utopia que o põe em movimento nem um público com uma grande voracidade cultural que enche as salas de teatro independente. Tolcachir sublinha o facto do teatro independente se criar a partir «da pobreza, do sangue: faz-se porque se quer fazer e isto faz com que as obras sejam muito vivas, muito sanguinárias, porque nascem de uma verdadeira vontade».</p>
<p>E também ele quis fazer um teatro assim. Farto de bater às mesmas portas fechadas de sempre, Tolcachir transformou a sua casa num palco e numa escola de actores, como me contam os próprios Coleman num dos intervalos de normalidade familiar, entre o ensaio da tarde e o espectáculo da noite. Sem horários de abertura nem de encerramento, noite adentro, muitas vezes até de madrugrada, assim foi nascendo, dizem-me, o <a href="http://www.timbre4.com/home_teatro.php">Timbre 4</a>, na Boedo 640, numa sala de uma <em>casa chorizo</em>, uma casa típica argentina com corredores ao meio a separar todas as divisões. Durante meses, Tolcachir e os seus alunos foram inventando a retorcida árvore genealógica da família Coleman e, assim, foram também criando a sua primeira obra dramática, uma peça que viria a revelar uma surpreendente maturidade. Inventaram a família e viveram como família na mesma divisão doméstica onde se estreou, em Agosto de 2005, a peça que viria a tornar-se num fenómeno teatral, com mais de 600 representações nos quatro anos em que esteve em cartaz em Buenos Aires. Depois, os Coleman viajaram por toda a América Latina, Nova Iorque, Cádiz, Madrid, Saravejo, Lisboa e, agora, Portimão, sempre com críticas elogiosas. Ontem, almocei com eles num restaurante típico da cidade e pareceram-me «uma família normal, como todas, com as suas coisas», como será, depois, dito na peça.</p>
<p>Porém, ao princípio da tarde, quando me assomei ao ensaio, tudo me fez começar a desconfiar da sua normalidade aparente: personagens encarcerados numa dolorosa e absurda coexistência doméstica, diálogos delirantes, o grotesco transformado em normalidade. Uma versão <em>porteña</em> e grotesca da mesma normalidade familiar que Lucrecia Martel já nos apresentara, antes, no ciclo de cinema que o TEMPO lhe dedicou há duas semanas. E à noite, confirmei as suspeitas. Uma família vivendo no limite da dissolução. Uma convivência impossível, onde a violência irrompe como se fosse a coisa mais natural. A situação tornando-se insustentável quando a avó, figura vital encarregada de suster os ânimos e as tensões quotidianas, morre. E um humor que não esmorece e sob o qual se escondem horrores insuspeitos: incesto, roubos, traições, favores sexuais, doenças e um doloroso desamparo final. Debaixo do tapete das omissões familiares, o não dito, o recalcado explodindo em todas as direcções através de uma comicidade ácida construída sobre o trágico da situação. Diálogos elípticos mas em constante efervescência, donde resulta uma das peças mais deliciosamente subversivas que vi ultimamente. Uma dramaturgia <em>orgânica</em> através da qual Tolcachir retrata o vertiginoso ritmo de vida que vamos levando, carregada de silêncios, omissões, incomunicabilidade, num deslizamento contínuo para o pântano que apenas o extraordinário personagem Marito, na sua lúcida loucura, é capaz de antecipar: «la casa se hunde».</p>
<p>Os <em>Coleman</em> partem amanhã para España e, depois, para Buenos Aires. Dizem-me que voltarão, em Outubro, para o festival Iberoamericano de Cádiz com a sua última peça, <em>Tercer cuerpo</em>, que fala da doença da cidade que é a solidão. Talvez regressem também ao TEMPO. Talvez eu próprio regresse antes a Buenos Aires, porque segundo me afiançaram estes <em>Coleman</em> que conheci por estes dias, por lá, «em épocas de crise, a única coisa que se vende são bilhetes».</p>
<p> </p>
<p>[Texto publicado ontem no blogue do <a href="http://tempo-teatro.blogspot.com/">TEMPO</a> - Teatro Municipal de Portimão, e que aqui reproduzo para vos dar conta de que também ali vou escrevendo sobre <em>o que me cai dos dias</em> na minha actividade profissional. Outro TEMPO, portanto, que vos convido a atravessar. Às vezes, bifurcações entre aquele TEMPO e <em><strong>o que</strong> </em>me<em> <strong>cai</strong> </em>aqui<em> <strong>dos </strong></em><em><strong>dias</strong></em>].</p>
</div>]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[No Bairro portátil do senhor Tavares (VII): um cacaniano aposentado]]></title>
<link>http://oquecaidosdias.wordpress.com/2009/02/15/o-bairro-portatil-de-goncalo-tavares-vii-um-cacaniano-aposentado/</link>
<pubDate>Sun, 15 Feb 2009 17:24:32 +0000</pubDate>
<dc:creator>João Ventura</dc:creator>
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<description><![CDATA[«O Senhor Kraus saiu do jornal bem-disposto. Sabia que nos tempos que corriam (para trás?, para o la]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><p><img class="alignnone size-full wp-image-956" title="kkraus" src="http://oquecaidosdias.wordpress.com/files/2009/02/kkraus.jpg" alt="kkraus" width="354" height="229" /></p>
<p>«O Senhor Kraus saiu do jornal bem-disposto. Sabia que nos tempos que corriam (para trás?, para o lado?) a única forma objectiva de comentar a política era a sátira». O Senhor Kraus é uma personagem vagamente <em>shandiana. </em>E digo <em>vagamente</em> porque, não obstante a funda ironia e a ácida insolência que caracteriza o seu estilo jornalístico, além da, claro está, sustentável leveza do 5º livrinho deste Bairro portátil que vou revisitanto, não consigo fazer descolar a sua figura da seu severo homónimo Karl Kraus que numa Viena em <em>apocalipse alegre</em> escrevia e publicava sozinho a revista  <em>Die  Fackel, </em>com tal escrupulosidade que não só nunca lhe escapava a denuncia de tudo o que era podre e falso como nunca falhava, sequer, a colocação da vírgula menos pertinente.</p>
<p>O Senhor Kraus mimetiza o visionário nihilista e impiedoso crítico seu homónimo que &#8211; como escreveu Roberto Calasso, em <em>Os quarenta e nove degraus</em> -,  tendo antecipado que «se encontrava numa época que esvazia a noção discursiva e teatral de adversário, estendendo-a a tudo, dissipando-a em névoa, tornando qualquer um facilmente inimigo de si mesmo», <em>se retirou para a vida privada</em> do Bairro de Gonçalo M. Tavares. Ao contrário do seu duplo <em>cacaniano</em> que achava que «o jornalismo <em>comia</em> o pensamento», o Senhor Kraus é um jornalista <em>shandy </em>que apanha o acontecimento político de modo expedito, sem estar preocupado com qualquer refinamento estilístico.</p>
<p>Antecipando as causas da crise por vir, o Senhor Kraus apanhou de cernelha um acontecimento <em>raro</em>: «Uma enorme comitiva de economistas entrou nos aposentos centrais. Traziam um relatório gigante. Era o diagnóstico; o estado da economia do país ali estava, ao pormenor. Três meses de trabalho envolvendo mais de 32 mil economistas. Bem remunerados, mas era merecido: o relatório tinha mais de seiscentas páginas. E um índice. Foi no índice que o Chefe pegou». Às vezes, a realidade imita a ficção.</p>
<p>Afinal, a leveza destes livrinhos <em>portáteis</em> só o será aparentemente. Diria, antes, que são de uma <em>insustentável leveza</em> em matéria de expressão literária breve e despretenciosa para apanhar o quotidiano sem estar a coberto de qualquer propósito moralizador.</p>
</div>]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[No Bairro portátil do senhor Tavares (VI): no café com Calvino]]></title>
<link>http://oquecaidosdias.wordpress.com/2009/02/12/%c2%abno-bairro%c2%bb-vi-a-mesa-com-calvino/</link>
<pubDate>Thu, 12 Feb 2009 22:04:54 +0000</pubDate>
<dc:creator>João Ventura</dc:creator>
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<description><![CDATA[O Senhor Calvino é uma personagem que gosta de dar longos passeios e coloca constantemente desafios ]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><div><img class="alignnone size-full wp-image-906" title="calvino3" src="http://oquecaidosdias.wordpress.com/files/2009/02/calvino3.jpg" alt="calvino3" width="254" height="310" /></div>
<div>
<p class="MsoNormal" style="line-height:normal;margin:0;"><span style="font-family:&#34;"><span style="font-size:small;">O Senhor Calvino é uma personagem que gosta de dar longos passeios e coloca constantemente desafios existenciais a si próprio, tais como transportar pelo bairro uma barra metálica paralela ao solo, ou levar 10 kg de terra de um local para outro, utilizando uma colher de chá -  para treinar a paciência. O Senhor Calvino esteve no Café do TEMPO, no Sábado passado - onde a Gaveta &#8211; e o Sandro Junqueira, um jovem talentoso de Portimão, fantasiado de Karl Kraus, esse escritor severo que viveu numa Viena à beira do <em>apocalipse alegre</em>  - montou um radioso Bairro portátil para os curiosos que se escaparam no final da cruel versão teatral de <em>Jerusalém,</em> recriado por João Brites no auditório situado na cave do teatro -, e vimo-lo atirar-se do alto de mais de trinta andares em perseguição dos seus sapatos e gravata que alguém atirara pela janela: «Ainda no ar alcança os sapatos. Primeiro, o direito: calça-o; depois, o esquerdo. No ar enquanto cai, tenta encontrar a melhor posição para apertar os atacadores. Com o sapato esquerdo falha uma vez, mas volta a repetir, e consegue. Olha para baixo, já se vê o chão. Antes, porém, a gravata; Calvino está de cabeça para baixo e com um puxão brusco a sua mão direita apanha-a no ar e, depois, com os seus dedos apressados, mas certeiros, dá as voltas necessários para o nó: a gravata está posta. Os sapatos, olha de novo para eles: os atacadores bem apertados; dá o último jeito no nó da gravata, bem a tempo, é o momento: chega ao chão, impecável». </span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="line-height:normal;margin:0;"><span style="font-family:&#34;"><span style="font-size:small;">O Senhor Calvino sentou-se, depois, tranquilamente,  à minha mesa e, à falta de absinto - essa bebida esverdeada e opiácea que parece também ela ter sido desenhada por Gonçalo Tavares, ele próprio uma espécie de escritor-funâmbulo, umas vezes, em equilíbrio sobre os abismos da realidade dos seus livros negros, e outras vezes, planando em permanente «voo imaginativo» sobre um bairro portátil» para onde se escapa como se fosse, também ele, um <em>senhor</em> desenhado posto ali em andamento para nos fazer esquecer a realidade (e que, por certo, o volúvel Senhor Henri -, talvez o mais <em>shandiano</em> de todos os habitantes do bairro, bastante afeiçoado ao absinto e muito entendido nestas coisas de estímulos, fontes de inspiração e coisas assim &#8211; se por ali andasse, não deixaria de nos servir, ) - bebemos um <em>whisky. </em></span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="line-height:normal;margin:0;"><span style="font-family:&#34;"><span style="font-size:small;">E, por um tempo breve, mesmo sem absinto para misturar com realidade, mas com os deliciosos livrinhos gráfico-literários inventados por Gonçalo M. Tavares ao fundo, numa biblioteca <em>transportável, </em>obtivemos uma realidade melhor depois de, momentos antes, termos andado à deriva entre cachos esbogoados de uma vindima longínqua, esqueletos de uvas amassadas lembrando ossaturas humanas, à semelhança de uma história normalizada do horror. Bipolaridades. Ou não fosse Gonçalo M. Tavares, «um autor que &#8211; como diz Enrique Vila-Matas &#8211; à segunda-feira se confunde com Michaux, à quinta com Thomas Mann, assemelhando-se todos os domingos a Fernando Pessoa.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="line-height:normal;margin:0;"><span style="font-family:&#34;"></span></p>
<p class="MsoNormal" style="line-height:normal;margin:0;"><span style="font-family:&#34;"><span style="font-size:small;">[para uma descida aos <em>malstroms</em> tavarianos ler: <a href="http://oquecaidosdias.wordpress.com/2007/04/26/ensaio-sobre-a-loucura/"><em>Ensaio sobre a loucura</em> </a>e<em> <a href="http://oquecaidosdias.wordpress.com/2008/01/14/da-banalidade-do-mal/">Da</a></em><a href="http://oquecaidosdias.wordpress.com/2008/01/14/da-banalidade-do-mal/"> <em>banalidade do mal</em></a>]</span></span></p>
</div>
</div>]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[Teatro da crueldade]]></title>
<link>http://oquecaidosdias.wordpress.com/2009/02/07/jerusalem/</link>
<pubDate>Sat, 07 Feb 2009 18:55:06 +0000</pubDate>
<dc:creator>João Ventura</dc:creator>
<guid>http://oquecaidosdias.wordpress.com/2009/02/07/jerusalem/</guid>
<description><![CDATA[  Talvez a única escrita possível depois de Auschwitz seja aquela cujas palavras se projectam naquel]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><p> </p>
<p><img class="alignnone size-full wp-image-1140" title="jerusalem" src="http://oquecaidosdias.wordpress.com/files/2009/02/jerusalem4.jpg" alt="jerusalem" width="300" height="225" /></p>
<p>Talvez a única escrita possível depois de Auschwitz seja aquela cujas palavras se projectam naqueles montes de engaço que cobram o palco, soltando um cheiro acre, intenso, que se vai adensando sobre as primeiras filas do auditório &#8211; e que, logo à noite, mais do que embriagar os espectadores, assaltará consciências -, numa encenação que toma como ponto de partida o espaço frio, concentracionário, do hospício Georg Rosenberg, recriado na encenação de João Brites do romance-ensaio de Gonçalo M. Tavares, <em><a href="http://oquecaidosdias.wordpress.com/2007/04/26/ensaio-sobre-a-loucura/">Jerusalém</a>. </em>Matéria orgânica em fermentação, destroços de uvas amassadas, cachos esbagoados de uma vindima longínqua. Esqueletos de uvas amontoados lembrando ossaturas humanas à semelhança de uma história do horror do século XX cujos cenários de extermínio, como Buchenwald, um protagonista desta narrativa haverá de lembrar. «É como se a obra fosse uma escultura. Nós andámos à volta da escultura e escolhemos um ângulo: a questão do horror que está por detrás da normalidade deste tempo», diz-me João Brites.</p>
<p>Assisto ao ensaio antes do espectáculo de logo à noite no TEMPO. Sete personagens errando pelas das ruas de uma cidade sem nome, habitada por actores e espectadores - que entram pela mesma porta, encontrando-se parte da plateia no palco, virada para uma parede de tijolo -, em que a noção de presente é o que une a ficção à realidade. Uma história de deportação e enclausuramento. Deportação para um hospício. Enclausuramento no medo. Por força da encenação, actores e espectadores prisioneiros da crueldade ou da misericódia do mundo. Antecipação das aparições que povoarão a mente e o corpo da esquizofrénica Mylia em busca alucinada da existência de Deus, enquanto um médico, Theodor Busbeck, procura desenhar um gráfico sobre a regularidade do horror na História, na tentativa de diagnosticar a sanidade dos homens ou a sua insanidade definitiva. Personagens amarradas a diferentes registos, confrontando consciências, evocações. Um cão atravessando o palco não sei se para nos fazer sentir mais humanos ou loucos.</p>
<p>Uma versão experimentalista e socialmente empenhada da parábola expressionista de Gonçalo M. Tavares sobre a loucura da normalidade de todos os dias, na esteira de um teatro que está ali não para nos confortar, muito menos para nos divertir, mas para abanar as nossas conciências arrastadas sem remissão pelo vórtice da História que, de vez em quando, parece enlouquecer, como aconteceu com o nazismo, e que, às vezes, nos atrai para um teatro da crueldade. É que &#8211; como disse Walter Benjamin - «a história é uma constelação de perigos» e «diante do inimigo, se ele vence, mesmos os mortos não estarão em segurança. E esse inimigo não tem feito mais do que vencer». Esta a lição essencial de Gonçalo M. Tavares aqui <em>remontada</em> por João Brites.</p>
</div>]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[No Bairro portátil do senhor Tavares (V): literatura volúvel]]></title>
<link>http://oquecaidosdias.wordpress.com/2009/02/06/no-%c2%abbairro%c2%bb-v-literatura-portatil/</link>
<pubDate>Fri, 06 Feb 2009 15:24:09 +0000</pubDate>
<dc:creator>João Ventura</dc:creator>
<guid>http://oquecaidosdias.wordpress.com/2009/02/06/no-%c2%abbairro%c2%bb-v-literatura-portatil/</guid>
<description><![CDATA[Diz Enrique Vila-Matas que Gonçalo M. Tavares «vai criando como se estivesse sempre num permanente v]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><p class="MsoNormal" style="text-align:justify;margin:0 0 10pt;"><span style="font-family:Calibri;"><span style="font-size:12pt;line-height:115%;"><img class="alignnone size-full wp-image-848" title="o-senhor-breton" src="http://oquecaidosdias.wordpress.com/files/2009/02/o-senhor-breton.jpg" alt="o-senhor-breton" width="278" height="400" /></span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="line-height:normal;margin:0 0 10pt;"><span><span style="font-size:small;">Diz Enrique Vila-Matas que <span style="color:#333333;">Gonçalo M. Tavares «vai criando como se estivesse sempre num permanente voo imaginativo: um bairro portátil, uma espécie de Chiado literário onde compram pão e tomam o aperativo uma série de senhores muito curiosos, cada um habitante de um livro breve e próprio: o senhor Juarroz, o senhor Calvino, o senhor Valéry, o senhor Brecht, o senhor Kraus». São todos eles inquilinos de pequenos </span>mundos ficcionais, lúdicos, irónicos, engenhosos e bem-humorados, em cujas ruas e pracetas se entrelaçam o real e o imaginário, sem que possamos distinguir entre o fora e o dentro, o direito e o seu anverso, desfiados, livrinho a livrinho, como historietas avulsas a qualquer enredo, através das quais se vai tecendo paulatinamente a genealogia literária do autor.   Apesar da pluralidade de propostas e visões que fazem a excentricidade do Bairro, existe nele uma harmonia que deve mais à possibilidade de excitar o leitor com múltiplas visões do mundo do que à hipotética partilha das preocupações e dos programas de escrita dos seus inquilinos. Um bairro em crescimento acelerado<em>  «que</em> cada vez mais me parece ser a personagem principal [...]. Uma espécie de história da literatura em ficção [...]. Um projecto interminável», admite Gonçalo M. Tavares. </span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="line-height:normal;margin:0 0 10pt;"><span><span style="font-size:small;">Desses inquilinos, o mais recente, acabado de chegar a esse Bairro ficcional que poderia integrar a geografia improvável de uma qualquer <em>cidade invisível</em> de Italo Calvino, «feita só de excepções, impedimentos, contradições, incongruências, contra-sensos», mas ao mesmo tempo «contendo tudo o que corresponde à norma», é <em>O Senhor Breton</em> que mimetiza &#8211; numa auto-entrevista formulada em 10 perguntas que «complicam a realidade» &#8211; o escritor surrealista André Breton, trazido, talvez, ao Bairro por um qualquer «acaso objectivo» através do qual o <em>arquitecto</em> invisível Gonçalo M. Tavares vai manipulando a realidade inventada para melhor a observar. </span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="line-height:normal;margin:0 0 10pt;"><span><span style="font-size:small;">Munido de um gravador, frente a «um enorme espelho na sala: a janela com a velocidade ideal», O <em>Senhor Breton</em> auto-entrevista-se, procurando respostas para algumas questões caras aos enunciados surrealistas, sobretudo aquelas que se apresentaram nos manifestos que André Breton assinou. Questionando os modos de expressão da realidade, as relações entre a estética e a filosofia ou os limites representacionais da linguagem,  O<em> Senhor Breton</em> percorre as mesmas <em>passages</em> que Breton, com o distanciamento ficcional a permitir ao duplo uma consciência aguda dos limites que o seu homónimo pretendia estilhaçar.  </span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="line-height:normal;margin:0 0 10pt;"><span><span style="font-size:small;">Este livrinho <em>portátil,</em> não só pela sua leveza mas porque nele se descortinam «certos traços que eram considerados tipicamente <em>shandys</em>: [i. é, volúveis] &#8230; ausência de propósitos [...] tensa convivência com a figura do duplo [...] e o culto da arte da insolência», logo capaz de figurar numa qualquer <em>História Abreviada da Literatura Portátil,</em> revista por Enrique Vila-Matas - porque passaria no teste concebido por Walter Benjamin, esse escritor-filósofo, <em>estranho de passagem,</em> cuja tendência para miniaturiziar a realidade o levou a inventar «essa máquina risonha de pesar livros que permitia detectar, com precisão absoluta, quais as obras literárias insuportáveis e, por isso, embora tentem dissimulá-lo, intransportáveis» -, é mais um singular exercício de estilo que se alimenta de poéticas concretas e prévias à sua construção e que escapa a qualquer tentativa de interpretação. De momento, são nove os livrinhos <em>portáteis</em> do Senhor Gonçalo, mas os que aí vêm já têm a mala, seguramente <em>duchampeana</em>, preparada. </span></span></p>
</div>]]></content:encoded>
</item>
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<title><![CDATA[No outro lado do poema absoluto]]></title>
<link>http://oquecaidosdias.wordpress.com/2008/11/10/do-outro-lado-do-poema-absoluto/</link>
<pubDate>Mon, 10 Nov 2008 00:06:04 +0000</pubDate>
<dc:creator>João Ventura</dc:creator>
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<description><![CDATA[  Regresso a Herberto Helder, iluminado, ainda, pelos rastos do fogo lento da combustão das palavras]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><p> </p>
<p><a href="http://oquecaidosdias.files.wordpress.com/2008/11/abismo1.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-752" title="abismo" src="http://oquecaidosdias.wordpress.com/files/2008/11/abismo1.jpg" alt="abismo" width="417" height="356" /></a></p>
<p>Regresso a Herberto Helder, iluminado, ainda, pelos rastos do fogo lento da combustão das palavras da derradeira &#8211; ou talvez não &#8211; <em>súmula</em> da sua obra poética, alargada, agora, com uma secção inédita de 70 páginas, a cujo todo deu o nome de <em>A faca não corta o fogo</em>. E dizer que <em>regresso</em>, é apenas um modo de dar conta da temporalidade deste blogue, para a qual o próprio título, de referência temporal, imediatamente remete, porque no que se refere à obra de Herberto Helder, essa é aversa a qualquer tentativa de arrumação diacrónica, na medida em que a sua temporalidade é apenas sincrónica, logo sem possibilidade de regressos, antes caminhando para o poema do «abrupto sentido, o poema absoluto», onde habita o caos.</p>
<p>E vou, de novo, percorrendo como um funâmbulo da leitura «a sensível cadeia das coisas que transitaram, correntes da terra para as correntes do poema». Como ler Helberto Helder, se não como um funâmbulo roçando o abismo onde habita o espírito do fogo? E dali, daqui, sobre o precipício do «poema absoluto» donde se abarcam as regiões do «terror» - a que só se acede através do idioma orgânico, escatológico, mineral e vegetal do poeta -, deixar-me, então, como agora, sucumbir diante o «extremo exercício da beleza» deste <em>livro final</em> que persegue o cosmos platónico<em>,</em> tão próximo já do programa de Mallarmé do <em>livro por vir</em> ou da parábola da <em>biblioteca</em> borgeseana que lhe é homóloga.</p>
<p>«Poema absoluto», mas cuja totalidade e perfeição, incessantemente procurada pelo <em>demiourgos</em> Herberto Helder, se revelará, se me revela agora, já no outro lado do abismo, inacessível. Porque apesar da proposição nietzschiana perseguida por Herberto Helder, <em>Deus é indestrutível</em> até mesmo ante o «extremo exercício da beleza» que habita nas profundidades deste <em>poema quase absoluto</em> que foi deixando para trás as falhas, o desperdício, o redundante.</p>
</div>]]></content:encoded>
</item>
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<title><![CDATA[Fogo lento]]></title>
<link>http://oquecaidosdias.wordpress.com/2008/10/19/fogo-lento/</link>
<pubDate>Sun, 19 Oct 2008 22:30:49 +0000</pubDate>
<dc:creator>João Ventura</dc:creator>
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<description><![CDATA[Se olharmos para os escaparates das livrarias de hoje, veremos que o que abunda é a redundância na q]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><h6><a href="http://oquecaidosdias.files.wordpress.com/2008/10/herberto_helder.jpg"></a></h6>
<p class="MsoNormal" style="line-height:15.9pt;margin:0 0 10pt;"><span style="font-size:10pt;color:#000000;font-family:&#34;"><img class="alignnone size-full wp-image-918" title="ecto_blanchotx520" src="http://oquecaidosdias.wordpress.com/files/2008/10/ecto_blanchotx520.jpg" alt="ecto_blanchotx520" width="460" height="345" /></span></p>
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<p class="MsoNormal" style="line-height:normal;margin:0 0 10pt;"><span style="font-size:12pt;color:black;"><span style="font-family:Calibri;">Se olharmos para os escaparates das livrarias de hoje, veremos que o que abunda é a redundância na qual se afunda o campo literário actual indelevelmente rasurado pelas regras do mercado e pela desejo de uma nova «raça de escritores, imitadores do já feito», em permanecer na «eternidade preguiçosa dos ídolos», como escreveu Blanchot. Por isso, nestes «tempos de redundância», a reedição da «súmula» de Herberto Helder, acrescida de um conjunto de poemas inéditos (<em>A Faca Não Corta o Fogo,</em> Assírio &#38; Alvim), constitui, por si só, um questionamento «intempestivo» &#8211; como sublinhou António Guerreiro em artigo publicado na semana passada na revista Actual &#8211; do próprio lugar da poesia ante a constelação de vazios que preenche um espaço literário cuja legitimidade não é mais outorgada pela palavra poética mas sim pelas regras do mercado editorial ditadas pelos tais «trapezistas do marketing» de que fala Vila-Matas em <em>O mal de Montano</em>.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="line-height:normal;margin:0 0 10pt;"><span style="font-size:12pt;color:black;"><span style="font-family:Calibri;">É que Herberto Helder pertence, ainda, a outro tempo. A um tempo em que os poetas ambicionavam constituir-se exclusivamente através da sua obra, fugindo por vontade própria da vida mundana e da vacuidade dos prémios e honrarias. Porque já Séneca dizia que a fama é horrível pois depende do juízo de muitos. E Flaubert: «as honrarias desonram». E Herberto Helder, numa remota entrevista: «O prestígio é uma armadilha dos nossos semelhantes. Um artista consciente saberá que o êxito é prejuízo». E, depois, noutra rara entrevista: «Há quem se ponha no centro de câmaras ecoantes: e os ecos chegam de todos os lados: as respostas caóticas, o êxito, o erro, a morte da alma». Por isso, nas últimas décadas Herberto Helder vem cegando todo o espaço mediático à sua volta: nem entrevistas, nem aparições públicas, nem conversas com leitores, nem prémios. Apenas um intransigente silêncio em que se dissolve não apenas a sua biografia mas também qualquer tentativa de aproximação hermenêutica à sua obra através da sua autoridade autoral.  </span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="line-height:normal;margin:0 0 10pt;"><span style="font-size:12pt;color:black;"><span style="font-family:Calibri;">Daí a decisão radical de ter como única morada a poesia, fazendo do auto-apagamento, da dissolução biográfica, da recusa da interpretação da sua obra, o trabalho de toda uma vida. «Não moramos autenticamente senão aí onde a poesia tem lugar e dá lugar», escreve Blanchot em <em>O livro por vir. </em>E, antes dele, Hölderlin: «… é poeticamente que o homem permanece». E noutro verso ainda: «Mas o que permanece, os poetas o fundam». Insondável morada esta habitada pelo «idioma bárbaro» de Herberto Helder que sustenta o bruxulear de uma luz, abre a vacilação de um caminho em direcção ao «poema absoluto» através do qual o poeta busca a superação do mito com uma violência nietzschiana: «Até que Deus [seja] destruído pelo extremo exercício da beleza».</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="line-height:normal;margin:0 0 10pt;"><span style="font-size:12pt;color:black;"><span style="font-family:Calibri;">E o que funda Herberto Helder através da radical redução da <em>Poesia Toda </em>(1981) operada, primeiro, em <em>Ou o Poema Contínuo</em> (2001) e, agora, em <em>A Faca Não Corta o Fogo -</em> como se a sua obra fosse um «poema contínuo» crepitando num fogo lento donde se soltam «as notas impreteríveis para que da pauta se erga a música, uma decerto não muito hínica, não muito larga nem límpida música, mas este som de quem sopra os instrumentos na escuridão», como ele próprio já advertia na <em>súmula</em> primeira? Talvez, sempre, os mesmos «punti luminosi poundianos, ou núcleos de energia assegurando uma continuidade do sensível» que antes dele já Pessoa perseguira, deixando aberta a ideia da literatura como utopia ou, se se preferir,  arriscando uma concepção mallermaneana do<em> livro por vir</em> que encontramos no livro homónimo de Blanchot.</span></span><span style="color:black;"></span></p>
</div>
</div>]]></content:encoded>
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<title><![CDATA[Paradoxos terminais]]></title>
<link>http://oquecaidosdias.wordpress.com/2008/04/28/visionarios/</link>
<pubDate>Mon, 28 Apr 2008 14:19:12 +0000</pubDate>
<dc:creator>João Ventura</dc:creator>
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<description><![CDATA[A propósito de O homem sem qualidades diz J. M. Coetzee, num ensaio sobre Musil, tratar-se de «um li]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><p><a href="http://oquecaidosdias.files.wordpress.com/2008/04/kraus.jpg"><img class="size-medium wp-image-649 alignnone" src="http://oquecaidosdias.wordpress.com/files/2008/04/kraus.jpg?w=246" alt="" width="246" height="225" /></a></p>
<p>A propósito de <em>O homem sem qualidades</em> diz J. M. Coetzee, num <a href="http://www.xs4all.nl/~jikje/Essay/coetzee2.html" target="_blank">ensaio</a> sobre Musil, tratar-se de «um livro ultrapassado pela própria História enquanto estava a ser escrito». E que, por isso, seria impossível lê-lo da mesma forma depois da ascensão do nazismo. Não interpreto assim. Entendo, pelo contrário, que a corrente da banalidade do mal que há-de desaguar, depois, na tumultuosa maré negra do nazismo já se encontra ali pressentida, conferindo ao romance um significado paradigmático que traduz a visão de uma psicopatologia da modernidade espelhada, desde logo, no episódio do assassino de mulheres Moosbrugger a quem «talvez lhe faltasse apenas [...] a educação e a oportunidade para fazer dele qualquer outra coisa, um anjo exterminador de massas», mas em quem Musil percebe a inspiração para o mal: «se a humanidade, como um todo, pudesse ter sonhos, esse sonho seria Moosbrugger». O romance vai, assim, na linha da percepção anteriormente expressa por Karl Kraus no drama <em>Os últimos dias da humanidade</em> (Antígona) que, mais do que remeter para a derradeira catástrofe escatológica, antes se refere aos <em>paradoxos terminais</em> - da técnica, da política, da História - que vão arrastando no seu vórtice <em>o mundo da vida</em> (<em>die Lebenswelt</em>), segundo a fórmula de Edmund Husserl<em>,</em> para os abismos da era moderna, de que, aqui, «a desagregação bárbara» do império austro-hungaro - que no romance dá pelo nome de Cacânia - constitui a parábola da desagregação da Europa e o caso Moosbrugger, baseado num acontecimento real que Musil acompanhou, a metáfora da irrupção irracional do mal no mundo da ordem.</p>
<p>Dessa visão consternada de uma civilização privada de centro e de fundamento diante de uma História enlouquecida deu, também, conta Husserl nas conferências que, em 1935, proferiu em Viena e Praga, como nos relata Milan Kundera em <em>A arte do romance</em> (Dom Quixote). O <em>mundo da vida «</em>eclipsado, antecipadamente esquecido», prestes a ser trucidado pelo monstro que já não vem da alma, mas que vem do exterior, cavalgando a História sob o olhar atormentado de uma plêiade de <em>visionários</em> centro-europeus que «percebeu, tocou, aprendeu os <em>paradoxos terminais</em>» de um mundo em declínio, mas ainda assim, capaz de produzir estados produtivos, através dos quais o homem se reconhece na sua fragilidade e nos seus limites, mas se torna criador, capaz, portanto, de dar conta não apenas do sentido da realidade que ali estava, mas também de procurar algures um sentido de possibilidade contra a carapaça fria e dura do monstro da História.</p>
<p>Nesse sentido, Musil era, então, um visionário nihilista e activista, como também o eram outros <em>cacanianos</em>, como Kraus, Hoffmansthal, Rilke, Freud, Husserl, Broch, Schoenberg, Kafka e Kassner, «nomes suficientes para nos mostrar que as culturas moribundas têm grande capacidade para produzir obras revolucionárias e talentos de futuro» (Maurice Blanchot, <em>O livro por vir,</em> Relógio d´Água), «instalando-nos nessa outra forma de percorrer o tempo que, eventualmente, nos pode fazer esquecer a morte», como confessou ao Ípsilon (18.04.2008), a propósito da sua recepção de Musil, Gonçalo M. Tavares, talvez o mais musiliano dos escritores portugueses.</p>
</div>]]></content:encoded>
</item>
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<title><![CDATA[Do sentido da possibilidade]]></title>
<link>http://oquecaidosdias.wordpress.com/2008/04/19/do-sentido-da-possibilidade/</link>
<pubDate>Sat, 19 Apr 2008 21:41:45 +0000</pubDate>
<dc:creator>João Ventura</dc:creator>
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<description><![CDATA[                  A literatura, então, como «uma tentativa de tornar real a vida», escreveu Pessoa. ]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><p><a href="http://oquecaidosdias.files.wordpress.com/2008/04/musil1.gif"><img class="size-medium wp-image-634  alignleft" src="http://oquecaidosdias.wordpress.com/files/2008/04/musil1.gif" alt="" width="300" height="226" /></a><a href="http://oquecaidosdias.files.wordpress.com/2008/04/o-homem-sem-qualidades2.jpg"></a></p>
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<p style="text-align:left;">A literatura, então, como «uma tentativa de tornar real a vida», escreveu Pessoa. Ignorava o poeta que algumas décadas mais tarde Vila-Matas haveria de fazer da possibilidade de introduzir o real na ficção uma marca do seu estilo pessoal através da qual a aparência de verdade levada até ao extremo converte aquilo que no início é apenas verosímil numa nova forma de realidade que não necessita de nenhuma outra explicação que a da evidência da ficção; e de uma ficção que questiona o nosso limitado conceito de verosimilhança e nos transforma em exploradores mentais de mapas obscuros em cuja cartografia abismal nos adentramos para nos aproximarmos mais da verdade. </p>
<p>Trata-se, então, aqui, de um conceito de verosimilhança que remete não tanto para aquilo que verdadeiramente entendemos por realidade, isto é, <em>aquilo que acontece</em>, mas mais para <em>aquilo que poderia ter acontecido</em>, <em>que poderá acontecer,</em> introduzindo, assim, na ficção «um sentido de possibilidade» <em>musiliano</em> que transforma as personagens «correntes e vulgares» de <em>Exploradores do abismo</em> em expedicionários de mundos paralelos, protagonistas de vivências nunca experimentadas que sobrepõem ao tédio quotidiano com a insolência de quem possui a fórmula mágica que o há-de esconjurar.</p>
<p>Lembram estes exploradores <em>vilamatianos</em> «esses homens [<em>musilianos</em>] do possível [que] vivem, como se costuma dizer, numa trama mais subtil, numa teia de névoa, fantasia, sonhos e conjuntivos» ( p. 41) que constituem simulacros de sentido num mundo que Musil sabe sem sentido mas que insiste em narrar em <em>O homem sem qualidades</em> (Dom Quixote) apesar de «tudo ter deixado de ser narrável e não seguir já nenhum fio» (p. 827). Por isso, terá inventado - como disse ontem ao Ípsilon Vila-Matas que se cruzou com Musil à beira de um abismo mental no final de <em>O mal de Montano -</em> «um novo modo de narrar que se constitui em permanente ensaio da vida» e que «abriu, sem fechar, o mais amplo horizonte que se oferece ao romance moderno» respondendo (tal como Hermann Broch) àquilo a que Kundera classificou como o <em>apelo do pensamento</em>, «não para transformar o romance em filosofia, mas para mobilizar, com base narrativa, todos os meios, racionais e irracionais, narrativos e meditativos, susceptíveis de esclarecer o ser do homem; de fazer do romance a suprema síntese intelectual».</p>
<p>Um convite, então, não para um passeio romanesco ao passado, mas para uma longa expedição através dos mapas obscuros do «apocalipse alegre» (expressão que sintetiza, segundo Broch, a forma como os austríacos viveram nihilismo de <em>fin de siècle</em>) cujos abismos <em>cacanianos</em> me disponho agora a explorar num <em>programa de leitura</em> para afrontar o vazio deste «mundo de qualidades sem homem» em que vou vivendo sem nele me despenhar. Isto é, escolhendo a <em>qualidade</em> de leitor aberto a toda contingência, a toda a possibilidade de leitura que pode surgir numa qualquer dobra das duas mil páginas (os dois volumes já editados mais o terceiro com material do espólio de Musil que virá lá para o Outono) da monumental edição da Dom Quixote, numa autorizada tradução de João Barrento.</p>
<p>Ler <a href="http://oquecaidosdias.wordpress.com/2008/02/25/o-homem-sem-qualidades/" target="_blank">aqui</a> um <em>retrato de momento</em> de Robert Musil.</p>
</div>]]></content:encoded>
</item>
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<title><![CDATA[Teoria breve da evidência]]></title>
<link>http://oquecaidosdias.wordpress.com/2008/04/16/teoria-breve-da-evidencia/</link>
<pubDate>Wed, 16 Apr 2008 12:44:09 +0000</pubDate>
<dc:creator>João Ventura</dc:creator>
<guid>http://oquecaidosdias.wordpress.com/2008/04/16/teoria-breve-da-evidencia/</guid>
<description><![CDATA[Releio todos os contos de Exploradores do abismo, de Enrique Vila-Matas e dou-me conta que tudo ali ]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><p><a href="http://oquecaidosdias.files.wordpress.com/2008/04/vilamatas-olivier-roller.jpg"></a></p>
<p><a href="http://oquecaidosdias.files.wordpress.com/2008/04/vilamatas-olivier-roller1.jpg"><img class="alignnone size-medium wp-image-629" src="http://oquecaidosdias.wordpress.com/files/2008/04/vilamatas-olivier-roller1.jpg" alt="" width="264" height="300" /></a></p>
<p>Releio todos os contos de <em>Exploradores do abismo,</em> de Enrique Vila-Matas e dou-me conta que tudo ali é tremendamente verosímil, até mesmo as histórias mais recambolescas como a dos encontros e desencontros entre o mais <em>vilamatiano</em> dos narradores, por acaso muito parecido com Vila-Matas ele mesmo, e Sophie Calle. O que faz, então, Vila-Matas caminhar como um funâmbulo da escrita sobre as cordas que estende sobre os abismos da literatura buscando novas estações de luz nos interstícios de metáforas apagadas da experiência quotidiana? Onde, então, procurar a sua atitude vanguardista face à ficção? Precisamente no processo <em>vilamatiano</em> de «desfamiliarizar uma experiência e dela se apropriar como ficção». Não, portanto, numa intenção de estilhaçar prescrições formais ou normas de conduta narrativa; não numa vontade de subversão da realidade, da sua substituição pela fantasia, pelo mágico, pelo mítico. Mas de acordo com a visão aristotélica de representação ficcional muito próxima da imitação do real. Verosimilhança, portanto. E verosimilhança que em Vila-Matas se manifesta na sua capacidade de assumir o evidente sem pedir explicações à evidência, segundo uma <em>teoria</em> que li já não sei onde; de buscar possibilidades ficcionais na vida de todos os dias; de convocar a sua experiência pessoal, vivida, e efabulá-la; de explorar abismos reais e imaginários e, às vezes, precipitar-se no vazio; de cruzar personagens reais e fictícias; de navegar no fragmentário e no rasto do casual ou da memória súbita de livros, vidas, citações perdidas; de convocar o acaso para determinar destinos de vidas alheias, às vezes, a sua própria vida ou a de um narrador que se parece demasiado com ele; de levar-nos a acreditar e, ao mesmo tempo, a duvidar do que julgamos verdadeiro ou falso; de domesticar a fantasia mais inverosímil sob o manto diáfano do real e de esconder a realidade mais verosímil sob a insolência da fantasia mais cintilante. Enfim, de nos fazer acreditar a nós leitores, funâmbulos também na corda bamba da escrita<em> vilamatiana</em>, que toda a ficção é real e que toda a realidade ficcionada é uma nova realidade que somos convidados a explorar como expedicionários de um território que existe «fora daqui» e onde, aí sim, sugere Vila-Matas, nos adentramos na vida. Até porque, como escreveu Pessoa, «a literatura não é mais do que uma tentativa de tornar real a vida».</p>
<p>[Ao alto fotografia de Enrique Vila-Matas por Olivier Roller]</p>
</div>]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[Verosimilhanças]]></title>
<link>http://oquecaidosdias.wordpress.com/2008/04/13/verosimilhancas/</link>
<pubDate>Sun, 13 Apr 2008 17:26:09 +0000</pubDate>
<dc:creator>João Ventura</dc:creator>
<guid>http://oquecaidosdias.wordpress.com/2008/04/13/verosimilhancas/</guid>
<description><![CDATA[Como um funâmbulo da leitura volto a caminhar em equilíbrio instável sobre a corda bamba que Enrique]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><p><a href="http://oquecaidosdias.files.wordpress.com/2008/04/vila-matas.jpg"><img class="alignnone size-medium wp-image-625" src="http://oquecaidosdias.wordpress.com/files/2008/04/vila-matas.jpg" alt="" width="278" height="300" /></a></p>
<p>Como um funâmbulo da leitura volto a caminhar em equilíbrio instável sobre a corda bamba que Enrique Vila-Matas estende sobre as dezanove estações abismais que integram a cartografia do vazio do seu mais recente livro, <em>Exploradores do abismo</em>, que a Teorema acaba de publicar. Mas, ao contrário da minha primeira <a href="http://oquecaidosdias.wordpress.com/2007/12/06/o-ultimo-vila-matas-o-outro-e-o-mesmo/" target="_blank">expedição</a> em que me deixei ir por ali à deriva, perseguindo elipses e labirintos, em busca da realidade disfarçada na ficção, encaminho-me agora directamente para  o centro do vazio &#8211; porque é aí «no centro do vazio [que] há outra festa», segundo o verso de Roberto Juarroz citado por Vila-Matas - que se encontra no conto «Porque ela me pediu», em torno do qual se estrutura este livro profundamente <em>vilamatiano</em> que estilhaça as fronteiras da realidade e da ficção mostrando-nos como até a fantasia mais inverosímil pode ser domesticada através do filtro de metáforas apagadas da vida de todos os dias e, ao mesmo tempo, como a realidade mais verosímil pode ser vivida com a insolência da fantasia que cintila na ficção.</p>
<p>Expedição breve, mas que, ainda assim, permite descobrir que é ali naquela estação que dá pelo nome de «Porque ela não lho pediu» que se encontra o epicentro absoluto da verosimilhança. Vou instável mas ligeiro, primeiro, no encalço da personagem <em>vilamatiana</em> Rita Malú que viaja ao fundo do vazio, nos Açores, em busca do seu próprio fantasma e se enreda numa trama ficcional que se vai tornando verosímil graças às bifurcações das trajectórias das restantes personagens entre o lado de cá e o lado de lá da realidade - ou da ficção? E adiante descubro que essa mesma ficção se transfigura na mais verosímil realidade em que se adentra a escritora Sophie Calle quando decide protagonizar a ficção escrita por Vila-Matas. E, no final desta breve expedição, constato que tudo não passa, afinal, de um embuste para onde fui arrastado num jogo ficcional aberto a todas as possibilidades e onde a verdade e mentira se imbricam num processo <em>vilamatiano</em> de «desfamiliarizar uma experiência e dela se apropriar como ficção».</p>
<p>Mais <em>vilamatiano</em> que isto não há. Quem disse que este Vila-Matas já não era ele mesmo mas <em>outro</em>? O próprio? A verdade da mentira, portanto.</p>
</div>]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[Topografias]]></title>
<link>http://oquecaidosdias.wordpress.com/2008/04/08/topografias/</link>
<pubDate>Tue, 08 Apr 2008 23:27:21 +0000</pubDate>
<dc:creator>João Ventura</dc:creator>
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<description><![CDATA[Escreve W. G. Sebald no breve ensaio «O mistério da pele castanho-rubra» (in Campo Santo) que dedica]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><p><a href="http://oquecaidosdias.files.wordpress.com/2008/04/caderno.jpg"></a></p>
<p><a href="http://oquecaidosdias.files.wordpress.com/2008/04/promeneur.jpg"></a><a href="http://oquecaidosdias.files.wordpress.com/2008/04/topografias.jpg"><img class="size-medium wp-image-623 alignnone" src="http://oquecaidosdias.wordpress.com/files/2008/04/topografias.jpg?w=400" alt="" width="400" height="264" /></a></p>
<p>Escreve W. G. Sebald no breve ensaio «O mistério da pele castanho-rubra» (in <em>Campo Santo</em>) que dedica a Bruce Chatwin que os seus livros são difíceis de classificar. «[...] Histórias de aventuras ligadas às nossas primeiras leituras infantis, recolhas de factos reais, livros de sonhos, romances folclóricos, exemplos de exotismo apaixonado, penitências puritanas e arrebatadoras visões barrocas, negação de si e confissões: são todas essas coisas juntas.» Não é, por isso, de estranhar que o caminhante solitário Sebald vá no encalço do viajante incansável Chatwin seguindo as suas pisadas escritas nos cinco livros que publicou [<em>Os gémeos de Black Hill</em>, <em>Anatomia da errância</em>, <em>O que faço eu aqui</em>, <em>Na Patagónia e Canto nómada,</em> editados em Portugal pela Quetzal] e que numa curva dessa abordagem <em>chatwiniana</em> se detenha a comentar «a sua mania de respigar e coleccionar transformando depois os fragmentos achados em significantes mementos carregados de mistério», evocativos de territórios longínquos que o nosso sedentarismo nos impede de alcançar mas em cujos mapas imaginários nos adentramos guiados pela sua prosa nómada.</p>
<p>É que, tal como os livros de Sebald, também os livros de Chatwin são difíceis de classificar, oscilando entre a reportagem, o ensaio, o diário e as memórias que constrói e desconstrói a partir de achados quotidianos sedimentados em camadas de esquecimento que vai recolhendo nas bermas dos caminhos da sua peregrinação pelo mundo. E, tal como Sebald, também Chatwin era um agrimensor de paisagens, um taquígrafo da errância, um imitador de vozes, um virtuoso das anotações. E ambos partilhavam a avidez fetichista de respigar e coleccionar sedimentos do mundo à sua volta: Sebald, as desvanecidas e enigmáticas fotografias que, depois, incorporava nos seus textos; Chatwin, os achados trazidos do fim do mundo e carregados de histórias apócrifas que, depois, levam a nossa imaginação para lá do sol posto. Sebald, um metafísico da história caminhando à beira do precipício contra o esquecimento. Chatwin, um metafísico da sete paragens do mundo que escolheu a viagem como respiração. Cada um à sua maneira, topógrafos da sobrevivência.</p>
</div>]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[Caminhos cruzados]]></title>
<link>http://oquecaidosdias.wordpress.com/2008/04/04/caminhos-cruzados/</link>
<pubDate>Fri, 04 Apr 2008 20:40:06 +0000</pubDate>
<dc:creator>João Ventura</dc:creator>
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<description><![CDATA[Pergunta-se W. G. Sebald no micro-ensaio «Uma tentativa de restituição» (in Campo Santo) «quais são ]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><p><a href="http://oquecaidosdias.files.wordpress.com/2008/04/sebald3.gif"><img class="size-medium wp-image-617 alignnone" src="http://oquecaidosdias.wordpress.com/files/2008/04/sebald3-224x300.gif" alt="" width="224" height="300" /></a></p>
<p>Pergunta-se W. G. Sebald no micro-ensaio «Uma tentativa de restituição» (in <em>Campo Santo</em>) «quais são as relações invisíveis que determinam a nossa vida, como se estendessem os fios» entre acontecimentos distantes ditados por uma estranha lei que nos escapa. O que liga a prosa anímica do caminhante Sebald ao rasto já há muito extinto do passeante Robert Walser mas que continua visível no papel? Onde se cruzam as suas biografias? Talvez no facto de Sebald ter vivido toda a sua infância com o avô materno, que não só tinha o hábito das grandes caminhadas como Walser, como, ainda, era muito parecido fisicamente com ele e, se não bastasse essa coincidência, ter também ele morrido na neve enquanto passeava solitário numa paisagem semelhante àquela em que Walser sucumbiu fulminado e que distava apenas cem quilómetros de Herisau e, ao que parece, no dia anterior ao do último aniversário do escritor suíço. Talvez, depois, na circunstância de ambos remeterem para uma espécie de poética da extinção; em Walser através de elegantes fantasias poéticas que vai traçando, tenuamente, a lápis no papel para melhor desaparecer, uma frase fazendo sempre esquecer a anterior; e em Sebald sedimentada em camadas de esquecimento nos escombros que ele vai escavando através de uma prosa pausada e cadenciada para melhor dar conta do desvanecimento da história. Talvez, ainda, porque, um e outro, entreviam o mundo envolto numa estranha quitetude; Walser caminhando solitário sob a luz cristalina da manhã em busca do espírito da montanha; Sebald procurando resgatar uma moral da natureza. Um e outro procurando uma cintilação qualquer no tecido puído do tempo.</p>
<p>Seriam estas as causualidades que levaram Sebald, em 1997, na primeira sessão do ciclo de lições que proferiu na Universidade de Zurique, a evocar o passeio de Carl Seeling com Walser, nos arredores do manicómio de Herisau, no Verão de 1943 &#8211; passeio que aquele, depois, relataria na biografia que lhe dedicou-, precisamente no mesmo dia do bombardeamento de Hamburgo descrito em <em>História natural da destruição</em>? «Não são casualidades &#8211; diria Sebald se lhe perguntassem sobre o que o liga a Walser &#8211; trata-se apenas de existir algures uma relação que de quando em quando cintila por entre um tecido puído.». Como também não é casualidade eu ter terminado de ler os ensaios literários de <em>Campo Santo</em> e me ter interrogado por não encontrar ali qualquer referência Walser &#8211; como se a sua biografia fosse tão delicada e a sua prosa tão leve que tornasse quase impossível seguir-lhe o rasto, mesmo para alguém como Sebald tão habituado em fazer incursões fantásticas nos territórios dos excêntricos cujos sedimentos vasculha nas camadas de esquecimento para onde os seus passos de caminhante solitário e de narrador interpelante o levam sempre que se dispõe a ir por aí, entre ruínas, &#8211; e, depois, alguém me ter trazido um outro ensaio de Sebald (<em>El paseante solitario. En recuerdo de Robert Walser</em>. W. G. Sebald. Siruela, 2007 (in <em>Logis in einem Landhaus</em>), acabado de ser editado em Espanha, precisamente sobre Walser, e onde o escritor alemão vai por ali, naquele chão de setenta e seis páginas, perseguindo, desde o ponto de vista da fugacidade &#8211; sua e de Walser -, a prosa dançante de repente levantada como uma poeira trágica do tempo incapaz de escapar ao seu destino de, uma e outra vez, continuar a ser lida por Sebald e, agora que Sebald também já cá não está, por todos aqueles que se adentram numa literatura de consternação.</p>
</div>]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[O anjo da história]]></title>
<link>http://oquecaidosdias.wordpress.com/2008/03/31/o-anjo-da-historia/</link>
<pubDate>Mon, 31 Mar 2008 13:37:01 +0000</pubDate>
<dc:creator>João Ventura</dc:creator>
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<description><![CDATA[  Para que serve a literatura? Interroga-se W. G. Sebald no micro-ensaio Uma tentativa de restituiçã]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><p><em><a rel="attachment wp-att-607" href="http://oquecaidosdias.wordpress.com/2008/03/31/o-anjo-da-historia/607/" title="sebald.jpg"></a><a rel="attachment wp-att-608" href="http://oquecaidosdias.wordpress.com/2008/03/31/o-anjo-da-historia/608/" title="angelus_novus.jpg"></a></em></p>
<p><em><a rel="attachment wp-att-609" href="http://oquecaidosdias.wordpress.com/2008/03/31/o-anjo-da-historia/609/" title="angelus1.jpg"><img src="http://oquecaidosdias.wordpress.com/files/2008/03/angelus1.jpg" alt="angelus1.jpg" /></a> </em></p>
<p><em>Para que serve a literatura?</em> Interroga-se W. G. Sebald no micro-ensaio <em>Uma tentativa de restituição</em> que integra o seu livro póstumo <em>Campo Santo.</em> «Talvez sirva apenas para nos lembrar, para nos ensinar a compreender que há estranhas ligações que a lógica casual é incapaz de explicar&#8230;», responde. Talvez sirva para dar conta da<em> consternação do escritor ao ver que à sua volta tudo se desumaniza ou desaparece e que inclusive a própria História s</em><em>e desvanece</em>, como observa Enrique Vila-Matas reportando-se àquilo que define em Sebald como uma <em>poética da extinção</em><em>.</em> Talvez sirva para opor à obsessão moderna pelo esquecimento o imperativo redentor da memória, capaz, ainda, de deixar gravadas no papel um rasto, que não se extinguirá jamais, de um narrador <em>em propulsão</em> atravessando uma paisagem cuja topografia nos sacode, nos interpela, nos propõe uma meditação sobre um amontoado de ruínas, não para nelas sucumbirmos mas para cavar nelas a recordação, a invocação, o lamento, às vezes, a alucinação, vestígios incandescentes de instantes esquecidos que se negam a desaparecer irrompendo na paisagem devastada da nossa modernidade inacabada. </p>
<p>«Escrever é a única maneira de me defender das recordações que tantas vezes e tão inesperadamente me avassalam. Ficassem elas presas na minha memória e o tempo torná-las-ia cada vez mais pesadas, acabariam por me esmagar», confessa Sebald em <em>Os anéis de Saturno. </em>Para isto serve, então, a literatura escavada por Sebald numa História enterrada viva, sedimentada em camadas de esquecimento, mas que palpita, ainda, sob o amontoado de ruínas que o viandante vasculha. Não para buscar qualquer hipótese de redenção que parece já não ser possível, não para se rebelar contra o nihilismo do existente, mas para afrontar com um olhar melancólico a vertigem do vazio da era moderna sem nele se despenhar. Até porque «grande é a distância entre o ponto onde hoje nos encontramos e esse final do século XVIII, quando a esperança de uma melhoria dos males da humanidade e a convicção de que esta seria capaz de aprender se inscreveram em letras bem desenhadas no nosso firmamento filosófico!» («Uma tentativa de restituição», in <em>Campo Santo</em>).</p>
<p>Talvez isso justifique o seu método de escavação do passado, «adoptando uma perspectiva histórica concreta, esculpindo pacientemente, juntando coisas aparentemente alheias umas às outras, ao jeito de uma <em>nature morte</em>» («Uma tentativa de restituição», in <em>Campo Santo</em>). «Uma espécie de metafísica da história através da qual a recordação voltava a ganhar vida» (<em>Austerlitz</em> (2001) nos sedimentos depositados em fortalezas, estações de comboios, colunas, manicómios, campos de concentração e extermínio paisagens, bolsas de valores. Rastos de sofrimento atestando «a sombria viragem da história». Fotografias que «surgem do passado como [...] se tivessem memória e se recordassem de nós», libertando a aura <em>benjaminiana</em> de «um tempo que trás consigo um registo enigmático que remete para a redenção» (Walter Benjamin, <em>Sobre o conceito de história</em>). Correspondências, portanto, vestígios da recordação que a presença elíptica, em <em>Austerlitz</em>, de Proust (de <em>La recherche</em>), de Kafka (referência a um episódio biográfico de Kafka em Marienbad) e de Thomas Bernhardt (a natureza melancólica dos personagens) acentua.</p>
<p>Mas «até onde retroceder para encontrar o começo?» pergunta-se Sebald em busca da sua génese, em <em>Nach der Nature</em> (1988)/<em>Sobre a natureza,</em> o seu primeiro livro. «Quando no Dia da Ascenção/ de quarenta e quatro vim ao mundo,/ a minha mãe viu nisso um bom presságio, sem saber/ que o frio planeta Saturno regia a constelação/ do momento e que, sobre as montanhas,/ espreitava já a tempestade [...] logo imaginei uma catástrofe silenciosa que ocorre/ sem que o espectador o perceba». Antes, a mãe com ele ainda no ventre tinha sobrevivido ao bombardeamento e ao incêndio de Nuremberga que Sebald haveria de contemplar cinquenta anos depois num «quadro de Altdorfer, / que representa a mulher de Lot/ e as suas filhas. No horizonte, / um terrível incêndio/ devora uma grande cidade. /O fumo sobe, /as chamas elevam-se ao céu/ e, no reflexo avermermelhado./ vêem-se obscuras/ fachadas de casas», resgatando da sua memória uterina a matéria das duas conferências que sob o título, <em>Guerra aérea e literatura,</em> proferiria em Zurique, em 1997, e que seriam, depois, publicadas postumamente em <em>História natural da destruição</em> (2003).</p>
<p>Quantas viagens a pé terá feito o caminhante saturnino dos seus livros nos escassos cinquenta e sete anos de uma vida prematuramente destruída numa curva de uma estrada de Norwich, em 14 de Dezembro de 2001? Sigamos os seus passos. Em <em>Vertigem</em> (1990): «Em outubro de 1980 viajei de Inglaterra, onde, vivia, então, havia quase 25 anos, numa região que estava quase sempre ensombrada por um céu cinzento, rumo a Viena, com a esperança de que uma mudança de lugar me ajudasse a superar uma etapa da minha vida particularmente difícil. Porém, em Viena descobri que os dias se tornavam demasiados compridos, agora que não eram ocupados pela minha rotina de escrever e tratar do jardim, e literalmente não sabia onde ir. Saía cedo todas as manhãs e caminhava sem rumo nem objectivo pelas ruas da cidade antiga&#8230;». Depois, prossegue a viagem através do norte de Itália. E ali indaga, interpela, alucina-se, escava vestígios da passagem de Kafka por aqueles lugares, convoca outras biografias de escritores, Stendhal, Casanova, Ernst Hölderlin, Robert Walser, Thomas Mann, Peter Weiss. Depois, em <em>Os emigrantes</em> (1992) relata uma viagem a Deauville em busca de algum «resíduo do passado» para confirmar que «essa praia outrora lendária está em pleno declínio como todos os sítios que hoje se visita, seja qual for o país ou continente, arruinados pelo tráfego automóvel, pelos estabelecimentos comerciais e por essa sanha de destruição sempre insaciável.»; e nessa viagem a pé, ainda, o pretexto para a evocação desoladora dos fugitivos e dos exilados que sob o signo da melancolia se vêem trasladados das suas terras de origem para os quatro cantos do mundo. Depois, em <em><a href="http://oquecaidosdias.wordpress.com/2007/04/16/sebald-viagem-entre-ruinas/#comments">Os anéis de Saturno </a></em>(1995) («Em agosto de 1992, quando os dias caniculares se aproximavam do fim, caminhei pelo distrito de Suffolk, com a esperança de dissipar o vazio que se apodera de mim de cada vez que concluo um trabalho») oferece-nos uma cadenciada meditação intercalada por breves ensaios tão diferentes quanto magistrais sobre Roger de Casement e as infâmias do regime de Leopoldo no Congo, as primeiras aventuras no mar de Joseph Conrad, a natureza da guerra, o ciclo de vida dos arenques, a destruição das grandes florestas do mundo. Finalmente, em <a href="http://oquecaidosdias.wordpress.com/2008/03/27/a-ultima-caminhada/#respond"><em>Campo Santo</em> </a>(2003) - o trabalho que interrompeu em 1995 para escrever <em>Austerlitz -, </em>viaja pela Córsega reflectindo sobre a dor, o luto e a memória.</p>
<p>«Portanto, para que serve a literatura?» Para dar conta do que contempla, horrorizado, o <em>anjo da história</em> ao olhar, na curva do caminho, uma vez mais para trás. Para dar conta da consternação de Sebald contemplando, como Hölderlin, «um reino por demais abstémio onde impera o lamento enganador do lustro traiçoeiro, onde se contam as horas lentas de gelo e de seca e onde só suspiros prezam a imortalidade» («Uma tentativa de restituição», in <em>Campo Santo</em>).</p>
<p>[Ao alto <em>Angelus Novus</em>, de Paul Klee que inspira a <a href="http://www.barglow.com/angel_of_history.htm">tese benjaminiana </a>da fatalidade histórica]</p>
</div>]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[A última caminhada]]></title>
<link>http://oquecaidosdias.wordpress.com/2008/03/27/a-ultima-caminhada/</link>
<pubDate>Thu, 27 Mar 2008 12:27:28 +0000</pubDate>
<dc:creator>João Ventura</dc:creator>
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<description><![CDATA[«O meu primeiro passeio no dia seguinte à chegada a Piana levou-me para fora da povoação, por uma ru]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><p><a title="sebald-camposanto.jpg" rel="attachment wp-att-595" href="http://oquecaidosdias.wordpress.com/2008/03/27/a-ultima-caminhada/attachment/595/"><img src="http://oquecaidosdias.wordpress.com/files/2008/03/sebald-camposanto.jpg" alt="sebald-camposanto.jpg" /></a></p>
<p>«O meu primeiro passeio no dia seguinte à chegada a Piana levou-me para fora da povoação, por uma rua que começava logo a descer numas curvas, esquinas e ziguezagues medonhos, ladeando precipícios rochosos quase verticais&#8230;». Quem por ali vai caminhando é um narrador que dá pelo nome de W. G. Sebald, o passeante solitário e sensitivo que nos habituámos a seguir em peregrinações errantes através dos mapas devastados da nossa modernidade imperfeita. Na linha de <em>Os anéis de Saturno</em>, Sebald aproveita uma viagem à Córsega, durante uma férias de Verão, para percorrer os territórios de uma ancestralidade onírica, onde mora a melancolia, resgastando em quatro fragmentos de um trabalho inacabado &#8211; «todos eles autónomos, [...] um espectro incompleto que não deverá corresponder exactamente ao que viria a ser o livro<em>», </em>como nos informa Sven Meyer, na introdução a<em> Campo Santo,</em> agora editado pela Teorema &#8211; a nostalgia de um tempo sedimentado em camadas de esquecimento ao qual ele volta a opor o imperativo da memória como condição de possibilidade redentora.</p>
<p>O método de Sebald é aqui, ainda, o da caminhada a pé enquanto contemplação, investigação e indagação numa paisagem devastada, com o propósito de buscar uma moral na natureza, meditar sobre estilos de vida desaparecidos, dar conta da consternação do mundo. Nesta derradeira viagem vai primeiro a Ajaccio, «o lugar onde o imperador Napoleão tinha vindo ao mundo», e na casa-museu que lhe é dedicada reflecte sobre as minudências imponderáveis que mudaram o destino da Europa. Depois, visita o cemitério de Piana onde as inscrições das lápides dos túmulos lhe inspiram uma dissertação sobre o desaparecimento do culto dos mortos, sobre a crescente insensibilidade moderna ao luto, a mal disfarçada pressa e mesquinhez com que nos despedimos dos nossos mortos, a exiguidade das suas habitações eternas, sobretudo «nas cidades que avançam inexoravelmente para um número de trinta milhões de habitantes! Para onde vão eles, os mortos de Buenos Aires e São Paulo, da Cidade do México, Lagos e Cairo, de Tóquio, Xangai e Bombaim? [...] Quem se lembrará deles, quem se há-de lembrar?». Finalmente, a contemplação da paisagem fá-lo reflectir sobre a destruição dos antigos bosques alpinos da ilha transformados em reverberações nostágicas &#8211; «tempos houve em que a Córsega era toda coberta de floresta» &#8211; e a denunciar o «sanguinário desporto» da caça, comparando os caçadores às «milícias croatas e sérvias que lhes tinham destruído a pátria com o seu belicismo desvairado», oferecendo-nos a visão consternada de um mundo em<em> vertigem,</em> através de uma prosa meticulosa e cadenciada que oscila entre a reportagem, a crónica de viagens, o registo antropológico e a anotação de história política e social.</p>
<p>Completa o livro um brilhante compêndio de ensaios literários sobre Kafka, Nabokov, Bruce Chatwin e Jean Améry que constituem, a partir de agora, guias incontornáveis para a compreensão da obra de Sebald e que nos mostram a realidade que existe para lá da literatura mas a que só acedemos se nos transformarmos em caminhantes solitários e sensitivos dos livros que resgatamos da memória para neles nos adentrarmos, uma e outra vez, transfigurados em personagens de uma trama que já não sabemos se lida ou vivida, como na recreação nostálgica da viagem de Kafka e Max Brod a Paris &#8211; <em>Via Suíça para o bordel -,</em> que desencadeia em Sebald a recordação da viagem que em criança fizera com a mãe atravessando os mesmos cenários descritos por Kafka nos seus <em>Diários</em>.</p>
</div>]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[Autobiografia oblíqua]]></title>
<link>http://oquecaidosdias.wordpress.com/2008/03/23/autobiografia-obliqua-2/</link>
<pubDate>Sun, 23 Mar 2008 17:55:26 +0000</pubDate>
<dc:creator>João Ventura</dc:creator>
<guid>http://oquecaidosdias.wordpress.com/2008/03/23/autobiografia-obliqua-2/</guid>
<description><![CDATA[  A história já foi contada em várias ocasiões pelo próprio Sérgio Pitol que «vagamente intuiu a sua]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><p><span style="font-size:10pt;font-family:'Verdana','sans-serif';"><a title="sergio-pitol-1.jpg" rel="attachment wp-att-604" href="http://oquecaidosdias.wordpress.com/2008/03/23/autobiografia-obliqua-2/attachment/604/"></a><a href="http://oquecaidosdias.files.wordpress.com/2008/04/sergio-pitol.jpg"><img class="alignnone size-medium wp-image-628" src="http://oquecaidosdias.wordpress.com/files/2008/04/sergio-pitol.jpg" alt="" width="300" height="260" /></a> </span></p>
<p><span style="font-size:10pt;font-family:'Verdana','sans-serif';">A história já foi contada em várias ocasiões pelo próprio Sérgio Pitol que «vagamente intuiu a sua vocação para a literatura num engenho açucareiro veracruzano» durante uma infância trágica. «[…] Uma criança que aos quatro anos perdeu os pais, quase sempre doente, a cargo de uma magnífica avó» a quem deve a iniciação literária. «Comecei com Verne, Stevenson, Dickens […]. A partir de então tudo ganhou sentido: Verne converteu-se numa fonte prodigiosa de revelações. Viajei com ele ao centro da terra, à lua, ao coração de África, ao Amazonas, ao Orinoco, à Antártida e ao fundo dos oceanos. Com ele naveguei no Nautilius e contemplei o rosto da terra com olhos de albatros». E, depois, pela vida fora, não mais deixa de ler, mantendo com a literatura uma relação «visceral, excessiva e também selvagem», como ele próprio confessa.</span></p>
<p><span style="font-size:10pt;font-family:'Verdana','sans-serif';">Desde cedo, também, se torna num escritor de culto, desses que se dão conhecer de boca em boca e que não pactuam com a mundaneidade literária como o fizeram alguns escritores do <em><span style="font-family:'Verdana','sans-serif';">boom</span></em>,<em><span style="font-family:'Verdana','sans-serif';"> </span></em>como Fuentes, García Marquez ou Benedetti. À escrita junta a errância pelo mundo, viaja escrevendo e escreve viajando: «soltar amarras, enfrentar sem medo o mundo grande, arriscar tudo foram decisões que, em fases sucessivas, me modificaram a vida e, portanto, o meu trabalho literário. Nesses anos de errância ganhou forma o corpo da minha obra», confessa numa entrevista recente. Admirador de Jorge Luis Borges, Juan Carlos Onetti, Alejo Carpentier e Juan Rulfo, Sergio Pitol foi, ainda, leitor obsessivo e tradutor dos escritores polacos que foi descobrindo durante os anos em que viveu em Varsóvia: Joseph Conrad, Witold Gombrowicz, especialmente o do período argentino com os seus soberbos diários e os últimos romances, e «o mais genial de todos», Bruno Schulz, autor de <em><span style="font-family:'Verdana','sans-serif';">As lojas de canela</span></em> (Assírio &#38; Alvim), aos quais emprestou sonoridades castelhanas. </span></p>
<p><span style="font-size:10pt;font-family:'Verdana','sans-serif';">Como Tolstói, confessa que apenas sabe escrever sobre o que conheceu e viveu pessoalmente. Por isso, a sua obra alimenta-se das experiências que a sua memória guardou<em><span style="font-family:'Verdana','sans-serif';">,</span></em> constituindo uma espécie<em><span style="font-family:'Verdana','sans-serif';"> </span></em> de biografia paralela: «Um espectro das minhas preocupações, momentos felizes e desafortunados, leituras, perplexidades e trabalhos», escreve em <em><span style="font-family:'Verdana','sans-serif';">El arte de la fuga</span></em>; e, depois, em <em><span style="font-family:'Verdana','sans-serif';">O mago de Viena</span></em>: «Os meus movimentos interiores: manias, terrores, descobertas, fobias, esperanças, exaltações, necessidades, paixões constituiram a materia prima dos meus livros». </span></p>
<p><span style="font-size:10pt;font-family:'Verdana','sans-serif';">Mas como Musil e Broch, Pitol não procura iluminar o que vê, mas sim transfigurar o que o rodeia - o nevoeiro que só se enxerga <em><span style="font-family:'Verdana','sans-serif';">sem óculos</span></em>, esse ruído complexo e disperso do mundo<em><span style="font-family:'Verdana','sans-serif';">, </span></em>as palavras soltas que chegam a um <em><span style="font-family:'Verdana','sans-serif';">ouvido débil</span></em> e receptivo &#8211; e dar-lhe forma através da escrita. Por isso, <em><span style="font-family:'Verdana','sans-serif';">El arte de la fuga</span></em> começa com a descrição miope de Veneza, a cidade dos seus antepassados, depois de Pitol ter perdido os óculos, no que - como conta Enrique Vila-Matas no seu relato da viagem imaginária que juntos fizeram desde México DF para Madrid onde Pitol iria receber o Prémio Cervantes de 2005 - se tornaria reincidente, talvez mesmo fazendo dessa tendência um método particular de apreensão do real: «Via e não via, captava fragmentos de uma realidade mutável». Para poder captar o que há no mundo, é preciso esquecer os óculos do quotidiano. Ou, mais adiante, no ensaio <em><span style="font-family:'Verdana','sans-serif';">El oscuro hermano gemelo</span></em>, descreve um jantar onde as conversas mais interessantes lhe chegam através do ouvido esquerdo, precisamente aquele de que ouve mal, imaginando frases fantasiosas a partir das vozes dispersas que chegam do lado errado da mesa. Ou, ainda, em <em>Vindicación de la hipnosis</em>, quando recorda a morte da mãe numa sessão de hipnotismo. Como se a realidade só pudesse ser apreendida através da sua representação, criando zonas de penumbra, fendas, abismos que o leitor poderá explorar por sua conta e risco. Sem óculos, preferencialmente.</span></p>
<p><span style="font-size:10pt;font-family:'Verdana','sans-serif';">Escritor transgressor de géneros, com a exarcebação permanente de um estilo pessoal que escapa às classificações canónicas e uma enorme agilidade narrativa que convoca anotações autobiográficas, fragmentos de diários, reflexões sobre arte, crónicas da actualidade, viagens e evocações dos autores da <em><span style="font-family:'Verdana','sans-serif';">biblioteca do seu quarto obscuro</span></em> (Chekov, Nabokov, Beckett, Gombrowicz, Borges, Gadda, Mann, Musil, Canetti, Monsiváis, Kafka…), definiu o seu estilo como uma <em><span style="font-family:'Verdana','sans-serif';">autobiografia oblíqua</span></em> que atravessa a sua «trilogia autobiográfica»: <em><span style="font-family:'Verdana','sans-serif';">El arte de la fuga</span></em> (Anagrama, 1997), <em><span style="font-family:'Verdana','sans-serif';">El viaje</span></em> (Anagrama, 2001) e <em><span style="font-family:'Verdana','sans-serif';">El mago de Viena</span></em> (Pre-textos, 2005), todos eles uma mistura de ficções, sonhos, ensaios, diários, leituras de toda uma vida e outras predestinações retiradas da caixa mágica chinesa a que se assemelha a sua obra caracterizada pela mais absoluta insularidade estética.  </span></p>
</div>]]></content:encoded>
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<title><![CDATA[Uma cena quase fulgor]]></title>
<link>http://oquecaidosdias.wordpress.com/2008/03/10/uma-cena-quase-fulgor/</link>
<pubDate>Mon, 10 Mar 2008 16:05:06 +0000</pubDate>
<dc:creator>João Ventura</dc:creator>
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<description><![CDATA[  Decido-me pela recomposição da mesma cena sem fulgor que aqui tentei há dias e que, subitamente, p]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><p><a rel="attachment wp-att-584" href="http://oquecaidosdias.wordpress.com/2008/03/10/uma-cena-quase-fulgor/584/" title="mgllansol.jpg"><img src="http://oquecaidosdias.wordpress.com/files/2008/03/mgllansol.jpg" alt="mgllansol.jpg" /></a> </p>
<p>Decido-me pela recomposição da mesma cena sem fulgor que aqui tentei há dias e que, subitamente, perdi numa fenda no monitor. Reconstituição de uma paisagem de livros amontoados sobre a escrivaninha, ancoradouro de imagens, descrições, conceitos, fonte de energia visível convocada para um texto a haver. Os livros são de <a target="_blank" href="http://espacollansol.blogspot.com/">Maria Gabriela Llansol </a>(1931-2008) - <em>O livro das comunidades, Finita, Lisboaleipzig 1, Um falcão no punho, O senhor de Herbais, Os cantores de leitura </em>- insondáveis moradas de uma escrita que oscila entre o exprimível e o inexprimível - nem ficção, nem poesia, nem drama, nem ensaio, nem autobiografia, talvez tudo isso num mesmo livro -, criando um efeito de estranheza ou mesmo de ilegibilidade a quem ousa atravessar o umbral de uma textualidade que luta contra a narratividade convencional, integrando-a através de uma «escrita laboratório» numa nova ordem ou constelação discursiva que, como diria Blanchot, «[escapa] a toda a determinação essencial, a toda a afirmação que a estabilize». Uma textualidade em que a «escrita salva, redime, sustenta o bruxulear de uma luz, abre a vacilação de um caminho, e a literatura, essa, já começou a ficar para trás», diz Eduardo Prado Coelho. Porque já só «importa saber em que real se entra, e se há técnica adequada para abrir caminho a outros» [<em>Um falcão no punho</em>, ]. E trazê-los ao «encontro inesperado do diverso», através de uma <em>sobre-impressão</em> e anulação de tempos, de lugares, de figuras, também de <em>rasas evidências</em> que põem em andamento um pensamento nómada que prefere o <em>fulgor</em> à <em>verosimilhança.</em> E que acolhe Maria Gabriela Llansol nessa textualidade? «Ando a contar o mal-estar profundo dos seres humanos, dos animais e das plantas, <em>ando à procura de um final feliz</em>. Ando a ver se o fulgor que, por vezes, há nas coisas, é melhor guia do que as crenças sobre elas, ou dos pensamentos que, a propósito delas, nos ocorrem.» [<em>Lisboaleipzig 2</em>].</p>
<p>Vou, então, também, à procura de <em>um final feliz</em> nos livros dispostos sobre a escrivaninha, caminhando neles como quem «<em>exercita</em> os pés por entre as imagens e as mãos sobre a escrita.» (<em>O senhor de Herbais</em>). E os «pés» levam-me aos lugares. Bruges. «Fez-se ali o nó de que depois desfiei o texto. Comecei nas beguinas; destas, passei a Hadewich, Ruybroeck. Destes, a João da Cruz e a Ana de Peñalosa. Fui conduzida por todos eles a Müntzer, à batalha de Frankenhausen e à cidade utópica de Münster, na Vestefália. Nos restos fracassados destes homens encontrei Eckhart, Suso, Espinosa, Camões e Isabel de Portugal. E foi por sua mão que fui até Copérnico, Giordano Bruno, Hölderlin, que todos eles anunciavam Bach, Nietzsche, Pessoa, e outros que a nossa memória ora esquece, ora lembra tão intensamente que me parece outra forma de os esquecer. De esquecer tudo isso.» (<em>Lisboaleipzig 1</em>).</p>
<p>Primeiro, então, os lugares das paragens llansolianas. O <em>béguinage</em> de Bruges, um dos mais antigos lugares da espiritualidade laica flamenca durante a Idade Média, «encruzilhada do espiritual, num sítio ainda vazio», mas onde «havia as mulheres beguinas, ao lado dos portugueses descobridores de novos mundos, tornados oportunistas e comerciantes de especiarias; havia rebeldes ocultos mas já no rasto da liberdade de consciência; havia místicos com um pensamento&#8230;» (<em>Lisboaleipzig 1</em>). Ou as livrarias de Lovaina em cujas vitrinas M. G. Llansol descortina a crescente rasura da literatura que vai perdendo o seu sentido teológico e, logo, a sua literariedade: «Há muito que não frequento as livrarias de Lovaina, em que começava a enervar-me a lei do número, o modo de expor, e um certo relento de Universidade. (&#8230;) O que me choca é a vastidão dos textos que não ficarão e que, hoje, no espaço fechado da livraria, fazem um ruído ensurdecedor de <em>pacotage</em> que quase tornou inaudível o diálogo entre os livros que falam e mantêm entre si a arte da conversação infindável sobre o entresser.» (<em>Finita</em>).  Ou os lugares domésticos povoados pelas figuras dos dias <em>-</em> a cozinha na casa de Joidogne &#8211; onde, subitamente, desponta o enigma: «estou em baixo, na cozinha ampla e branca, a preparar uma refeição, voltada para a mesa redonda, e de costas para o armário mural. A cozinha mergulha numa luz que vem do fulgor. A janela, que tem por cortinado uma colcha das ilhas é, atraentemente, uma fonte.» (<em>Finita</em>). Outra casa mais tarde, na aldeia anónima de Herbais, onde se deu como desaparecida para melhor afirmar a sua obra: «Fui para Herbais pedir a esmola do silêncio. Viver em segredo não é crueldade. Mas, para viver em segredo, é preciso um companheiro do mesmo reino.» (<em>Lisboaleipzig 1</em>). Da cidade de Lovaina à vila de Jodoigne e, depois, à aldeia perdida de Herbais. E, finalmente, Colares. Assim, por esta ordem, dos lugares urbanos para a ruralidade, do deserto social para o jardim selvagem do pensamento. Lugares onde nunca estive, mas que irrompem, fulgurantes, na paisagem da minha escrivaninha. Como num quadro de Vermeer.</p>
<p>E, depois, nessas paragens vibrantes, rostos, memórias, visões, «hóspedes de rara presença», fulgurações de figuras «intensas»  - Musil e Teresa de Ávila, Rilke e Bach, Teresa de Lisieux e Nietzsche, Spinoza e S. João da Cruz &#8211; ressuscitados através da escrita para deambularem agora no chão ondulante das moradias dispostas sobre a minha escrivaninha, tão reais como estes <em>dedos que escrevem</em> e <em>tocam a labareda</em>, deixando aqui, neste texto a haver, fragmentos, frases, balbuciamentos dos mundos que o mundo tem.</p>
<p>E eu leitor, <em>legente</em> sim, mas não devoto, que das moradias llansolanianas apenas conheço <em>a casa de fora,</em> a habitação reservada aos não eleitos<em>,</em> ouso deslizar furtivamente para os <em>quartos dos fundos</em> e, por instantes, talvez, vislumbrar «a serenidade e a justeza das coisas evidentes: pão, água, o convívio com as plantas e os animais, alguma luz mesmo de noite, alguma noite no corpo da própria luz. E o amor como partilha do mais difícil.» (Eduardo Prado Coelho, <em>Público</em>, 11 Junho 1991).</p>
<p><em>Um final feliz</em>? A morte nunca é feliz, mas podemos ir ao seu encontro - como disse um dia Maria Gabriela Llansol - «sem medo do fim que vem depois, e nos deixa sozinhos com a chama da vela na paisagem.»</p>
<p>[Fotografia ao alto, de Álvaro Rosendo]</p>
</div>]]></content:encoded>
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<title><![CDATA[Desditosas pontes]]></title>
<link>http://oquecaidosdias.wordpress.com/2008/02/29/desditosas-pontes/</link>
<pubDate>Fri, 29 Feb 2008 11:43:02 +0000</pubDate>
<dc:creator>João Ventura</dc:creator>
<guid>http://oquecaidosdias.wordpress.com/2008/02/29/desditosas-pontes/</guid>
<description><![CDATA[  Há alguns anos atravessei de comboio o território que corresponde hoje ao mosaico de novos países ]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><p><a rel="attachment wp-att-578" href="http://oquecaidosdias.wordpress.com/2008/02/29/desditosas-pontes/578/" title="visegradbridge.jpg"><img src="http://oquecaidosdias.wordpress.com/files/2008/02/visegradbridge.jpg" alt="visegradbridge.jpg" /></a> </p>
<p>Há alguns anos atravessei de comboio o território que corresponde hoje ao mosaico de novos países que resultaram da desagregação da antiga Jugoslávia e a imagem que ainda guardo dessas terras corresponde à lenda que agora leio relatada por Ali-hodza Mutevelic´ no romance de <a target="_blank" href="http://www.cavalodeferro.com/index.php?action=manufacturer_info&#38;manufacturers_id=11">Ivo Andric</a>´, <em>A ponte sobre o Drina </em>[Cavalo de Ferro], um território cuja superfície<em> foi arranhada pelas garras do demónio,</em> formando «profundos rios e ravinas, dividindo umas terras de outras e separando os homens, impedindo-os de viajar por essa terra que Alá lhes tinha dado para seu governo e sustento». Por isso, conta-nos, ainda, o <em>hodza,</em> «o maior e mais abençoado bem-fazer é construir uma ponte (&#8230;) e o maior pecado é mexer nelas».</p>
<p>E, por estes dias em que as pontes de Mitrovic que separam as secções sérvia e albanesa da cidade se encontram encerradas pelos soldados da KFOR para prevenir males maiores na sequência da proclamação unilateral da independência do Kosovo &#8211; festejada bizarramente nas ruas de Pristina com bandeiras de países estrangeiros -, vou entrando no <em>Hotel zur Brücke,</em> sobranceiro ao Drina, onde, no romance de Andric´, converge o universo multi-étnico de Visegrad, e pergunto-me quais os demónios que vieram <em>arranhar com as suas garras</em> esta terra, cavando os abismos de medo e ódio que aí estão à espera que <em>os anjos estendam de novo as suas asas para que os homens os possam franquear</em>, como na lenda contada pelo <em>hodja.</em></p>
<p>As histórias d´<em>A ponte sobre o Drina</em> passam-se na pequena cidade bósnia de Višegrad, e têm por palco a desditosa ponte fronteiriça que a partir de 1992 foi lugar de execução pública de muçulmanos que eram lançados à corrente tumultuosa do Drina por extremistas sérvios [como se retrata no filme homónimo de Xavier Lukomski que passou, creio, num DocLisboa recente], numa encenação trágica da mesma limpeza étnica que os <em>cetnici</em> de Milosevic e Karadzic iam multiplicando por toda a Bósnia transformada num teatro da crueldade cujo palco principal foi a cidade dilacerada de Sarajevo<span style="font-size:12pt;font-family:Georgia;">. <span style="font-size:10pt;font-family:Verdana;">Aquela Sarajevo cuja paisagem entre ruínas atravessámos no filme de Theo Angelopoulos, <em>O olhar de Ulisses</em><span style="font-family:Verdana;"><em>,</em> onde</span> Harvey Keitel empreende uma espécie de jornada épico-catártica de um Ulisses contemporâneo em busca do passado e do sentido para a própria existência desolada: «Quando eu voltar será nas vestes de outro homem. O meu regresso será inesperado…»</span></span></p>
<p><span style="font-size:12pt;font-family:Georgia;"><span style="font-size:10pt;font-family:Verdana;"></span><span style="font-family:Verdana;"></span></span><span style="font-size:12pt;font-family:Georgia;"></span><span style="font-size:12pt;font-family:Georgia;"></span><span style="font-size:12pt;font-family:Georgia;"><span style="font-size:10pt;font-family:Georgia;"></span></span>Destes episódios não conta o romance, nem poderia contar porque Ivo Andric´ já não os testemunhou. Nesse magnífico fresco que é <em>A ponte sobre o Drina,</em> Andric´ conta-nos sim do bulício humano na cidade de Visegrad &#8211; sérvios ortodoxos, croatas católicos, judeus sefarditas, turcos, muçulmanos e, no último escalão social, uma chusma de ciganos utilizados como carrascos em matanças incendiadas pelos ventos dissonantes da história &#8211; cujo destino se traça em torno da «eterna ponte, eternamente igual a si mesma, [sobre] as águas verdes, espumosas e agitadas do Drina». E conta-nos, também, episódios tormentosos conduzidos, então, pelos muçulmanos contra os sérvios durante o longo período de ocupação otomana &#8211; de que a cruel cena do empalamento do <em>hajduk</em> sérvio relatado no romance constitui metáfora absoluta -, mas que a manipulação mediática actual tem silenciado por considerar  <em>politicamente incorrecta</em> a divulgação dessa outra face da história.</p>
<p>«Croata por origem e católico por fé, sérvio por adopção, bósnio por nascimento e pelos matizes da sua própria obra, jugoslavo por determinação e identidade» - como o retrata escritor croata Predag Matvejevic, em <em>Le monde &#8220;ex&#8221; </em>[Fayard] -, há quem critique em Andric´uma visão que tende a apresentar a época otomana retratada na sua obra, em coerência com a historiografia nacional sérvia, como um período de singular sofrimento sérvio, extigmatizando assim os muçulmanos da Bósnia como «renegados» por terem adoptado a cultura do invasor, comparando-o com Emir Kusturika cuja posição relativamente à questão bósnia sempre foi muito apreciada em Belgrado. Talvez por isso, os nacionalistas croatas o tenham acusado de ter traído a sua própria nação; e os nacionalistas sérvios dele se tenham apropriado, ignorando a sua visão comospolita; e os nacionalistas bósnios muçulmanos lhe tenham reprovado ter descrito o sofrimento da população cristã sob o domínio turco.</p>
<p>Mas estas, sim, todas elas, visões parciais e desfocadas de um escritor que, acima de tudo, foi sempre «balcânico e integrador» como o definiu o escritor triestino Claudio Magris: «<em>Sérvio</em> pareceu-lhe ser a expressão que melhor equivaleria a <em>jugoslavo</em> e esta, por sua vez, não é mais que a ambição de <em>bósnio</em>, essa forja de história e vida, essa unidade captada nas diferença e construída, também, através do conflito, que ele aprendeu na sua terra natal» [<em>Utopia y desencanto,</em> Anagrama]. Isto é, na Bósnia, que sempre foi para ele a dolorosa metáfora da existência e da convivência atraiçoadas, para a qual se exigia, como ele dizia, «quatro vezes mais de amor e de compreensão mútua» que para o resto dos países. Porque a Bósnia era &#8211; ainda será? - um mundo baseado na fragmentação e na rejeição de qualquer programa de inclusão globalizadora, que haveria de degenerar na homogeneidade étnica agrilhoada dentro da rigidez das fronteiras cavadas após a última guerra balcânica que «apenas o ódio consegue transpor», estilhaçando a utopia cosmopolita de Sarajevo.</p>
<p>O que verdadeiramente nos conta Andric´é a vida dos homens e mulheres que construíram a ponte de Visegrad e a vida daqueles que ao longo de cinco séculos foram protagonistas, ou apenas vítimas, dos muitos conflitos que assolaram aquela região dos Balcãs:<em> </em>«tais acontecimentos foram recordados e contados juntamente com as histórias sobre a construção da ponte durante muito tempo (…) por fim, passaram a lenda, como a das fadas, Stoja e Ostoja e outras maravilhas semelhantes» &#8211; que se revelam ao longo de séculos nessa desditosa ponte transformada em lugar de passagem, de encontros, de conversas, de conspirações, de suicídios, de execuções; de trânsito de exércitos em debandadas, uma vezes, de desfilada de exércitos vitoriosos, outras vezes, testemunhando o desmoronar de Impérios e o surgir de novas nações, enquanto «a ponte sacudia de si, como quem sacode o pó, todos os traços que nela deixavam os caprichos humanos ou os acontecimentos efémeros e permanecia, depois de tudo passar, inalterada e inalterável».</p>
<p>E nesse contar Ivo Andric´ lembra o grão-vizir Mehemed-Paxá que mandou construir aquela ponte sobre o Drina. É que o vizir era ele próprio bósnio de nascença, de uma cidade da montanha; e era um menino de dez anos de idade, cristão, quando os turcos o levaram para Istambul como tributo de sangue; mais tarde tornou-se almirante e genro do sultão. Mas «aquela estranha dor que trouxera da infância na Bósnia, na barca de Višegrad, o punhal negro, lancinante, que de tempos a tempos lhe cortava o peito em dois» nunca o abandonaria. Tal como a sua identidade bósnia que de vez em quando lhe fazia sentir que nele próprio vivia também um <em>outro, </em>constituindo<em> </em>a ponte que mandara construir aquilo que <em>ligava</em> as duas metades de si. Ora, Andric´ foi, também ele, um construtor de <em>pontes,</em> como ele próprio confessa numa crónica intitulada, precisamente, <em>As pontes</em>: «De cada vez que evoco as pontes vêm-me à memória não aquelas que eu atravessei, mas aquelas (&#8230;)  onde o homem se confronta com obstáculos. (&#8230;) Grandes pontes de pedra, testemunhos de épocas esgotadas nas quais, se nelas tivesse vivido, penso, tê-las-ia construído de outro modo» [cit. por Predag Matvejevic, op. cit.]. Talvez, por isso, por não se rever nas pontes desditosas erguidas entre o Oriente e o Ocidente que, parece, já só o ódio consegue franquear, Ivo Andric´tenha nos últimos anos da sua vida preferido dar-se como desaparecido numa terra cavada pelos abismos negros de todos os nacionalismos.</p>
</div>]]></content:encoded>
</item>
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<title><![CDATA[O homem sem qualidades]]></title>
<link>http://oquecaidosdias.wordpress.com/2008/02/25/o-homem-sem-qualidades/</link>
<pubDate>Mon, 25 Feb 2008 10:52:41 +0000</pubDate>
<dc:creator>João Ventura</dc:creator>
<guid>http://oquecaidosdias.wordpress.com/2008/02/25/o-homem-sem-qualidades/</guid>
<description><![CDATA[  «&#8230; pensei, larga a técnica de uma vez por todas. Torna-te escritor, engraxador, criado, qual]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><p><a rel="attachment wp-att-439" href="http://oquecaidosdias.wordpress.com/2008/02/25/o-homem-sem-qualidades/439/" title="musil.jpg"><img src="http://oquecaidosdias.wordpress.com/files/2007/10/musil.jpg" alt="musil.jpg" /></a> </p>
<p>«&#8230; pensei, larga a técnica de uma vez por todas. Torna-te escritor, engraxador, criado, qualquer dessas coisas americanas, e afirma-te literariamente», anotara Robert Musil logo em 1905, num dos seus cadernos dos <em>Diários</em>. E aos poucos irá esvaziando a sua vida de qualidades, transformando-se, sobretudo a partir da segunda metade da década de vinte, num <em>autor sem biografia</em>, mergulhando na escrita do que viria a ser o romance <em>O homem sem qualidades,</em> como escreverá, em 1948, o seu compatriota Hermann Broch: «Partilho alguma coisa com Kafka e Musil: nenhum de nós tem propriamente uma biografia; vivemos e escrevemos, e é tudo».</p>
<p>Como fazer, então, um <em>retrato de momento</em> de um escritor que se deu como desaparecido da vida, exaltando a ideia de um «homem sem qualidades» a quem a escrita usurpou a biografia, sem escamotear, no entanto, os traços de carácter plasmados na sua obra independentemente da sua vontade? Um homem com uma personalidade simultaneamente neurótica e metódica que só encontrará vazão na sua obra. Um espírito livre de quem não sabe para onde vai, mas que sabe que não seguirá pelos caminhos por onde o querem empurrar. Uma existência nas margens do mundo que ali estava, tão cheio de «qualidades» num tempo apresado por efeito do choque entre a latência adiada e um porvir ameaçador, povoado de máscaras, simulacros e perplexidades que espreitavam na moderna Viena. Mas também um espírito perturbado pelas fantasmagorias do progresso que assolavam a «Cacânia» musiliana e que os dias que viriam se encarregariam de desconstruir como a desintegração da sociedade hierárquica austríaca e da chamada cultura de <em>fim de século</em> que Broch descreveria como um «apocalipse alegre», uma espécie de nihilismo austríaco com estilo. Eis a Viena descrente de Musil, e de Canetti, de Broch, de Hoffmannsthal, de Kraus, de Wittgentein, de Freud, com os seus cafés &#8211; Herrenhof, Central, Giensteidl, Museum -, onde o «progresso» carrega já consigo o estigma do transitório, numa espécie de borbulhar de superfície e de vivência não reflectida que, obstinadamente, os seus escritores e filósofos, procuram contrariar com - eles sim - uma aguda consciência nihilista de um tempo terminal admiravelmente retratado por Karl Kraus na sua peça <em>Os últimos dias da humanidade</em> [Antígona].</p>
<p>Talvez partir, primeiro, de <em>As perturbações do pupilo Törless</em> (1906),<em> </em>uma quase autobiografia da sua juventude, uma espécie de <em>Werther</em> pessoal e uma «necrologia profética», segundo Hermann Broch, em que o jovem Törless fala da «segunda vida das coisas, secreta e esquiva [...], uma vida que não se exprime em palavras e que, ainda assim, é a minha vida». Por isso, a belíssima epígrafe de Maeterlinck. E depois, perseguir as mais de duas mil páginas de <em>O homem sem qualidades</em> (1930-1942), uma obra que extravasa o realismo crítico da narrativa histórica sobre o destino austro-húngaro, que o próprio autor rejeita afirmando «[não] tentar a sério pintar um quadro histórico e entrar em competição com a realidade». Antes, uma portentosa descida à profundidade da sua alma «pós-moderna», um livro obsessivamente radical em termos literários e humanos, e que será ele próprio, também, fonte de perturbação do autor que sente que «não o domina» [Maurice Blanchot, «Musil», <em>O livro por vir,</em> Relógio d´Água, 1984], até porque esse livro não tem, não terá, as «qualidades» dos cânones literários da época. Um livro insuportável devido à sua «monstruosidade» literária que estilhaçará as fronteiras do género para desagrilhoar o humano na tentativa utópica de alcançar a totalidade do mundo. Um mundo que às vezes se nos apresenta ali como um deserto narrativo, exigindo um árduo caminhar, mas que atravessamos conscientes da imponderabilidade deste romance-ensaio, perscrutando <em>passagens</em>, possibilidades, iluminados pelo «fogo frio» da linguagem onde se aconchega a alma musiliana.</p>
<p>E «o que é a alma [para Musil]? É fácil defini-la pela negativa: é simplesmente aquilo que se esgueira à simples menção das séries algébricas! E pela afirmativa? Parece que é aquilo que nos consegue sempre escapar de cada vez que a tentamos apanhar» [<em>O homem sem qualidades</em>]. E é neste paradoxo de alcançar o inefável que reside toda a pulsão nihilista que afecta Musil e a sua obra, mas contra a qual, no limite, ele se rebela afrontando o vazio do seu tempo, desprendendo-se de todas as qualidades e atributos para melhor perseguir os mundos que existem no mundo. </p>
<p>Daqui decorre, como sustenta João Barrento na sua concisa e esclarecedora introdução às <em>obras de Musil</em>, em publicação na Dom Quixote, o aparente paradoxo das tensões polarizadas que alimentam a sua obra: «entre ética e estética, experiência e conhecimento, intuição e razão [...] que desencadeiam um processo intelectivo, reflexivo, em que o pensamento se debruça sobre «<em>a experiência estética da alma</em>» [Maria Gabriela Llansol]. Experiência estética cuja inefabilidade, ao invés de fechar, abre para uma nova consciência histórica na tentativa da reconstituição fragmentária e contingente da realidade, de que <em>O homem sem qualidades</em> constitui a mais radical aproximação narrativa, como o confirma Herbert Kraft quando escreve que «todos escrevem a partir da própria vida, mas raramente alguém o fez de forma tão alargada como Robert Musil. A forma literária mal consegue encobrir os bastidores da sua própria vida» [Herbert Kraft, <em>Musil</em>, Viena, Paul Zsonay, cit. por João Barrento]. </p>
<p>Este o <em>retrato</em> de Musil que me ocorre <em>de momento.</em> E com ele, talvez, fazer «dançar sobre os pés do acaso» [Nietszche] os caminhantes <em>sem qualidades</em> deste mundo.</p>
</div>]]></content:encoded>
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<title><![CDATA[Uma vida crepuscular]]></title>
<link>http://oquecaidosdias.wordpress.com/2008/01/17/uma-vida-crepuscular/</link>
<pubDate>Thu, 17 Jan 2008 11:10:22 +0000</pubDate>
<dc:creator>João Ventura</dc:creator>
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<description><![CDATA[  Ainda a minha semana parisiense. O que me foi caindo no avião em forma de anotações sem texto e qu]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><p><a rel="attachment wp-att-546" href="http://oquecaidosdias.wordpress.com/?attachment_id=546" title="les-amis.jpg"></a><a rel="attachment wp-att-545" href="http://oquecaidosdias.wordpress.com/2008/01/17/uma-vida-crepuscular/545/" title="bovechien.gif"></a></p>
<p><a rel="attachment wp-att-547" href="http://oquecaidosdias.wordpress.com/?attachment_id=547" title="les-amis-1.jpg"></a><a rel="attachment wp-att-548" href="http://oquecaidosdias.wordpress.com/2008/01/17/uma-vida-crepuscular/548/" title="bove3.jpg"><img src="http://oquecaidosdias.wordpress.com/files/2008/01/bove3.jpg" alt="bove3.jpg" /></a> </p>
<p>Ainda a minha semana parisiense. <em>O que me foi caindo</em> no avião em forma de anotações sem texto e que agora se transformam neste <em>post de momento.</em></p>
<p>A duração das minhas viagens de avião mede-se pelo número de páginas dos livros que escolho para ler durante o trajecto. Umas vezes, uma viagem nocturna - de ida e volta - pode durar as 609 páginas de <em>Los detectives salvajes</em>, de Roberto Bolaño [Anagrama, 2006] que me levaram desde Lisboa via Zurique até Santiago do Chile e regresso, descontando os «<em>sueños, no pesadillas, sueños musicales, sueños de preguntas transparentes, sueños de aviones esbeltos y seguros que</em> [cruzam]<em> Latinoamerica de punta a punta por brillante y frío cielo azul</em>». Outras vezes, apenas as 172 páginas da edição de bolso de <em>Mes amis</em>, de <a target="_blank" href="http://www.emmanuel-bove.net/">Emmanuel Bove</a> [Éditions Note bene, 2002], que dura a viagem entre Lisboa a Paris e volta, sem contar com o sono matinal, em ambos os trajectos, sobre os Pirinéus, interrompido pelas hospedeiras da Aigle Azur a perguntarem-me se queria café ou chá. </p>
<p>Vou a Paris, então, numa viagem de 172 páginas, para dobrar o ano em boa companhia, levando comigo <em>Les amis</em> que Emmanuel Bove [1898-1945] escreveu em 1924 e a antecipação de errâncias por uma cidade que já não existe, embora a deambulação solitária do protagonista aconteça num mapa que me é sempre familiar: «<em>J´aime errer au bord de la Seine. Les docks, les bassins, les écluses me font songer à quelque port lointain où  je voudrais habiter</em>». Também eu, em Paris, gosto de errar ao longo dos cais do Sena e para lá me leva este voo de 172 páginas. Vou, acompanhado, ao encontro de amigos que vão estar à minha espera no aeroporto, ao contrário do que sucede a Victor Bâton, o alter-ego de Bove que, igual a um vagabundo solitário, se passeia pelas ruas cinzentas de Paris com uma obsessão <em>boviana</em> pela amizade que vai falhando como se tal sortilégio lhe fosse para sempre vedado: «<em>La solitude me pèse. J´aimerais à avoir un ami, un véritable ami, ou bien une maîtresse à qui je confierais mes peines</em>».</p>
<p>E à medida que o avião avança, este Bove crepuscular, passeante sem escapatória de ruelas becos e parisienses que leio pela primeira vez - e que me foi <em>oferecido</em> por Enrique Vila-Matas que mo apresentou logo na capa de <em>Doutor Pasavento,</em> numa fotografia tirada no Jardin du Luxembourg onde aparece com a sua filha Nora, de sobretudo escuro e chapéu  <em>-</em>, vai-se parecendo cada vez mais com o passeante Robert Walser, só que Bove mais solitário que aquele, porque &#8211; ao contrário do escritor suíço que aos domingos dava longas caminhadas pelos arredores do sanatório de Herisau na companhia do seu amigo Carl Seeling &#8211; falhou sempre a sua busca obsessiva de amizade.</p>
<p>Bove, o Walser de Paris, portanto, sem «<em>point d´amis</em>», perdido no meio da chusma humana dos <em>boulevards</em> que passa sem o ver, mas que lhe dá a verdadeira medida da sua solidão. Emmanuel Bobovnikoff, Bove, o inventor da auto-ficção naturalista, descendo a rue Saint-Jacques desde o seu hotel no número 298 - que já não existe -, metendo depois pela rue Soufflot, para ser detido mais adiante pela polícia de Clemenceau. Bove, ocioso, sob a máscara de Bâton: «<em>Un homme comme moi, qui ne travaille pas, que ne veut pas travailler, sera toujours détesté. J´étais dans cette maison d´ouvrier, le fou, qu´au fond, tous auraient voulu être. J´étais celui qui se privait de viande, de cinéma, de laine, pour être libre. J´étais celui qui, sans le savoir, rappelait chaque jour aux gens leur condition misérable. On ne m´a pas pardonné d´être libre et de ne point redouter la misère</em>». Bove, pelos passos de Bâton, errando livremente pela rue de Seine, pela rue Gît le Coeur, que levam ao parapeito do Sena.</p>
<p>Ou Bove, «o Walser da rue Vaneau», como <em>pensou</em> Vila-Matas, por aquele ali ter vivido &#8211; teria? &#8211; na mais estrita solidão, durante o ano de 1928, no <em>rez de chaussé</em> do mesmo prédio onde vivia também André Gide. Sempre <em>la bonne rumeur -</em> diria Bove - da rue Vaneau, que cabe na minha estante dentro de um livro de Vila-Matas, nela cabendo também o mundo inteiro. E por isso, enquanto vou folheando este relógio de páginas que escolhi para medir o tempo deste voo<em>, </em>decido que num qualquer dia desta semana parisiense terei de ir à rue Vaneau, onde para além de Gide e Bove viveram ainda Marx e Saint- Éxupéry e se alojam, hoje, no Hotel de Suède, os escritores do editor Christian Bourgois, logo Lobo Antunes incluído, nas suas passagens por Paris, o que faz dessa rua um estranho tecido de destinos e de obras, a cujo significado só poderá aceder quem «viva já nas costuras do ruído mundano». As mesmas <em>costuras</em> que depois de ler <em>Doutor Pasavento</em> haveriam de me levar à estrada de Damasco. Mas isso são outras imbricações que apenas os que vêem neste blogue uma modesta tentativa de auto-ficção poderão, talvez, descortinar. Já a comparação de Bove com Walser que aqui se foi intrometendo me parece mais verosímil. Se não, digam-me lá se esta possibilidade de apagamento do sujeito na rua não faz lembrar Walser? «<em>J´errai dans les rues, l´âme joyeuse et vivant seule, sans les yeux</em>».</p>
<p>E sobre Bove, escreveu Peter Handke, num dia de chuva, em Petit-Clamart, nos arredores de Paris, uma carta-prefácio que seria enviada, depois, desde os correios de Bièvre para Jean-Luc Bitton, co-autor (com Raymond Cousse) da biografia [<em>La vie comme une ombre, </em>Le Castor Astral], «[<em>qu´il</em>] <em>devrait devenir le patron-saint des écrivains (purs), plus que  Kafka, et de la même façon que Anton Tchecov et Francis Scott Fitzgerald</em>». E aqui a imbricação entre a realidade de estar agora num avião que avança para Paris, a ficção do livro que vou lendo e um prefácio à biografia do autor, escrito e enviado, precisamente, da mesma localidade onde irei ficar nesta semana parisiense, Bièvre, o que mais uma vez vem mostrar que as coincidências nunca são acidentais, e que até numa crónica se podem «plasmar as estranhas combinações estranhas da vida», como disse Gerard de Nerval que não me consta que tenha andado por Bièvre, mas que também era dado a errâncias parisienses. Assim, terei escolhido Bove para ler no avião porque vinha para ficar em Bièvre ou ficarei em Bièvre porque trouxe comigo Bove que me levou a Jean-Luc Bitton que me levou a Peter Handke que escreveu um prefácio <em>bièvrois</em> para a biografia de Bove? O que sei, no final deste livro  é que voltarei a errar por aí com este Emmanuel Bove crepuscular.</p>
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<title><![CDATA[Da banalidade do mal]]></title>
<link>http://oquecaidosdias.wordpress.com/2008/01/14/da-banalidade-do-mal/</link>
<pubDate>Mon, 14 Jan 2008 00:15:20 +0000</pubDate>
<dc:creator>João Ventura</dc:creator>
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<description><![CDATA[  Gonçalo M. Tavares é, talvez, o mais anti-bartlebiano dos escritores portugueses contemporâneos. E]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><p><a rel="attachment wp-att-511" href="http://oquecaidosdias.wordpress.com/2008/01/14/da-banalidade-do-mal/511/" title="aprender-a-rezar.jpg"><img src="http://oquecaidosdias.wordpress.com/files/2007/12/aprender-a-rezar.jpg" alt="aprender-a-rezar.jpg" /></a> </p>
<p>Gonçalo M. Tavares é, talvez, o mais <em>anti-bartlebiano</em> dos escritores portugueses contemporâneos. E por isso, incapaz de figurar na <em>genealogia da negação</em> <em>da escrita</em> elaborada por Enrique Vila-Matas, em <em>Bartleby &#38; Companhia</em>. Pelo contrário, os vinte e três títulos de poesia, romance, contos, ensaio e teatro publicados em apenas seis anos, levam o escritor catalão a afirmar estarmos em presença de «um bairro portátil, uma espécie de Chiado literário que jamais arderá». Pessoalmente não estaria tão seguro assim no que respeita à combustão ficcional, pois numa esquina desse «bairro» há um umbral que dá para quatro abismos negros para onde inapelavelmente somos arrastados pelo mesmo vórtice de uma História que parece ter enlouquecido sem ter sido capaz, antes, de cumprir a «<em>promesse de bonheur</em>» anunciada pela modernidade precoce.</p>
<p>Como <em>exploradores de abismos</em> descemos às profundidades sombrias das quatro estações  [<em>Um homem Klaus Klump</em> (2003), <em>A máquina de Joseph Walser </em>(2004), <em>Jerusalém</em> (2005) e <em>Aprender a rezar na</em> <em>era</em> <em>da técnica</em> (2007)] onde impera a violência, a guerra e a crueldade e que no seu conjunto formam a tetralogia <em>O Reino</em> onde a História é reduzida a uma constelação de perigos e donde desapareceu toda a confiança no humanismo primitivo e na racionalidade iluminista presente nos romances filosóficos dos século XVIII. Neste <em>reino do mal,</em> que existe no lado de lá da literatura, Gonçalo M. Tavares descrê da racionalidade iluminista e da bondade humana e atravessando os mesmos abismos de Nietzsche, Robert Walser, Kafka ou Musil mostra-nos o lado sombrio da modernidade. De facto, «na esteira da ascensão do fascismo, do holocausto, do estalinismo e de outros episódios da história do século XX, podemos ver que a possibilidade do totalitarismo está contida dentro dos parâmetros institucionais da modernidade e não excluída por eles», escreve Anthony Giddens em <em>As consequências da modernidade </em>(Celta, 1992). Por isso, não há neste <em>Reino</em> a necessidade de qualquer tipo de explicação casual que possa conduzir-nos à interpretação do mal totalitário como rejeição dos limites morais tradicionais ou como patologia pessoal, antes a emanação do génio demoníaco das personagens. E nisto reside todo o desassossego que provoca esta descida ao <em>Maelstrom do mal </em>para onde os livros negros de Gonçalo M. Tavares  inapelavelmente nos arrastam, já que o ponto de vista do autor é o da superação humanista que rejeita a visão niilista moderna da oposição entre o bem e o mal, entre a natureza e a técnica, deixando-nos tiritantes sobre a corda <em>faustiana</em> estendida sobre os abismos da história contemporânea e sem possibilidade de redenção.</p>
<p>O romance <em>Aprender a rezar na era da técnica</em> [Caminho, 2007], que encerra a tetralogia <em>O Reino, </em>narra a história de Lenz Buchmann, um cirurgião prestigiado que, em obediência à sua educação militar, encara a doença como um inimigo a combater com recurso a uma estratégia guerreira; simultaneamente, considera o corpo uma máquina sujeita a um funcionamento específico e a doença como uma disfuncionalidade de células que apenas a competência técnica poderá combater: «Os sentimentos não devem enferrujar o bisturi». Percebe, então, que a política se faz segundo a mesma lógica, mas que o seu poder sobre a humanidade é bastante maior. Por isso, Lenz troca o poder da medicina pelo poder da lei para impôr a sua ordem cortante a toda uma cidade que manipula com o bisturi da política, gerindo sem quaisquer escrúpulos as patologias da submissão que o medo real e fabricado desenvolve nos cidadãos. Lenz, o protagonista <em>faustiano </em>deste romance cortante - no sentido em que corta para observar primeiro a doença e, depois, a sociedade -, apercebe-se que o domínio que a instrumentalidade lhe faculta sobre o corpo doente pode ser alargado à sociedade através da política concebida como um instrumento de imposição totalitária. O subtítulo do romance, <em>Posição no mundo de Lenz Buchmann,</em> reforça a ideia da submissão da narrativa às patologias de posição que Lenz assume &#8211; cirurgião e político -, mas também à natureza do próprio poder repressivo exercido sobre os cidadãos, girando o romance à volta das noções nietzschianas de força e fraqueza que alimentam a crueldade de Lenz.</p>
<p>Mas há uma ambiguidade na excessiva tese heideggeriana de Gonçalo M. Tavares, quando Lenz é vitimado por um cancro, o mal supremo interior que nenhum bisturi pode curar, como se, no final, a natureza, numa derradeira irrupção destruidora, viesse vingar-se da técnica, recordando o verso de Hölderlin que diz «onde está o perigo está o que salva», com que Heiddeger termina o seu ensaio <em>La question de la téchnique</em>, publicado em 1953 e que acaba por mostrar, afinal, a fragilidade da instrumentalidade face à mortalidade. «Aquele que vai morrer despede-se daquele que já está morto», diz Lenz quando visita o túmulo do pai que se suicidara, antecipando a sua derradeira patologia de posição no mundo &#8211; a da fraqueza diante da doença e da morte -, o que parece fazer deslizar a narrativa, contraditoriamente, para um certo religioso, sempre brutalmente negado pela omnisciência da técnica, mas também, ambiguamente, sempre afirmado através do título do livro<em>.</em></p>
<p>A questão da técnica é, então, central neste romance cujo título evoca o ensaio de Walter Benjamin <em>A obra de arte na época da sua possibilidade de reprodução técnica</em> [Assírio &#38; Alvim] e nele podemos, ainda, encontrar alusões a Arnold Gehlen e a Heidegger. E Gonçalo M. Tavares <em>analisa</em> a questão da técnica do ponto de vista da sua indeterminação antropológica e da sua violência contra a natureza e contra as figuras históricas de que dependiam a ética e a moral: «Lenz não tinha ilusões acerca da terra que pisava: havia entre a natureza e o homem um ponto de ruptura que há muito fora ultrapassado. Existia uma luz nova nas cidades, a luz da técnica, luz que dava saltos materiais que antes nenhum animal conseguiria dar; e essa nova claridade aumentava o ódio que os elementos mais antigos do mundo pareciam ter guardado, desde sempre, em relação ao homem. [...] a impermeabilidade à história, à mudança de condições era agrande arma da natureza e, nesse sentido, aí residia o seu perigo[...]. Existiam, ao contrário do que dizia a frase bíblica, coisas novas sob o sol, o que não existia era algo de novo sob a pele» (pág. 42-43). Este o novo paradigma que fragiliza a experiência humana contemporânea expondo os homens ao corte certeiro do bisturi quando se detectam disfuncionalidades orgânicas &#8211; e sociais -, capazes de fazer perigar a harmonia das células do corpo &#8211; e da sociedade. </p>
<p><em>Que fazer</em>, então,<em> quando tudo arde</em> na fogueira da técnica e nós, borboletas de asas trémulas, somos atraídos nesse vórtice de fogo donde não poderemos mais escapar? E para quê <em>aprender a rezar</em> numa era em que «se os crentes, ou os próprios padres, fizessem greve isso seria bem menos significativo e visível numa cidade do que uma greve de canalizadores ou electricistas. A boa circulação da água ou da electricidade torna-se, para o dia-a-dia, bem mais indispensável do que a boa circulação do sopro divino» (p. 217). Esta a ambiguidade do romance que ao mesmo tempo que parece negar toda a possibilidade redentora da espiritualidade e da religião, deixa no ar a tese heideggeriana de que «só um Deus nos pode salvar» que já reencontráramos na trilogia <em>Matrix,</em> dos irmãos Wachofsky.</p>
<p>Quanto ao estilo <em>tavariano,</em> é o que já conhecemos dos outros romances da tetralogia. Capítulos breves com títulos que evocam Musil, jogo de episódios onde entram personagens recorrentes com nomes alemães e centro-europeus, uma escrita límpida, quase clínica, que parece ela própria rasgada a bisturi como convém a um romance cortante, cirúrgico, o uso do itálico como marcação enfática nas frases mais cerebrais e, sobretudo, uma extrema economia de recursos - donde a ironia é convocada, não tanto a nível sintáctico, mas como procedimento de composição -, tudo conjugado para criar uma atmosfera de vertigem atravessada pela corda <em>faustiana</em> estendida sobre o abismo da técnica.</p>
</div>]]></content:encoded>
</item>
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<title><![CDATA[O passeante libertino]]></title>
<link>http://oquecaidosdias.wordpress.com/2008/01/10/o-passeante-libertino/</link>
<pubDate>Thu, 10 Jan 2008 09:14:21 +0000</pubDate>
<dc:creator>João Ventura</dc:creator>
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<description><![CDATA[«Não há mais filosofia do que esta: deixar andar, tanto faz, hoje ou amanhã morremos todos, daqui a ]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><p><font size="4"></font></p>
<p><font size="4"><a rel="attachment wp-att-540" href="http://oquecaidosdias.wordpress.com/?attachment_id=540" title="lpacheco.jpg"></a><a rel="attachment wp-att-541" href="http://oquecaidosdias.wordpress.com/?attachment_id=541" title="lpachecoof8.png"></a></font></p>
<p>«Não há mais filosofia do que esta: deixar andar, tanto faz, hoje ou amanhã morremos todos, daqui a cem anos que importância tem isto, quem se lembrará de nós? quem se lembrará de mim?», escreveu <a target="_blank" href="http://luizpacheco.no.sapo.pt/bibliografia/">Luiz Pacheco </a>[1925-2008] em <em>Carta a Fátima</em>. Por isso, passeava-se, apressado, passo largo, pelos becos da vida, transportando na mão um saco plástico cheio de livros e as bombas para a asma, sem enganar ninguém quanto à sua condição de escritor indigente e leitor truculento, sempre com a grosseria e o insulto na ponta da língua, afiadíssima, lançando maldições a torto e a direito. </p>
<p>Colaram-lhe o rótulo de <em>escritor maldito</em>, que ele rejeitava com ruído: «Raios afundem [os que], por ternura de simpatia, escárnio maldoso ou parvoíce me chamam escritor maldito» [<em>Literatura Comestível</em>, 1972]. Seria antes um <em>escritor mal-dizente</em>, sempre pronto a lançar petardos aos grandes e pequenos escritores do momento e, às vezes, mesmo aos amigos mais próximos &#8211; que o diga o Saramago cuja literatura disse estar «abaixo de cão» &#8211; que tinham de se precaver contra as suas hipotéticas <em>maldições,</em> como<em> </em>bem<em> </em>avisou Baptista Bastos: «Sei que, um dia destes, se lhe der na mona, ele dirá pessimamente de mim soltando casquinadas intermitentes, a sua forma de escárnio e mal-dizer». Segundo rezam as crónicas era um sátiro de meia tijela, <em>libertinário -</em> que é como quem diz, simultaneamente, libertário e libertino -, funâmbulo incongruente sobre todas as cordas da vida, incontinente verbal, provocador nato, aldrabão assumido, preguiçoso de vão de escada, vadio, pedinte, iconoclasta. Segundo o próprio seria uma espécie de «neo-abjeccionista», expressão que encontrou para atiçar a prolixidade taxonómica dos rotuladores de ocasião.</p>
<p>Morreu há dias, com 82 anos, num lar no Montijo, sem ruído, sem prémios, sem idolatrias, deixando atrás de si um rasto de livros, entretanto, esquecidos, muitas cartas inéditas e cáusticas entrevistas que João Pedro George organizou sob o título <em>O crocodilo que voa,</em> com publicação anunciada para breve pela Tinta da China. Como editor <em>contrapontista</em>, abriu o caminho para autores desalinhados no momento como Raul Leal, António Maria Lisboa, Mário Cesariny, Natália Correia e Herberto Helder.</p>
<p>Luiz Pacheco não fazia, não faz o meu género, nem na pele da provocatória personagem que construiu para si nem no estilo que cultivou, mas aqui e acolá dele li fragmentos admiráveis em <em>Textos malditos</em> [Afrodite, 1977], esses despojos da banalidade quotidiana que sob os efeitos de uma «euforia vínica» nos atirou à cara, embrulhados numa prosa aguda, escorreita, sem adornos. Ou então nessa descida dilacerada, mas sem pieguice, aos abismos da vida que constitui o conto <em>Comunidade</em> [Contraponto, 1964]: «Não sei nada. Duvido de tudo. Desci ao fundo dos fundos, lá onde se confunde a lama com o sangue, as fezes, o pus, o vómito; fui até às entranhas da Besta e não me arrependo. Nada sei do futuro, e o passado quase esqueci. Li muito e foi pior. Conheci gente estranha nesta viagem. Pobre gente: estupidos de medo, doidos espertalhões, toscos patarecos, foliões e parasitas da vida, parasitas (os mais criminosos, estes) chulos do próprio talento, desperdiçando tudo: as horas do relógio deles e dos outros e as virtudes deles e dos outros, e os defeitos de todos, que tudo tem seu calor e seu exemplo; ou frustrados falhados tentado arrastar os mais para o poço onde se deixaram cair por lazeira ou cobardia, impotência de criar (mas o coveiro nada perdoa!). Cadáveres adiados fedorentos viciosos de manhas e muito mal mascarados».</p>
<p>Numa das suas últimas entrevistas, à revista Visão, a propósito de um documentário para televisão sobre a sua vida, Luiz Pacheco disse: «Houve agora um filme aí &#8230; Eu recusei-me a ver, porque não vou agora desmentir o que eles lá dizem. Chamei àquilo filme-cangalheiro: morte minha e aquilo ia logo nessa noite para a televisão!». Não se enganou, na noite da sua morte, a RTP2 &#8211; quem mais poderia ser? - voltou a passar o excelente documentário <em>Mais Um Dia de Noite,</em> de António José Almeida que tomei como fonte para este <em>post.</em> No final, não pude deixar de recordar um aforismo do filósofo alemão Lichtenberg: «De entre todas as curiosidades que tinha acumulado na sua casa, ele mesmo acabava por ser a maior de todas».</p>
</div>]]></content:encoded>
</item>

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