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	<title>grandes-reportagens &amp;laquo; WordPress.com Tag Feed</title>
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	<description>Feed of posts on WordPress.com tagged "grandes-reportagens"</description>
	<pubDate>Mon, 30 Nov 2009 01:37:28 +0000</pubDate>

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<title><![CDATA[Unidos nas letras e no pensamento]]></title>
<link>http://thaislongaray.wordpress.com/2009/10/06/unidos-nas-letras-e-no-pensamento/</link>
<pubDate>Wed, 07 Oct 2009 00:43:49 +0000</pubDate>
<dc:creator>thaislongaray</dc:creator>
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<description><![CDATA[Cleci e Fernando se conhecem desde a infância, mas nunca tinham se notado. Ele dizia que ela era “a ]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><p>Cleci e Fernando se conhecem desde a infância, mas nunca tinham se notado. Ele dizia que ela era “a magrela do cabelo comprido e do nariz empinado”. Porém, o destino os uniu e também separou.</p>
<p>Na juventude, há 30 anos atrás, Cleci começou a trabalhar na Neugebauer, em Porto Alegre. Fernando já era funcionário da empresa. Foi ai que eles se perceberam! Ela era mãe solteira, tinha o pequeno Paulo Ricardo de oito meses, e pensou que isso pudesse desmotivar o romance, mas não foi o que aconteceu.</p>
<p>Ele amava e não mediu esforços para que isso fosse notado por ela e pela família de ambos. A primeira vez que foi na casa dos pais dela, ainda de cabelo comprido, encontrou a resistência do futuro sogro: <em>”pra namorar a minha filha, tu vai ter que cortar o cabelo”</em>. Minutos depois, outro Fernando apareceu, de cabelo cortado e com mais entusiasmo. <em>“Eu quero namorá-la”</em>, afirmou.</p>
<p>Não demorou muito para que o casal resolvesse morar junto e a casa dos pais dele se tornou o berço dos dois. O filho de Cleci, apegado aos avós, ficou na residência antiga. Quando fez sete anos, Ricardo pediu para morar com a mãe e foi recebido com amor na casa do padrasto.</p>
<p align="center">
<p align="center"><em>‘O amor é o fogo que arde sem se ver</em></p>
<p align="center"><em>É ferida que dói e não se sente</em></p>
<p align="center"><em>É um contentamento descontente</em></p>
<p align="center"><em>É dor que desatina sem doer&#8230;’</em></p>
<p align="center">
<p>Oportunidades de uma vida melhor surgiram e os três foram em busca da felicidade em Feliz, no interior do Rio Grande do Sul. A ida pra lá foi a trabalho, para gerenciar de uma boate. A saída não teve o mesmo tom otimista.</p>
<p>Um assassinato aconteceu dentro do estabelecimento que eles administravam. Um jovem de 20 anos foi baleado durante uma festa. O pai do garoto que perdeu a vida era freqüentador da casa noturna e estava jurado de morte pela esposa. No dia marcado para ser a última noite, ele não foi, só o filho. E o crime aconteceu!</p>
<p>Depois do episódio, a vida foi refeita em Curitiba, o negócio próprio montado e a felicidade finalmente tomou conta da casa onde moravam. No início a vida foi difícil, mas logo o negócio que abriram firmou. Fernando dava aulas de informática e Cleci acompanhava, vendia, divulgava o trabalho do marido. Em seguida, montaram uma loja, consertavam computadores, atuavam em conjunto. Numa noite, ficaram com um cliente até às 5h da manhã.</p>
<p align="center">‘É um não querer mais que bem querer<br />
É solitário andar por entre a gente<br />
É um não contentar-se de contente<br />
É cuidar que se ganha em se perder&#8230;’</p>
<p align="center">
<p>E essa foi a última noite que passaram juntos. Cedo do dia, foram surpreendidos pela Polícia Federal. Era seis horas, manhã do dia 14 de agosto de 2005 e estava perto de fechar sete anos da morte do jovem em Feliz. O crime de 1998 não achou culpado e foi buscá-los no Paraná.</p>
<p>Como Cleci e Fernando saíram do estado na época, o processo ocorreu sem que eles soubessem da acusação e sem que se defendessem. Hoje, sem dinheiro, o casal não consegue achar um bom advogado que assuma o caso. Apesar do tempo enclausurada, ela jura ser inocente e que foi pega de surpresa com o mandato. <em>“Eu não fiz nada, na minha família ninguém nunca se envolveu com droga, com crime</em>”, lamenta.</p>
<p>De Curitiba, ela veio direto para a Penitenciária Feminina Madre Pelletier, na zona sul de Porto Alegre. Ele, para o Presídio Central de Porto Alegre e depois para a penitenciária de Montenegro. E ela cochicha: “<em>Já se passaram três anos daquele dia</em>”&#8230;</p>
<p align="center"><em> </em></p>
<p align="center"><em>‘É só o amor,</em></p>
<p align="center"><em>É só o amor que conhece o que é verdade<br />
O amor é bom, não quer o mal</em></p>
<p align="center"><em>Não sente inveja ou se envaidece&#8230;’</em></p>
<p align="center"><strong> </strong></p>
<p align="center"><strong>A Tetê do Zeca e o Zeca da Tetê</strong></p>
<p align="center"><strong> </strong></p>
<p>Assim que eles se chamam e também é assim que são conhecidos pelos ouvintes do Love Song’s, da Rádio Cidade (92,1 FM). O apresentador do programa, Arlindo Sassi, é o narrador dessa e de muitas histórias de amor que chegam por carta e, a maioria delas, vem de presídios.</p>
<p>A cada dia, uma nova história, uma nova paixão. Há mais de 30 anos as noites são embaladas pelas músicas românticas e pelos recadinhos que a produção do programa recebe aos montes. Segundo o apresentador, cerca de seis correspondências chegam por dia.</p>
<p>A saga do casal já foi contada para todos os apaixonados que reservam as noites para ouvir o programa. Os recados e as musicas que pedem são os estímulos para novas cartas, novos contatos, novos planos.</p>
<p>Quinta-feira e domingo são os dias de carta no Madre Pelletier. E também o dia da expectativa, da saudade, do choro. Tetê e Zeca são recordistas em correspondências. Cerca de oito envelopes chegam para ela e é esse número também que vai endereçado a ele. <em>“Ele nunca repete uma frase, uma palavra, só ‘eu te amo’, isso tem sempre”,</em> lembra.</p>
<p>Todas as cartas trazem um ritual. Começam com <em>‘Oi, amor’</em> e fecham com <em>‘Eu te amo, amor’.</em> É o rito que sela os envelopes tão esperados do outro lado da corrente. O fluxo se fortalece com auxílio do papel, das ondas do rádio e, em um certo dia, da magia.</p>
<p align="center"><em>‘Ainda que eu falasse </em></p>
<p align="center"><em>A língua dos homens</em></p>
<p align="center"><em>E falasse a língua do anjos</em></p>
<p align="center"><em>Sem amor, eu nada seria&#8230;’</em></p>
<p>Uma nova companheira de cela chegou no salão onde Cleci e mais 15 presas dormem e perguntou: <em>“tu quer ver o teu marido?”.</em> Sem acreditar, mas tomada pela saudade e pelo desespero ela respondeu que sim. Deram as mãos, fecharam os olhos, ela mentalizou o amado e chegou. Tetê encontrou o Zeca. “<em>Eu vi ele dormindo na cela, peguei a mão dele e não soltei mais”,</em> ela conta cabisbaixa, tomada pela lembrança.</p>
<p>As outras apenadas precisaram sacudi-la, já estavam preocupadas porque a respiração tinha parado e a cor sumido. Na próxima carta que foi escrita, ela questionou o que ele fazia naquele dia e horário. E a resposta chegou logo: “<em>Eu estava deitado, tu chegou, ficou me olhando, pegou minha mão e não soltou mais. Daqui a pouco tu sumiu&#8230;”. </em></p>
<p>O amor ultrapassou as grades e a saudade fez com que o casal se adorasse mais. A distância, as algemas, as paredes frias. Nada disso amarrou, nem esfriou o carinho que sentem. Pelo contrário. <em>“Eu amo cada dia mais, quero ver ele cada dia com mais vontade”</em>, espera.</p>
<p>O encanto e a sintonia estão evidentes e também contam com a ajuda da natureza, das aves que vivem nas árvores ao redor dos dois presídios. “<em>Um dia tava no pátio e caiu uma peninha de passarinho, na hora eu juntei e mandei pra ele”,</em> fala com um sorriso no rosto. No dia das cartas, ela mandou o presente pra ele. E no mesmo dia chegaram mais correspondências dele. E a surpresa: uma pena no envelope. Uma lembrança que o vento se em encarregou de levar até o pátio lá em Montenegro. E que o Zeca se encarregou de enviar para a Tetê.</p>
<p align="center"><em> </em></p>
<p align="center"><em>‘É um estar-se preso por vontade<br />
É servir a quem vence, o vencedor<br />
É um ter com quem nos mata, a lealdade<br />
Tão contrário a si é o mesmo amor&#8230;’</em></p>
<p align="center"><em> </em></p>
<p>Depois daquela manhã em Curitiba, os dois se viram algumas vezes. Por fotografias, pela força do pensamento e em duas audiências sem sucesso que ocorreram durante esses três anos. Cada vez que foram a júri, eles puderam se observar, mas nunca se tocar. Quando lembra esses episódios, fica quieta, chora, sente a falta aumentar ainda mais. <em>“Já tentei todos os meios para ver ele, mandei carta pra justiça, mas nunca deixaram”</em>, lamenta.</p>
<p>Em uma audiência, em Novo Hamburgo, ele não agüentou. Chamou, gritou, declarou o amor e ela não pode responder, pois a agente que a acompanhava não deixou. Na hora de ir embora, ela não resistiu e perdeu o medo da policial. Aos prantos, correspondeu às investidas do companheiro: <em>“Eu te amo, meu amooor”.</em></p>
<p>A Cleci que hoje trabalha na cozinha dos funcionários do presídio, não é a mesma que saiu acorrentada da casa em Curitiba. Aprendeu muitas coisas, passou por situações jamais imaginadas e lidou com o vazio no peito e na cama durante todo o tempo. Chegou com 93kg e hoje tem 64. O cabelo era curto, hoje está abaixo da cintura. A felicidade estampava o sorriso, hoje o sofrimento.</p>
<p>Para os dois, ainda restam dois anos de cárcere, caso a inocência não seja provada. De amor, ainda resta a eternidade.</p>
<p>Para o futuro, eles já prometeram um livro. Quinzenalmente, a mãe dele passa nos presídios, recolhe as correspondências e guarda em um armário que já está abarrotado de declarações de saudade. Dois pergaminhos de 20 metros que ela enviou e não entraram no presídio em Montenegro, também estão armazenados. Eles combinaram se ler todas as cartas no dia que forem libertos e publicar as melhores. A renda vai ser enviada para alguma instituição de caridade que cuida de crianças.</p>
<p>A sogra virou mãe. Antes o relacionamento era ruim, mas agora é ótimo. E ela prometeu ao casal que vai pagar um hotel para eles passarem uma semana juntos depois que forem soltos. A Tetê já está ansiosa e fica inquieta só de pensar nos sete dias que terão para matar a saudade um do outro.</p>
<p>Apesar de tudo, ela teme o encontro. Fica insegura porque não sabe quando vai poder ter a liberdade por completo, nem como vai retomar a história que foi interrompida a três anos. Sobre a vida depois da prisão, eles ainda não acertaram. Não sabem se voltam para Curitiba, se a vergonha vai deixar. Não sabem se ficam em Porto Alegre, pois o negócio vai ter que começar do zero.</p>
<p>O casamento na igreja também está programado. “Ele me pediu em casamento na última carta e eu aceitei, né?”, planeja. Ela quer andar de mãos dadas, passear, dançar. Rever o filho que há um ano não aparece na visita. Conhecer os netos que nasceram nesse meio tempo. Retomar a trajetória ou traçar uma nova.</p>
<p>Outra promessa do casal é de não deixar de ouvir o programa da Rádio Cidade. Muitas pessoas abandonam as cartas depois que saem do presídio, depois que a solidão acaba, mas eles não. Já planejaram de ir ao estúdio do Love Song’s para assistir o programa, conhecer a equipe e provar que o amor verdadeiro resiste a qualquer coisa.</p>
<p align="center"><em><br />
‘Estou acordado e todos dormem, </em></p>
<p align="center"><em>Todos dormem, todos dormem<br />
Agora vejo em parte<br />
Mas então veremos face a face<br />
É só o amor, é só o amor<br />
Que conhece o que é verdade&#8230;’</em></p>
</div>]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[Mente solta em um corpo preso ]]></title>
<link>http://thaislongaray.wordpress.com/2009/10/06/mente-solta-em-um-corpo-preso/</link>
<pubDate>Wed, 07 Oct 2009 00:37:29 +0000</pubDate>
<dc:creator>thaislongaray</dc:creator>
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<description><![CDATA[Cleci, a Tetê, está há cinco anos privada de sua liberdade física. Física, pois as grades da Peniten]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><p>Cleci, a Tetê, está há cinco anos privada de sua liberdade física. Física, pois as grades da Penitenciária Feminina Madre Pelletier evitam que ela tenha uma vida normal. Só física, pois a imaginação chega a lugares bem distantes.</p>
<p>Dia desses, foi ao Presídio de Montenegro pra visitar o marido. Uma “bruxa”, como ela classifica, disse que a levaria até lá, acreditou e foi. Quando chegou a cela, o esposo dormia, ela pegou a mão dele, apertou firme e as colegas fizeram com que ela voltasse para o salão onde dorme, pois estavam preocupadas.</p>
<p>Ela e mais 15 mulheres convivem diariamente em uma peça ampla, no setor B. Desde o primeiro dia que entrou ali, 14 de agosto de 2005, foi sempre uma boa detenta. Comportada, educada, logo virou a cozinheira preferida dos funcionários.</p>
<p>Assim como os agentes penitenciários, Fernando, o Zeca, gosta da culinária da esposa. A Tetê e o Zeca, como se chamam intimamente, estão casados há 30 anos, desde que foram colegas de trabalho em uma empresa de chocolate.</p>
<p>Ela era magrinha, tinha cabelo comprido e morava na Zona Norte de Porto Alegre. Com 14 anos, casou e engravidou. Também com 14, separou-se.</p>
<p>Quando o filho estava com 8 meses, começou a trabalhar na <em>Neugbauer</em>. No fim do mesmo ano, 1978, foi morar com o novo marido, Fernando. Sete anos depois, a família ficou completa quando o filho foi morar com a mãe e o padrasto.</p>
<p>Oportunidades de emprego surgiam, ofertas tentadoras no interior do estado. “Era pra ser Feliz, mas foi desgraça”, lamenta a apenada. Os três foram embora para cidade de Feliz a fim de gerenciar uma casa noturna.</p>
<p>Lá, o negócio deu certo até o dia que o ciúme matou um jovem. Um senhor era freqüentador da boate até o dia que a esposa descobriu e encomendou a sua morte. Porém, na data marcada para o assassinato, o prometido faltou e mandou o filho.</p>
<p>Uma vida de 20 anos acabou, assim como o empreendimento e a tranqüilidade de Cleci. Ela, junto com o marido e o filho, decidiu sair do Rio Grande do Sul e ir embora para Curitiba.</p>
<p>No Paraná, a vida foi refeita. Montou uma loja de informática que já estava com uma grande clientela. Uma noite, a instalação de um computador estava complicada e o casal trabalhou até as cinco horas. As seis, logo que haviam chegado em casa, a campainha soou.</p>
<p>Era Polícia Civil. Os dois foram presos e levados para as penitenciarias que estão hoje. “Me tirar dele, foi como tirar um bico de uma criança”, deixa escapar entre</p>
<p>soluços. O crime de oito anos antes estava sem culpado e saiu de Feliz para achar.</p>
<p>Eles não sabiam da acusação e, logo, não se defenderam. Só aceitaram as algemas e correntes. “Foi cena de filme: amarraram os meus pés, algemaram as mãos e me colocaram na traseira do camburão”, recorda Cleci.</p>
<p>Ainda restam dois anos para que a pena seja cumprida. Até lá, a mente a leva para passear além do cárcere. Para o futuro, promete um livro e espera que o pedido do marido se concretize. Se tudo der certo, irão se casar na igreja com direito a véu e grinalda. A algema vai ser só no dedo: a aliança.</p>
</div>]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[Ele nunca comeu chocolate]]></title>
<link>http://thaislongaray.wordpress.com/2009/10/06/ele-nunca-comeu-chocolate/</link>
<pubDate>Wed, 07 Oct 2009 00:27:38 +0000</pubDate>
<dc:creator>thaislongaray</dc:creator>
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<description><![CDATA[A primeira fábrica de chocolates que surgiu no Brasil, se instalou no Rio Grande do Sul, em 1891. Vi]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><p>A primeira fábrica de chocolates que surgiu no Brasil, se instalou no Rio Grande do Sul, em 1891. Vinte e sete anos depois da chegada da empresa em Porto Alegre, lá na distante Pinheiro Machado, nasceu Holmes Aquino. A quilometragem que separava o produtor do consumidor final girava na casa dos 350.</p>
<p>A <em>Neugebauer Irmãos &#38; Gerhardt</em> abriu o leque para muitas outras empresas se aproximarem dos gaúchos. E a trajetória de vida do ‘Seu Holmes’, como é chamado pelos amigos, fez com que ele viesse de vez para a capital na década de 70.</p>
<p>Ele é um homem do rádio, nasceu e viveu para isso. Dedicou todo o tempo às ondas sonoras. Iniciou nos auto-falantes, depois fundou importantes emissoras, contribuiu com outras tantas e até hoje faz parte de conglomerados da comunicação.</p>
<p>O chocolate também começou tímido e, para o contato com as classes mais baixas, era confeccionado em casa. Porém, o seu berço real é nobre. A mistura foi descoberta pelos mexicanos e levada para a Europa pelos espanhóis. A aristocracia da Espanha tinha como um produto sofisticado. Hoje, o alimento feito à base de cacau tomou conta do mundo, é uma paixão e, no dito popular, virou sinônimo de prazer.</p>
<p>O desejo, que alguns encaram como vício, nunca foi saciado pelo senhor em questão: <em>“Explicação realmente não é fácil, muitas vezes me ofereceram um pedaço, mas faz 79 anos que eu não provo chocolate”</em>. Em setembro de 2008 ele completa 80 primaveras.</p>
<p>Boa prosa e amante de uma conversa, contou com destreza a história da sua vida. Da cidade natal às viagens ao redor do mundo. Lá em Pinheiro Machado, quando menino, não tinha trem, a estação era longe. <em>“Eu não tinha acesso a esse tipo de locomoção, não podia ir às grandes cidades e, além disso, a fabricação do chocolate era artesanal”</em>, conta.</p>
<p>A falta da disposição e as incansáveis vozes que falavam sobre o alto custo e a inexistência de componentes nutritivos só contribuíram para que ele não conhecesse os prazeres do chocolate. <em>“As vezes, de tanto que me falaram, eu sentia o cheiro e não tinha vontade de comer. O aroma não me fazia bem e criança, sabe como é, não come se não agrada”,</em> explica.</p>
<p>Agora, admite que não experimenta por capricho: <em>“Não comi, não faz falta e eu não vou comer”</em>. A cena em que estamos agora é tentadora. Um balcão de confeitaria, com uma vitrine de doces e croissants. Para aguçar o faro do ‘Seu Holmes’, peço uma mousse de chocolate com granulados. E, para o espanto de todos que observam a conversa, ele fala, fala e nem desvia o olhar para o lado do doce.</p>
<p>As histórias são muitas, os países também, até perdeu a conta. Chile, EUA, Itália, México, Argentina por muitas vezes foram a casa dele em 30, 40 dias. Os números ele não esquece, 7 horas em Lisboa, 8 Copas do Mundo. O (zero) chocolate! Ele é operador técnico e já está na história de uma importante emissora de rádio. Na bagagem, traz os testemunhos de cada local que conhece.</p>
<p>Mas os depoimentos não começam na vida profissional, iniciam cedo, no Colégio Viviane de Almeida, em Rio Grande. Integrante do coral da escola, ele participava de todas as festinhas. E foi numa delas que recebeu uma ameaça. O tema era chocolate e a professora já estava irritado com a história de não comer. “Ela veio pra cima, disse pra eu provar e que não aceitava a negativa. Ela, o padre, os colegas me deixaram constrangidos, mas não comi”, lembra.</p>
<p>Outra prova de fogo que passou foi com os amigos. ‘A gurizada’ combinava sempre de fazer reuniões e numa dessas decidiram que seria o ultimo dia sem chocolate. Quando ele chegou, ouviu o coro: ‘Hoje tu vai comer, se não vamos te encostar contra a parede’. O medo logo apareceu, mas ele resistiu. ”Eu estava quase aceitando porque eles iam enfiar a barra na minha boca, mas no fim todos respeitaram e ninguém fez nada”, confessa.</p>
<p>Logo que chegou a Porto Alegre, ‘Seu Holmes’ foi direto conhecer o emprego que lhe estava reservado. Não demorou para que as saídas de campo e visitas aos patrocinadores começassem e a fábrica de chocolates da <em>Neugbauer</em> encabeçava a lista. Depois de conhecer as instalações, a história e todo o objetivo da empresa, cada integrante da comitiva ganhou uma barra de presente. Inclusive ele! <em>“Peguei, por educação, mas dei pra alguém na rua ou em casa, enfim, me livrei”</em>, explica.</p>
<p>Já habituado com a capital, passou a freqüentar os bailes. Na região central da cidade, em uma avenida movimentada, firmou amizades de balcão. Até hoje é freqüentador do Chopão e comemorou diversos aniversários, e ainda comemorará. Todas as festas de anos têm, por característica, o bolo decorado, e no dele sempre era diferente. <em>“O pessoal tinha cuidado e sempre lembravam de não fazer com chocolate porque eu seria o único do baile a recusar a fatia do meu bolo”</em>, brinca.</p>
<p>Ele muda a posição na cadeira da confeitaria, mas não o rumo da conversa. Pensa, retoma algum assunto que já foi tratado. Pára! Lembrou de mais uma história extraordinária.</p>
<p>Como técnico de áudio, já esteve em diversas empreitadas internacionais. No vai-e-vem, comeu muito dentro dos aviões e, como é de praxe em vôos noturnos, depois da janta vem a sobremesa. <em>“Por diversas vezes era doce com chocolate, mousse, barrinha e eu guardava pra dar pra alguém na rua!”</em>, conta com um ar de indignação. Está evidente em seu semblante que o assunto já está saturado.</p>
<p>O cansaço some em um segundo. Tempo em que uma criança passa por nós com um brigadeiro em punho. <em>“Esses dias minha neta veio com uma barra e disse: ‘Vô, tu não vai me decepcionar, come’”</em>, lembra. Assim como a pequena, toda a família Aquino gosta de chocolate, menos ‘Seu Holmes’. Para evitar a decepção da menina, ele inventou uma desculpa, ‘deu um desdobre e levou na conversa’.</p>
<p>Passado o encanto pela infância e pela curiosidade da criança, ele coloca o ponto final na conversa: <em>“Agora está comprovado que eu nunca comi chocolate e se alguém tiver dúvida, pode mandar me procurar”. </em></p>
</div>]]></content:encoded>
</item>

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