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	<title>joaquim-manuel-magalhaes &amp;laquo; WordPress.com Tag Feed</title>
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	<description>Feed of posts on WordPress.com tagged "joaquim-manuel-magalhaes"</description>
	<pubDate>Thu, 31 Dec 2009 08:45:21 +0000</pubDate>

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<title><![CDATA[Poesia Portuguesa (32) - Ruy Belo]]></title>
<link>http://asfolhasardem.wordpress.com/2009/05/04/poesia-portuguesa-32-ruy-belo/</link>
<pubDate>Mon, 04 May 2009 22:01:34 +0000</pubDate>
<dc:creator>manuel margarido</dc:creator>
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<description><![CDATA[Era o Verão de 1980, a memória pode trair, lembro-me de, tão puto, acabar a vender polvos aos restau]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><p style="text-align:justify;">Era o Verão de 1980, a memória pode trair, lembro-me de, tão puto, acabar a vender polvos aos restaurantes de Peniche para comprar o bilhete de regresso a Lisboa; mas não era o volume 2 da &#8216;<em>Obra Poética de Ruy Belo</em>&#8216;, da Presença &#8211; organização e posfácio de <span style="color:#003366;"><strong>Joaquim Manuel Magalhães</strong></span> -  que teria comigo (o primeiro tinha, de certeza), nessas férias de revelações. <strong><em>&#8216;Transporte no Tempo&#8217;</em></strong> estava lá, comigo, mas na edição da <em>Moraes</em>, que terei guardado num de três lugares, sendo um outro possível, um empréstimo perpétuo. Na introdução ao livro, <span style="color:#003366;"><strong>Ruy Belo</strong></span> escreve um texto, &#8216;<em>Breve Programa para Uma Iniciação ao Canto</em>&#8216;, onde a indizível condição da mortalidade (do &#8216;não pertencer a este mundo&#8217;) se inscreve com um carácter quase premonitório, quase programático. Termina assim, o texto: &#8220;(&#8230;) <em>O poeta, sensível e até mais sensível porventura que os outros homens, imolou o coração à palavra, fugiu da auto-biografia, tentou a todo o custo evitar a vida privada. Ai dele se não desceu à rua, se não sujou as mãos nos problemas do seu tempo, mas ai dele também se, sem esperar por uma imortalidade rotundamente incompatível com a sua condição mortal, não teve sempre os olhos postos no futuro, no dia de amanhã, quando houver mais justiça, mais beleza sobre esta terra sob a qual jazerá, finalmente tranquilo, finalmente pacífico, finalmente adormecido, finalmente senhor e súbdito do silêncio que em vão tentou aprender com as palavras, finalmente disponível não já tanto para o som dos sinos como para o som dos guizos e chocalhos dos animais que comem a erva que afinal pôde crescer no solo que ele, apodrecendo, adubou com o seu corpo merecidamente morto e sepultado.</em>&#8221; Leia-se este terceiro poema da sequência <em>&#8216;Monte Abraão&#8217;</em> à luz do &#8216;programa&#8217; enunciado.</p>
<h6></h6>
<p style="text-align:center;"><span style="color:#666699;"><strong>SÚPLICA</strong></span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#666699;"><br />
</span>
</p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#666699;">O outono demorou-se no mundo</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#666699;">A juventude há muito despediu</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#666699;">a primavera da primeira ave</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#666699;">Respiro as lágrimas das raparigas</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#666699;">recordo-me do seu odor nocturno</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#666699;">Escuto o movimento lento da ramada</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#666699;">esqueci a escada habitual do dia-a-dia</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#666699;">a cortina da chuva corre-se de novo</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#666699;">Nesta manhã de outono aluviões   da vida</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#666699;">murmuram-nos mulheres minuciosas</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#666699;">O ombro da colina ergue o nevoeiro</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#666699;">na madrugada não cantam melros</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#666699;">A areia bebe cheia a chuva enquanto</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#666699;">nós infinitamente nos distanciamos</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#666699;">de quanto &#8211; diz a santa &#8211; desejamos</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#666699;">Aonde está a mãe da minha infância?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#666699;">Talvez com ela tudo começasse</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#666699;">É nos fins do verão alguém morreu</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#666699;">foi-se a ferocidade das cigarras</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#666699;">no caminho das tílias percorridas</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#666699;">Deixo cair as mãos pois nem me restam essas</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#666699;">aves do mar que a tempestade impele</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#666699;">em tempo de equinócio para a costa</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#666699;">É o cabo do mundo é o fim do ano</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#666699;">a era da perfeita culpabilidade</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#666699;">Respiro já os meus últimos dias</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#666699;">Sobre este céu nenhuma ave adeja</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#666699;">Que a terra humedecida me proteja</span></p>
<h6></h6>
<p><span style="color:#000000;"><strong>Ruy Belo</strong></span>, in <em></em><em>Transporte no Tempo, </em>p. 14-15, Obra Poética de Ruy Belo, volume 2, Editorial Presença, Lisboa, 1981.</p>
<h6>
<p><div id="attachment_1769" class="wp-caption aligncenter" style="width: 520px"><img class="size-full wp-image-1769" title="na" src="http://asfolhasardem.wordpress.com/files/2009/05/na146805.jpg" alt="© Duarte Belo" width="510" height="510" /><p class="wp-caption-text">© Duarte Belo</p></div></h6>
<p style="text-align:justify;">
<p style="text-align:justify;">
</div>]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[Poesia Portuguesa (28) - Luís Miguel Nava]]></title>
<link>http://asfolhasardem.wordpress.com/2009/03/13/poesia-portuguesa-28-luis-miguel-nava/</link>
<pubDate>Fri, 13 Mar 2009 02:35:42 +0000</pubDate>
<dc:creator>manuel margarido</dc:creator>
<guid>http://asfolhasardem.wordpress.com/2009/03/13/poesia-portuguesa-28-luis-miguel-nava/</guid>
<description><![CDATA[Nota biográfica de um poeta determinante na mudança de paradigma da escrita da poesia em Portugal, e]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><p style="text-align:justify;">Nota biográfica de <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Lu%C3%ADs_Miguel_Nava" target="_blank"><span style="color:#333399;">um poeta determinante</span></a> na mudança de paradigma da escrita da poesia em Portugal, e da própria concepção programática que a investia, operada a partir da década de setenta, atingindo o seu vigor criativo na década seguinte, na qual <span style="color:#003366;"><strong>Luís Miguel Nava</strong></span> escreve quase toda a sua obra (a que se podem associar, como referenciais, os nomes de <span style="color:#003366;"><strong>Joaquim Manuel Magalhães</strong></span>, <span style="color:#003366;"><strong>António Franco Alexandre</strong></span>, J<span style="color:#003366;"><strong>oão Miguel Fernandes Jorge</strong></span>): <em>«Luís          Miguel de Oliveira Perry Nava nasceu a 29 de Setembro de 1957 em Viseu,          cidade onde frequentou a Escola Primária. Após uma breve          passagem pelo Colégio dos Carvalhos (1965/67), regressa a Viseu,          aí concluindo o Ensino Secundário em 1974. No ano seguinte,          vem para Lisboa e inscreve-se no curso de Filologia Românica da          Faculdade de Letras. Após terminar a licenciatura (1980), frequenta          o mestrado de Literatura Francesa (l980/82), começa a colaborar          regularmente como crítico literário em jornais e revistas          (Colóquio-Letras, J.L., etc.) e exerce as funções          de assistente do Departamento de Literaturas Românicas entre 1981          e 1983, data em que parte para Oxford, em cuja universidade permanece          durante três anos como Leitor de Português. Desde 1986 passa          a residir em Bruxelas, onde desempenha o cargo de tradutor do Conselho          das Comunidades Europeias. A partir dessa data passa a viajar cada vez          mais, sobretudo pela Europa, Norte de África, México e um          pouco por todo o mundo. Brutalmente assassinado em Maio de 1995 no seu          apartamento de Bruxelas, o poeta deixou inéditos alguns textos          narrativos (a publicar brevemente) e instituiu por testamento a Fundação          Luís Miguel Nava, que desde 1997 publica a revista <strong>Relâmpago</strong> e atribui um prémio anual de poesia.<br />
Além de três livros de ensaio – O Pão a Culpa          a Escrita (IN/CM, 1982), A Poesia de Francisco Rodrigues Lobo          (Ed. Comunicação, 1985) e O Essencial sobre Eugénio          de Andrade (IN/CM, 1987) –, Luis Miguel Nava organizou ainda          uma Antologia de Poesia Portuguesa – 1960/1990, editada em          1991 em português e em francês, por ocasião da Europália          (Bruxelas). Publicou os seguintes livros de poesia: Películas          (Moraes, 1979, Prémio de Revelação da A.P.E.); A          Inércia da Deserção (&#38; etc., 1981); Como          Alguém Disse (Contexto, 1982); Rebentação          (&#38; etc., 1984); Poemas (reedição conjunta dos          livros anteriores, Limiar, 1987); O Céu Sob as Entranhas          (Limiar, 1989) e Vulcão (Quetzal, 1994). Este último          livro está também publicado em francês (Volcan,          tradução de Marie-Claire Vromans, Paris, Ed. Eulina Carvalho,          2000).<span style="color:#000000;">» &#8211; in, <a href="http://www.relampago.pt/" target="_blank"><span style="color:#333399;">Relâmpago, Revista de Poesia.</span></a></span></em><span style="color:#000000;"><em> s.d.</em></span><em><span style="color:#000000;"><br />
</span></em>
</p>
<p style="text-align:center;"><strong><span style="color:#666699;">O CORPO ESPACEJADO</span></strong></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#666699;">Perdia-se-lhe o corpo no deserto, que dentro dele aos poucos conquistava um espaço cada vez maior, novos contornos, novas posições, e lhe envolvia os órgãos que, isolados nas areias, adquiriam uma reverberação particular. Ia-se de dia para dia espacejando. As várias partes de que só por abstracção se chegava à noção de um todo começavam a afastar-se umas das outras, de forma que entre elas não tardou que espumejassem as marés e a própria via láctea principiasse a abrir caminho. A sua carne exercia aliás uma enigmática atracção sobre as estrelas, que em breve conseguiu assimilar, exibindo-as, aos olhos de quem o não soubesse, como luminosas cicatrizes cujo brilho, transmutado em sangue, lentamente se esvaía. Ele mais não era, nessas ocasiões, do que um morrão, nas cinzas do qual, quase imperceptível, se podia no entanto detectar ainda a palpitação das vísceras, que a mais pequena alteração na direcção do vento era capaz de pôr de novo a funcionar. Resolveu então plastificar-se. Principiou pelas extremidades, pelos dedos das mãos e pelos pés, mas passado pouco tempo eram já os pulmões, os intestinos e o coração o que minuciosamente ele embrulhava em celofane, contra o qual as ondas produziam um ruído aterrador. </span></p>
<p style="text-align:left;">
<strong>Luís Miguel Nava</strong>, revista Colóquio Letras, n.º 100, p. 116, Novembro de 1987
</p>
<p style="text-align:left;">
<p style="text-align:center;">
<div id="attachment_1588" class="wp-caption aligncenter" style="width: 543px"><img class="size-full wp-image-1588" title="©finearttv" src="http://asfolhasardem.wordpress.com/files/2009/03/www-finearttv-tv_component_optioncom_gallery2_itemid156_gs3nlzcw.jpg" alt="© Ricardo Alevizos" width="533" height="355" /><p class="wp-caption-text">© Ricardo Alevizos</p></div>
<p style="text-align:left;">
<p style="text-align:left;">
</div>]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[W. B. Yeats, um poema]]></title>
<link>http://asfolhasardem.wordpress.com/2009/02/26/w-b-yeats-um-poema/</link>
<pubDate>Thu, 26 Feb 2009 01:08:05 +0000</pubDate>
<dc:creator>manuel margarido</dc:creator>
<guid>http://asfolhasardem.wordpress.com/2009/02/26/w-b-yeats-um-poema/</guid>
<description><![CDATA[[post reeditado] Tradução, da autoria de Joaquim Manuel Magalhães, de um poema de W. B. Yeats, um am]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><p><strong><span style="color:#800080;">[post reeditado]</span></strong></p>
<p>Tradução, da autoria de <span style="color:#003366;"><strong>Joaquim Manuel Magalhães</strong></span>, de um poema de <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/William_Butler_Yeats" target="_blank"><span style="color:#003366;"><strong>W. B. Yeats</strong></span></a>, <em>um amigo meu.</em> Enviada por <span style="color:#003366;"><strong>Amélia Pais</strong></span>, cara leitora atenta.<em><br />
</em></p>
<p><em><br />
</em></p>
<p><span style="color:#666699;"><strong>He Wishes for the Cloths of Heaven</strong></span></p>
<p><span style="color:#666699;"><strong><br />
</strong></span></p>
<p><span style="color:#666699;"><strong></strong></span></p>
<p><span style="color:#666699;">Had I the heavens&#8217; embroidered cloths</span></p>
<p><span style="color:#666699;">Enwrought with golden and silver light</span></p>
<p><span style="color:#666699;">The blue and the dim and the dark cloths</span></p>
<p><span style="color:#666699;">Of night and light and the half-light</span></p>
<p><span style="color:#666699;"><br />
</span></p>
<p><span style="color:#666699;">I would spread the cloths under your feet:</span></p>
<p><span style="color:#666699;">But I, being poor, have only my dreams</span></p>
<p><span style="color:#666699;">I have spread my dreams under your feet</span></p>
<p><span style="color:#666699;">Tread softly because you tread on my dreams.</span></p>
<p><strong><br />
W. B. Yeats</strong></p>
<p><strong><br />
</strong></p>
<p><strong><span style="color:#666699;">Ele Deseja os Tecidos do Céu</span></strong></p>
<p><strong><span style="color:#666699;"><br />
</span></strong></p>
<p><span style="color:#666699;">Tivesse eu os tecidos bordados dos céus,</span></p>
<p><span style="color:#666699;">Lavrados com a prata e o ouro da luz,</span></p>
<p><span style="color:#666699;">Os tecidos azuis e foscos e de breu</span></p>
<p><span style="color:#666699;">Que têm a noite, a luz e a meia luz</span></p>
<p><span style="color:#666699;"><br />
</span></p>
<p><span style="color:#666699;"><br />
Estenderia esses tecidos a teus pés:</span></p>
<p><span style="color:#666699;">Mas eu, porque sou pobre, apenas tenho sonhos;</span></p>
<p><span style="color:#666699;">São os meus sonhos que eu estendi a teus pés;</span></p>
<p><span style="color:#666699;">Sê suave no pisar, que pisas os meus sonhos.</span></p>
<div id="attachment_1491" class="wp-caption aligncenter" style="width: 355px"><img class="size-full wp-image-1491" title="Wind Flowers" src="http://asfolhasardem.wordpress.com/files/2009/02/1816572868_bbabef1afd.jpg" alt="Wind Flowers, John Waterhouse" width="345" height="500" /><p class="wp-caption-text">Wind Flowers, John Waterhouse</p></div>
</div>]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[Olho a sua boca]]></title>
<link>http://gatopingado.wordpress.com/2009/01/30/olho-a-sua-boca/</link>
<pubDate>Fri, 30 Jan 2009 19:29:54 +0000</pubDate>
<dc:creator>serradalua</dc:creator>
<guid>http://gatopingado.wordpress.com/2009/01/30/olho-a-sua-boca/</guid>
<description><![CDATA[Olho a sua boca. Tanto que vem o punhal da luz levar-me os olhos. O carvão, a cinza dos meus olhos.O]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><p style="text-align:center;"><img class="aligncenter" src="http://www.gehspace.com/edicao%2038%20imagens/Anamaria%20Baralt%20womans%20face.jpg" alt="" width="284" height="380" /></p>
<p style="text-align:center;">Olho a sua boca.</p>
<p style="text-align:center;">Tanto que vem o punhal da luz</p>
<p style="text-align:center;">levar-me os olhos.</p>
<p style="text-align:center;">O carvão, a cinza dos</p>
<p style="text-align:center;">meus olhos.Os seus.</p>
<p style="text-align:center;">A sua boca,o sulco</p>
<p style="text-align:center;">onde me pergunta e eu</p>
<p style="text-align:center;">respondo. A morrer,</p>
<p style="text-align:center;">a olhar anavalhado</p>
<p style="text-align:center;">o seu brilho bravio.</p>
<p style="text-align:center;">Sons de sirenes, uivos,</p>
<p style="text-align:center;">estrondos, desabamentos,</p>
<p style="text-align:center;">ravinas donde rompe</p>
<p style="text-align:center;">o amor. A sua boca.</p>
<p style="text-align:center;"><em>Joaquim Manuel Magalhães</em></p>
<p style="text-align:center;"><em>Imagem: Ana Maria Baralt<br />
</em></p>
</div>]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[Poesia Portuguesa (18) - Joaquim Manuel Magalhães]]></title>
<link>http://asfolhasardem.wordpress.com/2009/01/16/poesia-portuguesa-18-joaquim-manuel-magalhaes/</link>
<pubDate>Fri, 16 Jan 2009 00:41:53 +0000</pubDate>
<dc:creator>manuel margarido</dc:creator>
<guid>http://asfolhasardem.wordpress.com/2009/01/16/poesia-portuguesa-18-joaquim-manuel-magalhaes/</guid>
<description><![CDATA[Publica-se aqui um dos poemas que melhor separam as águas entre a identidade homossexual e a sua apr]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><p style="text-align:justify;">Publica-se aqui um dos poemas que melhor separam as águas entre a identidade homossexual e a sua apropriação/incorporação pela sociedade, poema esse que, lido em confronto e diálogo com o propositivo, programático e cénico poema <em>Homossexualidade</em>, publicado bem mais tarde, na revista <span style="color:#333399;"><em><strong>Telhados de Vidro</strong></em></span> nº. 4, de Maio de 2005, nos deixa(m) perante a voz cortante, de espessa ironia e consciente desencanto de <strong><span style="color:#003366;">Joaquim Manuel Magalhães</span></strong>. No final do poema, transcreve-se um texto de <span style="color:#003366;"><strong>Paula Cruz</strong></span>, professora já referida aqui, autora do não/blogue escolar <a href="http://cercarte.blogspot.com/" target="_blank"><span style="color:#333399;"><strong>CercARTE</strong></span></a>, intitulado <em>Gavetas e Armários</em>. Parece-me acertado que se leiam os dois textos de tal forma que seja tão distinta como cruzada a sua leitura.</p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#666699;">Aos poucos foram sendo conhecidos juntamente</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#666699;">Nos ríspidos círculos da classe a que pertenciam</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#666699;">Aos poucos também, a troco da paga decorativa</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#666699;">De vários livros de verso e alguns de ensaio,</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#666699;">Atenuaram-lhes as consabidas ironias e acusações.</span></p>
<h6 style="text-align:justify;"><span style="color:#666699;"><br />
</span></h6>
<p><span style="color:#666699;">Com o tempo vieram as fotografias  nos circuitos</span></p>
<p><span style="color:#666699;">De massificação, chegou a haver semanas em que padeciam</span></p>
<p><span style="color:#666699;">Escritos elogios que davam notoriedade sem suspeita.</span></p>
<h6><span style="color:#666699;"><br />
</span></h6>
<p><span style="color:#666699;">Nas pistas  múltiplas  das artes e das noites,</span></p>
<p><span style="color:#666699;">Até antigos  desconhecidos, até estáveis malquerentes</span></p>
<p><span style="color:#666699;">Diziam: &#8220;os dois poetas&#8221;. Antes queriam</span></p>
<h6><span style="color:#666699;"><br />
</span></h6>
<p><span style="color:#666699;">Ser tratados pelo nome ou pelo só indicativo</span></p>
<p><span style="color:#666699;">Da profissão que padeciam por a reconhecer</span></p>
<p><span style="color:#666699;">O melhor lenitivo para a obsessiva</span></p>
<p><span style="color:#666699;">E neurotizante dedicação em exclusivo</span></p>
<p><span style="color:#666699;">À chamada profissionalização dos escritores:</span></p>
<h6><span style="color:#666699;"><br />
</span></h6>
<p><span style="color:#666699;">«os dois poetas», contudo, semi-servia</span></p>
<p><span style="color:#666699;">para neutralizar outras sevícias.</span></p>
<p><span style="color:#666699;"><br />
</span></p>
<p><span style="color:#666699;">Mas quando os carros exigiam marcações</span></p>
<p><span style="color:#666699;">na empresa dum mecânico vizinho</span></p>
<p><span style="color:#666699;">às vezes no telefone pousado chamavam</span></p>
<p><span style="color:#666699;">com voz abafada pelo patrão: são «os dois paneleiros»</span></p>
<p><span style="color:#666699;">Embora sempre afável atendesse às avarias.</span></p>
<h6><span style="color:#666699;"><br />
</span></h6>
<p><span style="color:#666699;">A voz voava do recanto de contabilidade</span></p>
<p><span style="color:#666699;">forrado a calendários com poses pneumáticas</span></p>
<p><span style="color:#666699;">por sobre tubos de escape, soldaduras, jactos, latões.</span></p>
<p><span style="color:#666699;">baterias, broquins, desperdícios, alavancas;</span></p>
<p><span style="color:#666699;">e a gordura negra, um filtro gasto, malsão.</span></p>
<h6><span style="color:#666699;"><br />
</span></h6>
<p><span style="color:#666699;">Assim os conheciam por lá, quiçá por outros becos.</span></p>
<p><span style="color:#666699;">E ambas as designações os faziam sorrir.</span></p>
<p><span style="color:#666699;">Mas se fossem de repartição ou a prazo numa firma</span></p>
<p><span style="color:#666699;">Ou até doutra mecânica qualquer? Ou  de pequena cidade?</span></p>
<p><span style="color:#666699;">Ou de grupo de jardim com reformados?</span></p>
<h6><span style="color:#666699;"><br />
</span></h6>
<p><span style="color:#666699;">Trata-se, é claro, da inútil função social da poesia.</span></p>
<p><strong>Joaquim Manuel Magalhães</strong>, Alguns Livros Reunidos, pg 124 &#8211; 125, Contexto, Lisboa, 1987</p>
<div id="attachment_1282" class="wp-caption aligncenter" style="width: 520px"><a href="http://asfolhasardem.wordpress.com/files/2009/01/2134074.jpg"><img class="size-full wp-image-1282" title="2134074" src="http://asfolhasardem.wordpress.com/files/2009/01/2134074.jpg" alt="Confrontation © cyril berthault-jacquier, Olhares, fotografia online" width="510" height="510" /></a><p class="wp-caption-text">Confrontation © cyril berthault-jacquier, Olhares, fotografia online</p></div>
<p style="text-align:center;"><span style="color:#333333;"><span style="color:#800080;">(clique para ampliar)</span><br />
</span></p>
<h5><em><span style="color:#333333;">Gavetas e armários</span></em></h5>
<h5><span style="color:#333333;">Paula Cruz</span><em><span style="color:#333333;"><br />
</span></em></h5>
<p><em><span style="color:#333333;"><br />
Quando alguém lê um romance onde um homem e uma mulher se envolvem em práticas amorosas, não o rotula ou categoriza no subgénero literário “ficção heterossexual”, nem faz juízos de valor sobre a orientação sexual do produtor da obra. No entanto, se numa dada obra temos uma alusão ou descrição de uma relação homossexual, essa obra, passa, quase de forma automática a ser inserida na literatura gay, ou mais modernamente, na literatura querer, uma estratégia terminológica politizada que nos permite ir um pouco mais além dos géneros sexuais tradicionalmente estabelecidos.<br />
Certo é que a pseudo-heteronormalidade, a «elasticidade mortífera da presunção heterossexual» (Sedgwick, 2003:7), vai regendo a subcategorização dos géneros  literários, assim  obras produzidas ou por autores que assumam publicamente a sua orientação sexual  ou  cuja temática aluda a sensibilidades ditas minoritárias são categorizadas sob o amplo guarda-chuva terminológico de literatura gay , LGBT ou  queer.   O mais curioso é que qualquer forma de afirmação – seja de orientação sexual, política, ou outra – é, simultaneamente, um mecanismo de ocultação, pois para que se destaquem os caracteres que se desejam afirmar , os outros são silenciados. O facto de uma obra ser lida enquanto “lgbt”, faz com que todas as outras  questões abordadas, sejam menorizadas.<br />
Ser posto na prateleira da literatura gay ou homossexual (distintas, segundo Eduardo Pitta)  ou feminina é uma forma de dar visibilidade, mas ao mesmo tempo, de criar um certo folclore à volta desses mesmos rótulos, assim como em tempos se fez com a literatura sul-americana ou como, presentemente, se está a fazer com o romance histórico (sempre embrulhado numa doirada capa com um qualquer pormenor de um quadro renascentista ou com uma imagem sépia a revivificar uma qualquer falsa memória colonial).<br />
Claro que a questão da visibilidade social LGBT é importante, bem como é importante desfazer mitos em redor das homossexualidades, no entanto receio que os, por vezes,  escusos caminhos da edição promovam as obras  apenas como uma forma inocente de voyerismo e não pela sua qualidade intrínseca.  A meu ver, faz todo sentido falar-se em estudos queer e considero  urgente  reservar um  espaço nas estantes para este emergente campo de estudo. Já em questões literárias, parece-me lesivo (e abusivo)  fechar os autores em espartilhos que não os dos géneros dramático, narrativo e lírico.  A opção por rotular uma obra na literatura gay faz parte de um processo evolutivo: num primeiro momento há a consciencialização e a afirmação da diferença e, posteriormente, teremos o desejo de uma diferença não diferenciada. Nessa diferença a  dicotomia homossexual / heterossexual perderá o sentido. É o caminho da diferença não diferenciada que queremos que seja trilhado.<br />
A obra ficcional de Frederico  Lourenço não pode ser  equiparada à de um Guilherme de Melo, por exemplo. O ser homossexual não autoriza a que sejam colocados numa mesma prateleira e num mesmo nível de qualidade. A questão heterossexual, homossexual, lésbica, transexual ou bissexual é  identitária, podendo ou  não transparecer para  a escrita, embora lhe esteja subjacente.  Frederico Lourenço é, no meu entender, um excelente escritor, que por acaso é homossexual. A trilogia iniciada por Pode um desejo imenso tem inquestionavelmente uma temática gay, mas é muito mais do que isso . Além dos aspectos literários, trata-se de uma ardilosa forma de defender uma tese, que encontraria resistências vigorosas no meio académico. Quando digo que Frederico Lourenço “por acaso é homossexual”, refiro-o como, a propósito de Mia Couto , digo que por acaso tem um pigmentação de pele mais nórdica, do que a tipicamente moçambicana. É óbvio que  todos os factores que  condicionam o autor textual são importantes, mas daí a tornar essas evidências em factos determinantes no seu emprateleiramento literário, parece-me francamente exagerado.  Para um  autor,  ser lido apenas por ter (ou melhor, assumir)  uma orientação sexual divergente da heteronormalidade asfixiante não é nem prestigiante, nem interessante. Se continuarmos a insistir em  rotular obras apenas por factos além da própria obra, como a orientação sexual  dos escritores, podemos chegar  a  extremos tão caricatos quanto etiquetar Miguel Torga e Jorge Sousa Braga  enquanto nos poetas que são médicos, sendo Sousa Braga inserido na subcategoria dos poetas ginecologistas. Vergílio Ferreira e David Mourão-Ferreira cabem na secção nos escritores que foram professores, sendo que Vergílio Ferreira pertence à sub-secção dos romancistas professores de Português, Latim e Grego do ensino Secundário. Vasco Graça Moura nos escritores que casaram mais de três vezes,  Manuel António Pina,  Ana Luísa Amaral e Adília Lopes nos escritores que gostam de gatos.  Esta especificação  seria, obviamente, ridícula, como o outro extremo também o é: em nenhum manual escolar a homossexualidade de Eugénio de Andrade é focada. Há aqui um “assobiar para o lado”, perdoe-se a expressão, apenas perceptível se enquadrarmos o poeta numa sociedade que apenas em 2004  tornou inconstitucional a discriminação com base na orientação sexual.  O “tu” dos poemas de Eugénio é lido nas selectas escolares sempre como um sujeito lírico feminino, não se abordando em parte alguma a questão do “outro” poder ser alguém do mesmo género sexual. O mais que acontece é esse “tu” ser lido como um referente neutro. Claro, que neste caso é o preconceito ancestral que domina as leituras oficiais. Sem nos alongarmos nas leituras mais ou menos  oficiais feitas pelos manuais escolares, não é só na questão da sexualidade que estes manifestam um carácter bafiento. A forma prática como os autores são seccionados em temáticas resulta numa forma dramática de circunscrever os autores a determinados topoi.<br />
Uma das  vantagens efectivas  de os livros seguirem para as livrarias previamente etiquetados  é que, desta forma,  o trabalho dos livreiros é simplificado, assim,  nem sequer precisam conhecer o que vendem.  Se calhar  é por ausência de etiquetas que Breves Notas sobre Medo (2007)  de Gonçalo M. Tavares é muitas vezes  arrumado na secção de psicologia e Introdução à Filosofia  e Fenomenologia de Fernando Echevarria são serenamente acomodados entre tratados filosóficos.<br />
É  caricato falar-se de literatura homoerótica quando falamos de escrita onde se tocam questões homossexuais, de pudicamente se falar em literatura feminina, quando muitas vezes a temática é de cariz lésbico e de se falar de literatura erótica quando se fala de literatura heterossexual, com pinceladas de sensualidade e/ou sexualidade entre homens e mulheres. Por que será que não se fala em literatura heteroerótica? Mais uma vez o peso da heteronormalidade, marketing ou simples distracção? E, ainda nesta linha, o que define a literatura dita gay: a orientação sexual do autor ou a temática da obra?<br />
Falar em literatura feminina, em literatura regional, em literatura gay, literatura colonial ou pós-colonial, em literatura negra  é sempre uma forma  de categorizar e, de certa forma, engavetar. A necessidade de categorizar e de nomear é intrínseca ao ser humano e isso, por si só, não é necessariamente mau. Muitas vezes,  os rótulos são uma forma lícita  de dar visibilidade a determinadas questões sociais, no entanto,  esse mesmo rótulo pode tornar-se num duro espartilho que não deixa  que as obras respirem e sejam lidas no seu todo.  Assim como não considero que exista uma escrita feminina, também não  creio que seja relevante falar em literatura queer, gay, homossexual ou lgbt. Não é a escrita que está em causa: é o modo de ler. A etnia, a orientação sexual, o local de produção não definem, à partida, ou não deveriam definir, a qualidade da obra. A opção por, voluntariamente, enquadrar uma obra  sob determinada legenda – gay, homossexual, queer (aqui os termos são usados indistintamente) – reproduz exactamente a mesma ordem social inflexível e reguladora contra a qual se opõe. O sublinhado terminológico que embrulha obras de cariz tão diverso configura o mundo a partir   do binómio homossexual vs heterossexual.<br />
O texto literário é sempre coberto de véus que criam verdades artificiais, ainda que de verdades se tratem, de facto. Estes véus constroem uma realidade simbólica que se afasta da realidade do autor empírico. Ainda assim, o texto revela marcas do seu tempo, do contexto de produção, do contexto sócio-cultural, de género e até da orientação sexual.  A interrogação sobre a importância destas marcas é importante, mas não pode ser condicionante,  transformando  o exercício da leitura numa obsidiante compilação de marcas do tempo, da biografia, da intimidade, da orientação sexual de quem o escreveu.<br />
A literatura faz parte da vida, não lhe é marginal, logo a sexualidade está sempre presente, seja de forma mais ou menos explícita. O grau de conhecimento do leitor, os seus horizontes e a sua biblioteca cultural convivem com os textos. Em última instância, seria (ou deveria ser) o leitor a guardar cada obra na estante pessoalíssima das suas próprias leituras.<br />
Se etiquetar algumas obras sob a sigla LGBT pode até, num primeiro momento ser  vantajoso, como forma de adquirir um lugar numa estante de uma livraria, no entanto a longo prazo  isso faz com que na obra apenas se perscrutem  traços biográficos e que os aspectos literários sejam relegados para planos muito secundários. A prateleira da “literatura gay” é apenas uma forma de fechar o armário ou, então, de transferir o armário para uma gaveta.  Neste ponto, é necessário radicalizar a questão:  a obra vale pelo que é ou pela orientação sexual do autor ?<br />
Categorizar uma obra pela orientação sexual do autor empírico é ler a obra pelos óculos redutores da crítica biografista.  A vida  privada do autor só é (deve ser)  relevante para a sua esfera privada. Não tenho grandes dúvidas que se determinados autores publicassem as suas obras sob outras etiquetas, o sucesso editorial seria diverso. Arrisco dizer que Paulo Kellerman, autor de Gastar as Palavras (2006) e os Mundos Separados que Partilhamos (2007)  seria, se assinasse como Paula Kellerman,  etiquetado, com alguma facilidade , numa escrita dita feminina.<br />
Os bons livros seguramente deixarão os espartilhos das prateleiras  e afirmar-se-ão  pela sua qualidade, sendo, quando muito integrados nos géneros maiores: lírico, narrativo e dramático. Os outros prestam-se ao folclore.</span></em></p>
<p>Bibliografia:<br />
Pitta, Eduardo (2003) Fractura, a condição homossexual na literatura portuguesa contemporânea, Angelus Novus, Coimbra<br />
Sedgwick, Eve Kosofsky, trad. Ana Luís e Fernando Oliveira,  (2003) Epistemologia do Armário, Angelus Novus, Coimbra<br />
Carneiro, Nuno Santos e Isabel Menezes, (2006) “Do anel à aliança”: Sentido dos iguais e emancipação pessoal na psicologia das sexualidades” (pp.73-79) in Revista Crítica de Ciências Sociais, 76</p>
<p><span style="color:#333333;">-</span></p>
<p><span style="color:#333333;"> ¹Note-se que é desajustado falar em literatura gay (ou homossexual, ou queer, ou outra coisas qualquer) uma vez que  a literatura, em si mesma, não é um género literário. Os géneros literários maiores são o dramático, lírico e narrativo, logo, seria preferível falar em “narrativa gay”, “poesia gay” e “teatro gay”.</span></p>
<p><span style="color:#333333;">²O caso de Mia Couto serve ainda de exemplo para uma ambiguidade criada pelo seu próprio nome. Mia é um diminutivo de Emílio, mas muitas vezes, os leitores estão em crer que Mia é nome de mulher e que o autor do texto é, portanto, uma mulher. Conta-se aliás o equívoco  a que foi sujeito numa visita diplomática a Cuba, em que  os assessores de Fidel Castro o presentearam com artigos femininos, dado que, pelo seu nome, esperavam uma mulher. Aliás, o próprio Mia Couto refere que normalmente aguardam uma mulher negra. O condicionamento da leitura começa aí. </span></p>
<p><span style="color:#333333;"> ³Neste ponto, é curioso observar que Ary dos Santos, poeta, comunista rejeitado pelo partido pela sua orientação sexual, é mais depressa lido de um ponto de vista hermenêutico sob uma perspectiva politica, do que sexual.</span></p>
<p><strong></strong>
</p>
<p style="text-align:right;"><em><strong>publicado no Primeiro de Janeiro, suplemento Das Artes e das Letras.</strong></em></p>
</div>]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[Poesia Portuguesa (XV) - Joaquim Manuel Magalhães]]></title>
<link>http://asfolhasardem.wordpress.com/2009/01/02/poesia-portuguesa-xv-joaquim-manuel-magalhaes/</link>
<pubDate>Thu, 01 Jan 2009 23:03:13 +0000</pubDate>
<dc:creator>manuel margarido</dc:creator>
<guid>http://asfolhasardem.wordpress.com/2009/01/02/poesia-portuguesa-xv-joaquim-manuel-magalhaes/</guid>
<description><![CDATA[Sem qualquer espécie de pudor, antes humildade ante a síntese consistente e mais que suficiente para]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><p style="text-align:justify;">Sem qualquer espécie de pudor, antes humildade ante a síntese consistente e mais que suficiente para apresentar o autor a quem dele menos conheça, transcrevo a nota biográfica de <strong><span style="color:#333399;">J</span></strong><span style="color:#333399;"><strong><span style="color:#333399;">oaquim Manuel </span>Magalhães</strong></span>, inserta no excelente blogue <a href="http://antologiadoesquecimento.blogspot.com/" target="_blank"><span style="color:#333399;"><strong>Insónia</strong></span></a>, em 6 de Setembro de 2005, da autoria de <span style="color:#333399;"><strong>Henrique Fialho</strong></span>, (a quem dou conhecimento desta transcrição e a quem devo muitas leituras, em qualidade e quantidade no seu outro blogue, <a href="http://antologiadoesquecimento-leituras.blogspot.com/"><span style="color:#333399;"><strong>Volumen</strong></span></a>) <em>&#8220;Joaquim Manuel Magalhães nasceu em 1945 no Peso da Régua. Poeta, ensaísta, crítico de poesia e tradutor, doutorou-se em Literatura Inglesa, pela Universidade de Lisboa, com a tese «</em>Consequência da Literatura e do Real na Poesia de Dylan Thomas<em>» (1980). Professor catedrático da Faculdade de Letras de Lisboa, rege seminários de Poesia Contemporânea. Os primeiros poemas apareceram em 1974, num </em>Envelope<em> concebido pelo pintor António Palolo. Também participou na elaboração do </em>Cartucho<em> (1976). Mais tarde, </em>Alguns Livros Reunidos<em> (1987) colige grande parte da obra publicada até então. Essa recolha inclui os poemas inaugurais, bem como os de </em>Consequência do Lugar<em>, </em>Dos Enigmas<em>, </em>Vestígios<em>, </em>Pelos Caminhos da Manhã<em>, </em>António Palolo<em>, </em>Uma Exposição <em>(este com João Miguel Fernandes Jorge e Jorge Molder) e </em>Alguns Antecedentes Mitológicos<em>, colectâneas que desaparecem como obras autónomas depois da ampla operação de rasura a que foram submetidas. De fora ficam dois títulos emblemáticos: </em>Os Dias, Pequenos Charcos<em> (1981) e a 2ª edição de </em>Segredos, Sebes, Aluviões<em> (1985), muito diferente da versão de 1981. Considerado o mais influente crítico da sua geração, a sua actividade ensaística faz a síntese do </em>ethos<em> puritano e da pulsão libertária. É autor de uma extensa antologia de poesia espanhola (</em>Poesia Espanhola de Agora<em>, que, em dois volumes, reune sessenta e oito autores nascidos entre 1942 e 1976). Também traduziu Kavafis, Seferis e Ana Akhmatova, bem como inúmeros poetas de língua inglesa. De 1968 a 1970 e de 1975 a 1976, apresentou na RTP um programa semanal de sua autoria, sobre poesia, intitulado «</em>Os Homens, Os Livros e As Coisas<em>».<strong>&#8220;</strong></em></p>
<p style="text-align:justify;">O poema que escolho pertence a &#8220;<em>uma luz com um toldo vermelho</em>&#8221; (1990) &#8211; integrando o corpo da sua segunda parte, <em>Os Poços</em> &#8211; livro duplamente significativo para mim, já que foi por ele que &#8220;entrei&#8221; na obra de <strong>Joaquim Manuel Magalhães</strong>, imediatamente após a leitura de &#8220;<em>Um Pouco da Morte</em>&#8220;, obra de crítica literária que transformou, de modo irremediável, a forma como passei a ler poesia.</p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#666699;"><br />
</span>
</p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#666699;">&#8220;Deita-te comigo nesta cama de pedra.&#8221;</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#666699;">Canta de novo esse convite, tantos anos passados,</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#666699;">de novo nas ruínas da rua do emprego</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#666699;">onde fiquei de te esperar.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#666699;"><br />
</span>
</p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#666699;">Está deitado aqui o corpo que recorda, está deitado.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#666699;">Os ornamentos de metal, a música portátil,</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#666699;">o tambor de uma criança na rua,</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#666699;">o risco amarelo da coberta.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#666699;"><br />
</span>
</p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#666699;">O braço que descai debaixo do pescoço</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#666699;">o coração cujo ritmo decresce</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#666699;">os olhos em que dói a luz do candeeiro</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#666699;">os pés à procura da lã do cobertor</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#666699;">o esperma que seca sobre o peito</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#666699;">o sono entrecortado da respiração.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#666699;"><br />
</span>
</p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#666699;">Trocas de luz errante, ervas sem nome</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#666699;">que me dizias serem feno grego, junça, melodia.</span></p>
<p style="text-align:justify;">
<p style="text-align:justify;"><strong>Joaquim Manuel Magalhães</strong>, <em>in ‘uma luz com um toldo vermelho’</em>, p. 35, colecção forma nº 24, Editorial Presença, Lisboa, 1990.</p>
<p style="text-align:justify;">
<p style="text-align:justify;">
<div id="attachment_1215" class="wp-caption aligncenter" style="width: 520px"><img class="size-full wp-image-1215" title="406353" src="http://asfolhasardem.wordpress.com/files/2009/01/406353.jpg" alt="© Pedro Polónio, Olhares, fotografia online" width="510" height="337" /><p class="wp-caption-text">© Pedro Polónio, Olhares, fotografia online</p></div>
<p style="text-align:justify;">
<p style="text-align:justify;">
<p style="text-align:justify;">
<p style="text-align:justify;">
<p style="text-align:justify;">
<p style="text-align:justify;">
<p style="text-align:justify;">
<p style="text-align:justify;"><em><strong><br />
</strong></em></p>
</div>]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[Poesia Portuguesa (XIV) - Herberto Helder]]></title>
<link>http://asfolhasardem.wordpress.com/2008/12/16/poesia-portuguesa-xiv-herberto-helder/</link>
<pubDate>Tue, 16 Dec 2008 01:06:12 +0000</pubDate>
<dc:creator>manuel margarido</dc:creator>
<guid>http://asfolhasardem.wordpress.com/2008/12/16/poesia-portuguesa-xiv-herberto-helder/</guid>
<description><![CDATA[(à Beatriz. Perceberá) Este blogue chega a Herberto Helder. Deveria, se seguisse critérios de ]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><p style="text-align:right;"><span style="color:#800000;"><em>(à Beatriz. Perceberá)</em></span></p>
<p style="text-align:justify;">Este blogue chega a <span style="color:#333399;"><strong>Herberto Helder</strong></span>. Deveria, se seguisse critérios de &#8216;actualidade&#8217; escrever sobre (melhor, revelar, dar a conhecer um pouco de) <em><strong>A Faca Não Corta o Fogo</strong></em>. Lá iremos. Se formos. <strong>Herberto Helder</strong> em texto/carta publicada no primeiro número da revista <em><strong>Abril</strong></em> (1977), dirigida por  <strong><span style="color:#333399;">Eduardo Prado Coelho </span></strong>(revista da qual saíram nove números, que a minha mãe mandou encadernar em pele, abençoada seja) escrevia: «(<em>&#8230;) Gostei da sua pergunta sobre o que seria citável. Sim, o que é citável de um livro, de um autor? Decerto, a sua morte pode ser citável. E sobretudo, o seu silêncio.</em>» Esta declaração não deve estranhar-se num poeta cuja obra nunca é definitiva, ou seja, vai conhecendo um contínuo percurso de reformulação. Na obra de Herberto Helder não podemos falar de reedições, mas de versões em estado de latência, em &#8220;<em>suspensão</em>&#8220;, nas palavras do poeta; nunca será possível uma edição <em>ne varietur</em>, daquelas que os autores consideram lapidadas para a posteridade. Como ele mesmo diz, «t<em>alvez só essa suspensão seja citável</em>» Estamos, portanto, no domínio da impossibilidade, do segredo mais fundo do autor. Ainda assim, corra-se o risco de cristalizar no tempo um poema. Escolhido para integrar <em><strong>Rosa do Mundo &#8211; 2001 Poemas para o Futuro</strong></em>, a mais bela colectânea de poesia jamais feita em Portugal, este poema (II de VI) foi, de certa forma, fixado para sempre. <strong>Apesar dele.</strong></p>
<p style="text-align:justify;"><em>Nota: para uma leitura da obra de Herberto Helder, </em><strong>Um Pouco da Morte</strong><em> (</em>Editorial Presença, pp. 125-136, Lisboa, 1989<em>), o livro de análise literária que rompe os cânones da crítica do seu tempo, de <strong><span style="color:#333399;">J</span></strong><span style="color:#333399;"><strong>oaquim Manuel Magalhães</strong></span> (obra axial no seu trabalho ensaístico) foi o melhor que li até hoje e ampliou a possibilidade de o ler mais fundo. Recomendo muito.</em></p>
<p style="text-align:justify;"><em><br />
</em>
</p>
<p style="text-align:justify;">
<p style="text-align:center;"><strong><span style="color:#666699;">FONTE</span></strong></p>
<p style="text-align:center;"><strong><span style="color:#666699;">(II)</span></strong></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#666699;">No sorriso louco das mães batem as leves</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#666699;">gotas de chuva. Nas amadas</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#666699;">caras loucas batem e batem</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#666699;">os dedos amarelos das candeias.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#666699;">Que balouçam. Que são puras.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#666699;">Gotas e candeias puras. E as mães</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#666699;">aproximam-se soprando os dedos frios.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#666699;">Seu corpo move-se</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#666699;">pelo meio dos ossos filiais, pelos tendões</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#666699;">e órgãos mergulhados,</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#666699;">e as calmas mães intrínsecas sentam-se</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#666699;">nas cabeças filiais.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#666699;">Sentam-se, e estão ali num silêncio demorado e apressado,</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#666699;">vendo tudo,</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#666699;">e queimando as imagens, alimentando as imagens,</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#666699;">enquanto o amor é cada vez mais forte.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#666699;">E bate-lhes nas caras, o amor leve.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#666699;">O amor feroz.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#666699;">E as mães são cada vez mais belas.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#666699;">Pensam os filhos que elas levitam.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#666699;">Flores violentas batem nas suas pálpebras.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#666699;">Elas respiram ao alto e em baixo. São</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#666699;">silenciosas.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#666699;">E a sua cara está no meio das gotas particulares</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#666699;">da chuva,</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#666699;">em volta das candeias. No contínuo</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#666699;">escorrer dos filhos.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#666699;">As mães são as mais altas coisas</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#666699;">que os filhos criam, porque se colocam</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#666699;">na combustão dos filhos, porque</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#666699;">os filhos estão como invasores dentes-de-leão</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#666699;">no terreno das mães.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#666699;">E as mães são poços de petróleo nas palavras dos filhos,</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#666699;">e atiram-se, através deles, como jactos</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#666699;">para fora da terra.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#666699;">E os filhos mergulham em escafandros no interior</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#666699;">de muitas águas,</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#666699;">e trazem as mães como polvos embrulhados nas mãos</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#666699;">e na agudeza de toda a sua vida.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#666699;">E o filho senta-se com a sua mãe à cabeceira da mesa,</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#666699;">e através dele a mãe mexe aqui e ali,</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#666699;">nas chávenas e nos garfos.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#666699;">E através da mãe o filho pensa</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#666699;">que nenhuma morte é possível e as águas</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#666699;">estão ligadas entre si</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#666699;">por meio da mão dele que toca a cara louca</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#666699;">da mãe que toca a mão pressentida do filho.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#666699;">E por dentro do amor, até somente ser possível</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#666699;">amar tudo,</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#666699;">e ser possível tudo ser reencontrado por dentro do amor.</span></p>
<p style="text-align:justify;">
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#666699;"><span style="color:#000000;"><strong>Herberto Helder</strong>, <em>in</em> <em>‘Rosa do Mundo, 2001 Poemas para o futuro</em>‘, pp.1698-1700, Assírio &#38; Alvim, Lisboa, Agosto de 2001</span></span></p>
<p style="text-align:justify;">
<p style="text-align:center;"><span style="color:#666699;"></span></p>
<div id="attachment_1129" class="wp-caption aligncenter" style="width: 519px"><a href="http://asfolhasardem.wordpress.com/files/2008/12/william-blake-pieta-1795-londra-tate-gallery.jpg"><img class="size-full wp-image-1129" title="w-b" src="http://asfolhasardem.wordpress.com/files/2008/12/william-blake-pieta-1795-londra-tate-gallery.jpg" alt="Pietá - William Blake, circa 1795 © Tate Gallery" width="509" height="400" /></a><p class="wp-caption-text">Pietá - William Blake, circa 1795 © Tate Gallery</p></div>
<p style="text-align:center;"><span style="color:#800080;">(clique para ampliar)</span></p>
<p style="text-align:justify;">
<p style="text-align:justify;">
<p style="text-align:justify;">
</div>]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[Sem título (ou "O Sebo do Sul")]]></title>
<link>http://dramapessoal.wordpress.com/2008/07/25/sem-titulo-ou-o-sebo-do-sul/</link>
<pubDate>Fri, 25 Jul 2008 19:15:32 +0000</pubDate>
<dc:creator>dramapessoal</dc:creator>
<guid>http://dramapessoal.wordpress.com/2008/07/25/sem-titulo-ou-o-sebo-do-sul/</guid>
<description><![CDATA[&nbsp; &nbsp; Queria: que tirassem o mar daqui ao pé. Odeio este mar; cada ano com mais sentimento d]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><p align="center">&#160;</p>
<p style="text-align:center;"><img class="size-full wp-image-655 aligncenter" src="http://dramapessoal.wordpress.com/files/2008/07/lisboanoverao_dramapessoal_blogue.jpg" alt="" width="400" height="300" /></p>
<p style="text-align:center;">
<p align="center">&#160;</p>
<blockquote><p>Queria: que tirassem o mar daqui ao pé. Odeio este mar;<br />
cada ano com mais sentimento de ferocidade. Sobretudo<br />
a orla de grosseria onde ele vem acabar-se em ondas<br />
chilras que também devem ser clandestinas. Quando o<br />
levassem tinham também de levar o calor e essa treta<br />
alta e azul a que chamam o céu e a merdosa luz de<br />
Lisboa; aos quais ainda não consegui substituir melhor<br />
imagem do inferno: desprotector, cambado, cuspindo o<br />
mais branco dos amarelos sobre as coisas todas (as quais<br />
pouco mais merecem, todas, do que se lhes cuspa, mas já<br />
agora um cuspo mais baço e refrescado).<br />
Queria pois, que arrefecessem completamente o verão e<br />
o molhassem de alto a baixo, pelo menos dia sim dia não.<br />
E queria peles alvas, firmes, rosadas de alegrias frias,<br />
e não labregamente queimadas.<br />
Que trouxessem muito mais nuvens, mais pertinho dos<br />
telhados, sem tropeções absurdos de luz em faca por<br />
entre elas. E os dias muito curtos, mais fuliginosos,<br />
acariciadores, um novelo a ajudar-nos a estar quentes<br />
com o gelo das ruas todo o ano. Muita neve, muita água.<br />
Quando chove em Lisboa parece que ainda há mais sol,<br />
que tudo fica mais fluorescente.<br />
Importassem outra chuva. Dividissem este rio em quatro<br />
ou sete pelo meio da cidade, fizessem-nos poder viver em<br />
flutuação entre terra boa, lisa, fresca. Civilizada, sem a<br />
porcaria do sol, a malvadez da claridade, o sebo do sul.<br />
Como vêem, continuarei a não votar em ninguém.</p>
<blockquote>
<p align="center">&#160;</p>
<p align="center">&#160;</p>
<p style="text-align:right;">Joaquim Manuel Magalhães<br />
(tal como publicado no extinto jornal <em>O Independente</em>)</p>
</blockquote>
<blockquote>
<p style="text-align:right;">foto dramapessoal</p>
<p align="center">&#160;</p>
<p align="center">&#160;</p>
</blockquote>
</blockquote>
</div>]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[O Sol da Tarde (Konstandinos Kavafis)]]></title>
<link>http://dramapessoal.wordpress.com/2008/03/16/o-sol-da-tarde-konstandinos-kavafis/</link>
<pubDate>Sun, 16 Mar 2008 14:16:23 +0000</pubDate>
<dc:creator>dramapessoal</dc:creator>
<guid>http://dramapessoal.wordpress.com/2008/03/16/o-sol-da-tarde-konstandinos-kavafis/</guid>
<description><![CDATA[&nbsp; Este quarto, como o conheço bem. Agora alugam-se quer este quer o do lado para escritórios co]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><p align="center">&#160;</p>
<blockquote><p>Este quarto, como o conheço bem.<br />
Agora alugam-se quer este quer o do lado<br />
para escritórios comerciais. A casa toda tornou-se<br />
escritórios de intermediários, e de comerciantes, e Sociedades.</p>
<p>Ah este quarto, não é nada estranho.</p>
<p>Perto da porta por aqui estava o sofá,<br />
e diante dele um tapete turco;<br />
ao pé a prateleira com duas jarras amarelas.<br />
À direita; não, em frente, um armário com espelho.<br />
Ao meio a sua mesa de escrever;<br />
e três grandes cadeiras de vime.<br />
Ao lado da janela estava a cama<br />
onde nos amámos tantas vezes.</p>
<p>Estarão ainda os coitados nalgum lugar.</p>
<p>Ao lado da janela estava a cama;<br />
o sol da tarde chegava-lhe até metade.</p>
<p>&#8230; De tarde quatro horas, tínhamo-nos separado<br />
por uma semana só&#8230; Ai de mim,<br />
aquela semana tornou-se para sempre.</p></blockquote>
<p align="center">&#160;</p>
<p align="right"><img src="http://dramapessoal.wordpress.com/files/2008/03/rue_cherif_pacha_450.jpg" alt="rue_cherif_pacha_450.jpg" /></p>
<p align="right">Tradução do grego por<br />
Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratsinis
</p>
<p align="right">ver <a href="http://www.cavafy.com/">The Official Website of The Cavafy Archive</a></p>
<p align="right">Em Poetry International Web:<br />
<a href="http://greece.poetryinternationalweb.org/piw_cms/cms/cms_module/index.php?obj_id=2429"> Introdução aos Poemas, por W.H. Auden</a></p>
<p align="right"><a href="http://greece.poetryinternationalweb.org/piw_cms/cms/cms_module/index.php?obj_id=2439">&#8220;Pendulum&#8217;s Song&#8221;, ensaio de Joseph Brodsky</a><br />
sobre <i>Cavafy&#8217;s Alexandria</i>, de Edmund Keeley</p>
</div>]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[DERROCADA ]]></title>
<link>http://worldroom.wordpress.com/2007/11/24/derrocada/</link>
<pubDate>Sat, 24 Nov 2007 15:32:29 +0000</pubDate>
<dc:creator>João Monge Ferreira</dc:creator>
<guid>http://worldroom.wordpress.com/2007/11/24/derrocada/</guid>
<description><![CDATA[O mundo das obras de arte (e aqui falo principalmente das obras literárias), só o sinto verdadeirame]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><p><font color="#000080" face="verdana" size="2"><br />
O mundo das obras de arte (e aqui falo principalmente das obras literárias), só o sinto verdadeiramente próximo de mim quando se abre ou predispõe à expressão tensa da realidade. Não como simples espelhamento (técnica típica do que usa o subterfúgio para entrar na contabilidade das grandes vendas apesar, ou por causa, da habitualidade da escrita que utiliza) mas como comunicação organizada e estilisticamente nova do que explode dentro e fora de quem escreve, de quem se esmaga nas palavras que tenta usar. Quando procura ser um alicerce, ainda que não reconhecido por quase ninguém, de um sentido que combate, testemunha o combate, faz do quase impossível a procura do seu breve bem.</p>
<p>Não sou dos que acreditam que se deva gritar Revolução quando se diz Sofrimento Social. O século XX mostrou-nos como, em crescendo desde os finais do século XVIII, a palavra «revolução» sempre trouxe com ela associada a palavra «terror». O Sofrimento Social precisa de ser enfrentado de outro modo, e creio que só as democracias o podem tentar resolver. Se uma democracia falha a resolução do Sofrimento Social, então ela falha a sua própria razão de ser. E os «monstros» começam a cercá-la, prontos a desfazerem-na, numa intervenção sumária que nos trará a bem conhecida experiência de outro tipo de extermínios.</p>
<p>Creio que em Portugal, se não fosse a União Europeia, haveriam de ter acontecido desses abalos tremendos que transformam milhares em enxurradas. Pois que tudo está descontente, como em 1910, em 1926, em 1974&#8230;</p>
<p>A arte não pode ser um movimento social meramente vulgar. Dentro dela, a literatura não pode contentar-se com o ponto de vista da ideologia. Tem de se tornar prova do real. De confronto com o desvirtuamento da humanidade do seu tempo. Para isso, não precisa de tornar-se política (partidária), bem pelo contrário, mas necessita de combater o que o político aniquila no quotidiano, e cada um só tem uma vida para viver. Acredito que todos os políticos actualmente em exercício em Portugal não queiram provocar, por vontade deliberada, o desabamento na aceitação da democracia. Mas penso muitas vezes, contra a minha própria razão, que se tornam cúmplices de um desastre assim.</p>
<p>O que está a trazer a democracia aos portugueses? Fome, agravo, muito pouca capacidade de sobreviver, uma saúde desastrosa, um peso fiscal aterrador que atinge os que precisam desse dinheiro levado para poderem atravessar o fim do mês.</p>
<p>20% dos portugueses concentra 80% da riqueza. Cada ano consegue enriquecer ainda mais. Nada tenho contra a existência de ricos produtivos numa sociedade, penso é que a riqueza não lhes deveria ir sempre parar às mãos e que teria de haver uma classe média muito forte que permitisse inúmeros focos de riqueza distribuída por todos (mas o nosso pequeno neocapitalismo não parece gostar de coisas assim). Como eles fazem, não sei; mas não acredito que o façam criminosamente; sabem apenas aproveitar o que a organização social deste tipo de governações lhes permite conseguir.</p>
<p>Os restantes 80% ou lutam para poder equilibrar as suas finanças (e tanto faz que tenham filhos como não tenham, embora os primeiros sofram sem dúvida bem pior situação, se se preocuparem com os seus filhos, o que nem sempre acontece com todos) ou tombam no dia-a-dia vivido como uma migalha de nada caída em sítio nenhum.</p>
<p>Mas há ainda um maior horror: que fará alguém com 360 euros mensais nos dias portugueses de hoje? Assiste, por certo, a cada um dos seus dias como a um lento suicídio. As políticas de sacrifício (pedidas já por dois governos sucessivos &#8211; houve um interregno que não conta &#8211; sem que se lhes perceba as diferenças práticas) estão a servir realmente para quê?</p>
<p>Atrás dos computadores tudo se desumaniza e transforma em números e nos é dito em estatísticas. Mas as pessoas? O que são e o que sentem as pessoas? Pouco percebo destes assuntos, mas começo a acreditar que não está nestas políticas solução alguma, o caminho terá de ser outro; a estratégia dos impostos, por exemplo, percebe-se que não é a saída. Há muitos economistas que dizem que sim. Mas não só a economia não é uma ciência (quando muito é uma prática calculante, nem sequer adivinhatória) como é sempre possível, por isso mesmo, encontrar um segundo grupo de economistas que defenda exactamente o contrário e um terceiro grupo ainda que divirja do que os outros grupos proclamam.</p>
<p>Não haverá demasiada tacanhez de economistas neste nosso processo e uma total falta de visão voluntariamente política e sem o suporte de actividades deletérias como todos os partidos até agora existentes praticaram, uma vez que todos eles já estiveram no poder?</p>
<p>A maioria dos meus amigos (quem não terá amigos assim ou não estará a falar de si próprio quando dos seus amigos fala?) está entre os 80% atrás referidos. Se uns vão conseguindo sobreviver gerindo com extrema severidade o seu orçamento, outros há muito que se têm servido de créditos bancários para conseguir «esticar» o ordenado. Vivem no limite do zero. Só podem, além de trabalhar &#8211; os mais afortunados -, pensar em como hão-de prover à educação dos filhos, aos seguros que têm de providenciar para protecção dos filhos em empregos arriscados, pagar os juros bancários e deixar para o fim a qualidade dos alimentos com que têm de manter a saúde, que, provavelmente, mais depressa se deteriorará, remédios que já se tem de pensar duas vezes antes de comprar, uma vez que o próprio vestuário teve de deixar de existir como necessidade de primeira. Vejo nas suas caras o mesmo abandono, a mesma apatia, o total desencanto que já reconheço naqueles com quem ando nos autocarros e que não sei quem são.</p>
<p>Os meus amigos: professores, enfermeiros, mesmo médicos, bem como rapazes e raparigas e homens e mulheres de meia-idade que vivem a recibos verdes, em que se incluem artistas ou escritores que não conseguiram ou não quiseram transformar-se em mercado de boa publicidade. Todos estão unidos pela mesma frustração. Vejo o desânimo invadir-lhes a vida que já foi feliz.</p>
<p>Ao referir-me a estes exemplos, estou a pensar insistentemente em palavras de uma mulher que admiro, Isabel Jonet, da Federação dos Bancos Alimentares Contra a Fome. E é tanto mais de confiar na minha admiração quanto eu não sou crente de nenhuma religião e ela é profundamente católica (religião que exclui o modo da minha própria vida).</p>
<p>Os que tiverem computador podem encontrar um exemplo do seu pensamento escrevendo o seu nome no Google (por exemplo) e abrindo a primeira entrada que surge aí neste momento, «Solidariedade»: uma entrevista extraordinária. Foi ela quem alertou para o alastramento da pobreza e do sofrimento social daí decorrente ao referir, numa entrevista à TSF amplamente divulgada na Web, «uma nova classe de novos pobres em Portugal, pessoas que, embora auferindo de um salário, não têm no final do mês todos os rendimentos de que necessitam para fazer face às necessidades do seu agregado familiar». Eu acrescentaria, a agregado familiar, pessoas sozinhas a quem o mesmo acontece. Ou pessoas a viverem conjuntamente sem que as deixem constituir-se como agregado familiar.</p>
<p>Fala ainda desse outro pesadelo que parece nada estar a resolver, a não ser consentir que o Estado e os enriquecidos possam lavar as mãos das consequências que tudo isso trará, mais do que no presente, no futuro dessas pessoas: «Jovens a trabalharem a recibos verdes, sem possibilidades de pagar a Segurança Social, que se vêem a braços com situações dramáticas e que muitas vezes têm de pedir apoio a estruturas sociais para poderem sobreviver.» (Peço desculpa a Isabel Jonet pela extensão das citações, mas foi a principal instigadora do meu artigo de hoje.)</p>
<p>Precariedade em quase tudo, vidas alarmadas, o desemprego, pobreza, recursos aflitivos a bancos (que podem nem ser conseguidos), vidas amodorradas à dificuldade de só passarem amargamente de um dia para outro dia, mesmo trabalhando até aos limites das suas possibilidades. Para já não falar dos que nem sequer nada disto têm. Destroem a classe média, precisamente aquela de onde, quando não sujeita às extremas pressões da insuficiência, quase sempre vi irromper as aberturas civilizacionais mais consistentes. Esta, não tendo para onde se voltar (já experimentou todos os partidos desta democracia), aceitará um dia politicamente o quê? Se é o espaço fundamental das conquistas democráticas, rapidamente também se torna o espaço da derrocada das próprias democracias. O nosso sistema político não estará já perigosamente em causa?</p>
<p>Segundo dados da Rede Europeia Anti-Pobreza/Portugal (Setembro de 2007), surgimos em último ou em penúltimo lugar em: taxa de risco de pobreza, situação de desemprego, risco de pobreza de pessoas empregadas, abandono escolar, desigualdade na distribuição do rendimento. Entre nós, onde a taxa de pobreza objectiva é de 20% (uma imensa fatia populacional que já é pobre por completo), 47% consideram-se pobres e 39% afirmam ter dificuldades financeiras. Segundo o Senhor Presidente da República, em 18/10/2007, «sozinho, o Estado não consegue melhorar a situação». Conseguirá melhorá-la mesmo com ajudas? Porque o Senhor Presidente da República confessou: «Envergonho-me um pouco desta posição.» Fica-lhe muito bem essa vergonha. Mas é estranho o facto de só se envergonhar «um pouco». A vergonha total, quem terá de a sofrer?</font><br />
<font color="#000080" face="verdana" size="2"><strong><em> Por JOAQUIM MANUEL MAGALHÃES</em></strong></font><font color="#000080" face="verdana" size="2">In &#8220;Expresso&#8221;<br />
</font></p>
</div>]]></content:encoded>
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