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	<title>nao-interessa &amp;laquo; WordPress.com Tag Feed</title>
	<link>http://en.wordpress.com/tag/nao-interessa/</link>
	<description>Feed of posts on WordPress.com tagged "nao-interessa"</description>
	<pubDate>Mon, 04 Jan 2010 07:56:01 +0000</pubDate>

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	<language>en</language>

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<title><![CDATA[RESTOS]]></title>
<link>http://gorilaalbino.wordpress.com/2009/11/04/restos/</link>
<pubDate>Wed, 04 Nov 2009 14:16:19 +0000</pubDate>
<dc:creator>pensacola</dc:creator>
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<description><![CDATA[Você…quer contar mais alguma coisa? – perguntou a policial já de saída. Não. – respondi quase sem vo]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><p>Você…quer contar mais alguma coisa? – perguntou a policial já de saída.</p>
<p>Não. – respondi quase sem voz e fechei a porta.</p>
<p>Depois de mais de 30 anos, tenho que me acostumar a dormir no meio da cama de novo. E tudo que sobrou, umas poucas fotos – o flash despertava reações horríveis nele – e um caderno de anotações em que propositalmente só se salvaram da lareira as úlitmas páginas.</p>
<p>“Eu poderia dizer que te amo com mais frequência. Eu gostaria até, na verdade. Mas não consigo. Porque às vezes, eu só sinto indiferença por você. Eu olho com as pálpebras semicerradas, fico medindo cada centímetro da sua pele e dos panos caros, bidrapeados, guardados para uma data especial que cobrem sua silhueta, e eles não significam nada para mim. Não consigo nem me lembrar como um dia você chegou a ser importante dentro do meu contexto. E depois de pensar em tudo isso, eu durmo. E acordo cheio de saudades. E chego a escovar os dentes antes de voltar pra cama e te beijar na boca.</p>
<p>Uma inconstante mutação de humores e razões que só mesmo um louco clinicamente comprovado poderia acompanhar. Aqui estou sendo sincero. Saiba que te amo, e odeio saber que você não pode sentir isso da mesma maneira que eu sinto: sem esse turbilhão de sinais que me afastam de você para que eu posso amá-la ainda mais quando vem em meu auxílio. Desde sempre foi assim. Quando eu coloria os quadros que já estavam nas paredes da escola ou das casas em que tínhamos aniversários supostamente divertidos. Adorava as cores e os cheiros de comida de cada uma dessas cores, saboreava o visual de todas, como se fossem você. Tinha também aqueles dias em que eu me escondia e só uma pessoa conseguia me encontrar. Você dizia que eu estava sentado no meio da sarjeta, ou no pé de uma árvore, mas eu sabia que estava escondido; e sua aura e sua maquiagem borrada chegavam na forma de um abraço, bem antes da sua voz.</p>
<p>Eu gostava que tivesse alguém tão formosa e com um estrutura óssea tão bonita correndo atrás de mim, só não entendia porque era tão raro esse momento. E me irritava não entender. Já não entendia muita coisa, precisava de mais uma? Já não entendia você. Mas quanto a isso tudo bem, tem gente bem mais sã que eu me garantindo que mulheres não existem para ser compreendidas. E eu que não sou mulher? Não sendo compreendido, deveria ser uma? E se eu for? Por vezes eu acho que tenho formas mais femininas que os outros homens. Mas só às vezes, nas mãos. E nada como as suas, nenhum contorno é como o seu. Ele me estapeia na cara de duas maneiras, como um litro de sangue vertido ao lado do tubarão e como uma gota de sangue cuidadosamente colocada a um quilômetro do mesmo tubarão. Surge a necessidade de chegar perto do seu corte, raso ou profundo, de cutelo certeiro ou de faca cega, para então saber se vou só esparramar meu rosto em seu gosto de ferrugem ou se vou morder até arrancar pedaços da sua carne, carregando parte da sua alma comigo por toda eternidade.</p>
<p>Claro que eu planejei ser um gênio adormecido, mas vamos ser realistas, quais eram as probabilidades disso acontecer? Seria mais fácil eu levar o Serra Dourada inteiro na minha minivan com um carreto cheio de palhaços equilibristas de doninhas adestradoras de um circo de percevejos que sabem ler relógios digitais. Não é óbvio? E você ainda assim quis ficar do meu lado. Limitando seu campo de ações às minhas anomalias e desfalecimentos. Gostaria de ficar para ouvir da sua boca o porquê disso. Mas acho que não preciso…e que não me convenceria de que pouco acrescentei a suas ambições. E eu com toda minha cupidez, exigindo que me ajudasse com meus projetos patetas.</p>
<p>Não me procure marginália ao riacho, tenho a distinção de não me guardar em meio a nossas vestuárias ou nos dejetos de nossos vizinhos. Florestas parecem atraentes, mas lá não vou saber se as vozes vem do meu predador ou da minha cadeça. A mata nunca fica em silêncio e fica longe, muito longe. Longe demais para eu manter a lucidez, que pode permanecer perfeitamente impenetrável embaixo de uma boa camada de papelão.</p>
<p>Não quero que isso seja visto como um abandono, mas sua alforria. E se agora você chora, deveria gritar pela liberdade conquistada com meus cotovelos queimando ao rastejar no asfalto e meu pranto que brota quando bate os ventos dos descampados. Não faço nada como autopunição, mas como fuga do meu mundo interior. Dos cheiros, dos comandos, das ideias brilhantemente desconexas. É provável que esteja gastando aqui meu último lapso de sanidade e coerência, se algum dia nos encontrarmos novamente você poderá me responder se existe aqui algum sentido, e eu com olhos esbugalhados de dúvidas tentarei imbecilmente compreender.</p>
<p>Todo conteúdo pré-escrito neste caderno não tinha o mesmo teor do que você está lendo aqui. Por isso queimei. O que resta é a verdade. O que eu antes retratei com palavras não mereciam chegar ao estágio amarelado das páginas; eram mentiras que deveriam passar direto às cinzas. Eram muito lindos, os momentos, belos como alguma maravilha que você vê pela primeira vez. Relendo antes de decidir me exilar, quase desisti de tudo e por pouco que não me deixei convencer de que nossa vida era uma bela novela sem drama, sem reviravolta. Para mim provavelmente era. Para você, que lidava com minhas surpresas de roteiro, trabalhadas com esmero pelas partes incógnitas do cérebro, o drama virava suspense com a simples empunhadura de uma faca na hora do jantar. Ao que me lembro, pelo menos nunca descambamos para a introdução de um filme macabro. Mas, não creio que minhas memórias tenham tanto valor agora para qualquer pessoa que não esteja em uma sala com um divã, mordendo as peles ao redor dos dedos, refletindo sua incontrolável curiosidade mórbida metamorfizada em anos de estudo, mestrados e doutorados.</p>
<p>Não quero me enguiar mais. Só preciso saber que você não vai partir em uma busca descompensada e lamuriosa. Aqui, estou tirando a trava de minha demência. Tudo que controlei por anos – ou que tentei – vai atravessar minha mente como uma boiada brava no sertão, levantando fumaça densa e niquelada, desnudando cada ângulo desse estábulo que por anos teve suas sujeiras jogadas para baixo das ferraduras usadas e das crinas que não se tornaram cordas de violoncelos. Daqui poucos dias estarei irreconhecível, quiçá, vivo. Aqui eu te deixo, aqui eu me encontro. Daqui em diante, vou ouvir as canções entoadas pelas ruas e pelas estradas, por cegos em portas de igrejas, por realejos em quermesses sem maçãs-do-amor. Vou contemplar ternos alinhados e pés descalços, um se escaldando em agonia, outro nas brasas moles do piche. Vou viver a desgraça como o bêbado vive a bebida. Vou me alimentar de trevos de três folhas, deixando os de quatro para quem teve mais sorte que eu. Vou tomar da água dos deltas para não amaldiçoar as nascentes. E dormirei a favor do vento, para nunca mais sentir seu perfume.”</p>
<p><img class="alignnone size-full wp-image-139" title="crystal_peq" src="http://gorilaalbino.wordpress.com/files/2009/11/crystal_peq.jpg" alt="crystal_peq" width="380" height="380" /></p>
<p><em><a href="http://www.mediafire.com/?uigzvcmzmym" target="_blank">Crystal Antlers – Tentacles.</a> Vozes, texturas e sentimentos que estavam desejosos e gritando para se libertar.</em></p>
</div>]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[OLHE PARA OS DOIS LADOS]]></title>
<link>http://gorilaalbino.wordpress.com/2009/06/09/olhe-para-os-dois-lados/</link>
<pubDate>Tue, 09 Jun 2009 21:29:53 +0000</pubDate>
<dc:creator>pensacola</dc:creator>
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<description><![CDATA[Precisa de muita coragem para pular quando você chega até o parapeito de uma cobertura. Ainda mais n]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><p>Precisa de muita coragem para pular quando você chega até o parapeito de uma cobertura. Ainda mais nessa porra de prédio. Só três andares. Ao invés de ver meus miolos espalhados por aí enquanto ascendo ao meu estágio mais elevado, corro o risco de ficar ouvindo os médicos falando do traumático estado vegetativo irreversível que me encontro. Já tive uma amiga que tentou se matar com uma arma. Colocou o cano na própria boca e atirou. Ficou cega, sem cabelo, sem dois terços do maxilar e ainda assim não abotoou o corpete. Foram doze anos de coma induzido até que sua irmã conseguisse subornar direito o chefe do departamento de internações para que ele desligasse as máquinas: boquetes semanais por tempo indeterminado. O médico teria aceitado a oferta de quase um milhão dos pais, não tivesse visto a garota de shortinhos, aos quinze anos, se debruçando e chorando sobre a caçula ainda no local da tentativa de suicídio, isso na época que ainda era legista do Denarc.</p>
<p>Eu não tenho irmã para fazer boquetes. Só tenho um namorado que, por sinal, me chupa com a boca tão chocha que dá ainda mais vontade de soltar meu corpo à ação da gravidade. Filho da puta. Agora ele deve estar no banheiro daquele cortiço que ele chama de trabalho batendo uma punheta pensando em qualquer vadia que use um decote. Não é à toa que chega brocha em casa. Quem se acostumou à desculpa da dor de cabeça está fudida. Agora os caras falam de stress, abrem uma cerveja ou uma cartela de antidepressivos para relaxar antes que a gente consiga lembrar se o comprimido de casa é Neosaldina ou Melhoral.</p>
<p>-    Desce daí, menina. Pelomordedeus. Se você se arrebentar o edifício tem que pagar uma multa – gritou o zelador do prédio lá do térreo. É a terceira vez em duas semanas.</p>
<p>-    Vai se foder. – respondi com todo o ar do meu pulmão, imediatamente antes de sair de perto da beirada e retornar ao meu apartamento.</p>
<p>Nos dias de hoje não conseguimos nem subir no parapeito de um prédio em um dia de ventos fortes que alguém já enche o saco. Eu gosto de refletir em lugares diferentes, que me ofereçam um pouco de risco. Assim você pensa só no necessário, não fica perdida em devaneios. Mas deixando a objetividade de lado, é muito estranho que existam equipes especializadas em evitar o suicídio – especificamente aquele suicídio de filmes que o cara pula de uma janela em uma grande avenida comercial. Psicólogo especializado com megafone, equipes de segurança e resgate surgindo por detrás dos edifícios mais altos e espelhados da metrópole. Para que todos esses caralhos? Quando alguém vai se matar mergulhando de cabeça no asfalto, não dá tempo de chegar ninguém, a não ser que seja para recolher amostras que podem confirmar se o autocida estava chapado de mescalina. Se por ventura, alguém equipado com qualquer parafernalha chegou antes do salto, é sinal que o suicida em potencial está vacilando. Logo, qualquer coisa que o negociador fale diferente de “Pula que é fofinho” deveria surtir efeito intimidador. E até o imbecil do meu namorado sabe que ninguém incentiva o amargurado sujeito. Você já está em dúvida, não ouve nenhum reforço positivo e ainda assim se joga. Não ter certeza das coisas é um dramalhão do cacete.</p>
<p>Hoje faz cinco meses de ócio forçado. Uma data que precisa ser comemorada com um drink. Mês que vem é o último que posso contar com salário-desemprego. É uma merreca, mas é melhor que nada. Morando nessa pocilga ainda consigo salvar algum para trabalhar no meu projeto de fibradora. Encontrei esse curso de modelagem no vidro que é quase grátis. Somos em sete alunos e só temos que dividir o táxi do professor. A aula é em um galpão grande que já tem tudo. As resinas, as mantas prensadas, tecidos trançados, fitas, cordéis, luvas, fornos. Adoro a idéia de uma peça de alta resistência que não enferruja, ao contrário do meu carro. Veja bem, tenho profunda paixão pela minha Variant 73, mas um antixoidante não faria mal. De qualquer maneira, acho muito interessante uma profissão que algumas pessoas chamam de fibrador e outras de artista. Eu me classificaria como funcional. Já até fiz meu copo de dry martini, uma pena que nenhum lugar dá desconto para quem traz o acessório de casa. Talvez eu devesse abrir um bar que a cerveja fosse mais barata para quem trouxesse seu próprio copo, e ainda mais barata para aquele grupo que deslocasse sua mesinha de metal. Trouxe as batatas, porção de fritas com 80% de desconto. Penso sobre isso no banho e enquanto passo a toalha muito devagar para não machucar minha pele na hora de me enxugar. Telefono para umas dez pessoas chamando para uma saidinha básica no fim de tarde. Deixo um post-it com o nome de um drinkplace que meu namorado conhece e pode me encontrar, mesmo duvidando que ele vá. Passo pelo microondas, tiro a xícara com ketaminina para suínos que estava ali desde ontem de madrugada, cheiro uma carreira, guardo o resto em um plástico com lacre, coloco no bolso e saio sem nem me preocupar em trancar a porta.</p>
<p>As ruas estão começando a ficar caóticas novamente. Às 18h25 ninguém anda a mais de quinze quilômetros por hora, e esse número só começa a melhorar a partir das 21 horas. Quase três horas de angústia. Por isso minha Variant ficava mais na garagem do que em qualquer lugar. Será que é por isso que ela está enferrujando tanto? A garagem é bastante úmida. Depois de dois quarteirões caminhados, duas batidas: a primeira envolvendo um carro e uma moto, a segunda foi da PM em uma kombi, revista geral. Um bom dia para ser uma pedestre.</p>
<p>Cinco blocos para aquele lado de lá da minha casa e eu já estou sentada em minha mesa favorita, onde eu consigo ver todo movimento de pessoas, de carros, de motos, de animais de estimação em coleiras ou animais abandonados abanando o rabo por um caroço de azeitona. Pedi meu manhattan e cinco cigarros avulsos. Gosto de deixar o cigarro pra fora da caixinha, como se ele estivesse respirando, e além disso minhas calças são muito justas para não amassar o invólucro. Não importa o quanto tenha de lycra, no bolso da frente, tenho os ossos saltados, no bolso de trás, sou distraída o suficiente para sentar em três pacotes por dia.</p>
<p>As pessoas começam a chegar, o bar começa ficar com cara de bar. Os neóns se acendem. Daqui a pouco os primeiros copos começam a se quebrar e o aroma da fumaça exalada dentro dessas paredes começa a se misturar com o álcool vertido. A essência de fritura também se acentua a cada quarto de hora. O duto de ventilação funciona, mas ele já está com uma crosta melequenta, grudenta e cinza. Provavelmente nunca foi limpado em seus mais de vinte anos. Minhas amigas esboçam um sorriso que só eu conheço. Não preciso nem olhar para o lado de fora. Sei que meu irmão está entrando no local. Não achei que ele vinha.</p>
<p>-    Trocou a chatinha pela irmãzinha é? – perguntei enquanto ele estalava um beijo na minha testa.</p>
<p>-    Ela não é chatinha, querida irmã. E dividimos nosso circo entre tenda e picadeiro. Ela foi voar e eu fiquei, para me apresentar debaixo de chuva.</p>
<p>-    E para onde a ruivinha foi bater as asinhas?</p>
<p>-    Para a casa dos pais. As palavras que você proferiu a ela no último final de semana surtiram efeito. Aparentemente, ela achou que voltar para baixo das asas paternas seria mais vantajoso do que continuar dividindo a cama comigo.</p>
<p>-    Eu não tenho culpa que ela é uma mimada desocupada.</p>
<p>-    Desocupada? Achei que estávamos comemorando seu salário-desemprego, mas aparentemente devemos brindar a alguma promoção fantasia em um emprego imaginário. – disse sarcástico, com sorriso de canto de rosto, enquanto cumprimentava cada uma de minhas três amigas com um beijo suave na boca.</p>
<p>Eu simplesmente não conseguia me irritar com ele.</p>
<p>Pedi um canundinho para beber minha cerveja. A K começava a fazer seu trabalho e eu não queria uma roupa banhada em lúpulo.</p>
<p>-    Você devia parar com isso, sabia? – falou sério meu irmão enquanto o resto da mesa conversava.</p>
<p>-    O sóbrio está me dizendo o quê? – respondi, querendo entender o que as outras pessoas estavam falando para não continuar esse assunto.</p>
<p>-    Você nem salário vai ter daqui um mês. Com um entorpecente barato desses, provavelmente está gastando mais do que imagina.</p>
<p>-    E você vai me emprestar dinheiro para eu comprar algo suficientemente caro para o seu gosto?</p>
<p>-    Ora, estou limpo a muito tempo e não me importava com o valor do que ingeria, sabe disso do mesmo jeito que sabe que não posso te emprestar nada. Minha conta foi cancelada depois daquele leve incidente.</p>
<p>-    Leve? Você destruiu nossa família – lembrei-o segurando o choro.</p>
<p>-    Mamãe e papai estão em um lugar melhor.</p>
<p>-    E como você sabe? – desafiei.</p>
<p>-    Eu fui para o pior. E eles não estão lá.</p>
<p>Um princípio de vômito desce pelo canudinho e começa a boiar dentro do copo meio cheio. Me levanto na hora e vou ao banheiro. Nada mais é processado. Eu quero colocar tudo para fora: o álcool, o cigarro, o pastelzinho de carne seca, o salário desemprego, meus últimos seis anos. Quero alguém que conheça meus defeitos e queira ficar ao meu lado, mesmo com tantas novas qualidades, prontas para serem descobertas a cada esquina iluminada por uma luz fraca de um poste antigo. Eu quero meu namorado. Mas eu sei que ele não vem. Abro o plástico que estava em meu bolso com uma dentada e anestesio minhas lembranças.</p>
<p>Volto pálida e sorridente do banheiro. Eu não via mais meu irmão. Minhas amigas já tinham se acostumado comigo assim, mas ainda olhavam com preocupações claras no cenho e na inquietude das mãos. Sento entre elas e me imagino amada. Peço uma água com gás e começo a soluçar. Todas as lágrimas tinham evaporado com meus pensamentos. Só conseguia soluçar. E o fiz sem vergonha, sem me importar no que meus convidados pensariam. Podem até pensar que chorava compulsivamente por conta deles que não estariam totalmente errados. Soluçava, soçobrava, engolia ar até quase sufocar na esperança de trazer do âmago a pessoa que eu amava, e junto com ela os sentimento do nosso primeiro olhar.</p>
<p>Quando meus olhos marejados apontam para o outro lado da rua, ele está lá. Com flores na mão. Olhando para dentro do bar. Eu vou rápido na direção dele, com as pernas pesadas, dando passos errados, mas não consigo esperar. Assim que me vê, joga as flores para cima como se estivesse desesperado. As gardênias são provavelmente para sua amante. Me viro sem pensar, torcendo a coluna de decepção e dou de frente com um caminhão. Tão perto, tão rápido, deslocando a mesma quantidade de ar que uma brisa matinal em sua tentativa fracassada de derrubar as gotas de orvalho. Consigo quase ver os pistões dentro da carroceria. Minha pele amodorrada e meus ossos dormentes mal reagem ao impacto, minha língua deixa de perceber os dentes.</p>
<p>Eu não sou atormentada por nenhuma dor, isso é bom. Eu posso sentir apenas o que eu quero sentir. Meu namorado me abraça, eu vejo que as flores são para mim. Aquecida, mesmo estando gelada. Isso é bom. Muito bom.</p>
<p><img class="alignnone size-full wp-image-132" title="melody_club_peq" src="http://gorilaalbino.wordpress.com/files/2009/06/melody_club_peq.jpg" alt="melody_club_peq" width="380" height="380" /></p>
<p><em><a href="http://rapidshare.com/files/47457000/Melody_Club_-_At_Your_Service__2007_.rar" target="_blank">Melody Club – At Your Service.</a> Indicado para aqueles com dificuldades em aproveitar a vida, mas que morrem de inveja de quem sai pulando pelas pistas de dança.</em></p>
<p><em>password: my melody</em></p>
</div>]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[FESTA NA FLORESTA]]></title>
<link>http://gorilaalbino.wordpress.com/2009/01/08/festa-na-floresta/</link>
<pubDate>Thu, 08 Jan 2009 18:03:09 +0000</pubDate>
<dc:creator>pensacola</dc:creator>
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<description><![CDATA[Não havia como não lembrar dos momentos da minha infância querida enquanto dirigia até a casa de meu]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><p>Não havia como não lembrar dos momentos da minha infância querida enquanto dirigia até a casa de meu avô. Fazia vinte e seis anos que não vinha para cá. E ainda assim consegui fazer o mapa para os convidados de cabeça. Foi tão fácil. As estradas bem pavimentadas ainda não chegaram por aqui, mas isso era só o começo da diversão. Entrando na bifurcação à esquerda, na BR-452, um pouco antes de Araporã, como sempre foi, segue-se uns quinze quilômetros em estrada de terra batida. Da última vez aqui, só conseguia acompanhar as árvores que passavam pela janela do banco de trás do carro. A cada tronco a madeira se aproximava do cerrado, ficando sempre mais retorcida. O calor característico da região Centro-Oeste surgia, naquele espaço de terra, estranhamente abafado, tamanha a umidade. Isso não havia mudado em nada.</p>
<p class="MsoNormal"><!--[if !supportEmptyParas]--> <!--[endif]--></p>
<p class="MsoNormal">Quase chegando no cabedal, eu lembrava, havia um pequeno estabelecimento de tijolos com o reboque mal acabado onde viviam Seu Zé e Dona Yolanda. Os rejuntes, mais de duas décadas depois, também não haviam mudado uma poeira de seu acabamento mambembe. Fiz questão de descer do carro para ver bem de perto. Parecia artisticamente cavocado, como um condomínio de barbeiros, insandecidos para transmitir Doença de Chagas aos seres humanos desavisados que insistiam em dormir à noite. Para o azar dos artrópodes, o único ser humano que vivia perto, além dos moradores do secos e molhados, era meu avô. Os primeiros, contam os causos, tinham gerado imunidade à enfermidade depois de fazer oferenda na encruzilhada da mata. Meu avô quando nos deixou não foi por conta da deficiência descoberta pelo doutor Carlos. De qualquer maneira, com barbeiro ou sem, era aqui o lugar mais próximo para comprar qualquer coisa que faltasse no festejo.</p>
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<p class="MsoNormal">A porteira do terreno continuava a mesma, só as dobradiças que estavam podres. A madeira escura adquirira um tom esverdeado de musgo. As poucas partes de madeira nova pareciam raspadas por algo bem afiado. A placa com o letreiro havia desaparecido, mas estava no meu mapa. Aquele caminho escancarado por ervas-daninhas e folhas combinava bem com a floresta um pouco mais fechado da área. Dava a impressão que ninguém morava naquele local. E realmente, ninguém morava ali. Tanto que a primeira medida que tomei depois de deixar a mala em casa foi procurar uma caixa de ferramentas para consertar as dobradiças e logo em seguida fiz uma plaquinha. Quem ou o que quer que passe pela entrada deve ter certeza que alguém está aqui de novo. Mesmo que só por um ensejo. Mesmo que sem os olhos cor de mel de meu avô. Ainda que prevalecesse a ausência dos maneirismos do campo.</p>
<p class="MsoNormal"><!--[if !supportEmptyParas]--> <!--[endif]--></p>
<p class="MsoNormal">Porteira em seu devido lugar, placa firmada para guiar os hóspedes, agora era só esperar. Tenho tempo suficiente para andar pelo pomar, nadar no rio e lembrar como as coisas funcionavam por aqui. Nessa época do ano as ameixas e as pêras devem estar ótimas. As amoras um pouco passadas e já castigadas pela quentura que fazia suar uma pedra. De qualquer maneira, essas visitas podem ser feitas amanhã pela manhã e à tarde. Com a noite chegando eu lembro só de uma coisa: de que os adultos nunca deixavam a gente ficar para fora depois que escurecesse. Claro que isso tinha um motivo. Só o vovô ficava para fora, na varanda de madeira rangente. Ele, essa mesma cadeira de balanço, que parece ter se encaixado muito bem nas minhas costas, sua carabina e seu cigarro de palha. E a noite sussurrava tranqüila. Quando acordávamos, levávamos alguns minutos para abrir todos os cadeados e trancas da porta. Depois, era sair na varanda e esperar alguns trinados de juriti que o avoengo já despontava com uma caça recentemente abatida para o almoço. Por vezes ele aparecia um pouco machucado, mas nesses casos ele sempre falava “Pelo menos eu não fiquei no estado dessa aqui”, e levantava a preia com um dos braços cheio de velhas cicatrizes e novos cortes de onde ainda escorria sangue quente.</p>
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<p class="MsoNormal">Boas memórias para um lugar sem eletricidade. Vou entrar para não acabar com todo o gás do lampião. Amanhã compro mais, as pessoas vão precisar para a festa. Boa noite.</p>
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<p class="MsoNormal"><span> </span><span> </span>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;-X&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;</p>
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<p class="MsoNormal">As madrugadas aqui não costumavam ser tão quietas. As casas mais próximas ficavam bem distantes, mas o terreno era rodeado por grandes propriedades que criavam os mais variados cortes de quatro patas. Bois, ovelhas, cabritos, porcos e tinha até um doidivanas que cercou parte do rio para começar uma criação de jacarés. Talvez por ter uma audição melhor quando era criança, costumava ouvir mugidos, balidos e grunhidos diversos. Até a população de corujas parece ter reduzido. Meu avô sempre disse que havia cachorros do mato pelas redondezas. Mas precisaria de uma superpopulação deles para acabar com tudo que existia nas cercanias. E mais, uma matilha esfomeada dificilmente passaria desapercebida. Não creio que meus convidados reclamem de um pouco de silêncio, mas voltando à cidade vou atrás de uma audiometria.</p>
<p class="MsoNormal"><!--[if !supportEmptyParas]--> <!--[endif]--></p>
<p class="MsoNormal">O pomar se encontrava quase como imaginei. Com alguns frutos, mas fraco. Calculando que há duas décadas ninguém cuida dele, o número de ervas daninhas por metro quadrado é até bem reduzido. A foice me ajudou a compor o cenário de “quadro sobre a seca nordestina com tons de verde” e a eliminar as plantas que estavam prejudicando uma safra boa de vegetais que podem alimentar alguns morcegos daqui umas semanas. Alguns poucos insetos sempre chegavam mais perto, piniquentos e curiosos, mas não percebi o menor sinal de um animal um pouco maior. Sempre que imaginava ter visto um gambá ou um cervo eu me virava bem astuto, mas só via alguma coisa que parecia um vulto. Agradecia por não ser noite e continuava com a capinagem. Depois de umas quatro vezes com a mesma sensação, achei que já tinha abusado do meu instinto urbano e resolvi retornar para a casa antes que surpresa pior se sucedesse. No meio do caminho enchi um saco de batatas com gravetos e pensei que nunca tinha acendido um forno a lenha na vida, mas que não poderia ser muito complicado.</p>
<p class="MsoNormal"><!--[if !supportEmptyParas]--> <!--[endif]--></p>
<p class="MsoNormal">Para tornar a tarefa mais fácil, resolvi não limpar a velha carabina e caçar um animal aparentemente inexistente hoje em dia nas vizinhanças, mas sim ir até o casebre com tijolos capemingas descobrir se existe um jeito de comprar uma carne ou se hoje viveria de pinga para comemorar o retorno ao pé no chão e ao banho de rio sem xampu. Depois de uns quarenta minutos andando pela estradinha, conseguindo desviar de todos os formigueiros escondidos embaixo de folhas e das maiores aranhas, cheguei ao lugar. Ele abria da hora que o Seu Zé acordasse até a hora que a sede chegasse à garganta do caboclo. Pelo pigarro que ele desprendeu logo quando entrei já percebi que teria pouco tempo. Mais de vinte anos tinham se passado. Ele estava mais velho e menos paciente. Apresentei-me, pedi um frango e Seu Zé gritou “Mulher, uma bicuda pru neto do Lino. Tira as pena e deixa as parte já cortada qui o minino é da cidade”. Achei que tinha me dado muito bem contra o matagal e no conserto da porteira, mas não fiz objeção alguma a um mínimo de comodidade. Depois de esbravejar contra a marida, Seu Zé me empurrou para a área de trás onde ficava o abate e Dona Yolanda, avisando que estava na hora de baixar as portas. A garrafa etílica seria aberta daqui a pouco no Seu Chico, vizinho de Seu Janino. O Sol começava a baixar, Dona Yolanda mandou me apressar enquanto conjurava o último terço do dia. Cheguei em casa com os vaga-lumes começando a aparecer no ponto que o verde da floresta já está negro. O forno a lenha, depois de um quarto de hora, estava com o que pode ser considerado o fogo baixo dos fogões modernos de acendimento automático. Em pouco tempo o frango de panela, o arroz e as batatas estavam prontos.</p>
<p class="MsoNormal"><!--[if !supportEmptyParas]--> <!--[endif]--></p>
<p class="MsoNormal">É bom acabar de comer e não ter que ouvir a voz de um âncora de jornal proferindo uma notícia fria. Aliás, não estar ouvindo nada me incentiva a fazer uma coisa: ficar na cadeira de balanço à noite. Posso até pegar a carabina. Só para dar um clima. O cigarro de palha já está torcido. Durante a noite parece que a cadeira fica ainda mais confortável, provavelmente devido aos rangidos que embalam as árvores sem vento, como se estivessem na tela da televisão só que formada pelo parapeito, vigas e teto da varanda. Um momento emoldurado do silêncio, estampado em um canson tamanho <em>Ainfinito </em>de gramatura realidade. Talvez prestando muita atenção eu consiga ouvir algo. Opa, um pio. Silêncio. Outro pio e um corte seco deixando o canto um pouco estranho demais para qualquer ave. Um filhotinho de coruja-do-mato que na ausência da mãe tentou voar e se deu mal, provavelmente. Mas apertando bem os olhos por entre a fumaça exalada acho que consigo ouvir porque o cantador noturno se deu mal. Vim o suficiente aqui na minha infância para saber que esse não é o barulho de um pequeno galho podre caindo. Superstição é uma tolice. Superstição não existe. O que eu vejo é bem real. E grande demais para eu ficar do lado de fora sem trabuco armado. Espero que dê tempo de passar todos os cadeados.</p>
<p class="MsoNormal"><!--[if !supportEmptyParas]--> <!--[endif]--></p>
<p class="MsoNormal">Deu.</p>
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<p class="MsoNormal"><span> </span><span> </span>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8211;X&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;</p>
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<p class="MsoNormal">Essa última noite não foi tão silenciosa. Talvez por pura força da imaginação, fruto da curiosidade mórbida, ouvi passos, ruídos, ululados, a voz de meus pais e os gritos dos meus tios, arrependidos por não terem colocado a casa abaixo quando tiveram a chance. Chequei a porta por uma dezena de vezes para ter certeza de que ela estava bem trancafiada. Não consegui dormir pensando na última vez que meu avô teve pescaria. Tinha marcado saída para quando aparecesse a terceira estrela. Demorava a noite toda de barco até chegar ao Rio Meia Ponte. Era noite de lua azul e apesar do atraso na saída, não quis fazer guarda de sua cadeira, mira em punho. Coincidentemente foi o dia em que ficamos um pouco mais para fora – contra ordens, claro – olhando para o céu, e na pressa de voltar para dentro, foi também a última vez que uma das travas não foi bem fechada. Da família, sobramos o primo Fábio e eu. vovô Lino nunca foi achado. Nós, os netos, sempre soubemos que vô Lino vigiava seu território contra alguma coisa, a gente só não sabia o que. Acreditamos também que sua pescaria de vários dias pressupunha nossa segurança. Demoramos quarenta e oito horas para ter coragem de sair da casa. Eu fiquei quase todo o tempo de olhos fechados. Na única vez que falamos sobre o assunto, Fábio me disse que a gente foi arrancado da vivenda pelo cheiro fétido de decomposição, pelo gosto de ferro na boca, não por um rompante de coragem. Tomou-nos mais um dia até conseguir uma carona até Belo Horizonte. Eu tinha quatro anos, meus primo, nove. Não fomos muito bem recebidos na cidade. Depois de uma semana a polícia apareceu na casa de meu avô, encontrou os corpos e levou um amigo da família, o Joel, para fazer reconhecimento. Ele deu por nossa falta. Fomos encontrados na rua e acabamos criados por ele e pela Aninha. Eu nunca consegui chamá-los de pais, apesar de considerá-los como tais, mas isso não impediu que eles fizessem um escândalo anteontem quando eu disse que vinha para cá pensando em organizar um folguedo.</p>
<p class="MsoNormal"><!--[if !supportEmptyParas]--> <!--[endif]--></p>
<p class="MsoNormal">Acho pouco provável, mas se tivessem me visto essa manhã consertando o telhado da casa, talvez a imagem das paredes tingidas de carmesim que eles têm daqui desapareceria, ficando apenas uma janela para quadros dos bons momentos. Do alto do telhado eu podia ver melhor a divisão do terreno. Para trás da casa ficava o caminho que levava até o rio. Ele era bem definido, o pomar acompanhava essa trilha e tinha as demarcações das árvores bem precisas: maçãs, pêras, ameixas, amoras, jacas, pitangas e mangas. Depois disso, vindo desde o outro lado da margem, cercando o pomar, chegando até a parte da frente da casa e seguindo até perder de vista, uma flora rica, nativa e bem fechada, daquelas que você não consegue ver um palmo adiante, nem em noite de lua alta, quiçá nem com sol a pino. Ainda assim, noite passada eu sabia que tinha alguma coisa lá. Estava impossível de ver, da mesma maneira que era impossível não ouvir o zumbido irritante e intermitente dos insetos se silenciando. Os agudos mais distantes se distanciavam primeiro e voltavam aos ouvidos assim que os agudos mais próximos se calavam, incessantemente, metro a metro, como se algo nunca visto antes chegasse aos portais de uma pequena cidade do interior e todos ficassem estupefatos, de queixo desmantelado enquanto uma deformidade desfilava de ponta a ponta da avenida principal. Aqueles que colocaram reparo na bizarrice primeiro se recuperavam enquanto quem esperou no fim da avenida ainda estava para ficar atônito. Em uma mata tão densa é possível que o silêncio adquira uma forma física. E ele não poderia ser diferente, do que eu ouvi. Um silêncio eterno e galopante. Aterrador e fascinante. Não acho que meus hóspedes vão gostar dessa sensação, por isso deixo tudo preparado, tentando compensar o incômodo com extrema comodidade.</p>
<p class="MsoNormal"><!--[if !supportEmptyParas]--> <!--[endif]--></p>
<p class="MsoNormal">Por mais moldado que eu esteja na cadeira de balanço, não quero ressonar. Carabina com dois projéteis em punhos. Cigarro apagado. Não posso dispersar e olhar para o fósforo. A floresta já está naturalmente quieta. Ele está chegando. Os poucos coaxados que resistem são interrompidos no meio com uma agonia que, mesmo sem ver o batráquio, é possível senti-la por um som de dor que atravessa a pele e segue até o começo do estômago. Ainda bem que comi pouco. Quero ligar para o meu primo, mesmo sendo idiota distrair-me com uma ligação. Tenho que perceber onde as cigarras interrompem seu estrilado primeiro, onde os gafanhotos desziziam, preciso saber por onde está vindo o que eu vou enfrentar. Qualquer orientação para que pelo menos um dos dois tiros aleije o alvo. Na cidade nossos instintos vão se perdendo dentro de janelas com isolamento acústico. Uma sensação de vazio pós-estimulante, de estar entregue nas mãos de algo que não se sabe o fim. Até a garganta está fechando. Lá vem, à esquerda.</p>
<p class="MsoNormal"><!--[if !supportEmptyParas]--> <!--[endif]--></p>
<p class="MsoNormal">A silhueta estrambótica torna impraticável distinguir o que está saindo do vagalhão verde. Mas é mais escuro que a última árvore visível da floresta. Como se toda a mata fosse um caixilho de marfim para um quadro da demonstração do terror. As únicas coisas que brilhavam eram seus dentes e a pouca luz da lua, refletindo em sua saliva. Não havia pressa em seu semblante, mas não deixava de existir velocidade desproporcional a qualquer coisa que eu ouvi falar. Suas patas eram do tamanho de frigideiras e na boca caberia facilmente uma criança de três anos em pé. As pernas, muito machucadas e cheias de cicatrizes provam que nem todos respeitaram seu porte e força, mas que ninguém ainda conseguiu justificar essa desfeita. Para mim, só me resta puxar o gatilho. Erro o primeiro tiro por muito. Conforme a monstruosidade vai chegando perto, armo o martelo para disparar o segundo tiro. Miro bem no meio de seus olhos cor de mel, mas é impossível fazê-lo. Eu não posso atirar em quem está voltando depois de tão longa pescaria, nem que seja para minha cabeça ser estraçalhada com uma única mordida. Meus convidados devem chegar a qualquer minuto. Um tiro para o alto, que comece a festa. Ela tem tudo para ser memorável.</p>
<p class="MsoNormal">
<p class="MsoNormal"><img class="alignnone size-full wp-image-111" title="alberta_peq" src="http://gorilaalbino.wordpress.com/files/2009/01/alberta_peq.jpg" alt="alberta_peq" width="380" height="380" /></p>
<p class="MsoNormal"><a title="alberta_cross" href="http://www.mediafire.com/?zxz1ma1q5zf" target="_blank"><br />
</a></p>
<p class="MsoNormal"><em><a title="alberta_cross" href="http://www.mediafire.com/?zxz1ma1q5zf" target="_blank">Alberta Cross &#8211; The Thief &#38; The Heartbreaker.</a> O clima rural para que você consiga aproveitar sua chácara, sítio ou fazenda sem deixar as rimas fáceis do sertanejo invadir sua tranqüilidade.</em></p>
</div>]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[A TECNOLOGIA DO ATRASO]]></title>
<link>http://gorilaalbino.wordpress.com/2008/10/17/a-tecnologia-do-atraso/</link>
<pubDate>Fri, 17 Oct 2008 21:34:29 +0000</pubDate>
<dc:creator>pensacola</dc:creator>
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<description><![CDATA[Como os poucos leitores do blog podem perceber, ando meio defasado. A falta de tempo e a pouca vonta]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><p>Como os poucos leitores do blog podem perceber, ando meio defasado. A falta de tempo e a pouca vontade de ficar a frente do computador no aconchego do lar contribuem imensamente para isso. Mas o principal é que um dos contos está exigindo um tipo de narrativa que é, até o momento, intransponível. Para remediar esse vazio no calendário, vou abusar do meu limitado conhecimento tecnológico.</p>
<p>A partir de agora o blog vai contar com RSS, uma maravilha de widget que não revela minha inabilidade de acabar um texto. Assim que algo for postado, você já fica sabendo, sem precisar entrar a cada semana para descobrir que ainda não tem nada novo.</p>
<p>Outras novidade que vão adentrar este espaço virtual é a tag cloud e possivelmente um link para quem quiser ouvir os álbuns relacionados (sem esquecer é claro de deletá-los em 24 horas).</p>
<p><a href="http://gorilaalbino.files.wordpress.com/2008/10/can_peq.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-60" title="can_peq" src="http://gorilaalbino.wordpress.com/files/2008/10/can_peq.jpg" alt="" width="380" height="376" /></a></p>
<p><em><a title="future days" href="http://rapidshare.com/files/91094235/CAN_-_1973_-_Future_Days.rar" target="_blank">Can &#8211; Future Days.</a> Para aproveitar este momento de pasmoso avanço tecnológico e integração, nada melhor que uma banda globalizada e que em 1973 já antecipava Kid A.</em></p>
</div>]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[SEPARADOS FINALMENTE]]></title>
<link>http://gorilaalbino.wordpress.com/2008/04/11/separados-finalmente/</link>
<pubDate>Sat, 12 Apr 2008 00:51:01 +0000</pubDate>
<dc:creator>pensacola</dc:creator>
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<description><![CDATA[Diásporas são temas estudados com freqüência por brilhantes e limitados estudantes desde o Ensino Fu]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><p class="MsoNormal">Diásporas são temas estudados com freqüência por brilhantes e limitados estudantes desde o Ensino Fundamental. A despeito das circunstâncias com que cada uma foi provocada, suas conseqüências mercadológicas e antropológicas são inegáveis. A globalização espelhou-se nas galeras fenícias, mas a internet tem suas bases nas diásporas. Com a extensão da cultura típica de uma região se alastrando por paisagens diferenciadas, a conclusão natural é que as diásporas e o mercado naval foram os precursores diretos do mundo virtual.</p>
<p class="MsoNormal"><!--[if !supportEmptyParas]--> <!--[endif]--></p>
<p class="MsoNormal">Mas se conseguimos enxergar um ponto positivo em um momento invariavelmente delicado para a história de qualquer povo, não podemos, por outro lado, limitar à condição humana o privilégio de se reerguer de um momento de dificuldade, ou a tragédia de afundar mais, quando ninguém imagina que isso seja ainda possível. Pacas e andorinhas também fazem sua diáspora, independentemente dos conceitos bípedes de nação. Convença uma paca que aquele pedaço da várzea sem alimento é o dela e por isso ela deve sofrer de inanição ao invés de nadar até o outro lado do estreito rio, que farão um filme com você, e será bem melhor que o Dr. Doolittle da Pesada Muito Louco em Londres 3.</p>
<p class="MsoNormal"><!--[if !supportEmptyParas]--> <!--[endif]--></p>
<p class="MsoNormal">A despeito da espécie, podemos considerar que a definição de nação depende do sujeito em questão. Abelhas, por exemplo, têm em sua colméia uma nação bem definida. As formigas, o outro exemplo óbvio de colônia, vivem em constantes batalhas com o reino dos anelídeos, das toupeiras e são freqüentemente invadidas pelas infantarias do tamanduá. Ou seja, se a divisão de castas sugere um controle social completo e imperialista nos melhores moldes humanos, o mesmo não acontece com a certeza sobre a extensão de seu domínio, em constante alteração.</p>
<p class="MsoNormal"><!--[if !supportEmptyParas]--> <!--[endif]--></p>
<p class="MsoNormal">Com esta rasa apresentação desse amplo conceito e suas ainda mais amplas possibilidades, estamos aptos a conhecer Olga. Olga sempre odiou seu nome. Ainda hoje acha que é um bom nome para sua avó. Ela odeia também o fato de que está sempre mudando de escola, bairro, cidade, país ou hemisfério antes que seus quase-amigos se acostumem com seu nome saído direto de um antiquário. O pai de Olga tem vários nomes. É possível que um deles seja o verdadeiro, mas, por ele ser o falsificador de cheques mais procurado em pelo menos quarenta e sete países, o normal é que a própria Olga fique em dúvida qual usar.</p>
<p class="MsoNormal"><!--[if !supportEmptyParas]--> <!--[endif]--></p>
<p class="MsoNormal">Acra, Amsterdã, Basiléia, Brasília, Campina Grande, Dacar, Dublim, Estocolmo, Havana, Jacarta, Juneau, Kiev, Londres, Lucerna, Manágua, Manila, Montevidéu, Moscou, Nicósia, Omsk, Phoenix, Riade, Roma, São Paulo, Tashkent, Tbilissi, Teresina, Tóquio e Zagreb são, em ordem alfabética, as cidades onde Olga já morou. Amanhã ela vai completar dezessete anos e o único lugar que seu nome passou despercebido foi em Estocolmo, onde é um nome até comum, e em Londres, onde esse tipo de estranheza é ignorado devido a outras coisas estranhas como a Lilly Allen ou qualquer capa de tablóide gratuito.</p>
<p class="MsoNormal"><!--[if !supportEmptyParas]--> <!--[endif]--></p>
<p class="MsoNormal">Hoje, Olga mora em São Paulo faz oito meses. A esta hora da noite ela deveria estar estudando, mas está pensando que adoraria cursar arqueologia, embora ainda não seja possível saber em que país deve escolher a faculdade. Só torce para que não seja em Burkina Fasso. Olga ouviu dizer que o francês burquinense é compreensível apenas com conhecimento das gírias do dialeto tribal da região. Telefone.</p>
<p class="MsoNormal"><!--[if !supportEmptyParas]--> <!--[endif]--></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-left:36pt;text-indent:-18pt;"><!--[if !supportLists]--><span style="font-family:&#34;">-<span style="font-family:&#34;"> </span></span><!--[endif]-->Alô?</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-left:18pt;text-indent:17.4pt;">Não, não tem ninguém com esse nome.</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-left:18pt;text-indent:17.4pt;">Não, meu pai não está.</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-left:18pt;text-indent:17.4pt;">Não sei se ele volta hoje.</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-left:18pt;text-indent:17.4pt;">Não esqueço de avisar, não.</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-left:18pt;text-indent:17.4pt;">Mas, qual o seu nome?</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-left:18pt;text-indent:17.4pt;">Ah, só dizer que é um amigo?</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-left:18pt;text-indent:17.4pt;">Sei.</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-left:18pt;text-indent:17.4pt;">Tudo bem, então.</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-left:18pt;text-indent:17.4pt;">Tchau, tchau.</p>
<p class="MsoNormal"><!--[if !supportEmptyParas]--> <!--[endif]--></p>
<p class="MsoNormal">Acabamos de ter o privilégio de acompanhar o roteiro básico dos telefones à casa de Olga. Esta seqüência, claro, pode ter pequenas variações, para baixo (quando é engano) ou para cima (um inspetor mais insistente). Olga sabia que era alguém da polícia, e isso bastava para que ela usasse de respostas curtas e vagas, e para que seu pai ficasse tranqüilo. Ela imaginava, de qualquer forma, que a equipe de treinamento da polícia era formada por uma corja de apedeutas. Que espécie de amigo não perguntaria por ela? De qualquer modo ela sabia que seu pai nunca tivera um amigo. Olga não queria ficar como seu pai. Não queria desconfiar de todos, de toda rua, de todo prato de comida, de todo convite para uma noite divertida. Sabia que a desconfiança só confiava na solidão. Sabia também que queria ser arqueóloga, bioarqueóloga, para ser mais exata.</p>
<p class="MsoNormal"><!--[if !supportEmptyParas]--> <!--[endif]--></p>
<p class="MsoNormal">Olga convivia no período letivo com muitas adolescentes da mesma idade. Os desejos profissionais mais comuns atualmente eram publicidade, jornalismo, administração e especificamente em seu colégio, fonoaudiologia. Olga, como toda adolescente solitária, tinha uma bela coleção de teorias sobre tudo a sua volta. A explicação para o porquê de arqueologia era que sua rotina cigana a fizera muito apegada a suas origens, suas reais raízes, logo, com sua terra. Obviamente se isso fizer algum sentido, Olga deve cursar psicologia ou matemática analítica, não arqueologia.</p>
<p class="MsoNormal"><!--[if !supportEmptyParas]--> <!--[endif]--></p>
<p class="MsoNormal">O que a idade psicologicamente conflitante de Olga não permite que ela perceba é como as pessoas com quem ela convive a acham interessante. Consideram-se mesmo incapacitadas de ter um assunto que seja coerente com a cultura de Olga. Sempre que ela se muda é a mesma estória. Fica aquela sensação de morte de melhor amiga nas meninas, de grande amor perdido nos meninos, de intercâmbio da filha perfeita nos adultos – e de solidão em Olga. Seu celular sempre tem os mesmos números na agenda: o da ambulância, dos melhores médicos, de uns quatro advogados, de seguranças, bordéis de média qualidade e do IML, caso precise do pai para uma situação emergencial. Nos picos de sua agonia, Olga chegou até a considerar uma ligação para a operadora de seu telefone para conversar com o telemarketing. Inventaria um problema na tecla de cancelar chamadas e pronto, tinha uma desculpa para ligar e ela ainda servia para que o papo se alongasse. Por respeito próprio ela preferiu não fazer isso.</p>
<p class="MsoNormal"><!--[if !supportEmptyParas]--> <!--[endif]--></p>
<p class="MsoNormal">Os dias de Olga passavam lentamente. Entre uma refeição e outra havia pouco mais que uma leitura, um passeio até a praça próxima e uma descansada na sarjeta. Raramente checava e-mails (eram sempre spams mesmo) e navegar na internet , ao contrário do que dizem por aí, não a fazia mais social. Às noites Olga pensava que o normal seria sair e se divertir ou ficar em casa relaxando. Sair sozinha pelas ruas era considerado perigoso até pelo seu pai. Sair com os seguranças presos em seus calcanhares era como não sair. Ficar em casa tornava-se, assim, noite após noite, a opção depressivamente mais recomendada.</p>
<p class="MsoNormal"><!--[if !supportEmptyParas]--> <!--[endif]--></p>
<p class="MsoNormal">É muito claro para todas as pessoas que Olga está muito bem de vida. Infelizmente, para Olga só é claro que suas coisas maravilhosas e sofisticadas são oriundas unicamente dos embustes paternos, e que no primeiro vacilo dele tudo se esvairá. De maneira alguma Olga colocar-se-ia entre o pai e os negócios que os jornais fingem que entendem a cada notícia de tentativa frustrada de prisão. Toda essa compreensão não contribui em nada para que Olga queira seguir uma carreira familiar, muito pelo contrário.</p>
<p class="MsoNormal"><!--[if !supportEmptyParas]--> <!--[endif]--></p>
<p class="MsoNormal">Para aqueles que não conseguem enxergar Olga como uma menina tímida, com vergonha do próprio nome, ela é mais uma riquinha, mimada e que quando as férias de verão chegarem, ela vai voltar contando vantagem sobre como os castelos escoceses são bucolicamente belos ou como a Disneyland é muito mais legal que o Disney World. Crianças podem ser verdadeiramente cruéis, mas adolescentes são verdadeiramente mentirosos e, acima de tudo, não se conhecem tão bem para saber que ficariam imensamente tristes sem a presença de Olga, caso ela sumisse sem aviso prévio, como sempre fora orientada a fazer.</p>
<p class="MsoNormal"><!--[if !supportEmptyParas]--> <!--[endif]--></p>
<p class="MsoNormal">Essa tarde Olga chegou de seu passeio, entrou no quarto e só viu o seguinte bilhete em seu travesseiro:</p>
<p class="MsoNormal"><!--[if !supportEmptyParas]--> <!--[endif]--></p>
<p class="MsoNormal">SE EU NÃO CHEGAR ATÉ ÀS 20H30 PEGUE SEU CASACO E ME ENCONTRE LÁ.</p>
<p class="MsoNormal"><!--[if !supportEmptyParas]--> <!--[endif]--></p>
<p class="MsoNormal">Embaixo do bilhete havia uma passagem para Abidjan, capital marfinense, agendada para às 23h50. Tempo mais que suficiente para o check-in e um pão de queijo de despedida de mais uma casa. Talvez por isso Olga não conseguisse estudar, e sim só pensar em arqueologia. Olga sabia que em momentos de urgência, ordens transmitidas por escrito e sem direito a contra-argumentação deviam ser seguidas a qualquer custo. Casaco na mão. Olga só esperava a hora certa para assegurar-se que nada sairia errado. 20h27. Telefone.</p>
<p class="MsoNormal"><!--[if !supportEmptyParas]--> <!--[endif]--></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-left:36pt;text-indent:-18pt;"><!--[if !supportLists]--><span style="font-family:&#34;">-<span style="font-family:&#34;"> </span></span><!--[endif]-->Alô – gritou Olga.</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-left:36pt;text-indent:-18pt;"><!--[if !supportLists]--><span style="font-family:&#34;">-<span style="font-family:&#34;"> </span></span><!--[endif]-->Não, não tem nin&#8230;quer dizer, sim&#8230;sou eu.</p>
<p class="MsoNormal"><!--[if !supportEmptyParas]--> <!--[endif]--></p>
<p class="MsoNormal">Nunca alguém ligara para ela antes. Ela ficou paralisada de alegria. 20h28.</p>
<p class="MsoNormal"><!--[if !supportEmptyParas]--> <!--[endif]--></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-left:36pt;text-indent:-18pt;"><!--[if !supportLists]--><span style="font-family:&#34;">-<span style="font-family:&#34;"> </span></span><!--[endif]-->Se eu quero sair? Mas é que eu estou de saída – respondeu tímida.</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-left:36pt;text-indent:-18pt;"><!--[if !supportLists]--><span style="font-family:&#34;">-<span style="font-family:&#34;"> </span></span><!--[endif]-->Cinema com o pessoal amanhã?</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-left:36pt;text-indent:-18pt;"><!--[if !supportLists]--><span style="font-family:&#34;">-<span style="font-family:&#34;"> </span></span><!--[endif]-->Acho que tudo bem.</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-left:36pt;text-indent:-18pt;"><!--[if !supportLists]--><span style="font-family:&#34;">-<span style="font-family:&#34;"> </span></span><!--[endif]-->E onde é o bar de hoje, mesmo?</p>
<p class="MsoNormal"><!--[if !supportEmptyParas]--> <!--[endif]--></p>
<p class="MsoNormal">20h29.</p>
<p class="MsoNormal"><!--[if !supportEmptyParas]--> <!--[endif]--></p>
<p class="MsoNormal">Olga deixou o casaco em cima da cama e saiu pela porta dos fundos. Foi passeando, à noite, sozinha pelas ruas. A cada passo ela lembrava de canções de sua infância. Uma rima de Gana e outra entoada irlandesa eram suas favoritas. Olga tinha decorado as principais conexões dos aeroportos de Frankfurt, Hong Kong e Atlanta desde os doze anos de idade, mas não sabia o preço de uma garrafa de cerveja e de uma porção de batatas fritas em um botequim. Ela não queria saber mais de rotas aéreas do que dos túneis da cidade. Pensando bem, Olga nem gostava de arqueologia. Também não gostava de publicidade, jornalismo, administração e fonoaudiologia. Mas gostava de acordar no mesmo lugar no dia seguinte.</p>
<p class="MsoNormal"><!--[if !supportEmptyParas]--> <!--[endif]--></p>
<p class="MsoNormal">Essa tarde seria a última vez que Olga veria seu pai. Ela sabia disso. Era bom estar de volta para um lugar o qual ela só conheceu nos sonhos. Um lugar que ela pudesse chamar de seu. Não tinha como procurar por seu pai. Por qual nome procuraria? Em que lista ele se arriscaria a colocar sua identidade? Mas só para garantir que ele não a achasse, Olga resolveu deixar seu telefone em uma lata de lixo. Era uma lata bem suja, e Olga colocou seu aparelho bem no fundo enquanto uma lágrima escorria devagar, molhando só um pouco suas maçãs. Seus olhos, ao invés de inchados e cerrados, ficavam ainda mais brilhantes.</p>
<p class="MsoNormal">
<p class="MsoNormal"><a href="http://gorilaalbino.files.wordpress.com/2008/04/fibes_peq.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-55" src="http://gorilaalbino.wordpress.com/files/2008/04/fibes_peq.jpg" alt="" /></a></p>
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<p class="MsoNormal"><em><span><a href="http://rapidshare.com/files/255859528/FOF_SF.zip.html" target="_blank">Fibes, Oh, Fibes! – Still Fresh.</a> </span>Um ama salsa, outro considera o Arizona importantíssimo para sua formação cultural e as ruas mereciam mais bancos para você fumar um cigarro tranqüilo enquanto ouve.</em></p>
</div>]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[MACHIFESTO]]></title>
<link>http://gorilaalbino.wordpress.com/2008/03/10/machifesto/</link>
<pubDate>Mon, 10 Mar 2008 17:16:26 +0000</pubDate>
<dc:creator>pensacola</dc:creator>
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<description><![CDATA[Em um futuro não muito distante, em um grande ginásio de uma grande universidade, o Partido dos Limi]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><p class="MsoNormal" style="margin-bottom:.0001pt;line-height:normal;"><span style="font-size:10pt;font-family:Verdana;">Em um futuro não muito distante, em um grande ginásio de uma grande universidade, o Partido dos Limitados – que tivera seu nome definido pelo congresso – apresentava seu devastador discurso, que, segundo seus líderes, revolucionaria as bases epistemológicas sociais e antropológicas impostas na época. O local estava repleto de homens barbados. Barbas bem feitas, aparadas, sedosas e brilhosas como uma crina, nada daquelas barbas dos cossacos. Eles eram os descendentes dos glutões do século XX, que morreram gordos em uma época em que o colesterol ainda era uma preocupação e a água do mar não era filtrada. Estavam todos eles segurando seus copos de cerveja e ouviam atentamente a promessa de um mundo mais justo, livre da perseguição sexofóbica das mulheres.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:.0001pt;line-height:normal;"><span style="font-size:10pt;font-family:Verdana;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:.0001pt;line-height:normal;"><span style="font-size:10pt;font-family:Verdana;">“Amigos,</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:.0001pt;line-height:normal;"><span style="font-size:10pt;font-family:Verdana;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:.0001pt;line-height:normal;"><span style="font-size:10pt;font-family:Verdana;">Ainda hoje, em pleno século XXVI é inaceitável que existam membros do sexo feminino, considerando que nós, homens, não conseguimos fazer as coisas tão bem quanto elas. Claramente apoiadas pela maioria feminina no congresso e senado, as representantes do sexo forte continuam a explorar os homens desde sua mais maviosa idade.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:.0001pt;line-height:normal;"><span style="font-size:10pt;font-family:Verdana;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:.0001pt;line-height:normal;"><span style="font-size:10pt;font-family:Verdana;">É injusto e assustador que há mais de dois séculos sejamos tratados com descaso e repúdio pelas classes maquiadas, que têm acesso liberado ao backstage das fábricas de sutiã. Por exemplo, as universidades infantis são um privilégio feminino. Por que o garoto, brilhante como a mais iluminada das meninas, é obrigado a freqüentar o grupo escolar destinado ao seu número de registro de nascença? Mesmo que isso signifique viajar mais de duzentos quilômetros diários em variados transportes públicos, só para obter uma educação básica e beldroega.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:.0001pt;line-height:normal;"><span style="font-size:10pt;font-family:Verdana;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:.0001pt;line-height:normal;"><span style="font-size:10pt;font-family:Verdana;">A história nos mostra que esta repressão ocorre desde o século XXII. Antes disso, o mundo era capitaneado, em sua maioria, por homens. Em um ato de benevolência e clara demonstração de superior capacidade de convívio social entre iguais, nós, homens, permitimos que as mulheres (que já tinham suas honrosas tarefas domésticas e maternais) fizessem parte do nosso ambiente de trabalho, dos círculos sociais que nos orgulhávamos, de nossas vidas íntimas. E então, elas nos aplicaram um golpe de grande-mestre enxadrista. Enquanto países em desenvolvimento mexiam em pecinhas de construção civil e AKs-47 as mulheres em desenvolvimento moviam pessoas e contextos ao seu favor. Aparentemente, além do avanço biológico privilegiado, as mulheres também evoluíram em outros aspectos como, egosociais, antropofágicos, esportivos e bélicos. Todavia, companheiros, tal progresso só seria possível caso as fêmeas antigas conseguissem dominar as dimensões relativas da física e seus portais espaço-tempo. Portanto, em vista da seriedade desta possibilidade, é correto afirmar que nossas opositoras políticas vivem, ainda nos dias de hoje, agora, conosco e ao mesmo tempo no futuro, onde provavelmente o mundo segue seu caminho natural, liderado por homens. Porém, aqui, em nosso tempo, somos subjugados, e quando chegarmos ao futuro, continuaremos dominados e o presente da outra dimensão, como ele deveria ter acontecido, terá se alterado. Às favas com o paradoxo temporal.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:.0001pt;line-height:normal;"><span style="font-size:10pt;font-family:Verdana;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:.0001pt;line-height:normal;"><span style="font-size:10pt;font-family:Verdana;">Assim, o lorpo destino da nossa sociedade atual recai ao momento em que permitimos a entrada delas para um novo mundo, cruel, do qual as estávamos preservando. Neste ponto,surgiu numa microfração muito relevante da linha histórica que deu abertura para que <span> </span>fatos notáveis contribuíssem com mudanças significativas na ordem e organização, prezada e defendida por nós, espécime masculina, sucedessem. Não é isso mesmo, afiliados? Vejam só as academias de ginástica, um câncer que ainda hoje impera, seja na área rural, urbana ou espacial, e nos torna cada vez mais impotentes. A simples visão das curvas torneadas pela magia negra das máquinas de supino é o nosso melhor exemplo.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:.0001pt;line-height:normal;"><span style="font-size:10pt;font-family:Verdana;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:.0001pt;line-height:normal;"><span style="font-size:10pt;font-family:Verdana;">Historicamente, a instituição Academia de Ginástica começou a se formar nos calabouços de Green Grass Northshire Castle. Lá condenados passavam pelo julgo de reis e rainhas, príncipes e princesas, amas e cozinheiros, e eram sentenciados a ficarem, de tempos em tempos, presos em uma posição semelhante a da crucificação. No ano de 1.376, uma mulher de idade foi colocada junto dos detentos homens. Eles, sensibilizados com a situação daquela senhora foram ajudá-la. Mal sabiam que ela era uma harpia aprisionada em sua forma unicamente humana. Aos poucos, ela foi sugando a energia de cada um dos réus, até que se tornassem pele, ossos descalcificados e glóbulos oculares amarelados. Quando seus poderes atingiram o auge, ela conseguiu escapar, mas antes amaldiçoou a posição que tanto forçou seus músculos e quase provocou a perda completa de seus movimentos, e por conseqüência, sua mágica. Estudos comprovam que essa posição amaldiçoada é a mesma recomendada nas primeiras máquinas de supino, sucesso entre os homens da década de 1980. Além de tornar os polhastros atrativos apenas para Ursos Grizzlies, a vaidade entrava sem vaselina no consciente masculino, derrubando a auto-estima como se ela fosse um objeto de decoração sem valor. Para corrigir esse problema, os homens passaram a desenvolver aparelhos mais tecnológicos, que tornassem o corpo mais sensual. Isso também não fez com que sua auto-estima se engrandecesse. Então, homens benevolentes, mais uma vez ludibriados por alguma poção vinda do futuro, apresentaram às mulheres a academia, oferecendo a chance de elas mostrarem todo seu talento e capacidade de raciocínio em um ambiente tipicamente masculino, tornando-o mais harmônico. Ingênuos, isso que fomos. O contato massivo da espécie feminina com a antiga maldição da harpia aflorou os piores instintos do mulheredo. E por isso hoje, séculos depois, nós definhamos. Só temos ridículos hectares de florestas recuperadas pelos governos femininos para correr e nos exercitar, enquanto as fêmeas podem usufruir das florestas, com seus lagos e rios despoluídos, e também das nanomodernas vilas esportivas. Mas não me tomem por praguejador e detalhista. Não. O departamento esportivo é apenas um dos segmentos em que somos humilhados e azorragados.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:.0001pt;line-height:normal;"><span style="font-size:10pt;font-family:Verdana;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:.0001pt;line-height:normal;"><span style="font-size:10pt;font-family:Verdana;">Estão começando a entender o que quero dizer companheiros de punheta? Onde está a poluição que preenchia nossos pulmões? E como as mulheres lhe tratam no trânsito? Xingam você de burro, braço. E os carecas então? É só ultrapassar um pouco o limite de velocidade que já ouvimos o coro “tinha que ser careca”. Injustiçados carecas. Elas pensam que o domínio de modalidades como Fórmula Zero e X-Rally lhes dá o direito de pensar que nós, homens, não temos mínimas condições de competir em uma prova automobilística. Insulto.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:.0001pt;line-height:normal;"><span style="font-size:10pt;font-family:Verdana;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:.0001pt;line-height:normal;"><span style="font-size:10pt;font-family:Verdana;">E agora, peço aos associados que consideram seu estômago forte o suficiente, que fiquem. Mas sintam-se à vontade para não continuar aqui, aqueles que ficarem incomodados com os temas. São delicados, eu sei, mas temos o dever de levantar as questões Entretenimento ao Ar Livre e Trabalho. Esses tópicos específicos são considerados as principais causas de suicídios nos países com alto índice de suicídios. E não é para menos.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:.0001pt;line-height:normal;"><span style="font-size:10pt;font-family:Verdana;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:.0001pt;line-height:normal;"><span style="font-size:10pt;font-family:Verdana;">Como, homens da minha nação, nós vamos nos divertir tranqüilamente na praia enquanto mulheres poderosas passam a nos intimidar, e a caluniar nossos defeitos e exaltar nossas qualidades como se fôssemos legumes muito verdes ou muito rotos. “Ah, esse é bom de apalpar, esse já está mole. Hum, esse tem uma pele boa, este parece um pé enrugado com frieiras”. Como, meus selváticos, vamos manter o mesmo desempenho visual que o delas. Somos proibidos de entrar em lojas de cosméticos, não temos um ginásio sequer. Apenas uma campo que tem mais terra batida e texugos do que grama. Não estamos em condições de argumentar, quanto mais de demonstrar que também podemos escolher, que o esporte, a política, as cirurgias, a educação, tudo, não são atividades exclusivamente femininas. Quando nós poderemos olhar um biquíni e fazer um coro de elogio às ancas? Quando poderemos entrar em praias de topless sem ter que pagar uma taxa abusiva? Quando voltaremos a ter shampoo e condicionador 2 em 1 ao invés de sabão de coco incluído na cota da nossa cesta básica masculina? Quando as meninas do campo vão balançar suas saias hippies e ouvir aplausos ao invés de desejos reprimidos? Este tema precisa de abordagem iminente, correligionários de bolsa escrotal, e acreditem, se tivermos a chance, não vamos nos intimidar.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:.0001pt;line-height:normal;"><span style="font-size:10pt;font-family:Verdana;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:.0001pt;line-height:normal;"><span style="font-size:10pt;font-family:Verdana;">E quanto ao trabalho. Proponho uma greve imediata. Da mesma maneira que somos tratados em boates, danceterias e bares, a falta de mesura também assola o ambiente corporativo. Nossos cargos, muitas vezes abaixo do que merecemos, nos ata as mãos frente às injustiças sexuais sofridas. Depilar o peitoral como técnica barata de sedução em entrevistas, sapatos bico fino para parecer que sempre calçamos uns números a mais, ter que apalpar os peitos caídos da superiora da área, depois da superiora do departamento e por fim da superiora geral só para ganhar um café na reunião que, por um milagre, você foi convocado e não está entendendo nada, porque a informação relevante nunca chega aos seus ouvidos. E o pior, mesmo não possuindo posições de comando em nenhuma das grandes empresas do mundo, a culpa sempre recai sobre nossos ombros. Lembram-se do caso da presidente daquela empresa inglesa? No processo de separação o marido saiu com um par de meias e um colher de café. Acusado de interesseiro e biltre em praça pública. Logo em seguida, devido a uma segunda mão de esmalte mal aplicado, ela foi deposta. Neste momento o pobre do (já) EX-marido foi acusado de abalá-la emocionalmente em um desquite que lhe drenou a consciência. Não somos interesseiros caros colegas, somos sim interessados na nossa emancipação dessa ditadura repressora do absorvente.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:.0001pt;line-height:normal;"><span style="font-size:10pt;font-family:Verdana;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:.0001pt;line-height:normal;"><span style="font-size:10pt;font-family:Verdana;">Por isso, meus companheiros que vão ao barbeiro ao invés do cabeleireiro, conto com o apoio de vocês no último domingo do próximo mês para iniciarmos o processo de renovação social, onde os homens também poderão controlar ações e rumos a serem tomados. Teremos um canal de televisão só com pornografia, a Copa do Mundo Masculina voltará a ser jogada a cada quatro anos e a área do comércio do amendoim japonês será redefinida de acordo com os padrões dos botecos mais tradicionais. São planos ambiciosos. Sim, eu sei. Mas eu não deixo de acreditar que juntos, unidos, atingiremos nossos direitos.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:.0001pt;line-height:normal;"><span style="font-size:10pt;font-family:Verdana;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:.0001pt;line-height:normal;"><span style="font-size:10pt;font-family:Verdana;">Obrigado.”</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:.0001pt;line-height:normal;"><span style="font-size:10pt;font-family:Verdana;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:.0001pt;line-height:normal;"><span style="font-size:10pt;font-family:Verdana;">“Não. Juntos e unidos não significa de mãozinhas dadas.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:.0001pt;line-height:normal;"><span style="font-size:10pt;font-family:Verdana;"><!--[if !supportEmptyParas]--> <!--[endif]--></span></p>
<p><span style="font-size:10pt;font-family:Verdana;">Obrigado.”</span></p>
<p><img src="http://gorilaalbino.wordpress.com/files/2008/03/liz_peq1.jpg" alt="liz_peq1.jpg" /></p>
<p><em><span style="font-size:10pt;font-family:Verdana;"><a title="exile in guyville" href="http://rapidshare.com/files/60956522/Exile_In_Guyville.rar.html" target="_blank">Liz Phair – Exile In Guyville.</a> </span><span style="font-size:10pt;font-family:Verdana;">Ah, homens. Rendam-se logo, por favor.</span></em></p>
</div>]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[A PRIMEIRA VEZ ANTES DA PRIMEIRA VEZ]]></title>
<link>http://gorilaalbino.wordpress.com/2008/02/08/a-primeira-vez-antes-da-primeira-vez/</link>
<pubDate>Fri, 08 Feb 2008 18:07:08 +0000</pubDate>
<dc:creator>pensacola</dc:creator>
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<description><![CDATA[Está mentindo a garota que discorre sobre sua primeira vez, relembrando dolorosa e maliciosamente da]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><p class="MsoNormal">Está mentindo a garota que discorre sobre sua primeira vez, relembrando dolorosa e maliciosamente da experiência que teve entre os catorze e dezoito anos. Mas não se matem, meninas, vocês não têm a menor idéia de que estão mentindo. É um loroteiro de marca maior o garoto que se gaba de ter consumado o coito pela primeira vez aos treze – ou pouco depois disso – enquanto caçoa de seus coleguinhas de turma que mantêm a virgindade. E é um tolo o coleguinha que baixa a cabeça, resignado com sua virilidade, quando deveria responder que a primeira vez dele acontecera há alguns anos. E não só a dele. Desconsiderando a fase oral, a primeira vez de muita gente aconteceu muito antes do que eles mesmos se lembram e consideram a fornicada primogênita.</p>
<p class="MsoNormal"><!--[if !supportEmptyParas]--> <!--[endif]--></p>
<p class="MsoNormal">Há quem considere sexo somente o ato da penetração. Provavelmente as mesmas pessoas que não consideram felação algo estimulante. Esse tipo de mentalidade contribui diretamente para o tabu da primeira vez. Se todos adolescentes e seus hormônios incontroláveis atingissem a etapa final sabendo que a primeira vez não é, na verdade, a primeira vez, tudo seria mais fácil e menos traumático. O primeiro dia de escola é uma experiência considerável para algumas crianças, mas não se compara à primeira relação mais profunda. O primeiro dia de trabalho é cercado de muita expectativa, mas não pode competir com a implacabilidade da primeira noite (manhã? Tarde?) de um pré-adolescente. Todas essas atividades (ir à escola, ao trabalho, sexo) são realizadas exaustivamente durante nossas vidas, por isso o conceito da primeira vez deveria ser revisado por algum conselho de pedagogia psicanalítica e adotado em instituições de ensino particulares e estaduais. Veja por este ângulo: duas crianças em um banheiro, muito mais do que um ato recriminado por pais católicos e pelas freiras do internato, é o cenário de um dos momentos mais excitantes da infância. O banheiro torna-se, nessas circunstâncias, o motel de quem ainda não tem idade para dirigir nem pedalinho. Outro bom exemplo é um casal de velhinhos desdentados e impossibilitados de movimentar a pélvis. Eles buscam no sexo oral banguela-genginitivo sua dose mensal de hormônios e incitamento naturais. Assim, percebemos que a idade é sim um limitador da atividade sexual, mas não da libido.</p>
<p class="MsoNormal"><!--[if !supportEmptyParas]--> <!--[endif]--></p>
<p class="MsoNormal">Tirando (novamente) a fase oral e as variações de cópula com galináceos, ovinos e eqüinos, mais relatadas na forma de piada do que como know-how, a maioria dos meninos e meninas tem sua primeira experiência antes dos dez anos, e o ser oposto normalmente é: irmã(o) de outro casamento do pai, prima(o), amiga(o) da escola ou da rua (do prédio/do condomínio). Dificilmente esse tipo de relação ocorre em locais de pouca freqüência. Clubes, por exemplo, se são usados única e exclusivamente para a prática de um esporte podem gerar as subseqüentes experiências da garota ou do raparigo, mas não a primeira, quando ainda existe uma cumplicidade entre os praticantes do ato. Poucas crianças falam “mostra o seu que eu mostro o meu” para um desconhecido.</p>
<p class="MsoNormal"><!--[if !supportEmptyParas]--> <!--[endif]--></p>
<p class="MsoNormal">A desconstrução do mito da primeira vez começa com a desmistificação do ritual de passagem. É só sexo. Não significa que você tem que caçar um leão com um abridor de latas. Não é algo que você vai fazer uma vez na vida para provar que pode ser um o guerreiro-chefe ou capitão de um caiaque. Da mesma maneira, as garotas que mais cedo percebem que a foda de princesa vai acontecer dos vinte e poucos em diante, que a primeira vez vai doer, mais cedo vai perceber os prazeres que o sexo proporciona, seja o tântrico ou a rapidinha na caixa d’água.</p>
<p class="MsoNormal"><!--[if !supportEmptyParas]--> <!--[endif]--></p>
<p class="MsoNormal">Um bom gosto e disposição nas preliminares (e por preliminares entenda até o beijo que antecede a mão nas nádegas quando se tem 11 anos) mostram subliminarmente ao parceiro, então um amador cheio de medos e nojos (os quais você já superou), que ninguém faria algo ruim com tanta disposição. Ou vocês acham que o carrasco não gostava de ficar dando nós em cordinhas e afiando lâminas? Porém, ao contrário das crianças descobrindo a sexualidade, o carrasco tinha uma sociedade, ou ao menos mandatários, que o apoiavam e incentivavam suas sevícias.</p>
<p class="MsoNormal"><!--[if !supportEmptyParas]--> <!--[endif]--></p>
<p class="MsoNormal">Mas novamente, meninos e meninas, não se aflijam. Existem sempre livros sofríveis cheios de dicas traumatizantes sobre a construção de um relacionamento saudável. Eles são para maiores de 18 anos, mas tudo bem, revistinha de sacanagem também é e qualquer moleque de calças curtas compra um exemplar. E o principal na fase de transição entre bandeirante dos hormônios e conquistador de experiências é nunca deixar de fazer alguma coisa que lhe dê prazer, como tomar fanta uva, comer sanduíches de manteiga com açúcar e se quiser incluir na lista, sexo e coisas proibidas por aqueles que não tiveram coragem de colocar essas mesmas coisas em prática.</p>
<p><img src="http://gorilaalbino.wordpress.com/files/2008/02/newpornographers_peq.jpg" alt="newpornographers_peq.jpg" /></p>
<p class="MsoNormal"><em><span><a title="electric version" href="http://www.megaupload.com/?d=W63JUXU0" target="_blank">New Pornographers – Electric Version.</a> </span>Pop pornô de rapidinhas que mais parece a aula “Rock Contemporâneo: Composição e Bom Gosto Para Bandas Superestimadas”. Combina com cervejas, refrigerantes radioativos, conhaques, cigarros e pedaços de camembert, tudo junto. Para quem não tem tabus com músicas que grudam nos ouvidos desde a primeira vez.</em></p>
</div>]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[DO THE EVOLUTION]]></title>
<link>http://gorilaalbino.wordpress.com/2007/08/20/do-the-evolution/</link>
<pubDate>Tue, 21 Aug 2007 02:47:15 +0000</pubDate>
<dc:creator>pensacola</dc:creator>
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<description><![CDATA[Acordar no susto era uma coisa corriqueira em minha vida. Mas antes, o que eu achava normal passou a]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><p>Acordar no susto era uma coisa corriqueira em minha vida. Mas antes, o que eu achava normal passou a me assustar cada vez mais. Já fazia uns nove anos que eu estava nessa porra de hospitalzinho psiquiátrico de bairro. Obviamente não tinha nada, mas ainda assim uma vez a cada seis meses os diretores insistiam em fazer relaxantes sessões de eletrochoque. Pelo menos não aumentavam minha voltagem igual faziam com o Xing-Sen. Coitado do chinês, ficava desatinado. Só porque queria colocar pastel de cachorro na barraquinha da feira. Eu falava pra ele que aqui não era a China, que um dia iam reclamar. E como reclamaram.</p>
<p>No geral, a rotina transcorria de uma maneira até pacífica. O pior eram os remédios mesmo. Teve um dia que meu ex-colega de quarto colocou Stelazine no suco de um enfermeiro. O cara era forte pra burro, saudável o suficiente para agüentar uma dessas pílulas que a gente toma por aqui. Deu uma semana piava e saltitava alucinando. De jagunço virou chicoteado também. Achei um pouco triste, mas conheci gente que batia palmas quando ele ia para o quartinho reformatório. Não havia um dia que não voltava todo borrado. Isso era considerado o auge da rebeldia naqueles anos.</p>
<p>Quanto mais o (antes) enfermeiro entrava e saía com o esfíncter frouxo da ala nove, mais vibravam meus colegas de reformatório. Muito mais pelo fato de ser um ex-carrasco que se cagava do que pelo ato de cagar em si. Mesmo porque aqui todo mundo fazia suas necessidades fora de lugar. Comíamos fora das mesas, dormíamos em tábuas por capricho organizacional – quanto pior o sono, menor a resistência que apresentaríamos – escovávamos os dentes no tanque de roupa, fazíamos sexo em qualquer lugar, logo, não poderiam criar a expectativa de que a cagada seria no vaso. Nos tratavam como escória e depois queriam que nos comportássemos como sommeliers.</p>
<p>Eu percebi isso dos remédios deveras rápido, por isso consegui escapar de um caminho que a maioria traça depois que cruza os portões pela primeira vez. Percebi um pouco antes de entrar nessa pocilga, há uns dez anos, quando um tio passou uma temporada aqui. Ele chamou depois, no auge da sua tênue lucidez, de temporada com o tinhoso. A culpa pelo carinhoso nome recaiu sobre o diretor da instituição e os remédios. A afeição que eu tinha pelo irmão de minha mãe, pelo sorriso e pelos apelidos com que ele me chamava desapareceram com a amargura e o rancor que agora exalavam de seus olhos e das suas ações.</p>
<p>Para compensar os remédios, umas duas vezes ao ano alguém era liberado. Você nunca sabia quem seria o pseudo-fortuito. Pseudo porque poderia ficar igual meu tio, uma pessoa completamente irreconhecível para a família e amigos próximos. Um paria cercado de vultos, que em nenhuma hipótese seriam considerados conhecidos, tamanho o desprezo que cultivam por ele. Uma choldra covarde, que não conseguia encarar o fato de que o estado mental e social do ex-sangue-do-seu-sangue era em grande parte sua culpa. O último que eu vi sair foi o velho Ofir. Rapaz bom, devia ter uns cinqüenta e tantos, aparentava uns setenta e muitos. A família fez uma festança para recebê-lo em casa e fez outra ainda maior quando, uma semana depois, ele foi mandado de volta. Ofir nos contou às gargalhadas que o genro não agüentou quando um punhado de bosta com pétalas de lírio acertou bem o rosto do pug da família. Ofir se justificava para o marido de sua própria filha:” Mas tinha umas pétalas brancas cheirosas.” Pedro Pablo chamava o pug. Com certeza merecia um troço de merda na cara.</p>
<p>O fim das altas, como medida repressiva ao comportamento de Ofir, tornou as visitas um pouco mais freqüentes. A falta da mais reles esperança faz coisas impressionantes com a ridícula mente humana. Certa vez, e isso eu vi com minhas próprias orelhas, uma família veio visitar a instituição. O único interno que se recusou a tomar banho era exatamente o motivo da visita. Quando pai, mãe e irmãos entraram no quarto havia um azedume e o sujeito estava deitado em cima de sujeira pura. Algo muito chocante para a família, que provavelmente imaginava encontrar seu filho em um hotel três estrelas. No jantar daquele mesmo dia fui perguntar porque ele se recusou a tomar banho, no que ele disse: “Para simbolicamente poder mostrar para minha família que eu tenho nojo deles por me deixarem aqui, e para verbalmente falar, tenho medo dos enfermeiros, se fico imundo eles mantém distância”. Foi de um raciocínio brilhante. Pouco depois ele foi retirado daqui e anos depois viemos a descobrir pelo tráfico de jornal (que era o único tipo de tráfico que tínhamos há uns anos) que um jovem problemático havia matado a família. Um verdadeiro ator aquele menino. Convenceu a todos, até a nós, que sempre pensamos que nos conhecíamos. E essa dúvida foi o começo de um pandemônio interno.</p>
<p>A partir daí ficamos um pouco mais precavidos e passamos a cuidar mais uns dos outros. A organização aqui dentro foi impressionante e segmentada. Esquizofrênicos com esquizofrênicos, formando com suas inúmeras vozes o maior quorum de argumentação (segundo eles, óbvio) para qualquer decisão; depressivos com depressivos, confabulando em como a vida de todos nós era sem sentido em um lugar como aquele, exigiam a plenos pulmões remédios mais fortes e em doses para orangotangos. Obsessivo-compulsivos se maculavam do sangue de tantos transtornos juntos, divididos entre cada um dos membros da tribo. Foi uma cena impressionante e ninguém conseguiu explicar como eles conseguiram se organizar no final das contas. Suspeitamos que foram apenas obsessivamente se juntando com aqueles que não conseguiam falar por que estavam muito concentrados em suas rotinas excentricamente frenéticas. Infelizmente o grupo de Napoleões, tão desejado por boa parte do local acabou não se formando – os dois Bonapartes do antro decidiram que o reino era pequeno demais para os dois e um deles virou Carl Gustav, o monarca.</p>
<p>Foi o mais próximo que conseguimos ficar de um freak show sem controle. Aos comandos do diretor cada defeito considerado socialmente inapto de convivência era enaltecido e enquadrado para o caderno de notícias bizarras como justificativa às verbas exorbitantes que começamos a receber. Começamos, não só diretoria. Percebendo que a organização feita por osmose espontânea e multicelular de comportamentos não lineares realizada pelos grupos trouxera benefícios para o caixa da instituição, o diretor passou a se dedicar como nunca aos seus ex-renegados. Alas separadas, cada um com seu capricho para evitar incompreensão e batalha campal. Eu suspeitava que isso nunca daria certo. E isso realmente só durou até o dia da grande chacina na ala dos fóbicos. Sem saber qual medo deveria ser o regente supremo de sua jurisdição (com direito a voto pela internet) e quase em vias de decisão, os medrosos mais patológicos do bairro de repente se viram invadidos pelos residentes da ala da síndrome do pânico, não se sabe como. Nesse momento foi fácil decidir qual medo deveria ser combatido prontamente. Foi a primeira briga de facções literalmente insanas que se teve notícia em território nacional. Saldo de mortos e feridos que deixaria muita rebelião do crime organizado parecendo briguinha de gang infantil.</p>
<p>De circo passamos a ameaça nacional. Como se tivéssemos armas químicas e de longo alcance, o exército ficou plantado nas cercanias, o Complexo do Alemão e afins puderam trabalhar tranqüilos. Em reconhecimento ganhamos algumas centenas de quilogramas de maconha e outras tantas de cocaína, entregues diretos pelos esgotos em pacotes impermeáveis. Bem debaixo da barba e dos canos dos fuzis de cabos e tenentes. Em pouco tempo nós vendíamos drogas aos soldados, que sem relação com seus distantes familiares também nos ofereciam um trocado para uma felação sem responsabilidade. Era uma boa justificativa para tomar um banho.</p>
<p>Eu tinha um papel importante nos planos do diretor. Algum dos sintomáticos daqui deixou escapar que eu não tomava os remédios e estava bem. Ora, porque ele que também parecia bem tinha que tomar? Antes de isso se tornar um levante, o dedo-duro foi executado com estiletadas, bem ao estilo da ala psicótica em seus levantes bipolares mais agudos. E logo em seguida fui chamado para uma conversa. Achei que seria isso, bom passar pelo mundo e até a próxima. Mas não. Percebendo que eu tinha livre acesso por todas as alas, fui informalmente nomeado o representante dos internos para seu contato com o mundo externo. Isso faz mais ou menos umas três semanas. Pouco exerci do meu cargo diplomático, nós não gostávamos de nos comunicar com o mundo externo.</p>
<p>Como deveria ser natural, última noite sonhei que estava saindo daqui, que chegava em casa, uma bela mesa de jantar estava posta e pronta para um belo convescote. Deixei meus poucos pertences no quarto, a cama de casal encontrava-se pronta para o leito solitário e profundo. Essa calma e mesmice era como um pesadelo para mim. Mais uma vez acordei no susto. Mas susto mesmo foi ver uma circunferência do tamanho de um escapamento de carro a cinco centímetros do meu nariz e aquele odor de pólvora. Só tive tempo de pensar que eu deveria ter recusado meu importante e diplomático cargo. A cobiça é algo que loucos, não loucos e mais loucos compreendem, com o agravante de ter a capacidade de tornar os sãos loucos.</p>
<p>Hoje, uma semana depois de ser executado à queima-roupa só consigo pensar em uma coisa: poucos poderão se orgulhar por terem vivido na época em que era fácil ser louco. Mas deveria eu me ressentir por não morrer de overdose ou explosão cardíaca provocada pelos choques? Ou deveria me orgulhar, por ser considerado quem mostrou em manchetes sensacionalistas e em revistas antitudo o paradoxo de não saber em que lugar reside a real loucura? Dentro ou fora dos muros que habitei?</p>
<p><img src="http://gorilaalbino.wordpress.com/files/2007/08/m83.jpg" alt="m83.jpg" /></p>
<p><em><a title="before the dawn heals us" href="http://rapidshare.com/files/24604818/M83_-_Before_The_Dawn_Heals_Us.rar.html" target="_blank">M83 – Before The Dawn Heals Us.</a> Completo do começo ao fim. Com vozes de fundo para não ouvir sozinho à noite, com guitarras longas para ouvir correndo por compridos corredores brancos de azulejo, com batidas para ouvir louco, às 3h da manhã, na festa.</em></p>
</div>]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[ADORO ESSE TIPO]]></title>
<link>http://gorilaalbino.wordpress.com/2007/06/01/adoro-esse-tipo/</link>
<pubDate>Fri, 01 Jun 2007 22:15:35 +0000</pubDate>
<dc:creator>pensacola</dc:creator>
<guid>http://gorilaalbino.wordpress.com/2007/06/01/adoro-esse-tipo/</guid>
<description><![CDATA[Uma bebida. Eu preciso de uma bebida. De preferência com uma comida junto. Esse lugar parece ótimo. ]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><p>Uma bebida. Eu preciso de uma bebida. De preferência com uma comida junto.<br />
Esse lugar parece ótimo. Lembra aquelas tabernas antigas.<br />
Ah, é uma taberna antiga.<br />
Sem grandes invenções, o pedido em uma taberna deve ser uma cerveja e uma irish soup.<br />
Leitinho, mesmo de cabras-montesas, suquinhos, naturais ou de polpa e água são vistos com maus olhos.<br />
Água com gás é seguido de expulsão com safanões morais.<br />
Um lugar vazio ao lado. Ou, ou, quase vazio.<br />
Uma jaqueta em cima do banco, um copo de vinho com uma marca de batom na altura  dos cotovelos.<br />
Batom vermelho, elimina-se a irish soup.<br />
Passos próximos.<br />
Salto, definitivamente alto, elimina-se a cerveja.<br />
Vinho? Destilado?<br />
Água com açucar para controlar a ansiedade hipoglicêmica? Controle-se, você está em uma taberna.<br />
Peça uma cerveja escura.<br />
Não, uma red ale. Isso.</p>
<p>- Me vê uma red ale. Oi? Acabou? É, vou ver o que eu peço.</p>
<p>Bom, o lógico é pedir uma cerveja escura.<br />
Mas calma.<br />
Mulheres não costumam ser grandes apreciadoras de cerveja escura.<br />
Talvez devesse pedir um vinho, ela se sentiria acolhida e atraída pela mesma bebida.<br />
Mas se ela for uma das poucas apreciadoras de cerveja escura? Que chance estarei perdendo?<br />
E olhar para o rosto dela? Isso pode ser uma boa idéia.<br />
Droga, ela está olhando para o outro lado. Mas o cabelo é muito bonito, um cheiro muito agradável.<br />
Quem eu quero enganar? O cabelo é bonito mas aqui está cheirando a álcool.<br />
Conhaque para ser mais exato.<br />
Epa. Será que ela está bêbada, exalando, e eu não consigo perceber?<br />
Impossível. Os saltos marcavam passos ritimados. Não ouvi tropeços ou tropicões. Ela não está alterada a este ponto.<br />
Será que sou eu?<br />
A ressaca ontem foi pesada mesmo. Mas não, muito improvável.<br />
É esse lugar, com certeza. Preciso tirá-la daqui. Mesmo sem conhecê-la.<br />
Eu posso sair. Ela pode vir atrás. Acho que vi uma olhada de soslaio.<br />
Mas e se ela não vier atrás? Aliás, porque ela viria atrás? Ela pode ter olhado meu sapato e pensado, “Nossa, igual do meu tio-avô”.<br />
Isso acabaria com a minha noite. Se bem que já são quatro e meia da manhã.<br />
E pensando melhor, o que essa mulher está fazendo num lugar desses essa hora?<br />
Deve ser namorada do cara do bar. Daí fica difícil.<br />
Seria mais fácil se ela fosse meretriz. Como eu vou perguntar isso?<br />
Bom, acho que aí, eu posso simplesmente sair. Ela pode vir atrás.<br />
Mas já é tarde. E se acabou o turno dela?<br />
Eu nunca namorei uma puta. Como será?<br />
Namorados de putas também são cornos? É o trabalho delas, afinal de contas.<br />
É uma dúvida legítima. Vou perguntar.</p>
<p>- E cerveja escura? Uma então.</p>
<p>Ela me notou. Ela gosta de cerveja escura.<br />
Ela tem um jeito diferente mesmo. Será que é estrangeira?<br />
Para gostar de cerveja escura, deve ser escocesa.<br />
Ouvi dizer que na Grã-Bretanha as moças são liberais, mas demoram para iniciar uma conversa.<br />
Isso significa que posso estar me dando bem sem saber.<br />
Um gole para comemorar o meu sucesso.<br />
É uma boa cerveja.<br />
Estou no lugar certo. Uma boa cerveja, uma boa mulher.<br />
Pare com isso.<br />
Você ainda nem sabe como é o rosto dela.<br />
Ela ainda não disse uma palavra. Parece muda.<br />
E se for?<br />
Interessante. Já saí com uma muda uma vez.<br />
Entre uma muda e uma escocesa, fico com a muda. Se for sair com a escocesa quem fica mudo sou eu.<br />
Mas como ela pediu o vinho? Não existe cardápio, não existem garrafas de vinho expostas. O sinal universal do “traz uma bebida” é sinônimo de cerveja.<br />
É, ela não é muda.<br />
E não existem meretrizes escocesas na cidade. Isso aqui não é Amsterdam.<br />
Ou seja, está tudo bem. Ela é como as outras.<br />
Você já sabe lidar com esse tipo.<br />
Então, é agora.</p>
<p>Meeeeerda. Eu vi.<br />
Fudeu.<br />
Com esse tipo eu nunca soube como lidar.</p>
<p>- Mas por que ela tem que ser tão linda?</p>
<p>Caralho. Eu disse isso? Disse.<br />
Ela está olhando. Com cara de assustada.<br />
Saiu.<br />
Foi embora.<br />
Realmente, sou muito burro.<br />
Só indo embora mesmo.<br />
Eu devia seguir o mesmo conselho silencioso.<br />
Vamos.<br />
Um passo de cada vez.<br />
Só por que você destruiu sua noite com uma frase?<br />
Quão ridículo.<br />
Bela porta de entrada.<br />
Já está clareando.</p>
<p>- Oi.</p>
<p>É ela. O que eu digo?</p>
<p>- Fiquei imaginando se você sairía logo depois que eu saísse.</p>
<p>Droga. Ela é rápida. Como não pensei nisso antes?</p>
<p>- Eu estava indo para casa. Quer vir?</p>
<p>Aceite<br />
Isso. Muito bem.<br />
É, eu adoro o tipo linda.<br />
Mas adoro ainda mais o tipo objetiva.</p>
<p><img src="http://gorilaalbino.files.wordpress.com/2007/06/spektor1.jpg" alt="spektor1.jpg" /></p>
<p><em><a title="begin to hope" href="http://rapidshare.com/files/138513711/Regina_Spektor_-_Begin_to_Hope.rar.html" target="_blank">Regina Spektor – Begin To Hope.</a> Nas palavras de um bom amigo, “é como se Tori Amos tivesse encontrado Diamanda Galás num beco escuro”. E com Regina é certeiro: você encontra e se encanta.</em></p>
</div>]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[EU GOSTO DO FRIO POR OUTROS MOTIVOS]]></title>
<link>http://gorilaalbino.wordpress.com/2007/05/18/eu-gosto-do-frio-por-outros-motivos/</link>
<pubDate>Fri, 18 May 2007 19:28:03 +0000</pubDate>
<dc:creator>pensacola</dc:creator>
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<description><![CDATA[Quando o inverno chega em um país tropical há sempre uma sensação de exagero. Os termômetros ainda m]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><p>Quando o inverno chega em um país tropical há sempre uma sensação de exagero. Os termômetros ainda marcam temperaturas agradáveis, algo como entre dezenove e vinte e um graus, mas nas ruas cachecoles, luvas e toucas de lã já fazem parte do visual.</p>
<p>Tudo bem que não é exatamente um regozijo um dia trinta e cinco graus, no outro vinte. É, no mínimo, um bom motivo para mães e avós ficarem falando de friagem e de vento nas costas. Agora, o que não é exagero é preferir três matriarcas, sete madrinhas e doze senhoras de asilo penduradas no seu ouvido a usar cachecol com vinte graus. Cachecol sem necessidade é igual natureza, pinica.</p>
<p>Em compensação, sentar em um banco de concreto daqueles de praça, observar a fragilidade e o medo das pessoas de sairem de sua zona de conforto é algo que só a primeira de poucas semanas de frio em um país tropical pode oferecer.</p>
<p>Imagine só o processo da mulher, que sempre faz chapinha antes de ir para o trabalho, como ficou mais complexo. Aqui a temperatura é fator determinante. Quanto mais frio, mais difícil despertar. O ânimo parece que se esconde entre a terceira e quarta vértebra do lado que você está deitado na cama e de lá só vai sair quando o último iceberg ficar do tamanho ideal para servir um copo duplo de vodka.</p>
<p>Depois de decidir que é hora de levantar, a moça percebe que agora é a chapinha (e seu charme) ou a reunião (e seu emprego), a donzela, responsável que é, opta pela reunião. E sem penumbra de dúvida ela pensa que ao se empetecar, ao colocar uma calça mais justinha e ao colocar um cachecol vindo direto da Argentina (ou de Maceió) vai desviar a atenção do seu cabelo, hoje extremamente mal tratado. As botas, altíssimas, quase conseguem, mais pela cafonice do que qualquer coisa. Ilusões, muitos seres humanos se alimentam exclusivamente disso.</p>
<p>Já o rapaz engomadinho é ainda mais interessante. No exato instante que eu acendo um cigarro ele tenta fazer o mesmo. Só que o pulha está usando luvas. Ele continua tentando, com uma mistura de ar superior – que as luvas de pelica alemã conferem ao homem – e de orgulho se quebrando por não conseguir manejar nem isqueiro nem cigarro com a mesma habilidade que tem com as mãos desprotegidas. Vinte graus. Se não for vergonha da micose não sei o que faz alguém usar um acessório desses nessa temperatura.</p>
<p>Do meu ponto de vista, caso estivesse sentado no banco, isso é só uma das possibilidades que a queda de temperatura proporciona. Termômetros em queda até uma temperatura aceitável servem como uma bolha boa. No meio do mormaço, todo aquele bafo cinza de quilômetros cúbicos de fumaças são expelidos direto no seu nariz. O raciocínio e o pensamento destoam da razão e da fantasia – estão perdidos –, as idéias tornam-se pesadas. Calor foi feito para a praia. Uma temperatura amena na cidade é quase que um convite à reflexão, é um pedido para que você pare de suar com seus problemas e pense mais no que está a sua volta.</p>
<p>Dezenove ou menos graus servem para você ficar bem, dentro ou fora de casa, e ajuda a fazer tudo com calma, e o melhor, nem sempre seu pensamento precisa fazer sentido para os outros. Você está pensando, tirando conclusões, não escrevendo uma tese. Um gato pardo andando pelas beiradas de um muro pode ser mais inspirador do que um aparelho de ar-condicionado caindo do último andar de um edifício comercial. O óbvio, como as moléculas, fica menos apressado e mais elegante em temperaturas mais baixas. As sutilezas ficam mais aparentes, ao ponto do ar se mostrar sempre que sai de uma boca para o mundo.</p>
<p>Ano passado tivemos inverno, garanto. Mas de praxe, a estação mais imponente do ano sempre tem um tempo muito curto por aqui. E aflitivamente, a cada ano, sempre que chega o inverno eu concluo que as pessoas pensam menos. Esse ano eu adoraria ver menos pessoas falando irracivelmente pelas ruas e mais transeuntes chutando pedrinhas enquanto andam (essa sim uma atividade que enche o cérebro de idéias e devaneios produtivos). Todo um bairro pensando em mil coisas, andando, parado, sentado em um banco de concreto daqueles de praça, imaginando uma arlequinada qualquer, mas que estejam dedicando ao menos cinco minutos de profundidade à momice.</p>
<p><img src="http://gorilaalbino.files.wordpress.com/2007/05/mogwai1.jpg" alt="mogwai1.jpg" /></p>
<p><em><a title="happy songs for happy people" href="http://rapidshare.com/files/30317763/Mogwai__Happy_Songs_For_Happy_People_.rar" target="_blank">Mogwai – Happy Songs For Happy People.</a> Ondas sonoras que mais parecem um convite à reflexão irresponsável, (in)coerente, libertina e que vez ou outra leva a conclusões surpreendentes.</em></p>
</div>]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[BEIJO NO ROSTO É SINAL DE CARÊNCIA]]></title>
<link>http://gorilaalbino.wordpress.com/2007/05/04/beijo-no-rosto-e-sinal-de-carencia/</link>
<pubDate>Fri, 04 May 2007 18:00:58 +0000</pubDate>
<dc:creator>pensacola</dc:creator>
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<description><![CDATA[Certa vez ouvi relatos de uma mãe nada coruja, mas ainda assim muito apegada ao filhote, que o garot]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><p>Certa vez ouvi relatos de uma mãe nada coruja, mas ainda assim muito apegada ao filhote, que o garoto no auge dos seus sete anos adora beijos de meninas mais velhas – por volta dos seus quinze anos – com a mesma intensidade que repudia os beijos melosos da tia Rosana.</p>
<p>Além do nome em comum com esse garoto, a semelhança de comportamento me surpreendeu. No meu caso, a tia Judith, com um agá horroroso no final do nome, ficava lambuzando minhas bochechas com beijos estalados e ao mesmo tempo ensinava a pronúncia correta do seu nome, que na sua concepção distorcida de sonoridade, em muito diferia da sua vizinha, Judite.</p>
<p>Tia Judith foi meu primeiro contato quase traumático com o sexo oposto. Levando em conta que menos de 1% da população deve lembrar de como era ser amamentado pela mãe, tias Rosanas e Judiths podem ser consideradas a principal causa de um dos grandes argumentos psicológicos sobre o comportamento masculino e feminino na adolescência: o de que meninas amadurecem primeiro.</p>
<p>Veja bem, as meninas são tratadas de maneira bem mais harmoniosa pela família. Imaginem o que o pai e mãe iriam pensar se vissem o tio Clóvis dando beijos e mais beijos nas bochechas rosadas de sua filhinha indefesa. Pedofilia, perversão, sodomita enrustido. E essa concepção passa pela cabeça do tio Clóvis, logo a menina cresce em paz com o sexo oposto.</p>
<p>Aos treze anos boa parte das meninas já menstruaram e estão louquinhas para testar seu novo estado hormonal, digno de uma mulher. Mulher?, pensa o menino de treze anos com o kichute e a bola de capotão no pé. A imagem da tia grudenta é imediata. Dentro desse contexto atingir um pé de igualdade é difícil. Mas tudo melhora depois que beijar fica uma coisa normal. Normal não, gostosa.</p>
<p>Nesse momento, as meninas que não aguentavam mais esperar o amadurecimento dos infantes já partiram para a ação com garotos mais velhos. E você, tolhido em suas ações, começa a olhar para as meninas mais novas. Crianças.</p>
<p>Quando carícias, beijos e sexo já fazem parte do vocabulário e do repertório corporal de qualquer pessoa, aí sim revela-se o lado de tia Judith dos homens, e não é o lado meloso, é o lado possessivo. Tia Judith, como tia Rosana, coitadas, são as tias que nenhum homem quis. Perdoem-me as duas e suas variações espalhadas pelos cantos do mundo, mas vocês estão nessa situação porque são chatas e apegadas.</p>
<p>Se quando éramos pequenos os beijos dessas hárpias da gosma bucal caía sobre nossas faces, agora crescidos, esse sentimento cai sobre nossas acompanhantes. Do mesmo jeito que a titia queria tomar whisky, fazer os docinhos do aniversário, fumar um cigarro, grudar na sua bocheca; você quer tomar uma cerveja, fumar um cigarro, fazer uma bagunça e quando chegar em casa encontrar sua mulher. Elas eram possessivas, você ainda é.</p>
<p>Sem notar que já fizemos uma mulher chorar (senão muitas), somos arrebatados por uma porrada psicológica e ao perceber que não existirá uma mulher quando chegarmos em casa, uma mistura de posse com pânico se acomoda em algum lugar entre o estômago e o último dos neurônios. Sinapses enfervecidas com ketamina não conseguem produzir tal efeito.</p>
<p>Mas acredite, xarazinho do começo do texto, isso não é uma regra, mas que sua mulher no futuro não estará fazendo docinhos, é verdade. E pior, quando você for procurá-la vai achar uma boca selada a outra em cada esquina. Para sua tristeza, ao menos uma delas será conhecida. Nesse momento, um beijo na bochecha nos ajudaria a superar essa situação – não a visão da alheia, mas a possessividade humana inerente – mesmo que fosse um beijo da tia Judith.</p>
<p><img src="http://gorilaalbino.files.wordpress.com/2007/05/aqueduct.jpg" alt="aqueduct.jpg" /></p>
<p><em><a title="i sold gold" href="http://rapidshare.com/files/123178894/AQDCT_ISLDGLD.zip" target="_blank">Aqueduct – I Sold Gold.</a> I’d never leave you there screaming for my love. Uma homenagem subjetiva ao desapego. </em></p>
</div>]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[TERCEIRA CHANCE]]></title>
<link>http://gorilaalbino.wordpress.com/2007/05/02/terceira-chance/</link>
<pubDate>Wed, 02 May 2007 22:22:29 +0000</pubDate>
<dc:creator>pensacola</dc:creator>
<guid>http://gorilaalbino.wordpress.com/2007/05/02/terceira-chance/</guid>
<description><![CDATA[São três horas da manhã. Acabei de completar cento e oito horas acordado. Sabia que algumas pessoas ]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><p>São três horas da manhã. Acabei de completar cento e oito horas acordado. Sabia que algumas pessoas já tinham ficado assim, mas eu achei que estava imune, que comigo isso não aconteceria. É, de fato, uma insanidade. No sentido literal da palavra.</p>
<p>Ainda que a insônia fosse todo o problema do momento, ela é apenas mais um dos sintomas que não consigo ignorar (nem meus chefes, que já me recomendaram um psicólogo no mesmo andar do RH). Os outros sintomas, como a falta de apetite, o desejo de ficar trancado em casa, a incrível resignação com que tento passar o dia e a noite, são bem piores. Sem planos e sem projetos. Bem comigo, que sempre pensei ser invulnerável a elas.</p>
<p>Não tenho certeza se alguém já disse isso, mas de todas as drogas, as mulheres são as mais viciantes. É muito provável que sim, devido à obviedade da afirmação. De qualquer maneira só posso concluir que a abstinência de uma mulher é torturante. É a pior parte.</p>
<p>O homem experimenta, gosta, rapidamente se envolve e de repente fica sem. Por alguma bobagem, alguma estupidez, sem motivo algum ou por trocá-la por outra droga (as mulheres invariavelmente culpam a cerveja, loira deliciosa e perpicaz, que aumenta a auto-estima masculina com poucos minutos de conversa). Assim, no mesmo tempo em que uma banda consegue cantar one, two three, four, uma mulher consegue te largar. Sem uma resposta, sem sequer uma pista de como proceder.</p>
<p>Você deve agir, fazer alguma coisa. Mas fazer o quê? Fazer como? Você pode esperar. Mas esperar até quando? Por quanto tempo consegue um homem ficar sem pensar em uma mulher? Por quanto tempo um homem vive sem uma paixão? Uma paixão que ele possa conversar, tocar, beijar e transar. Não um símbolo de time do esporte bretão. Uma paixão que tenha a pele macia e lábios desenhados de um jeito que só os maiores artistas conseguem copiar. Copiar, porque criar algo tão perfeito é impossível. Eu não sei dizer por quanto tempo isso é possível.</p>
<p>Mas quando esse tempo chega, ele vale toda espera. É incrível como de repente, com uma simples notícia, o homem percebe que todo seu sofrimento, toda angústia, não passava de uma bobagem adolescente já superada. Tudo bem que ele teve que esperar muito por isso, mas agora está tudo perfeito, como deveria estar.</p>
<p>Uma segunda chance de aproveitar uma dose de Soma e se embriagar em odores que não se encontram em nenhum outro lugar, a não ser naquela pessoa, naquele pescoço e naqueles cabelos. Uma delicadeza que só se sente naquelas mãos, naquela boca e naqueles seios. É tão perfeito que não pode ser real.</p>
<p>É tão perfeito que não é real. Porque no momento seguinte ela já está dizendo adeus. Cada vez mais rápida, cada vez mais dolorido. Como uma arma que antes de perfurar lentamente o coração, transpassa ouvidos, nariz e olhos, para que o homem só saiba que uma mulher está próxima ao sentir o toque de seus dedos. Uma lâmina que dilacera o interior, porém deixa a carcaça inteira, para que todos o vejam apodrecer e morrer, um pouco por dia.</p>
<p>E o homem, que não sabe como encontrá-la, espera. Aguarda por mais um segundo, que seja, de sua saliva e do sopro que sai de sua alma e transforma todas as sensações em uma catarse que só pode ser superada pelo torpor eterno.</p>
<p><img src="http://gorilaalbino.files.wordpress.com/2007/05/funeral.jpg" alt="funeral.jpg" /></p>
<p><em><a title="funeral" href="http://www.megaupload.com/?d=WT2JVH2N" target="_blank">Arcade Fire &#8211; Funeral.</a> Não existe uma banda como eles. Existem melhores e piores, mas não como eles.</em></p>
<p><img src="http://gorilaalbino.files.wordpress.com/2007/05/neon_bible.jpg" alt="neon_bible.jpg" /></p>
<p><em><a title="neon bible" href="http://rapidshare.com/files/36812316/NeonBible.rar" target="_blank">Arcade Fire – Neon Bible.</a> Já estou sem comer e sem conseguir raciocinar esperando pelo próximo contato.</em></p>
</div>]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[A PROFISSÃO MAIS HONROSA DO MUNDO]]></title>
<link>http://gorilaalbino.wordpress.com/2007/04/18/a-profissao-mais-honrosa-do-mundo/</link>
<pubDate>Wed, 18 Apr 2007 16:29:36 +0000</pubDate>
<dc:creator>pensacola</dc:creator>
<guid>http://gorilaalbino.wordpress.com/2007/04/18/a-profissao-mais-honrosa-do-mundo/</guid>
<description><![CDATA[Ele abriu o guarda-roupa. Em meio a tantas calças jeans, camisetas, jaquetas e roupas do dia-a-dia, ]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><p>Ele abriu o guarda-roupa. Em meio a tantas calças jeans, camisetas, jaquetas e roupas do dia-a-dia, separou um paletó bege de lã fria. Achou a melhor opção entre um terno preto, extremamente sério para esse momento de alegria, a fantasia de papagaio e o quimono de judô. Mais discreto, sem ser conservador. Hoje o equilíbrio entre discrissão e carisma seria fudamental.</p>
<p>Ontem mesmo, no parque de diversões a fantasia de papagaio tinha funcionado maravilhosamente bem. Enquanto colocava a gravata, o homem sorria lembrando-se da cena. A pobre coitada da vítima; sentado no banco, pálpebras fechadas, igual a maioria dos avôs depois de um almoço digno de avós, parecia perturbada, como se estivesse aproveitando o último dia de sua vida.</p>
<p>Mas isso foi ontem. O mês andava turbulento. Os negócios tomavam boa parte de seu tempo para ficar se apegando ao passado, mesmo que recente. A corrupção contribuia, e muito, para o bom andamento do negócio. Só este mês já visitara Jaders, um Orestes, Severinos e Josés.</p>
<p>Ficara particularmente orgulhoso do trabalho desenvolvido junto à Antonio Carlos. Houve ali uma grande imerssão. Ele se aproximou dos seus maiores imediatos, pôde descobrir detalhes que o ajudaram muito. O Painho merecia todo seu respeito e cuidado. Um erro e ele estaria condenado ao esquecimento. Sua carreira escoaria pelo ralo no melhor estilo Hitchcockiano.</p>
<p>Mas a perfeição e o grau de dificuldade do serviço realizado valorizaram seu passe. O mercado concorrente o temia. Tinha pesadelos com a possibilidade de encontrá-lo numa disputa. O mercado que contava com seu talento natural sorria por cada centavo investido. E eram muitos.</p>
<p>A reunião de hoje seria com pessoa ilustre e influente. Talvez, o grande salto da sua carreira, já meteórica, no grande centro econômico do Brasil. Paulo aguardaria uma pessoa com o nome de Dalila em um dos melhores restaurantes de São Paulo. Ele adorava causar surpresas e se empenhava para tal. Dalila tinha até número de registro. As suas surpresas por vezes chocavam, é verdade. Por exemplo um ex-presidente, caçador de marajás e carateca exímio, morreu de medo ao encontrá-lo vestido de atirador de facas de circo.</p>
<p>O terno bege estava impecável. A gravata feita com um Windsor Duplo realçava seu pescoço esguio e combinava perfeitamente com seus óculos escuros, circulares e não totalmente pretos. Satisfeito com o que via no espelho, dirigiu-se ao escritório e preparou sua maleta. Ela era mais larga, um pouco maior e da mesma forma de uma maleta executiva normal. Elegante, mas ainda assim, normal.</p>
<p>Checou se tudo estava no seu devido lugar. Considerava essa hora importantíssima. Uma falha e todo o projeto ruiría como a Torre de Babel. Importante manter-se atento às referências bíblicas. Paulo é costumaz freqüentador de cerimônias dominicais.</p>
<p>Pegou o carro e em pouco tempo estava estacionado a três quadras do local marcado. Gostava de parar sempre um pouco distante. Fazia uma última preparação mental de tudo que estava por vir, andava um pouco, analisava o ambiente. Nunca havia falhado, porque mudar. No encontro com Orestes chegara de ônibus e saíra andando, frente a olhares desnorteados que olhavam para o ocorrido procurando uma explicação.</p>
<p>Entrou em um suntuoso prédio e subiu direto para a cobertura. O sigilo do local era fundamental para que o negócio se concluísse sem estorvo. Da cobertura completamente vazia, olhou para o prédio em frente. Paulo estava lá, a uma rua de distância, esperando por Dalila. “Velhinho safado”, pensou. Posicionou-se e calmamente abriu sua maleta. Tirou cada parte de seu rifle Heckler &#38; Koch PSG1 e o montou com todo o cuidado. Colocou a mira telescópica e manipulou cuidadosamente uma única bala, a beijou e colocou no cano. “Seu destino é certo, Dalila. Na mão de muitos homens passarás. Não desvendarão o seu passado, e mesmo assim, entrarás para a história.”</p>
<p>Enquanto saía do suntuoso prédio pessoas passavam gritando. Sirenes já se ouviam, ainda que distantes, e o homem, em seu terno bege impecável, andava e pensava consigo mesmo que amanhã, parte do obituário estará na primeira página dos jornais.<br />
<img src="http://gorilaalbino.files.wordpress.com/2007/04/pretzellogic2.jpg" alt="pretzellogic2.jpg" /></p>
<p><em><a title="pretzel logic" href="http://www.megaupload.com/?d=PZEZG3WN" target="_blank">Steely Dan – Pretzel Logic.</a> Um duo que se veste do que for necessário para passar sua mensagem. E sempre consegue.</em></p>
</div>]]></content:encoded>
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<title><![CDATA[O REI QUE MORREU À PAULADA]]></title>
<link>http://gorilaalbino.wordpress.com/2007/02/23/o-rei-que-morreu-a-paulada/</link>
<pubDate>Fri, 23 Feb 2007 20:58:18 +0000</pubDate>
<dc:creator>pensacola</dc:creator>
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<description><![CDATA[Em um distante reino o benevolente rei estava incrivelmente entediado. Mais que entediado, ele estav]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><p>Em um distante reino o benevolente rei estava incrivelmente entediado. Mais que entediado, ele estava enfadado. Tinha a plena certeza de que pelo resto de seus dias o auge da animação seria acompanhar o mofo evoluindo em seu trono, subindo até seu manto. Como ele não tinha filhos ninguém se sentaria em seu lugar, logo ele conseguia ver os fungos consumindo mesmo seu cetro em todos seus detalhes de ouro.</p>
<p>Só na última semana três bobos da corte, contrariando qualquer exemplo de benevolência, foram executados com sacos de risada amarrados na cabeça. O rei não tolerava piadas sobre nacionalidades, religiões, homossexualidade e – obviamente – políticas centralizadoras. Como os bobos sindicalizados seguiam a cartilha desenvolvida pelos antigos truões em épocas mais prodigiosas, o repertório se esgotara.</p>
<p>Qualquer possibilidade de entretenimento fora de seus domínios era ridicularizada pelo próprio rei. Uma vez que o esporte mais praticado em suas terras era uma variação mais lenta e complicada da bocha, a culpa não poderia ser jogada toda em suas costas. Há alguns anos seus mensageiros, que viajavam divulgando seu glorioso reino, voltaram com um revolucionário jogo que exigia apenas pouco mais de vinte pessoas e uma bola. O monarca vetou veementemente qualquer tipo de propalação sobre um jogo que utilizasse apenas uma única bola. E isso foi culpa toda dele.</p>
<p>Os cozinheiros e copeiros que se aventuravam a alegrar a rotina do rei pelo estômago também não tinham vida fácil. Depois de quilos de receitas internacionais despejadas no lixo, de infindáveis testes de ingredientes, de meses visitando os mais obscuros mercadões dentro dos limites do território e além, a equipe gastronômica decidiu apelar. Passaram noites em claro pesquisando novas técnicas e cursos de aprimoramento na internet. De nada adiantou. O imperador sempre pedia frango com pele acompanhado de salada verde, arroz e batatas sauté. Duas bananas de sobremesa.</p>
<p>Com o passar do tempo o rei continuava incrivelmente entediado e o distante reino decidiu fazer alguma coisa. Mas o que oferecer a um rei, que ele já não tenha? Que experiência proporcionar, que ele já não tenha usufruído?, questionavam corte, povo, bobos não-sindicalizados (os únicos que restaram) e meros peregrinos. Depois de muito pensar, não se sabe ao certo quem falou – Que tal música?</p>
<p>A idéia, a princípio ridícula e absurda, passou a ser esperança quando fontes próximas revelaram que o conhecimento musical do desgastado monarca se limitava a uma apresentação de caráter singular: um duelo de menestréis dois no fagote contra dois na tuba.</p>
<p>Toda jurisdição começou então a buscar pelo que cada pessoa considerava a melhor música do império. No final da seleção, tomada pela esbórnia e por escolhas passionais, os envolvidos não conseguiram chegar a uma conclusão. A dúvida e a angústia eram inversamente proporcionais ao tempo que restava para o rei se enfastiar até de respirar.</p>
<p>Ao final de um conclave disputadíssimo um grupo foi selecionado pelo voto público. Aclamado como uma das grandes novidades pelos bardos do interior, que trabalharam pesado na boca de urna. Criticado pelos conservadores locais, sob o argumento de que Chopin e Lizst seriam a iniciação ideal para alguém com a posição social do imperador.</p>
<p>Já em cima do palco montado na ponte levadiça, durante duas horas o grupo tocou o melhor que podia. Os críticos mudaram de opinião, os adoradores foram aos prantos de emoção. Só uma pessoa não se levantou para aplaudir. O rei.</p>
<p>O legista da corte informou que a morte do benevolente imperador ocorreu dois minutos após as primeiras notas saírem dos amplificadores do grupo. Ataque cardíaco fulminante, conseqüência de um choque emocional agudo. Informou também que o sorriso estampado em seu rosto inerte era o mais sincero de toda sua vida.</p>
<p><img src="http://gorilaalbino.files.wordpress.com/2007/02/macaco_bong3.jpg" alt="macaco_bong3.jpg" /></p>
<p><em><a title="artista igual pedreiro" href="http://albumvirtual.trama.uol.com.br/flash_download.jsp;jsessionid=324E1BE8017AFC560AA82FCA6E6313A0?id=3" target="_blank">Macaco Bong – ao vivo</a> – Novidade soando como novidade para os ouvidos. Nos dias de hoje, algo raro como rock instrumental.</em></p>
<p><em>P.S. &#8211; o link leva ao único álbum da banda, Artista Igual Pedreiro, que ainda não existia na época em que o conto foi escrito. Você precisa se cadastrar no site para baixar.</em></p>
</div>]]></content:encoded>
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<title><![CDATA[DO YOU HAVE A LIGHT?]]></title>
<link>http://gorilaalbino.wordpress.com/2007/01/23/do-you-have-a-light/</link>
<pubDate>Tue, 23 Jan 2007 23:14:05 +0000</pubDate>
<dc:creator>pensacola</dc:creator>
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<description><![CDATA[Acenda um cigarro. Sabe aqueles filmes em que ator e atriz principal e coadjuvantes fumam, fumam e f]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><p>Acenda um cigarro.</p>
<p>Sabe aqueles filmes em que ator e atriz principal e coadjuvantes fumam, fumam e fumam? E quando entra aquela cena de sexo que é completamente excitante? Mas, de repente, você não fica com tanta vontade de fazer sexo, e sim de fumar o cigarro pós-coito, que a câmera estática centralizou e deixou o trago ser mais forte que qualquer diálogo.</p>
<p>Se você fuma, você sabe. Se não fuma, essa estória não é feita para você, como você pôde perceber na primeira linha. O cigarro faz parte do imaginário glamoroso que permeia o mundo das artes.</p>
<p>No cinema, um trago de James Dean fez um delicioso câncer portátil entrar pelas gargantas e pulmões de uma geração inteira. Na música ele foi companheiro fiel de compositores solitários, de rodas de samba e, coitado do roqueiro que ousasse não fumar. No dia seguinte seria tachado de bubblegum pop.</p>
<p>Na gastronomia, conhecimento culinário elevado à condição de arte, os franceses são tão bons porque aprendem desde os treze anos a mexer a panela e cortar ingredientes com uma mão enquanto levam o tabaco à boca com a outra.</p>
<p>Pode parecer anti-higiênico; mas só até ver a pessoa que você conheceu em um café na noite anterior, na casa dela, usando só as roupas de baixo; acender o fogão e o cigarro com o mesmo fósforo. Nesse momento, quando você já estiver completamente hipnotizado, ela vai caminhar até você, falando a língua mais instigante do universo conhecido e vai beijar, beijar forte, não apaixonadamente, mas de um jeito que você nunca vai esquecer.</p>
<p>Nesse dia você não vai lembrar da cor da roupa de baixo, mas vai lembrar além do beijo, do sexo, do cigarro pós-sexo que tem exatamente o gosto que você imaginou que teria o cigarro pós-sexo dos filmes, se não melhor, e vai lembrar do croque-monsieur que ela fez para você. Aquilo sim que é um misto-quente.</p>
<p><img src="http://gorilaalbino.wordpress.com/files/2007/01/i_man1.jpg" alt="i_man1.jpg" /><br />
<em><a title="intoxicated man" href="http://sharebee.com/d3a1d5de" target="_blank">Mick Harvey – Intoxicated Man.</a> Serge Gainsbourg pelo multiinstrumentista do Nick Cave &#38; The Bad Seeds. Os cigarros que Serge adorava na língua de James Dean. Para ouvir, acenda um cigarro.</em></p>
</div>]]></content:encoded>
</item>
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<title><![CDATA[O CAMINHO DA FELICIDADE]]></title>
<link>http://gorilaalbino.wordpress.com/2006/12/22/o-caminho-da-felicidade/</link>
<pubDate>Fri, 22 Dec 2006 17:53:06 +0000</pubDate>
<dc:creator>pensacola</dc:creator>
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<description><![CDATA[Doce é uma merda. Em todas refeições as pessoas guardam um espacinho, ou seja, eliminam parte da die]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><p>Doce é uma merda. Em todas refeições as pessoas guardam um espacinho, ou seja, eliminam parte da dieta diária de proteína, carboidratos e essas coisas necessárias para se manterem saudáveis para comer um brigadeirozinho, um pastelzinho de belém, uma bomba ou qualquer sacarose que as cáries adoram.</p>
<p>Vai soar piegas agora, por isso prometo colocar uns palavrões bem escabrosos mais a frente, mas de doce já temos amizades, abraços, beijos, carnavais, feriados, água de coco na praia, fondue de queijo na primeira semana de frio do ano, viagem com a galera, viagem sozinho descobrindo uma nova galera. Enfim, doce é tudo que vai ficar marcado na sua vida.</p>
<p>O primeiro e mais odiado dos doces é o brigadeiro. De receita fácil e consistência semelhante dos chocolates em calda dos anúncios televisivos, o brigadeiro junta tudo de ruim que um doce pode ter. A qualquer momento alguma pessoa quer fazer uma panelinha de brigadeiro, na praia hordas de famintos anseiam pelo pôr-do-sol para compensar o tempo nublado com uma colherada da iguaria, e desde a infância bolinhas de brigadeiro são entuxadas nas pobres crianças que, de tanto gastar energia, se entregam primariamente ao vício da feniletilamina.</p>
<p>Sem defesa natural (pois mesmo o corpo humano, tão bem construído em alguns aspectos, não percebe o mal inerente que o doce carrega dentro de suas cápsulas açucaradas) o homem desenvolve uma dependência químico-social do doce. Ele acaba sendo seu melhor amigo na primeira desilusão semi-desastrosa, na segunda, na terceira e daí em diante.</p>
<p>E o cartel do doce já está montado há tempos, desde os astecas, quando somente os guerreiros, o conselho de guerra e imperadores bebiam um líquido sagrado feito de cacau que atribuía poderes a quem o tomasse. Do chocolate aos confeitos servidos nas cortes européias para os chicletes mascados pelos maiores atletas e também pelos maiores obesos norte-americanos, o doce é disparado a droga mais consumida do mundo.</p>
<p>Eu continuo achando o doce uma merda mas sei também que é muito difiícil lutar contra o mundo e contra as campanhas de marketing de Páscoa, por isso aos poucos fui me rendendo às maravilhas do doce. Ele é realmente uma metáfora maravilhosa.</p>
<p><img src="http://gorilaalbino.wordpress.com/files/2006/12/team_boo.jpg" alt="team_boo.jpg" /></p>
<p><em><a title="team boo" href="http://rapidshare.com/files/123268897/Team_Boo.rar" target="_blank">Mates Of State – Team Boo.</a> Não é o último CD da dupla, mas vai se foder, uma banda que faz um puta som doce, mas tão doce que a dependência é imediata. Puta que o pariu, vai ser doce assim e bom assim na casa do caralho arregaçado. Vai tomar no cu doce de verdade. Para valor de um puto registro, o novo CD Bring It Back é doce que nem buceta com Amarula.</em></p>
</div>]]></content:encoded>
</item>
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<title><![CDATA[SÍMBOLOS QUE DURAM ERAS E MARCAM NOITES TAMBÉM CAEM]]></title>
<link>http://gorilaalbino.wordpress.com/2006/12/18/simbolos-que-duram-eras-e-marcam-noites-tambem-caem/</link>
<pubDate>Mon, 18 Dec 2006 19:50:04 +0000</pubDate>
<dc:creator>pensacola</dc:creator>
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<description><![CDATA[O símbolo máximo do rock é a guitarra. Barulhenta. Distorcida. Ensurdecedora.Mentira. O símbolo máxi]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><p>O símbolo máximo do rock é a guitarra. Barulhenta. Distorcida. Ensurdecedora.Mentira. O símbolo máximo do rock foi o All Star. O tênis dos punks e proto-punks. O tênis de descanso e passeio da turma do rock pesado. Mas principalmente o All Star era o tênis que nós, humildes e rebeldes seguidores do sexo, drogas e rock and roll podíamos comprar e surrar sem dó, igual nosso vocalista favorito.</p>
<p>Se depois de uma noite de bebedeira você apostasse seu All Star que derrotaria o dono do bar numa sinuca e (provavelmente) perdesse, você teria a certeza que apostou algo honrado, não aqueles cinco reais esfarelados que surgiram no bolso a caminho do bar. E também sabe que a perda não foi grave, porque o All Star estava aí para quem fosse rock and roll suficiente para usá-lo.</p>
<p>Me recordo de uma noite que logo após um show moribundo de uma banda hardcore saímos, uma morena linda e eu, direto para o apartamento dela. O lugar era pequeno, iluminado bem porcamente e ficava só um pouco acima dos fios de luz. Nunca mais vi a menina mas foram três horas tão malucas e tão intensas que jogamos nossos tênis, All Stars, nos fios por que ela queria uma lembrança do estrado quebrado.</p>
<p>Porém, faz alguns anos que percebi um movimento muito menos interessante do que pélvis em harmonia embaladas por movimentos hora peristálticos, hora circulatórios: o movimento da inflação do que podemos chamar mercado indie.</p>
<p>Não é o objetivo discutir o quanto esse mercado ainda existe ou o quanto ele é pop e não indie, quando ele começou ou por atitude (ou culpa) de quem. Acho que tenho respostas para boa parte destas perguntas mas definitvamente não é o caso. Já temos bastantes problemas discutindo a desvalorização do All Star.</p>
<p>Desvalorização sim, seus preços aumentaram mas seu valor sentimental diminuiu tão radicalmente quanto o mini moog. Sua estrela está nas piores e mais mulambas lojas, orgulhosa como sempre esteve, mas também nas melhores, intimidada pelo mainstream que sempre evitou. Pensando dessa maneira podemos dizer que o All Star, durante uns vinte e tantos anos, o produto mais comunista produzido pelos Estados Unidos e ainda assim exportado para o mundo, finalmente achou uma maneira de penetrar no capitalismo.</p>
<p>Novas bandas, cheias do chamado hype, chegam do nada, soando como a mesma música da banda anterior, que já tocava os mesmos acordes dos precurssores do movimento novo-rock (aliás, que bosta de nome) onde todos, sem exceção, imaginam que sua maior influência é Velvet Underground, não percebendo que não basta falar de drogas ou de umas putinhas para serem originais e transgressores, mesmo porque isso não é mais underground, não é mais indie; e só os indies ainda não perceberam.</p>
<p>Com uma certa dose de desilusão, admirando parte da minha pré-adolescência e juventude se estilhaçando pela falta de atualidade de um conceito, fico torcendo que minha menina do hardcore ainda more no mesmo lugar, fico imaginando que ela não se rendeu ao taileur e salto alto como rotina e que resiste às marcas mais cruéis do crescimento pseudo-responsável.</p>
<p>Mas o que eu mais desejo é encontrá-la e pedir para ir ao seu apartamento só uma vez mais, porque com o par de All Star custando tanto, aquele pé tão charmosamente entrelaçado nos fios vai cair como uma luva.</p>
<p><img src="http://gorilaalbino.wordpress.com/files/2006/12/amputechture.jpg" alt="amputechture.jpg" /></p>
<p><em><a title="amputechture" href="http://rapidshare.com/files/115546168/sonzeirananet_tmv_2006_amputechture.rar" target="_blank">Mars Volta – Amputechture.</a> Uma banda e um disco que honram os All Stars que vestem.<br />
</em></p>
</div>]]></content:encoded>
</item>

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