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	<title>pes-nus &amp;laquo; WordPress.com Tag Feed</title>
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	<description>Feed of posts on WordPress.com tagged "pes-nus"</description>
	<pubDate>Mon, 30 Nov 2009 12:01:59 +0000</pubDate>

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	<language>en</language>

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<title><![CDATA[LOVE STORY   (3ª e última parte)]]></title>
<link>http://omarkhayyam2.wordpress.com/2009/02/03/love-story-3%c2%aa-e-ultima-parte/</link>
<pubDate>Tue, 03 Feb 2009 12:12:34 +0000</pubDate>
<dc:creator>Vanderdecken</dc:creator>
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<description><![CDATA[Arminda tinha a chave do apartamento da filha, mas raramente lá ia sem ela lá estar, e nunca sem aut]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><p class="MsoNormal" style="margin-bottom:3pt;text-indent:0;color:#993300;"><a href="http://3.bp.blogspot.com/_UEfhPJXHLPM/SYgxb0p97hI/AAAAAAAAAsM/fVmGs4Rp7yE/s1600-h/1579.jpg"><img style="float:left;cursor:pointer;width:243px;height:170px;margin:0 10px 10px 0;" src="http://3.bp.blogspot.com/_UEfhPJXHLPM/SYgxb0p97hI/AAAAAAAAAsM/fVmGs4Rp7yE/s400/1579.jpg" border="0" alt="" /></a>Arminda tinha a chave do apartamento da filha, mas raramente lá ia sem ela lá estar, e nunca sem autorização. Um dia, Joana pediu-lhe que passasse por lá e lhe levasse uma pasta que lá tinha; depois, quando jantassem as duas, poderia entregar-lha, evitando assim que ela tivesse ir a casa primeiro.</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:3pt;text-indent:35.3pt;color:#993300;">– Depois de jantar ainda vais para a Faculdade?</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:3pt;text-indent:35.3pt;color:#993300;">– Tenho que ir – respondeu Joana. – Há uma coisa que tem que ficar pronta ainda hoje.</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:3pt;text-indent:35.3pt;color:#993300;">Arminda pegou na pasta e já vinha a sair quando uma curiosidade súbita a levou a voltar para trás e ir espreitar o quarto. E viu, sobre a cama, uma vergasta. Era vermelha, revestida dum tecido que parecia o das velas dos barcos. O punho era de cabedal preto, em tiras entrançadas. Na ponta tinha outra tira de cabedal, dobrada sobre si própria. Estava atada a meio com uma fita de seda preta que formava um laço e a identificava como um presente.</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:3pt;text-indent:35.3pt;color:#993300;">O laço foi o que mais a chocou.</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:3pt;text-indent:35.3pt;color:#993300;">Conduziu o carro até casa tentando controlar o batimento do coração, concentrando-se no trânsito, tentando imaginar toda a espécie de explicações inocentes para o que tinha visto; mas não conseguiu imaginar nenhuma.</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:3pt;text-indent:35.3pt;color:#993300;">– Ouve lá – disse à filha, mal ela lhe entrou em casa. – O que é aquilo que estava em cima da tua cama?</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:3pt;text-indent:35.3pt;color:#993300;">Joana nem se deu ao trabalho de perguntar à mãe com que direito lhe tinha ido meter o nariz no quarto.</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:3pt;text-indent:35.3pt;color:#993300;">– É uma vergasta, mãe – respondeu serenamente.</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:3pt;text-indent:35.3pt;color:#993300;">– Que é uma vergasta, sei eu. O que não sei é o que está a fazer uma vergasta em cima da tua cama. Foi o Rui que ta deu?</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:3pt;text-indent:35.3pt;color:#993300;">– Não, mãe; eu é que a vou dar ao Rui.</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:3pt;text-indent:35.3pt;color:#993300;">Arminda retirou-se de rompante para a cozinha. A filha seguiu-a e começou a ajudá-la em silêncio.</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:3pt;text-indent:35.3pt;color:#993300;">– Nunca pensei que o Rui tivesse essa tara de ser vergastado. Nem nunca pensei que uma filha minha se prestasse a essas poucas-vergonhas.</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:3pt;text-indent:35.3pt;color:#993300;">Joana suspirou. Não devia ter deixado a vergasta tão à vista, mas a verdade é que nem sequer se lembrara. Alguma vez teria que ter esta conversa, mas não esperava tê-la tão cedo; e era muito difícil.</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:3pt;text-indent:35.3pt;color:#993300;">– O Rui não gosta de ser vergastado, mãe. Quem vai ser vergastada, sou eu.</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:3pt;text-indent:35.3pt;color:#993300;"><em>Pronto, está dito,</em> pensou; <em>agora, seja o que Deus quiser</em>.</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:3pt;text-indent:35.3pt;color:#993300;">Arminda voltou-se para ela, desvairada:</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:3pt;text-indent:35.3pt;color:#993300;">– Eu, nunca! Nunca, ouviste?! Nunca admitiria que o teu pai me pusesse um dedo em cima!</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:3pt;text-indent:35.3pt;color:#993300;">– Nem ele o faria, mãe.</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:3pt;text-indent:35.3pt;color:#993300;">– Lá nisso, tens tu razão! O fulano pode ser uma besta e um sacana, mas nunca me tocou!</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:3pt;text-indent:35.3pt;color:#993300;">– Ao passo que o Rui, que está longe de ser uma besta ou um sacana, é perfeitamente capaz de me dar meia dúzia de vergastadas no rabo.</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:3pt;text-indent:35.3pt;color:#993300;">A Arminda, no estado emocional em que estava, estas palavras da filha pareceram dum cinismo atroz. Remeteu-se a um espesso silêncio, que só foi quebrado quando a filha lhe disse que Rui lhe tinha proposto viverem juntos e ela aceitara.</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:3pt;text-indent:35.3pt;color:#993300;">– Ai sim? Felicidades – respondeu Arminda, secamente.</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:3pt;text-indent:35.3pt;color:#993300;">Joana suspirou e tentou conciliar a mãe.</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:3pt;text-indent:35.3pt;color:#993300;">– O pai nunca te bateu, e ainda bem. Tu nunca o admitirias. A mim, também não. E se calhar, algumas vezes, fez mal em não me dar umas palmadas.</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:3pt;text-indent:35.3pt;color:#993300;">Arminda voltou-lhe as costas e encolheu os ombros, recusando aplacar-se. As palmadas de que a filha precisara em criança, tinha-lhas dado ela; <em>mas com uma criança é diferente</em>, pensou.</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:3pt;text-indent:35.3pt;color:#993300;">– Até amanhã, mãe – disse Joana ao sair.</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:3pt;text-indent:35.3pt;color:#993300;">– Até amanhã.</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:3pt;text-indent:35.3pt;color:#993300;">Só muito depois é que ocorreu a Arminda que as palmadas que dera à filha, por justas e necessárias que fossem, tinham sido dadas a uma criança que não se podia defender, e que nunca tinha consentido nelas; mas que Joana, adulta, não só se sabia defender muito bem, como era competente para dar o seu consentimento. Nessa noite não dormiu, consumida por uma ira tumultuosa contra a filha, contra Rui e contra si própria.</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:3pt;text-indent:35.3pt;color:#993300;">Voltou a nunca se encontrar com Rui nas tertúlias semanais, mas desta vez não ocultou às suas amigas a animosidade que nutria contra ele e a filha: só lhes ocultou, por muito tempo, o motivo dessa animosidade. Rui, por seu lado, começou a aparecer com menos frequência, por vezes acompanhado de Joana, que algumas amigas da mãe conheciam desde criança. Nunca deram mostras de retribuir a amargura de Arminda; nunca revelaram o seu motivo, nem fingiram que não o conheciam; nunca deixaram que as outras senhoras pensassem que ela tinha ciúmes; e nunca permitiram que alguém lhe atribuísse as culpas pela desavença. Arminda não tinha razão, mas tinha as suas razões, que eles compreendiam; não tencionavam voltar atrás nas suas decisões pessoais – que não disseram quais eram – mas esperavam que um dia Arminda as aceitasse e se reconciliasse com eles. Em suma: a cabra que havia em Joana aflorava cada vez menos à superfície, e as amigas da mãe não sabiam se deviam atribuir isto a hipocrisia ou à influência de Rui.  <!--[if !supportLineBreakNewLine]--> <!--[endif]--></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:3pt;text-indent:35.3pt;color:#993300;">Os meses seguintes foram dedicados, por parte de Joana, à minuciosa aprendizagem dos ritos e das regras da sua nova condição. Nesta aprendizagem encontrava, por vezes, prazeres novos e imprevistos; mas também humilhações que lhe seriam insuportáveis senão tivesse decidido, teimosamente, levar até às últimas consequências a experiência iniciada e o compromisso assumido. Descobrira, com surpresa, que o castigo físico a afectava pouco: não lhe dava prazer, mas só era difícil de suportar enquanto durava. Submeteu-se a ele desde o início e nunca recusou deixar-se manietar para o sofrer. Custou-lhe muito mais submeter-se a actos que a humilhavam ou embaraçavam, sobretudo perante terceiros. Também lhe custou muito a habituar-se a ordens ou a regras cujo propósito não compreendesse e às que lhe parecessem caprichosas ou fúteis. Rui nem sempre se explicava:</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:3pt;text-indent:35.3pt;color:#993300;">– Basta que seja este o meu prazer – dizia, por vezes, quando ela o questionava.</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:3pt;text-indent:35.3pt;color:#993300;">Joana começou a compreender que qualquer ordem ou regra, mesmo que aparentemente não tivesse sentido nem propósito, servia ao menos para lhe lembrar que estava sujeita ao prazer de Rui.</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:3pt;text-indent:35.3pt;color:#993300;">Mas o que mais lhe custou, de longe, a ponto de quase a fazer desistir, foi perder o direito de escolher as suas próprias roupas. Não é que Rui tivesse mau gosto, mas tinha um gosto diferente do dela; e ao transitar lentamente do seu estilo, que era o da profissional competente, para o estilo boémio construído por Rui, sentia que estava a perder identidade. Quando confessou isto a Rui, ele respondeu:</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:3pt;text-indent:35.3pt;color:#993300;">– Essa identidade que estás a perder é falsa; essa mulher não és tu.</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:3pt;text-indent:35.3pt;color:#993300;">Quando Joana ouviu isto, a cabra veio à superfície:</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:3pt;text-indent:35.3pt;color:#993300;">– E tu é que sabes quem eu sou, suponho?! A identidade que me deres é que é verdadeira?!</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:3pt;text-indent:35.3pt;color:#993300;">– Se não for verdadeira – respondeu Rui, placidamente – havemos ambos de nos dar conta disso, e bem depressa. Estaremos a tempo de construir outra. O que te posso garantir, é que essa outra não obedecerá a qualquer convenção pré-fabricada.</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:3pt;text-indent:35.3pt;color:#993300;">– E a tua vontade? E o teu prazer?</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:3pt;text-indent:35.3pt;color:#993300;">– Serão determinantes, é claro – disse Rui. – Não serás só o que já és, serás também o resultado da educação que eu te der.</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:3pt;text-indent:35.3pt;color:#993300;">Por muito brutais que estes propósitos parecessem a Joana, tinha que reconhecer que a primeira coisa que dissera a Rui – que dissera à mãe, para ser mais exacta – é que precisava de quem a educasse.</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:3pt;text-indent:35.3pt;color:#993300;">Este mesmo período foi, para Arminda, de lenta reconciliação com a filha. Por mais que o não quisesse ver, não podia deixar de notar que Joana andava melhor: mais serena, mais feliz, mais segura de si e menos agressiva. Mantinha a animosidade contra Rui: em parte por teimosia, em parte por ciúmes, em parte pela ideia de incesto que a relação, irracionalmente, lhe sugeria; mas também porque não conseguia suportar a ideia de ver a filha maltratada e humilhada às mãos de um homem de quem fora amiga e que sempre se lhe apresentara como gentil e inofensivo.</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:3pt;text-indent:35.3pt;color:#993300;">– E é mesmo gentil, mãe – dizia-lhe Joana. – Gentil, honesto e justo. Inofensivo não é, certamente: mas quanto a isto, foi ele que te iludiu, ou tu que te iludiste?</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:3pt;text-indent:35.3pt;color:#993300;">Foi muito a custo, e ao fim de muita insistência, que Arminda aceitou encontrar-se com a filha e com Rui em casa deste. Não se surpreendeu por Joana a receber descalça: numa das raras ocasiões em que, vencida pela curiosidade, sondara a filha sobre pormenores da sua vida, ela contara-lhe o que os pés nus simbolizavam e as ordens que tinha de nunca se calçar em casa. Recordava-se da tendência que Joana tivera, em criança e adolescente, de se descalçar sempre que podia; e de como ela tinha reprimido esta tendência, a ponto de a filha ter interiorizado a sua aversão a andar descalça e se ter habituado, como ela, a nunca sair da cama sem enfiar os pés nuns chinelos. Agora, ao obedecer a Rui, Joana estava finalmente a desobedecer à mãe; e esta não deixou de se aperceber deste facto.</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:3pt;text-indent:35.3pt;color:#993300;">Arminda cumprimentou Rui com alguma distância, distância esta que ele respeitou, embora deixasse claro que estava na disposição de a transpor. A casa pareceu-lhe decorada totalmente à homem: não notou a mão da filha em nenhum pormenor. Na sala, Rui convidou-a a sentar-se no sofá.</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:3pt;text-indent:35.3pt;color:#993300;">– Fica aqui com o Rui, mãe – disse Joana. – Eu vou buscar uma bebida.</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:3pt;text-indent:35.3pt;color:#993300;">Quando Joana regressou com três copos de vinho branco num tabuleiro, Arminda deu-se conta, de repente, que sempre tinha sido ela a servir a filha à mesa, e que mantivera este hábito mesmo depois de ela se tornar adulta. Rui agradeceu e fez sinal com os olhos a Joana que se sentasse no sofá ao lado da mãe, que ficaria assim entre os dois.</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:3pt;text-indent:35.3pt;color:#993300;">– Tenho uma notícia a dar-te, Arminda – disse Rui. – Vou casar com a Joana.</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:3pt;text-indent:35.3pt;color:#993300;">Arminda, que era cada vez mais contra o casamento como instituição e não desejava ver a filha mais presa a Rui do que já estava, não ficou contente com a notícia.</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:3pt;text-indent:35.3pt;color:#993300;">– E para que é que vão casar? – perguntou. – Não estão bem como estão? Para que querem vocês um papel passado?</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:3pt;text-indent:35.3pt;color:#993300;">– O papel não é importante – disse Rui. – O que é importante, para mim, é ter alguém a quem deixar o que é meu. Se eu morresse agora, iria tudo para os meus sobrinhos do Canadá, que mal conheço, e a Joana ficava a ver navios. Acho que tenho o direito de deixar as minhas coisas à pessoa de quem gosto.</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:3pt;text-indent:35.3pt;color:#993300;">Contra isto não havia argumentos, pensou Arminda. E a naturalidade com que Rui tinha falado em gostar de Joana&#8230; Sentiu um impulso de simpatia para com ele, mas logo o reprimiu: nunca fora interesseira e não queria sê-lo agora. Mas Joana não tinha nada o ar de se estar a sacrificar por dinheiro. Pelo contrário: ao olhar para ela, Arminda notou-lhe um ar resplandecente que a levou a perguntar, tomada duma súbita suspeita:</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:3pt;text-indent:35.3pt;color:#993300;">– Por acaso não estarás grávida?</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:3pt;text-indent:35.3pt;color:#993300;">Joana deu uma risada franca, como Arminda não lhe ouvira havia muito tempo:</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:3pt;text-indent:35.3pt;color:#993300;">– Grávida, mãe?! Não, está descansada. Por enquanto, o Rui e eu queremos ser só dois.</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:3pt;text-indent:35.3pt;color:#993300;">E se a filha estivesse grávida, que mal teria isso? Com um filho em casa, pensou Arminda, não se poderia entregar tão livremente a jogos eróticos que a mãe nem queria imaginar.</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:3pt;text-indent:35.3pt;color:#993300;">– Vê lá, não adies muito. Olha que já não és uma criança, e o tempo passa.</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:3pt;text-indent:35.3pt;color:#993300;">– Terei isso em conta – disse Rui.</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:3pt;text-indent:35.3pt;color:#993300;"><em>Está a informar-me,</em> pensou Arminda, <em>que a decisão será dele</em>. O impulso de simpatia que sentira começou a desvanecer-se. <em>Mas também me está a informar que está disposto a dar à Joana o que ela sempre quis</em>. O ex-marido de Joana nunca quisera filhos, e esta tinha sido uma das causas do divórcio.</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:3pt;text-indent:35.3pt;color:#993300;">– E vou deixar de trabalhar – disse Joana. – Já apresentei o meu pedido de exoneração.</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:3pt;text-indent:35.3pt;color:#993300;">Ah, não. Isto, não. Deitar fora anos de estudo e de formação profissional?! Abortar uma carreira que mal começara?! Ficar na dependência dum homem?!</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:3pt;text-indent:35.3pt;color:#993300;">– E o que és que vais fazer? Vais passar o resto da vida a estupidificar no meio dos tachos e das panelas?</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:3pt;text-indent:35.3pt;color:#993300;">– Ora, ora, mãe – disse Joana. – Sabes muito bem que nunca gostei do meu trabalho; e sabes que hoje em dia, no nosso país, para uma pessoa da minha idade, não há carreiras, só há empregos, e precários ainda por cima. Tu vais-te reformar quando fizeres sessenta anos; eu reformo-me aos trinta, é tudo. E não vou estupidificar, vou viajar com o Rui pelo mundo todo.</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:3pt;text-indent:35.3pt;color:#993300;">Durante o jantar, Arminda não parou de oscilar entre sentimentos contraditórios. Pedro, um homem trabalhador e pacato, que parecera ter todas as condições para fazer a filha feliz, fizera-a profundamente infeliz; Rui, que parecia ter tudo para a destruir e anular, fazia-a resplandecer; a filha parecia que estava a deitar fora tudo o que a geração de Arminda tinha conquistado para as mulheres, e no entanto dava mais a sensação de estar a ganhar terreno que a perdê-lo. Tudo isto era demasiado para ela assimilar rapidamente, mas teria que o assimilar sob pena de ficar isolada num mundo que deixara de compreender. <em>Não é por aí que vou ficar velha,</em> decidiu; e foi a partir desta decisão que começou a dar o benefício da dúvida a Rui e à filha.  <!--[if !supportLineBreakNewLine]--> <!--[endif]--></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:3pt;text-indent:35.3pt;color:#993300;">Recomeçou a comparecer na tertúlia nos mesmos dias que Rui. As amigas foram convidadas para o casamento. A pouco e pouco, foi-lhes permitido que se apercebessem da natureza da relação entre Rui e Joana, e isto deu lugar a semanas de debate.</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:3pt;text-indent:35.3pt;color:#993300;">– Se é assim que eles querem, deixá-los – decidiu por fim a mais velha, que era madrinha de Joana.  <!--[if !supportLineBreakNewLine]--> <!--[endif]--></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:3pt;text-indent:35.3pt;color:#993300;">É claro que não foram felizes para sempre. Tiveram doenças, tiveram conflitos, tiveram que enfrentar a velhice; dos dois filhos que Rui fez a Joana, um deu-lhes problemas muito graves durante a adolescência; e Rui, quando morreu, deixou na vida muitas pontas soltas que Joana teve de atar sozinha. Por outro lado, enquanto viveram, nunca se arrependeram de terem decidido ser senhor e escrava. Se morrer sem arrependimento é a única vitória possível do homem sobre a vida e sobre os deuses, a vida deles foi um êxito total.</p>
</div>]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[Romance (Excerto # 21)]]></title>
<link>http://omarkhayyam2.wordpress.com/2009/01/19/romance-excerto-21/</link>
<pubDate>Mon, 19 Jan 2009 14:16:11 +0000</pubDate>
<dc:creator>Vanderdecken</dc:creator>
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<description><![CDATA[Cap. 33: NO LIMITE Nas semanas seguintes, Ana e Miguel tornaram-se frequentadores do Justine, primei]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><p><a><img style="float:right;cursor:pointer;margin:0 0 10px 10px;" src="http://1.bp.blogspot.com/_UEfhPJXHLPM/SXRdXYfd_NI/AAAAAAAAAqg/cOM4hA8L5AA/s400/112.jpg" border="0" alt="" width="212" height="160" /></a> <a name="_Toc213154774"><span>Cap. 33: </span></a><span style="color:#333300;">NO LIMITE</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:26.95pt;color:#333300;">
<p class="MsoNormal" style="text-indent:0;color:#333300;">Nas semanas seguintes, Ana e Miguel tornaram-se frequentadores do <em>Justine</em>, primeiro na companhia de Raul e Teresa, depois, muitas vezes, sozinhos. Conversando com as pessoas que conheceram, depressa se aperceberam que o compromisso absoluto de Raul e Teresa era muito mais radical do que era costume no meio. Não era uma questão de mais submissão ou menos submissão, mais dor ou menos dor, mas daquilo em que cada um centrava os seus desejos e a sua ideia de felicidade. Antes de frequentarem o <em>Justine</em>, Ana e Miguel pensavam que, quando uma pessoa submissa encontrava uma pessoa dominante, a história tinha chegado mais ou menos ao fim: pouco mais restava do que serem felizes para sempre. Verificavam agora que isto estava longe de ser o caso: era difícil encontrar o dominante certo para o submisso certo, e no <em>Justine, </em>como em qualquer outro lugar, não faltavam corações partidos. Aprenderam também a tolerância, uma vez que os centros do desejo eram quase tantos como as pessoas à sua volta: para uns a moda e o <em>fetiche</em>, para outros a dor física ou a humilhação, para outros a restrição de movimentos, para outros a entrega – que não era a mesma coisa que dádiva; alguns praticavam a monogamia mais estrita, outros viam a expressão máxima do domínio na cedência a terceiros do submisso ou da submissa, sem lhe permitir qualquer escolha quanto à identidade, quanto ao número, ou quanto ao sexo, da pessoa ou pessoas a quem temporariamente servia.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:26.95pt;color:#333300;">Quase sempre os centros do desejo eram múltiplos, o que tornava tudo ainda mais complicado. Miguel e Ana estavam convencidos que eram o dominante certo para a submissa certa, mas nem por isso deixaram de beneficiar do convívio que tiveram com outros frequentadores do bar. Não os surpreendeu a adesão quase fanática de todos a uma ética muito rígida e muito simples que se exprimia na máxima “<em>safe, sane and consensual”</em>: uma regra como esta era necessária num meio em que se cruzavam personalidades e desejos tão diversos, e era uma boa base para que a comunidade pudesse organizar uma rede informal mas eficaz de protecção mútua contra predadores e psicopatas.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:26.95pt;color:#333300;">Raul e Teresa eram menos assíduos. Quando ia ao <em>Justine</em>, Teresa costumava levar, enfiado na vagina, o primeiro óvulo de controlo remoto que Raul tinha adquirido. O óvulo mais recente, operado por telemóvel, nunca era usado no <em>Justine</em> e raramente noutros lugares: só algumas vezes, quando Teresa ia às compras ou encontrar-se com amigos e familiares. No <em>Justine</em>, Teresa estava sempre consciente que, estivesse a fazer o que estivesse – a falar com outros frequentadores do clube, a arranjar-se nos lavabos, a trazer uma bebida ao dono, a qualquer momento se poderia desencadear no interior do seu corpo, sem aviso, aquela vibração que para a sua sensibilidade continuava a misturar sofrimento e prazer. Miguel perguntou a Raul onde podia adquirir um aparelho semelhante, e passados poucos dias Ana passou também a usar um óvulo na vagina; mas para ela a sensação era de puro prazer.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:26.95pt;color:#333300;">Ana e Miguel não se tratavam por “meu senhor” ou “minha escrava”; perante terceiros, ele referia-se a ela como “a Ana” – ou, no <span style="font-style:italic;">Justine</span>, &#8220;a trilby&#8221; –  e ela a ele como “o meu Dono”. Descontadas estas formalidades, que não eram importantes, a sua relação parecia encaminhar-se numa direcção semelhante à de Raul e Teresa. Isto preocupava um pouco o par mais velho, que se sentia responsável e sabia que nem todas as relações de domínio e submissão se conformam a modalidades tão exigentes como a que tinham escolhido para si próprios. Preocupava-os a possibilidade de os dois jovens fazerem uma escolha que mais tarde um ou outro não pudesse suportar. Por isso viam com bons olhos a maneira como eles se iam integrando na comunidade: assim podiam conhecer outras formas de domínio e submissão e construir por si próprios a que mais se adaptava às suas necessidades particulares.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:26.95pt;color:#333300;">Um assunto que discutiam muito era o que aconteceria se as necessidades de um deixassem alguma vez de corresponder às do outro.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:26.95pt;color:#333300;">– Mas não correspondem? – perguntava sempre Raul.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:26.95pt;color:#333300;">– Correspondem – respondia sempre Ana ou Miguel. – Mas se não correspondessem, como era?</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:26.95pt;color:#333300;">– Em teoria prevaleceriam as necessidades do Miguel – preconizava Teresa, radical como sempre.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:26.95pt;color:#333300;">– Mas na prática – prevenia Raul – têm que ter algo em comum para que os desejos de um possam enriquecer os do outro. É este o vosso caso, parece-me, e por isso não vejo porque se preocupam. Teriam razão para se preocuparem, por exemplo, se para um de vós uma coisa qualquer tivesse um valor simbólico ou erótico muito grande, que a tornasse indispensável, e para o outro essa coisa fosse absolutamente insuportável.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:26.95pt;color:#333300;">– Mas por outro lado – disse Teresa durante uma destas conversas – se aquilo que o senhor exige não for de todo insuportável para a escrava, esta dificuldade até pode ser uma coisa boa: pode ser uma forma de tornar a escrava mais escrava. É como os meus pés nus: no imaginário do Raul os pés nus sempre foram um símbolo importante de humildade e submissão. Agora já o são também no meu imaginário, que por isso mesmo está mais rico: já faziam antes parte dele, mas tinham outro significado, diferente e mais limitado. Este significado não se perdeu, apenas se lhe acrescentou o que Raul lhe deu. Claro que andar descalça é muitas vezes um grande sacrifício, e por vezes, em público, quase morro de vergonha. Mas para mim vale a pena: uma escrava que não esteja preparada para fazer sacrifícios grandes não merece o nome de escrava.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:26.95pt;color:#333300;">[ ...]</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:26.95pt;color:#333300;"><!--   /* Style Definitions */  p.MsoNormal, li.MsoNormal, div.MsoNormal  {mso-style-parent:"";  margin:0in;  margin-bottom:.0001pt;  mso-pagination:widow-orphan;  font-size:12.0pt;  font-family:"Times New Roman";  mso-fareast-font-family:"Times New Roman";} @page Section1  {size:8.5in 11.0in;  margin:70.85pt 85.05pt 70.85pt 85.05pt;  mso-header-margin:.5in;  mso-footer-margin:.5in;  mso-paper-source:0;} div.Section1  {page:Section1;} --></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:26.95pt;color:#333300;">Raul sorriu levemente, fez-lhe uma pequena festa no rosto e virou-lhe as costas para ir pousar o chicote na banca. Depois voltou com cordas para lhe amarrar os pulsos e os tornozelos aos quatro cantos do rectângulo formado pelas colunas. Teresa deixou-se amarrar docilmente; fechou os olhos e começou a murmurar repetidamente “amo-te, amo-te, amo-te”, como se a repetição infinita desta verdade fosse o mantra que a ia proteger na provação que a esperava.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:26.95pt;color:#333300;">– Agora vou-te vendar – disse Raul. – Posso?</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:26.95pt;color:#333300;">Para não interromper o “amo-te, amo-te, amo-te” que continuava a dizer baixinho, Teresa limitou-se a acenar que sim. Se estivesse em estado de achar graça a alguma coisa, teria sorrido por ele ter pedido permissão para a vendar quando não precisava de permissão para nada do que estava a fazer. Continuou a dizer baixinho “amo-te, amo-te, amo-te” enquanto tentava prever ao fim de quantas chicotadas começaria a gritar.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:26.95pt;color:#333300;">Começou a gritar logo à primeira, um berro agudo e ensurdecedor que dificilmente se acreditaria que pudesse ficar confinado entre as paredes do quarto, ou sequer da casa. Esta chicotada atingiu-a obliquamente nas nádegas, marcando um traço que ia da parte superior da esquerda à inferior da direita. A segunda atingiu-a horizontalmente e um pouco mais acima, arrancando-lhe um grito tão forte como o primeiro. Das que se seguiram, nenhuma correspondia a nada que ela pudesse ter imaginado ser capaz de suportar. Mais do que todas as outras, doeram-lhe as que a atingiram no rego entre as nádegas e as coxas; mas por esta altura já se tinha cansado de gritar. Os primeiros gritos que soltara tinham sido emitidos num soprano cristalino, mas pouco a pouco foram enrouquecendo até se tornarem urros que quase nada tinham de humano. E mesmo estes acabaram por dar lugar a arquejos de aflição, entremeados de rosnidos de fera encurralada.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:26.95pt;color:#333300;">O chicote não fazia um silvo tão agudo como o da vergasta, e o som que fazia ao contactar com a carne não era tão seco. Mas a dor era inconcebivelmente maior, maior do que qualquer punição que Teresa já tivesse recebido.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:26.95pt;color:#333300;">Quanto tempo durou isto? Não é possível contá-lo, nem em segundos, nem em minutos, nem em número de golpes desferidos. Teresa só soube que o seu tormento tinha terminado quando Raul lhe tirou a venda. Olhou à sua volta, espantada: o quarto era o mesmo, o mundo não tinha mudado. Quando Raul lhe libertou os tornozelos, esfregou os pés um no outro, tentando restaurar a circulação. Depois, quando ele lhe libertou os pulsos, as mãos voaram-lhe para onde tinham estado antes de ele a amarrar: cruzadas em frente ao sexo, escondendo-o, tapando-o, negando-o ao olhar e ao desejo do macho. Raul não lhe ordenou que descruzasse as mãos: pôs-se em frente dela, olhou-a nos olhos – que ela não conseguiu furtar aos dele – disse-lhe “amo-te” e foi de novo buscar o chicote.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:26.95pt;color:#333300;">Teresa bem sabia para que era agora o chicote, era para ela o beijar: e nesse momento sentiu-se invadir por uma tal revolta, que numa fracção de segundo, na sua imaginação, saiu dali, vestiu-se, fez a mala, chamou um táxi, foi para o aeroporto e regressou ao seu apartamento no <em>Corso Magenta</em>. Mas na realidade, o que fez foi ajoelhar-se e beijar o chicote, sem que Raul precisasse de lho ordenar. Depois levantou os olhos para o dono e viu-o imóvel, de pé, à espera. À espera de quê? Que mais que queria ele ainda? Que ela lhe dissesse o que disse, é claro:</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:26.95pt;color:#333300;">– Obrigada, meu dono.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:26.95pt;color:#333300;">No momento em que estas palavras lhe saíram da boca aconteceu uma coisa que a fez sentir ódio por si mesma: enrubesceu, os lábios entreabriram-se, os quadris rodaram num círculo imperceptível, como se tivessem vontade própria, e sentiu-se a ficar molhada. Este ódio por si própria, assim como veio, assim desapareceu; a vergonha a que ele deu lugar também teve a vida curta; a excitação, essa sim, permaneceu – e com ela surgiu-lhe na alma um sentimento de orgulho que a levou a repetir:</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:26.95pt;color:#333300;">– Obrigada, meu senhor. Amo-te. Faças de mim o que fizeres, hei-de amar-te sempre.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:26.95pt;color:#333300;">Esta expressão de submissão não lhe amainou de todo a revolta: uma coisa era aceitar, por sua deliberada vontade, a dor que ele lhe quisesse dar, outra era responder-lhe com uma reacção involuntária do corpo. Mas não, estava a ser injusta: o acto de vontade tinha vindo antes, tinha sido responsabilidade sua; e se o corpo estava de acordo com a vontade, não merecia censura. <em>Rola os quadris, escrava, entreabre a boca, semicerra os olhos,</em> pensou Teresa. <em>Afasta as pernas. Deixa que a cona se molhe. Tens direito a tudo isso: fui eu, enquanto mulher livre, que to dei</em>.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:26.95pt;color:#333300;">[ ... ]</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:26.95pt;color:#333300;"><!--   /* Style Definitions */  p.MsoNormal, li.MsoNormal, div.MsoNormal  {mso-style-parent:"";  margin:0in;  margin-bottom:.0001pt;  mso-pagination:widow-orphan;  font-size:12.0pt;  font-family:"Times New Roman";  mso-fareast-font-family:"Times New Roman";} @page Section1  {size:8.5in 11.0in;  margin:70.85pt 85.05pt 70.85pt 85.05pt;  mso-header-margin:.5in;  mso-footer-margin:.5in;  mso-paper-source:0;} div.Section1  {page:Section1;} --></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:26.95pt;color:#333300;"><em>Nem fazer segredo, nem fazer alarde</em>, pensou Teresa. Era este o princípio que ela e Raul tinham adoptado. Numa aula de dança, em que está presente apenas um número limitado de pessoas, vestir-se como de costume não seria fazer alarde, tapar-se toda é que seria fazer segredo. Já o tinha feito uma vez, não ia fazê-lo de novo. <em>Vamos lá ver o que acontece</em>, pensou, e apresentou-se na aula com uma saia vermelha de cintura baixa que lhe deixava a descoberto quase todas a zonas do corpo onde tinha sido chicoteada.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:26.95pt;color:#333300;">O que aconteceu foi espanto, repulsa, solicitude e indignação. Não serviu de muito explicar que tudo se tinha passado com o seu consentimento: somente nalguns casos a indignação deixou de ser contra Raul e passou a ser contra ela. Em algumas das mulheres presentes, porém, a indignação foi mais convencional que sentida; houve as que ficaram um momento pensativas e não disseram nada; e Ana, é claro, ficou fascinada, querendo saber tudo, se tinha doído muito, se tinham feito amor depois, se ela própria seria capaz de suportar o mesmo, se Miguel quereria alguma vez, ou poderia, castigá-la assim.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:26.95pt;color:#333300;">– Se o Miguel te fizesse isto, suportavas?</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:26.95pt;color:#333300;">– Claro que suportava! – respondeu Ana.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:26.95pt;color:#333300;">– Não sabes o que dói… – disse Teresa. – Dói mesmo muito, e parece que dura séculos.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:26.95pt;color:#333300;">– Não interessa, suportava e agradecia – respondeu Ana.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:26.95pt;color:#333300;">Teresa ficou sem saber se tamanha certeza lhe vinha do auto-conhecimento, dalguma necessidade antiga, ou apenas da extrema juventude, que não teme nada. Dançou particularmente bem nesse dia; se isto a fez subir ou descer na consideração das colegas, nunca chegou a sabê-lo.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:26.95pt;color:#333300;">[ ... ]</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:26.95pt;color:#333300;"><!--   /* Style Definitions */  p.MsoNormal, li.MsoNormal, div.MsoNormal  {mso-style-parent:"";  margin:0in;  margin-bottom:.0001pt;  mso-pagination:widow-orphan;  font-size:12.0pt;  font-family:"Times New Roman";  mso-fareast-font-family:"Times New Roman";} @page Section1  {size:8.5in 11.0in;  margin:70.85pt 85.05pt 70.85pt 85.05pt;  mso-header-margin:.5in;  mso-footer-margin:.5in;  mso-paper-source:0;} div.Section1  {page:Section1;} --></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:26.95pt;color:#333300;">Era um Setembro quente, mais quente do que tinha sido Agosto. Nestes primeiros dias do mês, Teresa tinha sido punida quase diariamente com uma variedade de instrumentos, uns mais dolorosos do que outros, mas o chicote que lhe causara a dor maior e as marcas mais fundas não voltara a ser usado. Cada punição confirmava o que Teresa já sabia: que a expectativa a excitava um pouco; que a experiência, enquanto durava, lhe tirava toda a excitação; e que se voltava a excitar, confirmando-se como escrava de Raul de um modo cada vez mais inegável, no momento em que se ajoelhava para beijar o chicote e para agradecer o castigo. Teresa compreendia e aprovava a intenção, que adivinhava em Raul, de transformar esta confirmação em rotina: não bastava que o “obrigada” e o “amo-te” que proferia ritualmente fossem verdade, como de facto eram: era preciso que se tornassem inevitáveis, automáticos, evidentes, a tal ponto que a sua eventual omissão se tornasse, ela sim, uma mentira.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:26.95pt;color:#333300;">Uma noite, Raul colocou um banco almofadado entre as duas colunas, mandou-a sentar e atou-lhe os pulsos aos capitéis, esticando-lhe os braços. Para dar folga às cordas, bastaria a Teresa pôr-se de pé, mas ele apertou-lhe um cinto aos quadris e atou-o com cordas a duas argolas na base das colunas. Agora ela já não poderia aliviar a tensão dos braços, mesmo que quisesse; mas mesmo assim Raul esticou as cordas ainda mais. Teresa ainda tinha os pés assentes no chão, mas ele amarrou-lhe os tornozelos, fê-la levantar as pernas e amarrou as pontas das cordas às mesmas argolas a que tinha amarrado os pulsos: Teresa tinha agora os braços e as pernas no ar, as nádegas assentes no banco, e o sexo arreganhado, todo à vista. Foi nesta posição que ele a vergastou, assentando-lhe os golpes na pele fina do interior das coxas, na parte de baixo das nádegas, e sobretudo na vulva. Teresa já tinha desistido de comparar dor com dor: já tinha aprendido que a punição que dói mais era sempre a que estava a sofrer no momento. Entregou-se toda à dor; ou, melhor dizendo, não foi preciso entregar-se, porque a dor se apoderou dela como sempre, totalmente, sem deixar lugar para qualquer outra sensação ou pensamento.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:26.95pt;color:#333300;">[ ... ]</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:26.95pt;color:#333300;"><!--   /* Style Definitions */  p.MsoNormal, li.MsoNormal, div.MsoNormal  {mso-style-parent:"";  margin:0in;  margin-bottom:.0001pt;  mso-pagination:widow-orphan;  font-size:12.0pt;  font-family:"Times New Roman";  mso-fareast-font-family:"Times New Roman";} @page Section1  {size:8.5in 11.0in;  margin:70.85pt 85.05pt 70.85pt 85.05pt;  mso-header-margin:.5in;  mso-footer-margin:.5in;  mso-paper-source:0;} div.Section1  {page:Section1;} --></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:26.95pt;color:#333300;">Dias depois, teve mais uma sessão de depilação eléctrica, e temia que a esteticista lhe visse as marcas da vergasta. De facto ainda as tinha, mas não sentiu a vergonha que teria sentido uns meses antes. A esteticista, quando as viu, comentou que a senhora afinal estava habituada a dores piores do que as que ela lhe provocava; para além disto não teve qualquer reacção, a menos que por reacção se contasse o especial cuidado com que a tratou. <em>As pessoas nunca são quem julgamos</em>, pensou Teresa, ao dar-se conta de que não sabia a que atribuir aquela vaga simpatia da esteticista: entrariam ali todos os dias mulheres com marcas de vergasta no sexo? Todas as semanas? Todos os anos? Ou teria sido ela a primeira, destinada talvez a ser também a última? Teria esta jovem tranquila visto alguma vez marcas semelhantes noutros contextos, noutros corpos, quem sabe se no seu próprio? Quantos mundos existem à nossa volta, diferentes uns dos outros, diferentes daquele que julgamos estar a ver?</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:26.95pt;color:#333300;">[ ... ]</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:26.95pt;color:#333300;">De tarde vestiu uma saia que tanto servia para andar na rua como para dançar. Na parte superior do corpo pôs um choli que, ao contrário dum top rígido, permitiria que os seios lhe oscilassem sem terem que ficar nus, escandalizando as outras alunas. Na aula, prestou atenção a todas as instruções da professora, de modo a que todos os movimentos fossem exactos e perfeitos mas ao mesmo tempo fluidos e soltos.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:26.95pt;color:#333300;">– Hoje dançou muito bem – disse-lhe a professora. – Houve momentos em que pareceu inspirada.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:26.95pt;color:#333300;">Antes de ir lanchar com Ana, Teresa queria passar pelas colegas e pela professora uma folha em que elas pusessem os endereços para lhes poder enviar os convites para o casamento. Recolhida a folha, verificou que algumas a tinham passado adiante sem escrever nada: estavam no seu direito. No dia seguinte de manhã, depois da aula de <em>pompoar</em>, passou outra folha e ficou contente porque desta vez todas as colegas escreveram os seus endereços. Esta aula foi a primeira em que as alunas usaram vibradores; mas, ao contrário do que Teresa chegara a temer, desligados. O objectivo era ver se eram capazes de sugar o vibrador para dentro da vagina e de o expulsar sem usar outros músculos além dos que tinham estado a exercitar nas aulas anteriores. Teresa não foi das que tiveram mais dificuldade, mas o esforço foi tão grande que, ao saber que mais tarde se esperaria dela e das colegas que sugassem e expulsassem o vibrador dezenas de vezes seguidas, duvidou que tal fosse possível.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:26.95pt;color:#333300;">Teresa sempre tinha exercido uma profissão, e isto tinha-lhe alargado o mundo. <em>Até puta fui,</em> pensava por vezes, cada vez com menos amargura mas talvez com mais melancolia. Depois decidira dedicar-se inteiramente a Raul, mas sempre com uma réstia de medo que esta opção a confinasse a uma estreiteza de vida que não desejava. Verificava agora que o amor e o sexo, a obediência e o serviço prestados a um senhor, podem constituir uma ocupação a tempo inteiro, exigindo organização, disciplina e um treino intenso e difícil. Não se sentia menos digna como escrava do que se tinha sentido quando era uma mulher de carreira no mundo do jornalismo e da moda; tinha passado, pelo contrário, dum estatuto virtual para um estatuto real que a fazia sentir-se mais presente no mundo.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:26.95pt;color:#333300;">Foi assim, serena e segura de si como uma matriarca antiga, que assistiu à assinatura dos últimos papéis e ao cumprimento das últimas formalidades que conferiam à sua irmã Carolina a propriedade da empresa que tinha fundado. Também Carolina teve neste dia o seu acesso a um mundo ligeiramente diferente: abandonava o proletariado, tornava-se senhora de si e não tinha ninguém a quem prestar contas. E se não se deu conta que por este caminho tão diferente tinha chegado exactamente ao mesmo ponto que a irmã, já a esta o facto não passou despercebido. O Mundo é com efeito prodigioso e vário.</p>
</div>]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[Romance (Excerto # 13)]]></title>
<link>http://omarkhayyam2.wordpress.com/2008/12/09/romance-excerto-13/</link>
<pubDate>Tue, 09 Dec 2008 00:33:40 +0000</pubDate>
<dc:creator>Vanderdecken</dc:creator>
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<description><![CDATA[Ao entrar em casa de Raul, Carolina apertou-lhe formalmente a mão e deu um beijo na face da irmã. Ai]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><div class="post-body entry-content"><a href="http://4.bp.blogspot.com/_UEfhPJXHLPM/ST25V1C1D1I/AAAAAAAAApQ/AIH_G2cldPo/s1600-h/euridyke-005-large.jpg"><img style="float:left;cursor:pointer;width:198px;height:174px;margin:0 10px 10px 0;" src="http://4.bp.blogspot.com/_UEfhPJXHLPM/ST25V1C1D1I/AAAAAAAAApQ/AIH_G2cldPo/s400/euridyke-005-large.jpg" border="0" alt="" /></a><a name="_Toc209450935"><span style="color:#003300;"><em></em></span></a><span style="color:#003300;"><span style="color:#333333;"><span style="color:#333333;">Ao </span>entrar em casa de Raul, Carolina apertou-lhe formalmente a mão e deu um beijo na face da irmã. Ainda no átrio perguntou a Teresa onde podia guardar os sapatos; e entrou descalça no interior da habitação. Não explicou a razão deste gesto, nem deu lugar a que Teresa e Raul conjecturassem. Quando a convidaram a entrar para a sala, pediu:</span><br />
<span style="color:#333333;">– Posso ver a casa primeiro?</span><br />
<span style="color:#333333;">A visita começou pela cozinha, como quase sempre acontece quando tanto a visitante como a anfitriã são mulheres. A sala pareceu a Carolina um pouco nua demais:</span><br />
<span style="color:#333333;">– É fácil de limpar… – comentou.</span><br />
<span style="color:#333333;">O escritório de Raul fez-lhe lembrar o do pai. Tantos livros… Tinha passado horas felizes, em criança, no escritório do pai. No quarto, ao ver o catre aos pés da cama, levou a mão à boca:</span><br />
<span style="color:#333333;">– É aqui que dormes?! – perguntou, incrédula.</span><br />
<span style="color:#333333;">– Às vezes – respondeu Raul.</span><br />
<span style="color:#333333;">– Muito raramente – corrigiu Teresa. – O Raul gosta de mimos e eu também, dormimos quase sempre abraçados.</span><br />
<span style="color:#333333;">Restava o mais difícil.</span><br />
<span style="color:#333333;">– Agora, minha irmã – disse Teresa – só falta o quarto dos castigos.</span><br />
<span style="color:#333333;">Carolina não sabia se queria ver este quarto, mas também não sabia como negar-se a vê-lo.</span><br />
<span style="color:#333333;">– Quarto dos castigos?! – exclamou, aterrada.</span><br />
<span style="color:#333333;">– Não se passam lá só castigos – disse Teresa. – Passam-se também outras coisas. O nome, fui eu que o sugeri, e o Raul concordou. Anda ver.</span><br />
<span style="color:#333333;">Carolina ficou à porta, sem ousar entrar mais do que um passo, olhando à volta com uma mão a cobrir a boca.</span><br />
<span style="color:#333333;">– Além de o apartamento estar todo insonorizado, este quarto, que é interior, tem uma insonorização suplementar – disse Teresa. – Tiveste que subir um degrau para entrar porque instalámos um isolamento no chão por cima do que já existia. Foi instalado por uma firma especializada e é constituído por várias camadas de diferentes materiais, com uma espessura total de doze centímetros. Em cima disso tudo ainda tem o pavimento.</span><br />
<span style="color:#333333;">Carolina continuava a olhar em volta, espantada.</span><br />
<span style="color:#333333;">– Estás a ver as paredes? – continuou Teresa. – Também foram insonorizadas. Doze centímetros de materiais de alta tecnologia, a toda a volta. O tijolo maciço que reveste tudo foi ideia minha. Ajuda a absorver o som, mas não era preciso porque o que está por baixo é mais do que suficiente.</span><br />
<span style="color:#333333;">– É horrível… – murmurava Carolina. – É horrível…</span><br />
<span style="color:#333333;">– Seria horrível para ti – disse Teresa. – Sei isto porque te conheço bem. Mas tu também me conheces bem. Sabes muito bem que não sou nenhuma vítima inocente. Não te vou mentir, minha irmã: gritei muitas vezes de dor aqui dentro. Gritei e gritei até não poder mais, e não sei se hoje mesmo não voltarei a gritar até ficar rouca: tudo depende da vontade do meu dono e senhor. Também para isso me dei a ele, não foi só para os beijos e para as carícias, nem para lhe lavar a roupa e servir o jantar.</span><br />
<span style="color:#333333;">Carolina não podia suportar aquele lugar. Sentia que a respiração lhe faltava e que as pernas não lhe suportavam o peso do corpo. Não tinha nada contra o facto de Teresa lavar a roupa e fazer o jantar de Raul, ela fazia o mesmo ao Zé Tó e não lhe custava nada – por mais que algumas amigas suas ralhassem contra a sua submissão. Beijos e carícias, tomara ela muitos. Mas tortura?! Um quarto destinado a chicotear a sua irmã dilecta, a sua companheira de infância?! Um quarto que Teresa ajudara, para cúmulo, com a sua inteligência e o seu dinheiro, a adaptar a este fim?!</span><br />
<span style="color:#333333;">– Podemos ir para a sala? – perguntou em voz fraca.</span><br />
<span style="color:#333333;">– Claro – respondeu Raul, e segurou-a pelo cotovelo.</span><br />
<span style="color:#333333;">Quando se sentaram, serviu vinho do Porto às duas mulheres e um whisky a si próprio. Teresa, sentada no chão, tomou entre as suas as mãos da irmã.</span><br />
<span style="color:#333333;">– É difícil de compreender, não é?</span><br />
<span style="color:#333333;">– De compreender, sim, muito difícil; mas de aceitar, muito mais. Vi-os ontem na televisão e fiquei sem saber o que pensar. Foi por isso que me convidaram para jantar hoje?</span><br />
<span style="color:#333333;">– Em parte, sim – disse Teresa. – Tínhamos que nos assumir. Mas estamos ambos aterrados com a reacção das pessoas que gostam de nós.</span><br />
<span style="color:#333333;">– O Pai e a Mãe não viram o programa, sabem?</span><br />
<span style="color:#333333;">– Foi nessa esperança que o fizemos tão tarde.</span><br />
<span style="color:#333333;">– E eu espalhei palavra por toda a gente que o viu que quem falasse dele aos Pais teria que se haver comigo.</span><br />
<span style="color:#333333;">– Obrigado, por mim e pela Teresa – disse Raul. – E o que é que a Carolina achou?</span><br />
<span style="color:#333333;">– Achei-os sinceros, e isto é o que me perturba mais. Se fossem dois poseurs à procura do seu quarto de hora de fama, tê-los-ia achado desprezíveis… Achei a Teresa muito corajosa, por ir descalça e por lhe ter beijado a mão em público. Depois comecei a pensar que vocês afinal não eram muito diferentes de outras pessoas que eu tinha visto no mesmo programa, e que eu também tinha admirado pela sua coragem. Aquelas tuas opiniões sobre os vários feminismos pareceram-me muito reflectidas, muito lúcidas… Viam-se que eram tuas, que ninguém te tinha feito a cabeça. Fiquei com a ideia que eras contra todas as leis que impõem submissão ou desigualdade às mulheres…</span><br />
<span style="color:#333333;">– Como no Irão – interrompeu Teresa.</span><br />
<span style="color:#333333;">– Mas se um homem e uma mulher quiserem ter uma relação desigual, ou mesmo muito desigual, ninguém tem nada com isso…</span><br />
<span style="color:#333333;">– Ou dois homens, ou duas mulheres… – interrompeu Teresa.</span><br />
<span style="color:#333333;">– Sim – disse Carolina, corando. – É isto que é fácil de entender mas difícil de aceitar.</span><br />
<span style="color:#333333;">– Se algumas pessoas começarem por entender, para nós já é bom – disse Raul. – O aceitar pode vir depois. Algumas nunca aceitarão.</span><br />
<span style="color:#333333;">– Mas porque é que duas pessoas hão-de fazer um acordo desses? – disse Carolina. – E mesmo que o façam, quem nos garante que é livre? Pode ser imposto pela força. Um pode ser mais forte fisicamente, ou mais inteligente, ou mais violento, ou mais influente, ou mais integrado na sociedade, ou mais rico, ou mais assertivo…</span><br />
<span style="color:#333333;">– Achas que o Raul tem essas vantagens todas sobre mim? – disse Teresa.</span><br />
<span style="color:#333333;">– Só se for a força física – admitiu Carolina. – No resto, se alguém tem vantagem, és tu.</span><br />
<span style="color:#333333;">– Pois tenho – disse Teresa. – Na força física ele tem vantagem. No resto, ou estamos equilibrados, ou quem tem vantagem sou eu. Violentos não somos, nem eu, nem ele. E embora todos nós sejamos capazes de um acto violento, a verdadeira violência, a violência a sério, é relativamente rara. Eu sei, porque já me encontrei com ela, e sei que não tem nada a ver com aquilo a que a maioria das pessoas chamam violência. E felizmente que é rara, e que a que há está mais ou menos controlada, porque quem é realmente violento faz o que quer de quem quer. Por isso é que o Onoprienko conseguiu fazer de mim o que fez, embora eu não seja fraca. Hoje não conseguiria, mas apesar disso ainda tenho medo dele…. Mas estamos a desviar a conversa: estavas a dizer o que tinhas achado do programa.</span><br />
<span style="color:#333333;">– Uma coisa que me fez um bocado de confusão – disse Carolina – foi tu dizeres que eras feminista. As feministas que eu conheço não fazem vénias aos homens, nem lhes beijam a mão…</span><br />
<span style="color:#333333;">– Enquanto eu, ao Raul, em privado, até lhe beijo os pés… mas continua.</span><br />
<span style="color:#333333;">– Achei o teu feminismo muito simples. Ora deixa ver se me lembro do que disseste: que a autoridade pública não deve dar a ninguém direitos ou deveres especiais por ser homem ou mulher; nem deve ser usada para que outros imponham direitos ou deveres diferentes a homens e mulheres; e que cada um deve ter o direito de dispor de si próprio. Se ser feminista é só isto, então eu também sou feminista, e isso é uma coisa que nunca me considerei. E deixaste uma coisa de fora: as famílias não devem ter o direito de treinarem os meninos e as meninas para terem comportamentos diferentes.</span><br />
<span style="color:#333333;">– E se eles quiserem ter comportamentos diferentes? Devem forçados a ter comportamentos iguais? Não, prefiro manter a coisa assim simples, como disse na televisão. Se não for assim simples, torna-se uma coisa totalitária. Eu posso assumir os deveres que entender em relação ao Raul, e posso reconhecer-lhe os direitos que entender sobre mim. Se alguém me impedir disso, estará a forçar-me: a exercer violência sobre mim.</span><br />
<span style="color:#333333;">– E quando a relação é de força…</span><br />
<span style="color:#333333;">– Nesse caso – disse Raul – é irrelevante que a força seja exercida por um parceiro sobre o outro, ou que seja exercida de fora sobre os dois. Trata-se na mesma de violência. Foi o que nós dissemos no programa: não se trata aqui de violência minha sobre a Teresa, nem dela sobre mim, mas sim de uma ameaça de violência duma terceira parte sobre nós os dois.</span><br />
<span style="color:#333333;">– Terceira parte essa a que eu também pertenço…</span><br />
<span style="color:#333333;">– Podes deixar de lhe pertencer quando quiseres – disse Teresa. – Mas isso é decisão tua: nem eu, nem o Raul te pedimos nada.</span><br />
<span style="color:#333333;">– A apresentadora disse que vos tinha imaginado de cabedal preto, cheios de piercings, e a ti com uma coleira ao pescoço, meias de rede e saltos agulha… E eu confesso que também vos tinha imaginado com esse aspecto, apesar de nunca vos ter visto usar nada do género. Devo ter imaginado isso por ser o que as revistas mostram…</span><br />
<span style="color:#333333;">– As revistas mostram esse estilo por ser o mais vistoso, mas há no nosso meio quem adopte outros estilos, ou até estilo nenhum.</span><br />
<span style="color:#333333;">– Foi por isso que disseste à apresentadora que a tua coleira de escrava eram os pés descalços?</span><br />
<span style="color:#333333;">– Foi. Como símbolo de submissão, são uma coisa menos óbvia que uma coleira. E com raízes mais antigas na nossa cultura e nos nossos mitos. E mais ambígua, porque tanto podem significar submissão e humildade, como contestação, liberdade, ligação ao mundo natural… Mas já que me lembraste isso, diz-me uma coisa: porque é que te descalçaste ao entrar aqui?</span><br />
<span style="color:#333333;">– Não sei bem…Lembras-te que lá para cima, entre a gente do povo, era costume, se a dona da casa estivesse descalça, as outras mulheres que entrassem descalçarem-se também? Era uma questão de boas maneiras. Lembras-te?</span><br />
<span style="color:#333333;">– Lembro-me bem, sim… E foi por isso que tiraste os sapatos?</span><br />
<span style="color:#333333;">– É… Não sei o que me deu… De repente pareceu-me apropriado.</span><br />
<span style="color:#333333;">Teresa sentiu que lhe vinham as lágrimas aos olhos:</span><br />
<span style="color:#333333;">– Obrigada, mana… Foi um gesto bonito.</span><br />
<span style="color:#333333;">– Não quer dizer nada, até estou mais confortável assim. Só mais uma coisa: disseste na entrevista que os teus deveres para com o Raul eram servir e obedecer, e que nisso estava também o teu prazer. Mas aquele quarto que me mostraste não é um lugar de serviço nem de obediência, é um lugar de sofrimento. Se não tens prazer em sofrer, porque te submetes?</span><br />
<span style="color:#333333;">– Tu própria acabas de responder a isso. A palavra-chave é a submissão. Não é a dor que me interessa, é a submissão à dor. Aquele quarto é antes de mais nada um lugar de submissão, e se não fosse isto, não serviria para nada, nem para mim, nem para o Raul. Compreendes isto?</span><br />
<span style="color:#333333;">– Compreendo. Ou melhor; não, não compreendo. Entendo a lógica, o que é diferente, mas não há parte nenhuma de mim que se identifique com isso. Em minha casa quem manda é o meu marido, e eu nunca tive problemas com isso, mas nunca tirámos disso prazer, parece-me. Apenas nos pareceu mais… confortável. A vossa vida, essa, parece-me uma coisa estranha, uma coisa fora deste mundo.</span><br />
<span style="color:#333333;">– E criminosa, parece-te? Maléfica?</span><br />
<span style="color:#333333;">Carolina ficou alguns minutos silenciosa.</span><br />
<span style="color:#333333;">– Não – disse por fim. – Criminosa, não. E maléfica também não, Deus me perdoe.</span><br />
<span style="color:#333333;">Depois fez outro intervalo de silêncio, durante o qual Raul voltou a pôr vinho do Porto nos copos.</span><br />
<span style="color:#333333;">– Aquele quarto, utilizam-no muitas vezes? – perguntou Carolina.</span><br />
<span style="color:#333333;">– Não muitas – disse Teresa.</span><br />
<span style="color:#333333;">– E como é que fazem quando o utilizam? Combinam previamente?</span><br />
<span style="color:#333333;">– Não. O Raul decide sozinho. É o meu dono e dono do meu corpo.</span><br />
<span style="color:#333333;">– E és feliz assim?</span><br />
<span style="color:#333333;">– Só assim.</span><br />
<span style="color:#333333;">– Sabes o que eu imaginava? Imaginava que a vossa vida juntos consistia numa série ininterrupta de tormentos, que era disso e só disso que vocês tiravam prazer…</span><br />
<span style="color:#333333;">– E tiramos, indirectamente. Mas o meu verdadeiro prazer, a minha felicidade, está em servi-lo, em obedecer-lhe e em ser propriedade dele para todos os efeitos. Para isto não é preciso ele estar sempre a bater-me. Acreditas se eu te disser que ele nunca me chamou um nome feio na vida?</span><br />
<span style="color:#333333;">– Nem tu a mim – interrompeu Raul.</span><br />
<span style="color:#333333;">– Mesmo com o Ettore, que no aspecto físico era muito mais duro comigo, que me dava castigos muito mais frequentes e muito mais severos, havia outras dimensões na minha submissão.</span><br />
<span style="color:#333333;">Carolina abanou a cabeça:</span><br />
<span style="color:#333333;">– Então eras mais submissa ao Ettore…</span><br />
<span style="color:#333333;">Teresa ficou um momento a olhar para longe.</span><br />
<span style="color:#333333;">– Amei-o muito… Mas não: sou incomparavelmente mais submissa ao Raul.</span><br />
<span style="color:#333333;">– Talvez eu um dia entenda isso – disse Carolina. – E você, Raul, de onde lhe vem o seu prazer?</span><br />
<span style="color:#333333;">– Vem de muitas fontes – respondeu Raul. – É um prazer de homem, e por isso não é fácil explicá-lo a uma mulher.</span><br />
<span style="color:#333333;">– Nem eu o compreendo inteiramente – interrompeu Teresa. – Limito-me a aceitá-lo sem fazer muitas perguntas.</span><br />
<span style="color:#333333;">– A parte mais simples do meu prazer – prosseguiu Raul – e sem dúvida a mais egoísta, vem de a Teresa ser qualquer coisa de precioso que me pertence exclusivamente, como um quadro ou um livro.</span><br />
<span style="color:#333333;">– E atreve-se a dizer uma coisa dessas?! – Exclamou Carolina.</span><br />
<span style="color:#333333;">– Há uns meses talvez não se atrevesse – interveio Teresa. – Fui eu, com muito esforço, que o levei a atrever-se. Mas já estava na natureza dele, como a minha submissão está na minha.</span><br />
<span style="color:#333333;">– É verdade, Carolina, devo isso à sua irmã – disse Raul. – Isso, e muito mais. Quanto ao meu prazer: também me vem do prazer dela, mas esta parte funciona um bocado como dois espelhos virados um para o outro: a certa altura já não sabemos onde está a imagem original. É aquilo a que a Teresa e eu chamamos o labirinto. Às vezes entretemo-nos a explorá-lo, mas nunca vamos muito longe. Depois há a parte que me vem da dificuldade, de estar a fazer uma coisa que poucos tentam e menos conseguem.</span><br />
<span style="color:#333333;">– Nessa parte, sou igual a ele – disse Teresa.</span><br />
<span style="color:#333333;">– A parte principal – disse Raul – vem de sermos um para o outro, de encaixarmos perfeitamente um no outro. Mas aqui já não estou a falar de prazer, mas sim de felicidade.</span><br />
<span style="color:#333333;">Ao ouvir estas palavras, Carolina levantou-se, deu uns passos em direcção à janela e ficou a olhar para a cidade iluminada.</span><br />
<span style="color:#333333;">– Lá tinha a felicidade que vir à baila – disse, como se estivesse a falar para uma quarta pessoa. − Estes dois são completamente loucos.</span><br />
<span style="color:#333333;">E depois, virando-se para Raul:</span><br />
<span style="color:#333333;">− Tenho que lhes agradecer aos dois: aprendi muito hoje. Que a minha irmã era louca, eu já sabia desde criança, e nunca me incomodei com isso. Que o senhor é tão louco como ela, estou agora a saber. Disse-me que a sua loucura combina com a dela: só espero que assim seja. Agora está a ficar tarde: é altura de lhes agradecer e de me despedir.</span><br />
<span style="color:#333333;">À saída, depois de se calçar, beijou a irmã. A Raul, estendeu a mão:</span><br />
<span style="color:#333333;">− Saiba, senhor Raul Morgado, que não vou confiar facilmente em si, e que o responsabilizo pela felicidade da minha irmã.</span><br />
<em>O que também é,</em><span style="color:#333333;"> pensou Raul depois de fechar a porta, </span><em>perfeitamente justo.</em></span></div>
</div>]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[Romance (excerto # 6)]]></title>
<link>http://omarkhayyam2.wordpress.com/2008/08/29/romance-excerto-6/</link>
<pubDate>Fri, 29 Aug 2008 15:06:43 +0000</pubDate>
<dc:creator>Vanderdecken</dc:creator>
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<description><![CDATA[(Fim do Capítulo 15) − Está pronto, meu senhor. Podes vir sentar-te. Quando Raul se aproximou da mes]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><p><a href="http://1.bp.blogspot.com/_UEfhPJXHLPM/SLgM1qmcmwI/AAAAAAAAAcc/gj5wZLNl7PI/s1600-h/re6IMG_8328d.JPG"><img style="float:left;cursor:pointer;width:223px;height:210px;margin:0 10px 10px 0;" src="http://1.bp.blogspot.com/_UEfhPJXHLPM/SLgM1qmcmwI/AAAAAAAAAcc/gj5wZLNl7PI/s320/re6IMG_8328d.JPG" border="0" alt="" /></a><span style="font-style:italic;color:#663333;"><span style="color:#996633;">(Fim do Capítulo 15)</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:26.95pt;color:#663333;">− Está pronto, meu senhor. Podes vir sentar-te.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:26.95pt;color:#663333;">Quando Raul se aproximou da mesa, Teresa puxou a cadeira para ele se sentar, deitou-lhe água no copo e começou a servir-lhe o jantar: de entrada duas metades de abacate recheadas com camarões e molho tártaro, acompanhadas por um Alvarinho que ela lhe verteu no copo com um gesto gracioso; a seguir uma simples jardineira de carne, cogumelos variados e legumes, como ele gostava, acompanhada de arroz à grega e regada pelo vinho tinto do Douro que se encontrava à espera, aberto, havia quase uma hora; e por fim, à laia de sobremesa, profiteroles acompanhadas de espumante.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:26.95pt;color:#663333;">− Queres um whisky? Um charuto?</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:26.95pt;color:#663333;">− Não – respondeu Raul. − Quero-te rapidamente ao pé de mim.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:26.95pt;color:#663333;">Ao mesmo tempo que servia o jantar, Teresa tinha começado a arrumar a cozinha e a pôr em detergente a louça que não podia ser lavada na máquina. Rapidamente terminou as tarefas que restavam e foi-se arranjar para o serão com Raul, no que demorou mais do que o habitual. Quando regressou, no esplendor das suas vestes de escrava, acendeu todas as luzes da sala, o que o surpreendeu um pouco mas não lhe suscitou qualquer comentário. Enquanto ela dava os dois passos que iam da porta até ao sofá, Raul viu de relance, entre os adornos que lhe cobriam o corpo, qualquer coisa de novo; mas antes que firmasse a vista no que era, já ela estava ajoelhada à sua frente, beijando-lhe as mãos. Raul aceitou esta homenagem durante um breve instante antes de ordenar:</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:26.95pt;color:#663333;">− Põe-te de pé, minha escrava. Quero ver-te bem.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:26.95pt;color:#663333;">E foi quando Teresa obedeceu a esta ordem que ele compreendeu porque ela se tinha apressado tanto em ajoelhar: tinha posto um <em>piercing</em> no umbigo, que, embora obedecesse exactamente às instruções dele, era com efeito uma surpresa. Num círculo de ouro rosa estavam embutidas em ouro amarelo as iniciais dele, <span>RM</span>, circundadas por uma simples elipse. O ouro rosa do fundo e o ouro amarelo do símbolo não contrastavam o suficiente para que o <em>piercing</em> pudesse ser lido a uma luz mais fraca: por isso tinha ela acendido todas as luzes.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:26.95pt;color:#663333;">− Gostas? – perguntou Teresa.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:26.95pt;color:#663333;">− Gosto muito. Até do tipo de letra, que tem alguma coisa de simples e ao mesmo tempo de antiquado, muito ao estilo do Século XIX. Sabes o que esse tipo de letra, inscrito numa elipse, me faz lembrar? As marcas que se viam no gado nos filmes de <em>cowboys</em>. Maluquice minha: é de ter visto muitos quando era miúdo.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:26.95pt;color:#663333;">− Então – disse Teresa, ao mesmo tempo que se voltava a ajoelhar – se eu sou a tua rês, é preciso saber se sou boa ou má.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:26.95pt;color:#663333;">− Isso – respondeu Raul – é uma coisa de que vamos precisar de muito tempo para descobrir. Anda cá.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:26.95pt;color:#663333;">E puxou-a para cima pelos braços, para lhe beijar a boca e acariciar o corpo. Ao fim de uns minutos, deu-lhe uma leve palmada no rabo e ordenou-lhe que fosse buscar outra vez o espumante.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:26.95pt;color:#663333;">− Desta vez traz duas taças – determinou.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:26.95pt;color:#663333;">Quando Teresa regressou com o tabuleiro, viu que Raul tinha arrastado uma mesa baixa para junto do sofá. Pousou o tabuleiro e sentou-se no chão enquanto ele enchia as duas <em><span lang="FR">flûtes</span></em>.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:26.95pt;color:#663333;">− À minha escrava − saudou Raul.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:26.95pt;color:#663333;">− Ao meu dono e senhor – respondeu Teresa.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:26.95pt;color:#663333;">Sem tirar os olhos dos dela, Raul esvaziou de um só trago a sua taça e arremessou-a para um canto da sala, onde se desfez em cacos com um tilintar festivo. Teresa, risonha e um pouco surpreendida, imitou-o sem hesitar, para logo a seguir trepar para o sofá e se agarrar a ele aos beijos. Bastante mais tarde foi apanhar os cacos, enquanto ele se preparava no quarto de banho para ir para a cama. Com todos os cuidados, para não ferir os pés nus nos estilhaços de cristal, varreu tudo para um apanhador, que vazou no caixote do lixo. Ao fazer este trabalho, notou que uma das pedras do chão tinha ficado ligeiramente lascada; e esta marca indelével, que a presença dela tinha gravado em casa dele, encheu-a de um prazer obscuro.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:26.95pt;color:#663333;">Depois ele levou-a para o quarto, onde não parou de a acariciar e beijar enquanto ela se livrava da saia e de todos os adornos; e quando destes só restou o <em>piercing</em>, derrubou-a sobre a cama, lançando-se vigorosamente sobre ela, que o acolheu com um gritinho de fingido susto.</p>
</div>]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[Excerto # 3 (romance)]]></title>
<link>http://omarkhayyam2.wordpress.com/2008/07/28/excerto-3-romance/</link>
<pubDate>Mon, 28 Jul 2008 21:47:13 +0000</pubDate>
<dc:creator>Vanderdecken</dc:creator>
<guid>http://omarkhayyam2.wordpress.com/2008/07/28/excerto-3-romance/</guid>
<description><![CDATA[Finalmente, mais um excerto do meu romance. Corresponde à segunda metade do capítulo 5. O tempo tinh]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><p><a href="http://bp0.blogger.com/_UEfhPJXHLPM/SI48RCf4mrI/AAAAAAAAAbs/8CbXJDtvOWo/s1600-h/Harem_girl_by_Sinned_angel_stock.jpg"><img style="float:left;cursor:pointer;margin:0 10px 10px 0;" src="http://bp0.blogger.com/_UEfhPJXHLPM/SI48RCf4mrI/AAAAAAAAAbs/8CbXJDtvOWo/s320/Harem_girl_by_Sinned_angel_stock.jpg" border="0" alt="" width="209" height="162" /></a><span style="font-style:italic;color:#996633;">Finalmente, mais um excerto do meu romance. Corresponde à segunda metade do capítulo 5.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;color:#993300;">O tempo tinha arrefecido e foi-lhes agradável regressar ao aconchego do apartamento. Teresa tirou as sandálias e o casaquinho e perguntou a Gustavo:</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;color:#993300;">– Que música queres ouvir?</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;color:#993300;">– Hmmm… – disse ele. – Tens Miles Davis?</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;color:#993300;">– Tenho para aí alguma coisa – disse ela, e pôs-se a procurar entre os CD’s.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;color:#993300;">Por fim encontrou o que queria.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;color:#993300;">– Vais gostar disto – disse.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;color:#993300;">E enquanto a música começava a tocar baixinho dirigiu-se para Gustavo e fez menção de se sentar de novo aos pés dele.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;color:#993300;">– Assim não – deteve-a ele. – Toda nua.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;color:#993300;">– Toda nua?! – sorriu ela.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;color:#993300;">– Toda nua.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;color:#993300;">Teresa abriu mais o sorriso:</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;color:#993300;">– Se o meu Senhor manda…</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;color:#993300;">E sem mais demora despiu e arrumou toda a roupa que trazia vestida, que se resumia afinal à saia e à blusa. Depois sentou-se na mesma posição em que estivera antes, e enquanto ele lhe ia acariciando ora os cabelos, ora os seios, ora qualquer outra parte que achasse à mão, começou a conversar com ele sobre as trivialidades do dia: as compras dela, a viagem dele, a maçada em que os aeroportos se vão transformando cada vez mais… Por vezes caíam em confortáveis silêncios, durante os quais não faziam mais do que ouvir a música e tocar suavemente um no outro. Quando o CD chegou ao fim Teresa trocou-o e assim ficaram os dois, a embeber-se lentamente da presença um do outro.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;color:#993300;">– Vamos para a cama? – disse Teresa, quando o viu bocejar.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;color:#993300;">– Vamos.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;color:#993300;">– Então anda.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;color:#993300;">Na casa de banho mostrou-lhe o que tinha previsto para o acolher:</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;color:#993300;">– Este é o teu roupão… as tuas toalhas… os teus chinelos…</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;color:#993300;">Enquanto um tomava duche, o outro lavou os dentes. Secaram-se um ao outro com as toalhas. E por fim, sem que Gustavo se preocupasse em fazer uso do roupão ou dos chinelos que Teresa tinha disposto para ele, dirigiram-se nus para a cama, que Teresa abriu rapidamente e onde colocou duas enormes almofadas.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;color:#993300;">Na cama abraçaram-se e começaram a percorrer com as mãos e os lábios o corpo um do outro. Desde o primeiro toque Teresa sentiu a erecção de Gustavo, mas como ele não se mostrou apressado ela também não. Via-lhe, porém, as olheiras e os olhos um pouco raiados de sangue: estava cansado da viagem, e da lauta refeição que ela lhe tinha dado.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;color:#993300;">– Estás cansado, meu Senhor.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;color:#993300;">Gustavo sorriu-lhe:</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;color:#993300;">– Estou, mas não tanto que não possa fazer as honras à última iguaria deste banquete…</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;color:#993300;">Teresa, apalpando-lhe o pénis, respondeu:</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;color:#993300;">– Isso estou eu a ver. Mas deita-te para trás, queres? Deixa-me ficar por cima e fazer todo o trabalho…</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;color:#993300;">Gustavo deitou-se de barriga para cima no meio da cama, apoiou comodamente a cabeça na almofada, fechou os olhos e dispôs-se a gozar os prazeres que Teresa lhe proporcionasse. Esta passou-lhe uma coxa por cima do corpo, pegou-lhe no pénis e guiou-o para dentro de si, começando a mexer os quadris com movimentos lentos mas seguros. Conforme a inclinação que ela dava o corpo, Gustavo sentia-lhe a carícia, por vezes dos cabelos, por vezes dos seios macios. Abandonando a sua atitude passiva, pôs os braços à volta dela e começou a acariciar-lhe com mão firme as costas, as nádegas e a parte de trás das coxas. Ao sentir estas carícias, Teresa inclinou-se sobre ele e murmurou-lhe ao ouvido:</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;color:#993300;">– Dá-me umas palmadas…</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;color:#993300;">Antes de lhe dar a primeira palmada, Gustavo ainda continuou a apalpar-lhe as nádegas durante algum tempo. Depois ergueu a mão direita a uma altura suficiente para que ela ganhasse velocidade ao descer sobre o corpo de Teresa. Não bateu com força: estava mais interessado no efeito sonoro do que na sensação provocada.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;color:#993300;">– Sim… – disse Teresa; e começou a beijar Gustavo no peito ao mesmo tempo que soltava os quadris numa dança fogosa.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;color:#993300;">Com a segunda palmada Gustavo procurou abranger ambas as nádegas de Teresa; esta reagiu como a um choque eléctrico, com um repelão de todo o corpo, e redobrou os beijos apaixonados com que cobria o corpo do amante. Mas a terceira palmada estragou tudo: no momento em que a palma da mão atingiu o corpo de Teresa, Gustavo sentiu uma angústia tão intensa como inexplicável. O ar pareceu-lhe subitamente gelado, o sexo ficou-lhe flácido, e recordou a imagem, que julgava ter esquecido, dum rosto de mulher no Kosovo. Com um som que era em parte suspiro, em parte gemido, e em parte grito de protesto, rolou na cama de modo a sair de dentro da amante.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;color:#993300;">– Que foi?! – perguntou ela, alarmada. – Que foi, meu querido?!</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;color:#993300;">– Não sei… Não sei bem. Lembrei-me duma coisa, duma coisa de que não devia ter-me lembrado.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;color:#993300;">Teresa juntou de novo as pernas mas continuou inclinada sobre ele, numa posição de tanta intimidade como a anterior, mas inteiramente doutra ordem. Os seios, pendendo suavemente sobre o peito dele, continuavam a ser um afago; mas agora este afago confortava-o em vez de o excitar.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;color:#993300;">– Conta-me, meu amor. Conta-me tudo.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;color:#993300;">E Gustavo contou. A mulher chamava-se Merita. Nunca tinha sido possível apurar a sua idade exacta, mas devia ter entre os vinte e os trinta anos. Quando ele, acompanhado duma psicóloga e duma agente da polícia local, entrou na sala onde ela estava a fim de tomar algumas notas, ela correu para um canto e ficou lá encolhida a olhar para ele com os olhos dum animal acossado. Teve que sair. Explicaram-lhe depois que era sempre aquela a sua reacção na presença de um homem, e que se as duas mulheres o tinham levado com elas era porque tinham tido esperança que ela estivesse a ultrapassar este trauma. A história dela era como a de tantas outras: um oficial das forças de manutenção de paz precisava duma mulher e de um apartamento para a guardar. As máfias locais estavam em posição de lhe fornecer estas comodidades, por um preço razoável. Merita era uma jovem viúva de guerra, sem família nem amigos que a protegessem. Foi fácil raptá-la, adaptar à pressa uma casa isolada e levá-la para lá, e entregar a chave ao cliente. Segundo os testemunhos recolhidos pelos psicólogos, Merita tinha sido, antes de ser raptada, uma mulher voluntariosa e senhora do seu nariz, perfeitamente capaz de regatear duramente no mercado da aldeia e de responder taco a taco a qualquer agressão física ou verbal. A mulher que os soldados, na sequência duma denúncia anónima, encontraram na casa isolada não era nada disto: era um animalzinho aterrorizado, incapaz de se exprimir por palavras, obediente a meia dúzia de ordens específicas dadas em inglês, mas aparentemente incapaz de compreender quaisquer outras palavras, mesmo na sua própria língua. O facto de ela reagir a ordens em inglês permitiu que se descobrisse rapidamente que o oficial em causa era um americano; e como estes tinham as suas próprias estruturas de justiça militar, separadas da estrutura multinacional em que Gustavo estava integrado, o caso passou rapidamente para as mãos deles; e Gustavo, envolvido em muitos outros, tinha-o esquecido até agora.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;color:#993300;">– Ainda bem que a coisa passou para as mãos deles – disse Gustavo, enquanto Teresa lhe afagava levemente os ombros e o peito. – O tipo acabou por ser condenado a uma pena muito mais dura do que aquela a que nós o condenaríamos. Mas mesmo assim leve demais. E queres saber o que me deu mais volta à cabeça?</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;color:#993300;">Teresa beijou-o ao de leve no peito:</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;color:#993300;">– Diz…</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;color:#993300;">– Fisicamente, esta mulher estava de boa saúde. Consegues imaginar isto? De boa saúde. Um pouco desnutrida, mas veio a saber-se mais tarde que o homem até era cuidadoso com a alimentação dela; ela é que muitas vezes não queria ou não conseguia comer. E não tinha quaisquer marcas de maus tratos: o fulano reduziu-a ao que a reduziu com base apenas em técnicas em pressão psicológica e em palmadas no rabo. Ainda agora não compreendo: vi outras mulheres com queimaduras, com marcas permanentes no corpo com vestígios das torturas mais inconcebíveis, e mesmo assim menos degradadas psicologicamente do que ela. Ela própria tinha suportado, durante a sua vida de casada, maus tratos piores, sem que a sua auto-estima fosse afectada por isto. E este gajo, só com a palma da mão, fez dela o que fez…</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;color:#993300;">Ditas estas palavras, Gustavo calou-se. Teresa, vendo-o perdido em pensamentos, respeitou este silêncio e limitou-se a beijá-lo de vez em quando, enquanto ele a acariciava, quase distraidamente, nas costas.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;color:#993300;">– Foi disto que me lembrei – recomeçou ele subitamente. – E subiu por mim acima um asco, uma vergonha…</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;color:#993300;">Teresa deixou que o silêncio se prolongasse de novo. Por fim, sem deixar de o acariciar como a um animal nervoso, disse:</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;color:#993300;">– Mas antes de ires para o Kosovo já tinhas feito isto com mulheres…</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;color:#993300;">– Tinha, claro que tinha – respondeu Gustavo.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;color:#993300;">– E não sentiste nojo, nem vergonha, nem culpa…</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;color:#993300;">– Não, é claro que não. Senti prazer, e elas também.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;color:#993300;">Teresa recomeçou a beijá-lo e a acariciá-lo sem dizer nada. Quando entendeu que tinha passado tempo suficiente, perguntou-lhe:</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;color:#993300;">– E com a tua mulher?</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;color:#993300;">– Com a Isabel? A Isabel é um caso aparte. É diferente de qualquer outra pessoa que eu já tenha conhecido, homem ou mulher. Parece-me incapaz de sentir dor ou prazer… Não, não é bem isso: sente dor e prazer, mas com muito pouca intensidade.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;color:#993300;">– Fisicamente, queres tu dizer?</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;color:#993300;">– Fisicamente, psicologicamente, moralmente… De todas as formas. De início não me apercebi disto. Mas com o tempo comecei a acreditar que para ela o único verdadeiro prazer é ter dinheiro e o único verdadeiro sofrimento é não o ter.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;color:#993300;">– Não é caso único…</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;color:#993300;">– Que eu conheça, é. E depois há outra coisa, que não sei se é impressão minha: o corpo dela parece feito de borracha dura. Tem uma consistência diferente, que parece que não é de mulher nem de homem… Estou a explicar-me muito mal.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;color:#993300;">– Não faz mal. Continua.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;color:#993300;">– Uma vez assisti a uma coisa… trilhou-se a fechar a porta do carro. Ficou com um daqueles vergões vermelhos, muito brancos nas bordas… Sabes? Olha-se para aquilo e vê-se logo que causou uma dor horrível.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;color:#993300;">– E ela?</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;color:#993300;">– Qualquer outra pessoa teria dado um grito, soltado um palavrão, segurado com a outra mão a parte atingida… Ela não. Olhei para a cara dela e o que vi foi uma expressão petulante, de contrariedade, como se alguém ou alguma coisa tivesse falhado uma obrigação qualquer para com ela…</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;color:#993300;">– Deixava-te bater-lhe?</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;color:#993300;">– Quando eu me portava bem, quer dizer, quando fazia alguma coisa que pudesse conduzir a uma promoção, ou a mais dinheiro. Mas deixava-me bater-lhe como me deixava beijá-la, ou fodê-la: tanto lhe fazia. E eu acabei por me desinteressar tanto duma coisa, como das outras. Nos últimos anos do nosso casamento deixámos de ter relações sexuais.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;color:#993300;">Chegada a conversa a este ponto, pareceu a Teresa que era chegada a altura de menos palavras e mais acções. Os beijos e as carícias que não tinha parado de dar a Gustavo tornaram-se de novo mais deliberados, e ele correspondeu concentrando-se mais no corpo dela. Mas não recuperou a erecção anterior, ainda que o pénis lhe pulsasse um pouco e ficasse meio direito. Teresa deixou que este período de carícias recíprocas se prolongasse como se estivesse disposta a contentar-se com ele a noite inteira. Mas por fim, quando o viu sorriu de prazer, disse-lhe:</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;color:#993300;">– Meu Senhor… Se a tua escrava te pedir muito uma coisa, tu fazes-lha?</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;color:#993300;">– O que é?</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;color:#993300;">– É uma coisa que não vais querer.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;color:#993300;">– Como assim?! Julguei que os senhores é que pediam às escravas coisas que elas não queriam…</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;color:#993300;">– Não pedem, ordenam. E as escravas obedecem. Eu não te estou a ordenar, estou-te a pedir…</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;color:#993300;">– Seja, estás-me a pedir. E é uma coisa que eu não vou querer…</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;color:#993300;">– Sim.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;color:#993300;">– E que tu me pedes por uma razão qualquer que não me dizes…</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;color:#993300;">– Sim. Uma boa razão, disso estou certa. Terás que confiar em mim. Terás que confiar muito em mim. Prometes?</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;color:#993300;">Aos ouvidos de Gustavo isto soou como um desafio ao qual se misturava um apelo e uma dádiva. E tinha-se comprometido a aceitar todas as dádivas, mesmo as mais imprevisíveis, que lhe viessem desta mulher imprevisível. Sorriu para si próprio: aquele pedido tão humilde era na realidade uma ordem. Bem merecia esta Teresa o seu nome. Respondeu:</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;color:#993300;">– Sim, Teresa, prometo. Seja o que Deus quiser.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;color:#993300;">Teresa encarou-o, muito séria:</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;color:#993300;">– Meu Senhor, vês ali, entre a zona de dormir e a de estar, aquela cadeira muito sólida. Repara que não tem braços. Peço-te por favor que me leves até ela, que te sentes, que me estendas de bruços sobre o teu colo e que me dês uma severa e prolongada tareia de palmadas. Peço-te que faças isto mesmo que não tenhas prazer. Peço-te que o faças mesmo que sintas vergonha ou culpa. E não é para eu ficar com as nádegas rosadas: é para ficar com elas vermelhas, vermelhas escuras. És capaz de fazer isto que a tua escrava te pede?</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;color:#993300;">Ricardo afastou para o lado as roupas da cama, com um gesto tão violento que caíram no chão e os deixaram aos dois nus sobre os lençóis. Segurou Teresa rudemente pelos ombros e afastou-a de si a todo o comprimento dos braços, como que para a ver melhor. Fixou nela os olhos irados e encontrou em resposta um olhar sereno e directo. Com um gesto brusco saiu da cama e foi sentar-se na cadeira.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;color:#993300;">– Anda! – comandou. – De que estás à espera?</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;color:#993300;">Teresa foi ter com ele sem pressa mas sem hesitação. Viu-o rígido na cadeira, a tremer de cólera mal contida. Ainda bem. Era exactamente assim que o queria naquele momento: furioso. Logo que chegou deitou-se de bruços sobre o colo dele e esperou pela primeira palmada. Esta, tal como ela previra, não foi meiga. Nem foram meigas as que se lhe seguiram; cada uma detonava no apartamento como um tiro, e se não fossem as paredes grossíssimas do edifício os vizinhos teriam motivos para ficar intrigados.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;color:#993300;">Logo aos primeiros golpes Teresa ficou a saber que Gustavo sabia bem castigar uma mulher. Dominada pela dor, mal conseguia estar atenta ao sinal de que estava à espera; mas finalmente sentiu o pénis do amante a enrijar e a erguer-se, obrigando-a a ajeitar-se para criar uma abertura entre o corpo dela e o dele de modo a acomodar esta erecção. As palmadas dadas por um Gustavo excitado não eram mais suaves do que as que lhe tinha dado o Gustavo furioso de minutos antes, mas eram mais espaçadas, mais dirigidas a zonas específicas. A dor, quase intolerável, levava-a a gemer, ou mesmo a soltar um pequeno grito de vez em quando. De que cor teria agora as nádegas? De um vermelho tão escuro como o que tinha pedido? Não sabia, mas o ritmo regular das pancadas indicava que o castigo estava para durar.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;color:#993300;">Quando ele parou, Teresa ouviu-lhe a respiração arfante e sentiu as pingas de suor que caíam sobre ela. Estava cansado. Mas em vez de terminar o castigo, passou a utilizar a mão esquerda – o que tornaria as palmadas menos dolorosas para Teresa se não tivesse as nádegas já tão sensíveis. Ouviu-o arfar cada vez mais alto, sentiu-lhe o suor cada vez mais abundante, mas mesmo assim as palmadas não pararam durante muito tempo. Teresa já tinha sofrido castigos mais dolorosos do que este, mas todos eles tinham sido aplicados com chicotes ou outros instrumentos. Nunca imaginara que um castigo aplicado com a mão pudesse ser tão severo.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;color:#993300;">Enfim, uma pausa. Ouviu, vinda lá de cima, a voz rouca, e ainda um pouco zangada, do amante:</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;color:#993300;">– Já chega?</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;color:#993300;">Ai chegava, chegava! E de que maneira! Tinha as nádegas em fogo, e parecia-lhe que não seria capaz de suportar nem o toque duma pena. Mas em vez de responder “sim”, arranjou força e ousadia para dizer:</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;color:#993300;">– Tu é que sabes, meu Senhor.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;color:#993300;">A estas palavras, Gustavo mudou de novo para a mão direita e assentou-lhe uma série de palmadas que foram com toda a certeza as mais fortes dessa noite. Quantas? Seis, dez, doze; Teresa, perdida de dor, não pôde contá-las. Por fim levantou-se bruscamente da cadeira, sem cuidar que a atirava ao chão. Inclinou-se para lhe pegar por um pulso e puxou-a para a cama, obrigando-a a segui-lo meio a correr, meio aos tropeções. Ao aterrar de costas, Teresa sentiu a dor provocada pelo contacto entre os lençóis e a sua pele dorida. Mas mal teve tempo para soltar um ai, porque Gustavo já a penetrava duma estocada só, fazendo-a estremecer toda com o embate dos corpos. As estocadas seguintes não foram menos rudes, mas ela já não lhe sentiu a rudeza, nem a dor das nádegas doridas a embater na cama, porque desde a primeira penetração foi avassalada por uma sucessão de orgasmos, ou por um só orgasmo interminável, que lhe obliteraram qualquer vestígio de dor.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;color:#993300;">Gustavo, por seu lado, ao penetrar Teresa, já não estava movido por qualquer vestígio de cólera, mas sim por um puro, inocente desejo, por uma exultação avassaladora. O fogo em que ardia fogo que tinha-o purificado, pelo menos por agora, de toda a vergonha, de toda a culpa e de toda a ira. Dominou-se para prolongar o prazer, mas não tentou dominar o vigor nem a amplitude dos seus movimentos sobre o corpo receptivo da fêmea.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;color:#993300;">Depois de tudo terminar deixaram-se ficar, fazendo travesseiro e colchão do corpo um do outro. Quando por fim olharam de novo para o rosto um do outro, Teresa sorriu para Gustavo e disse:</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;color:#993300;">– Hmmm… Meu Senhor, se soubesses como eu estava a precisar duma coisa assim…</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;color:#993300;">Gustavo devolveu-lhe o sorriso:</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;color:#993300;">– Eu também, podes ter a certeza.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;color:#993300;">Teresa deu-lhe uma sapatada de brincadeira:</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;color:#993300;">– Ah, sim?! Andavas precisado, era? E deste conta do que me fizeste?</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;color:#993300;">Ricardo encolheu os ombros:</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;color:#993300;">– As palmadas? Claro que me dei conta. Ficaste com o rabo da cor daquele <em><span lang="IT">Barolo</span></em> que bebemos ao jantar… Aliás, mais daqui a bocado tenciono inspeccioná-lo para ver se já está na cor certa ou se ainda é preciso ajustá-la.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;color:#993300;">Desta vez Teresa deu-lhe um murro:</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;color:#993300;">– Não estou a falar das palmadas, estúpido! Estou a falar da maneira perfeitamente desaustinada como me possuíste a seguir. Amanhã nem sei se vou conseguir andar. Ou então vou andar por aí de pernas abertas… Achas isto bem?!</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;color:#993300;">– Oops! – fez Gustavo.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;color:#993300;">– Deixa lá – disse Teresa. – Como já te disse, era disso que estava precisada.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;color:#993300;">Depois de um breve silêncio Gustavo recomeçou a conversa:</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;color:#993300;">– Só não entendo uma coisa. Disseste-me várias vezes que a dor física não te excita nem te dá prazer…</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;color:#993300;">– E é verdade.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;color:#993300;">– Mas quando eu te penetrei depois daquela tareia estavas tão excitada que começaste logo a vir-te. Afinal as palmadas excitaram-te ou não?</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;color:#993300;">Teresa suspirou e ficou um momento a ordenar as ideias.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;color:#993300;">– Olha, Gustavo – disse por fim. – Se aquelas palmadas me tivessem sido dadas por um homem a quem eu não amasse, não me teriam dado prazer nenhum. Sei disto por experiência. Se me tivessem sido dadas para me forçar a uma submissão indesejada, não me teriam provocado outra coisa que não fosse revolta. Entendes isto?</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;color:#993300;">– Claro que entendo.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;color:#993300;">– O meu prazer não esteve em ser castigada. Esteve em poder ser castigada. Esteve em tu teres esse direito. Nunca mais te pedirei um castigo como te pedi hoje, mas aceitarei sempre com gratidão todos os que me deres, por mais severos que sejam. Não me interessa que mos dês por eu os ter merecido, ou que mos dês porque te dá prazer. Em todo o caso dar-mos-ás porque tens esse direito. É isto que precisas de saber.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;color:#993300;">– E achas que ainda não sei?</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;color:#993300;">– Não acho, tenho a certeza: ainda não o sabes suficientemente. Mas hoje fizemos progressos: o teu corpo, ao menos, já sabe muito bem que sou propriedade tua.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;color:#993300;">Estas palavras, disse-as Teresa já num bocejo. Gustavo ia responder-lhe, mas viu que não valia a pena: ela já estava a dormir. Levantou-se da cama, pegou nas roupas que tinha lançado ao chão, cobriu com elas a amante, deitou-se ao lado dela e adormeceu por sua vez.</p>
</div>]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[Excerto # 1 (romance)]]></title>
<link>http://omarkhayyam2.wordpress.com/2008/07/06/excerto-1-romance/</link>
<pubDate>Sun, 06 Jul 2008 21:18:13 +0000</pubDate>
<dc:creator>Vanderdecken</dc:creator>
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<description><![CDATA[Como escrevi abaixo, não vou publicar aqui capítulo a capítulo o meu segundo livro, como publiquei c]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><p><a href="http://bp2.blogger.com/_UEfhPJXHLPM/SHErFaRaKMI/AAAAAAAAAbc/9Z-9eThVOec/s1600-h/295x425.aspx.jpg"><img style="float:right;cursor:pointer;width:207px;height:298px;margin:0 0 10px 10px;" src="http://bp2.blogger.com/_UEfhPJXHLPM/SHErFaRaKMI/AAAAAAAAAbc/9Z-9eThVOec/s400/295x425.aspx.jpg" border="0" alt="" /></a><span style="color:#996633;">Como escrevi abaixo, não vou publicar aqui capítulo a capítulo o meu segundo livro, como publiquei conto a conto o primeiro. Isto não impede que ofereça aos leitores deste blogue, de vez em quando, um excerto. Este que se segue encontra-se perto do final do segundo capítulo. Espero que gostem.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;">
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;font-style:italic;color:#666600;">– O que é que leu no livro que o pôs assim a pensar? – perguntou Teresa.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;font-style:italic;color:#666600;">– A maneira como homens e mulheres delimitam territórios – respondeu Gustavo. – Repara: isto passa-se em Veneza. Há dois irmãos de meia-idade que regressam do funeral da mãe. São ambos casados. Reúnem-se em casa de um deles, com alguns amigos íntimos, para tomar café e comer bolos. São gente culta, de classe média alta, os homens têm o hábito de ajudar em casa. E contudo quem vai imediatamente para a cozinha são as duas noras da falecida e a neta adolescente. Na sala ficam os homens, o neto do sexo masculino, e as mulheres que não pertencem à família imediata. Fica-se com a sensação que se algum destes entrasse na cozinha, seria expulso como um intruso, e que aquelas mulheres do Venetto, emancipadas e cultas, defenderiam o seu lugar na cozinha com a mesma ferocidade que qualquer camponesa semi-analfabeta da Calábria.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;font-style:italic;color:#666600;">– No fundo somos todas iguais – riu-se Teresa.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;font-style:italic;color:#666600;">– Posso perguntar-te uma coisa? – disse Gustavo.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;font-style:italic;color:#666600;">Teresa pôs-se subitamente séria:</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;font-style:italic;color:#666600;">– Pode perguntar-me sempre tudo.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;font-style:italic;color:#666600;">A simplicidade desta resposta fez com que Gustavo corasse um pouco, mas prosseguiu:</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;font-style:italic;color:#666600;">– Porque é que andas sempre descalça?</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;font-style:italic;color:#666600;">– Não ando sempre descalça. Só um mês por ano, durante as férias. Faço-o para me sentir livre. E para sentir uma continuidade entre o mundo e o meu corpo. Tenho necessidade disso.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;font-style:italic;color:#666600;">– Foi isso que disseste à chefe de sala, no refeitório?</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;font-style:italic;color:#666600;">– Disse-lhe que se fosse para não poder andar à vontade, não teria escolhido Porto Colom como destino de férias. Acho que ela compreendeu.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;font-style:italic;color:#666600;">– E o facto de te chamares Teresa de Ávila deve ter ajudado…</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;font-style:italic;color:#666600;">Riram-se os dois. A partir deste ponto a conversa prosseguiu com aquelas aparentes banalidades que são na realidade essenciais entre duas pessoas que se começam a conhecer. Se gostam mais do Verão, se do Inverno, se são aventureiros ou conservadores no comer e no beber, se gostam de andar de avião, se fazem exercício, os livros e a música de que gostam, que família têm e que relações têm com ela, o que os encanta e o que os irrita nos outros… Por fim Teresa bocejou, e Gustavo disse que talvez fosse horas de irem dormir.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;font-style:italic;color:#666600;">– Desculpe… – disse Teresa.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;font-style:italic;color:#666600;">– Não peças desculpa – disse Gustavo. – Eu também já tenho um pouco de sono.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;font-style:italic;color:#666600;">
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;font-style:italic;color:#666600;">Nas noites seguintes, a seguir ao jantar, Gustavo não voltou a fazer-se acompanhar de um livro. Nem voltou a aproximar-se do bar: servir-lhe o whisky tinha-se tornado, por acordo tácito, tarefa de Teresa. A única diferença é que o seu lugar de encontro deixou de ser sempre o átrio do hotel e passou a ser também, por vezes, o terraço junto às piscinas. Quando se encontravam aqui, Teresa sentava-se numa cadeira de plástico ao lado de Gustavo, mas quando era no átrio continuou a sentar-se sempre na carpete. Na terceira noite, quando Gustavo disse que se ia deitar, Teresa anunciou:</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;font-style:italic;color:#666600;">– Subo consigo.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;font-style:italic;color:#666600;">Porque é que esta honesta simplicidade, que transparecia tantas vezes nas palavras de Teresa, tinha o condão de fazer corar Gustavo? Inclinou-se para ela, beijou-a ao de leve na boca, e respondeu-lhe com igual simplicidade:</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;font-style:italic;color:#666600;">– Vamos.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;font-style:italic;color:#666600;">No elevador não se abraçaram nem beijaram, mas a proximidade a que a estreiteza do espaço os obrigava fez com que Gustavo sentisse o cheiro a sabonete que vinha do corpo de Teresa, misturado com o odor inconfundível da excitação sexual feminina. Havia ainda outros aromas, provenientes duma sacola que ela, contra o que era hábito, trazia a tiracolo. E que cheiro estaria ela a sentir, provindo dele? A sabonete, sem dúvida; mas será que a excitação dum homem tem cheiro, sobretudo se ainda na fase inicial?</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;font-style:italic;color:#666600;">Logo que ficaram sós, Teresa perguntou a Gustavo qual era, habitualmente, a primeira coisa que fazia quando chegava ao quarto.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;font-style:italic;color:#666600;">– Geralmente vou um bocado para a varanda – respondeu ele, um pouco surpreendido com a pergunta. – Sento-me na cadeira, fumo um charuto e fico a olhar para o mar.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;font-style:italic;color:#666600;">– Então faça isso mesmo – respondeu-lhe Teresa. – Faça de conta que eu não estou cá. Não se preocupe, quando voltar para dentro ainda me vai encontrar: não me vou embora sem a sua permissão.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;font-style:italic;color:#666600;">Este era o início mais estranho que Gustavo alguma vez tinha visto par um encontro sexual; mas um certo sentido da novidade e da aventura levou-o a entrar no jogo. Afastou para o lado a cortina que separava o quarto da varanda, abriu a porta de correr, e ia a pegar na caixa dos charutos quando a voz de Teresa o deteve:</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;font-style:italic;color:#666600;">– Espere. Eu levo-lhe os charutos.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;font-style:italic;color:#666600;">Que fazer senão obedecer? Era claro para Gustavo que tudo isto era um jogo, do qual Teresa conhecia as regras e ele não. Saiu para a varanda, sentou-se na cadeira de plástico branco, puxou para mais perto a mesa do mesmo material e esperou. Passado uns segundos apareceu a jovem, trazendo consigo não só a caixa de charutos, mas também o isqueiro e o aparelhinho de desenroscar que ele usava para cortar as pontas. Agachada ao lado dele, Teresa procedeu calmamente a esta operação, acendeu o charuto rodando-o entre os dedos, tirou a primeira baforada e ofereceu-lho. Seria claro para quem a estivesse a ver que não era a primeira vez que ela prestava a alguém este serviço. Depois, sem falar, retirou-se para o quarto, correu a cortina e a porta de vidro, e não voltou a dar mais sinal de si que não fosse algum ruído ocasional e ténue.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;font-style:italic;color:#666600;">Sozinho na varanda, Gustavo esforçou-se por imaginar que estava igualmente sozinho em todo o aposento, e que lá dentro ao pé da cama não se encontrava, à sua espera, uma mulher jovem e atraente, a primeira com quem tinha um encontro íntimo desde havia meses. E de certo modo teve êxito nesta imaginação: durante os quarenta e cinco minutos que um charuto daquele tamanho e consistência demorava a fumar – tempo este que ele precisou de toda a sua auto-disciplina para não encurtar com baforadas nervosas – o pátio sob a varanda foi-se esvaziando de gente, o calor que um dia de sol tinha acumulado nos ladrilhos foi-se dissipando, e a presença silenciosa de Teresa no interior do quarto foi adquirindo quase a imponderabilidade de um sonho.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;font-style:italic;color:#666600;">E foi um cenário de sonho, aquele com que Gustavo se deparou quando entrou de novo no quarto: a luz eléctrica apagada; velas acesas, perfumadas, dispostas em todos os lugares possíveis e nalguns que ele nunca imaginaria; taças com pétalas de flores; no toucador, na secretária, nas mesinhas de cabeceira, pratinhos minúsculos com tâmaras e amêndoas; e na cama, coberta por um fino lençol que não lhe velava a nudez, os cabelos escuros espalhados sobre o travesseiro, estava Teresa.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;font-style:italic;color:#666600;">Estes preparativos tão elaborados falaram bem alto, como era intencional e óbvio, à sensualidade de Gustavo; mas antes disso, por uma fracção de segundo, falaram-lhe também ao entendimento. E o que lhe murmuraram foi que o que lhe estava a ser proposto era algo mais do que uma aventura de férias: agora competia-lhe a ele, pela maneira como agisse nos segundos e nos minutos seguintes, aceitar ou não esta proposta.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;font-style:italic;color:#666600;">E foi isto que Gustavo fez: como a cama era baixa, precisou de pôr um joelho no chão para se inclinar sobre Teresa; nesta posição, beijou-lhe cerimoniosamente a testa, os olhos e a boca; em vez de a destapar, ajeitou-lhe o lençol sobre o corpo, como se fosse para lhe desejar boa noite; e por fim, aproximando a boca do ouvido dela, murmurou-lhe:</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;font-style:italic;color:#666600;">– Teresa, ainda não sei muito bem quem tu és, nem o que és; nem sei muito bem o que é que me estás a dar neste momento, só sei que é alguma coisa de muito importante; mas declaro aqui que seja o que for, aceito. Sejam as consequências quais forem, aceito.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;font-style:italic;color:#666600;">Teresa tirou os braços de sob os lençóis para lhos lançar ao pescoço, e assim se beijaram durante um longo minuto. Então Gustavo levantou-se, entrou na casa de banho para lavar da boca o cheiro do charuto, despiu-se completamente e voltou para junto de Teresa, deitando-se ao lado dela debaixo dos lençóis. Abraçado a ela, sentiu que o sexo se lhe intumescia. Ela também o sentiu, porque comprimiu contra ele o ventre macio.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;font-style:italic;color:#666600;">– Teresa…</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;font-style:italic;color:#666600;">– Estou aqui, Gustavo. Juntinha a si. Pronta para si. O que quer fazer comigo?</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;font-style:italic;color:#666600;">– Tudo, minha querida. Tudo. E tu? O que queres fazer comigo?</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;font-style:italic;color:#666600;">– Eu? Não pense nisso. Nunca pense nisso. Eu não tenho importância. Já me deu tudo o que eu queria quando me disse “aceito”… Agora trata-se do que o senhor quiser.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;font-style:italic;color:#666600;">Gustavo, já excitado, sentiu uma excitação diferente e muito mais intensa ao ouvir estas palavras. Não se tratava só de excitação física, porque logo o primeiro contacto com o corpo nu de Teresa lhe tinha provocado uma erecção que quase lhe doía, de tão rija e tão túrgida. Nem só de desejo, porque esse era desde antes quase irresistível; era, sim, uma carga de energia, uma sensação de que tudo era possível agora e sempre. Quase se sentia capaz de flutuar no ar, se quisesse, por pura força de vontade, e a partir do ar penetrar, como um anjo, a carne feminina que se abria abaixo dele para o receber.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;font-style:italic;color:#666600;">Afastou para o lado o lençol que lhes cobria os corpos, e pela primeira vez viu Teresa nua. Já lhe tinha notado, pelo balancear das saias rodadas, a largura das ancas; via agora que esta largura lhe vinha, não de qualquer gordura a mais, mas da estrutura óssea e da musculatura vigorosa. A cinta estreita mas bem musculada, os braços roliços mas firmes, o ar de flexibilidade, suavidade e força que emanava dela toda, tudo isto apontava para o mesmo:</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;font-style:italic;color:#666600;">– Fazes dança do ventre?</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;font-style:italic;color:#666600;">– Sim, há alguns anos. Mas não sou profissional, apenas uma amadora razoável. Hei-de dançar para si… Quer?</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;font-style:italic;color:#666600;">Gustavo não respondeu. Estranhamente, apesar de toda a sua excitação, não tinha pressa: era como se a energia de que se sentia repassado fosse inesgotável e eterna. Pôs-se a examinar e a sopesar os seios de Teresa, que numa dançarina profissional seriam talvez um pouco grandes demais, mas nela eram perfeitos.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;font-style:italic;color:#666600;">Teresa, docilmente, punha-se a jeito para todos os toques, sem deixar de o acariciar com as mãos ávidas.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;font-style:italic;color:#666600;">– Agrado-lhe? Quero tanto agradar-lhe…</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;font-style:italic;color:#666600;">Gustavo voltou a não responder. Esta pergunta era daquelas a que se responde sempre sim, seja esta resposta verdade ou mentira; e este sim seria uma daquelas respostas em que nenhuma mulher acredita, por verdadeira que seja.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;font-style:italic;color:#666600;">– Vira-te de barriga para baixo – ordenou.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;font-style:italic;color:#666600;">Teresa obedeceu sem hesitar. Seria intenção dele possuí-la pela abertura de trás? Se fosse, ela ficaria contente por ser assim possuída; mas não, tudo o que ele queria era continuar o exame minucioso a que a estava a sujeitar. As costas, como o resto do corpo, eram as duma dançarina; as nádegas, as duma Vénus Calipígia. Correu-lhe as mãos pela nuca, afastando para os lados o cabelo. Poucas partes do corpo, como a nuca, fazem duma mulher mais mulher. Mesmo nas feias a nuca costuma ser linda; e esta era bela da cabeça aos pés. A carícia que Gustavo lhe fez nas costas foi quase uma massagem; e ela, impedida de retribuir pela posição em que estava, começou a arquear-se e a ronronar como uma gata, toda entregue à mão que a afagava.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;font-style:italic;color:#666600;">Nas nádegas a carícia foi diferente: ora uma passagem leve da mão, ora uma leve palmada para ver como oscilavam e tremiam. Teresa gemeu:</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;font-style:italic;color:#666600;">– Se o senhor quiser pode bater com mais força…</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;font-style:italic;color:#666600;">Gustavo achou suficiente bater apenas com a força necessária para lhe ver a pele enrubescer. Mas à luz quente das velas a mudança de cor mal se notava: noutra ocasião, à luz do dia… Continuou a examiná-la: a parte de trás das coxas, a dobra do joelho, que beijou, os calcanhares redondos e macios: como podia uma mulher que tanto andava descalça ter uns pés assim cuidados? Pedra-pomes diária, sem dúvida, cremes emolientes, pedicura frequente…</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;font-style:italic;color:#666600;">– Vira-te outra vez – ordenou.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;font-style:italic;color:#666600;">E quando ela se pôs de novo de barriga para cima:</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;font-style:italic;color:#666600;">– Abre as pernas.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;font-style:italic;color:#666600;">Gustavo ainda não sabia que, para Teresa, a ordem seca de abrir as pernas era mais excitante que longos minutos de preliminares e carícias. Procurou-lhe, com o pénis rígido, a abertura do sexo, e encontrou-a suficientemente molhada para se poder enterrar nela logo naquele momento, num movimento súbito. Mas não o fez: decidiu atormentá-la, mesmo que para tal tivesse também que se atormentar a si próprio. Por vezes fazia menção de a penetrar, chegava a entrar nela um pouco, para logo recuar e recomeçar a série infindável de beijos que lhe ia dando na boca, nos seios, na zona lateral do tórax, onde se conhecem as costelas… ou então percorria-lhe lentamente, com a ponta do membro, todo o rego entre o clítoris e a abertura anal, resistindo à tentação de entrar nela sempre que lhe passava entre os lábios vaginais.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;font-style:italic;color:#666600;">Teresa nada ousava pedir, muito menos exigir. O desejo dela, via-o ele bem no modo como escarranchava as coxas e o abraçava com as pernas, tentando puxá-lo para dentro – para logo as fechar um pouco, a uma ordem dele, até ficarem no ângulo que ele queria. Ou na súplica das mãos que lhe palpavam o rosto, como as dum mendigo o de um santo, tentando descortinar uma promessa na posição dos lábios ou do queixo. Ou nos gemidos inarticulados, ou no arquear ansioso do corpo ao encontro do dele.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;font-style:italic;color:#666600;">Penetrou-a por fim até ao fundo, num movimento lento, a que se seguiram outros igualmente lentos em que entrava nela e saía dela completamente. Era isto que ela queria. Era isto que ela não queria. Era este o seu prazer. Era esta a sua tortura. Oh, poder ela ser trespassada de vez, como a santa sua homónima pela lança do anjo, que lhe arrancava as entranhas!</p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:27pt;font-style:italic;color:#666600;">Mas por fim Gustavo tinha tão pouco poder para se recusar à energia que o impelia como Teresa para a convocar; e o pénis dele tornou-se, sim, em lança de fogo, e trespassou-a, sim, até às entranhas, e fê-la morrer, sim, uma, duas, várias mortes. Gustavo viu-a fechar os olhos, abrir a boca num “O” perfeito, exalar, como quem exala a vida, o prazer último e completo. E quando ele próprio se esgotou nela sentiu ainda, no mais fundo de si, o reservatório inesgotável de virilidade que as palavras dela lhe tinham dado a conhecer.</p>
</div>]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[Acta]]></title>
<link>http://omarkhayyam2.wordpress.com/2008/06/03/acta/</link>
<pubDate>Tue, 03 Jun 2008 15:10:42 +0000</pubDate>
<dc:creator>Vanderdecken</dc:creator>
<guid>http://omarkhayyam2.wordpress.com/2008/06/03/acta/</guid>
<description><![CDATA[As condições da tua Escravidão Pediste-Me que estabelecesse expressamente e por escrito as condições]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><p class="MsoNormal" style="text-indent:-.25in;margin:0 0 3pt 27pt;">
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:3pt;text-align:center;color:#000099;" align="center"><em><span><img class="aligncenter size-full wp-image-699" title="close_collar" src="http://omarkhayyam2.wordpress.com/files/2008/06/close_collar.jpg" alt="close_collar" width="500" height="303" />As condições da tua Escravidão</span></em></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:3pt;color:#000099;"><em><span>Pediste-Me que estabelecesse expressamente e por escrito as condições da tua Escravidão. Eis o que decidi:</span></em></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:-.25in;color:#000099;margin:0 0 3pt .25in;"><!--[if !supportLists]--><em><span><span>1.<span> </span></span></span></em><!--[endif]--><em><span><span> </span>Em princípio a tua Escravidão já é perfeita e não há nada a alterar n’Ela. Mesmo ao direito de deixar de ser escrava, que era o único que tinhas, quiseste renunciar. Cabe-te agora Amar, Servir, Obedecer e Sofrer enquanto tu e Eu formos vivos.</span></em></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:-.25in;color:#000099;margin:0 0 3pt .25in;"><!--[if !supportLists]--><em><span><span>2.<span> </span></span></span></em><!--[endif]--><em><span><span> </span>Na prática, contudo, ainda há muito que aperfeiçoar. Porque não te empenhas o suficiente; porque Me deixas em exclusivo o cuidado de te fazer escrava e não partilhas esse esforço, ainda há muitos dias em que não és mais escrava do que no anterior. Faltas assim ao teu dever e ao teu compromisso para coMigo.</span></em></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:-.25in;color:#000099;margin:0 0 3pt .25in;"><!--[if !supportLists]--><em><span><span>3.<span> </span></span></span></em><!--[endif]--><em><span><span> </span>Por vezes és insolente. Por vezes chegas a ser exigente. O teu corpo nem sempre obedece ao teu espírito. O teu Senhor compreende isto e não to leva a mal, mas precisamente porque compreendo é que exigirei de ti cada vez mais.</span></em></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:-.25in;color:#000099;margin:0 0 3pt .25in;"><!--[if !supportLists]--><em><span><span>4.<span> </span></span></span></em><!--[endif]--><em><span><span> </span>És escrava no teu espírito, que consente; és escrava no teu coração, que ama; és escrava no teu corpo, quando goza; mas ainda não aprendeste a ser cabalmente escrava no teu corpo, quando sofre.</span></em></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:-.25in;color:#000099;margin:0 0 3pt .25in;"><!--[if !supportLists]--><em><span><span>5.<span> </span></span></span></em><!--[endif]--><em><span><span> </span>Sei que não és masoquista e que a dor física não te dá prazer. Prefiro que assim seja: quando te provoco dor é para te castigar e não para te recompensar; ou então é para Meu prazer e não para o teu.</span></em></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:-.25in;color:#000099;margin:0 0 3pt .25in;"><!--[if !supportLists]--><em><span><span>6.<span> </span></span></span></em><!--[endif]--><em><span><span> </span>Quando aceitas com submissão a dor que te provoco, sei que estás a sofrer por Mim, e não para teu próprio gozo. É uma dádiva que Me fazes, e Eu tenho perfeita consciência de quão grande ela é.</span></em></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:-.25in;color:#000099;margin:0 0 3pt .25in;"><!--[if !supportLists]--><em><span><span>7.<span> </span></span></span></em><!--[endif]--><em><span><span> </span>Quando te castigo fisicamente estou a ser generoso. O castigo físico é o menos cruel dos castigos: faz sofrer naquele momento, mas rapidamente termina; as marcas que deixa são no corpo e duram pouco.</span></em></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:-.25in;color:#000099;margin:0 0 3pt .25in;"><!--[if !supportLists]--><em><span><span>8.<span> </span></span></span></em><!--[endif]--><em><span><span> </span>Por vezes tentas esquivar-te quando és castigada: é o teu corpo a desobedecer ao teu espírito. Isto é indigno de ti e do compromisso que assumiste coMigo. Como esperas obedecer</span></em><em><span> ao teu Senhor</span></em><em><span> se nem a ti mesma obedeces?</span></em></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:-.25in;color:#000099;margin:0 0 3pt .25in;"><!--[if !supportLists]--><em><span><span>9.<span> </span></span></span></em><!--[endif]--><em><span><span> </span>Quando te deixas amarrar tenho bem consciência do quanto estás a confiar em Mim. É essa confiança que exijo de ti: sei que não sou mau nem estúpido, que me sei controlar, e não te castigarei mais do que mereces e podes suportar.</span></em></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:-.25in;color:#000099;margin:0 0 3pt .25in;"><!--[if !supportLists]--><em><span><span>10.<span> </span></span></span></em><!--[endif]--><em><span><span> </span>Mas também não te castigarei menos do que mereceres e puderes suportar.</span></em></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:-.25in;color:#000099;margin:0 0 3pt .25in;"><!--[if !supportLists]--><em><span><span>11.<span> </span></span></span></em><!--[endif]--><em><span><span> </span>O teu Senhor sabe bem o quanto necessitas de ser amada. Mas não te permite que digas &#8220;quero ser amada&#8221;, porque nem nisso tens querer. O amor duma escrava aceita</span></em><em><span> com gratidão</span></em><em><span> a sua contrapartida, mas nunca a exige.</span></em></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:-.25in;color:#000099;margin:0 0 3pt .25in;"><!--[if !supportLists]--><em><span><span>12.<span> </span></span></span></em><!--[endif]--><em><span><span> </span>O mais que podes pedir, quando estás perdida de amor e necessitas absolutamente da atenção do teu Dono, é que Ele te possua. E Eu possuir-te-ei ou não, como entender, e permitir-te-ei ou não que tenhas prazer; e tu ficarás feliz porque é assim que deve ser.</span></em></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:-.25in;color:#000099;margin:0 0 3pt .25in;"><!--[if !supportLists]--><em><span><span>13.<span> </span></span></span></em><!--[endif]--><em><span><span> </span>Entre ser amada explicitamente e ser possuída vai uma enorme ausência repleta de Sofrimento. Por isso te chamo, com inteira propriedade, a Minha &#8220;escrava sofredora&#8221;, o que quer dizer que Me deves amar como se Eu não te amasse. </span></em></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:-.25in;color:#000099;margin:0 0 3pt .25in;"><!--[if !supportLists]--><em><span><span>14.<span> </span></span></span></em><!--[endif]--><em><span><span> </span>Se Eu te amo, raramente to direi, ou nunca. Preencherás tu própria este silêncio, dizendo-Me vezes sem conta, sem mentir nem ocultar seja o que for, tudo o que sentes por Mim: desde o amor até à raiva, desde a gratidão ao ressentimento. Apresentar-te-ás perante Mim tão nua de alma e sentimentos como de corpo. Permitirei assim que mitigues o Sofrimento que o Meu silêncio te possa provocar.</span></em></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:-.25in;color:#000099;margin:0 0 3pt .25in;"><!--[if !supportLists]--><em><span><span>15.<span> </span></span></span></em><!--[endif]--><em><span><span> </span>Também te imponho, frequentemente, o silêncio. Quero que estas ocasiões sejam para ti a oportunidade de dizeres sem palavras o que muitas vezes não pode ser dito através delas.</span></em></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:-.25in;color:#000099;margin:0 0 3pt .25in;"><!--[if !supportLists]--><em><span><span>16.<span> </span></span></span></em><!--[endif]--><em><span><span> </span>Às vezes ousas lembrar-Me que tens sentimentos. Eu sei que os tens, mas quero que manifestes os que exprimem a tua Escravidão antes de manifestares os outros.</span></em></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:-.25in;color:#000099;margin:0 0 3pt .25in;"><!--[if !supportLists]--><em><span><span>17.<span> </span></span></span></em><!--[endif]--><em><span><span> </span>Quando o Eu te perguntar se gostarias de alguma coisa, a tua resposta tenderá a ser &#8220;sim, se Tu mo ordenares&#8221;.</span></em></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:-.25in;color:#000099;margin:0 0 3pt .25in;"><!--[if !supportLists]--><em><span><span>18.<span> </span></span></span></em><!--[endif]--><em><span><span> </span>A tua Escravidão não é um jogo, nem uma brincadeira, nem uma fantasia, nem um teatro: é a tua condição de vida, a tua realidade assumida.</span></em></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:-.25in;color:#000099;margin:0 0 3pt .25in;"><!--[if !supportLists]--><em><span><span>19.<span> </span></span></span></em><!--[endif]--><em><span><span> </span>Quero que sejas feliz na tua Escravidão: obedece-Me também nisto. Não representes o papel de escrava: sê escrava. </span></em></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:-.25in;color:#000099;margin:0 0 3pt .25in;"><!--[if !supportLists]--><em><span><span>20.<span> </span></span></span></em><!--[endif]--><em><span><span> </span>Junto do teu Senhor estás em terreno sagrado: em Minha casa e no Meu automóvel estarás sempre descalça, esteja Eu presente ou não. Também estarás descalça em tua casa sempre que Eu estiver presente.</span></em></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:-.25in;color:#000099;margin:0 0 3pt .25in;"><!--[if !supportLists]--><em><span><span>21.<span> </span></span></span></em><!--[endif]--><em><span><span> </span>Na rua e noutros lugares ficarás descalça sempre que Eu to ordene, porque os teus pés nus são a Coleira de escrava que determinei para ti. Se a obediência a esta ordem te causar por vezes embaraço, humilhação ou vergonha, e se estes sentimentos te fizerem sofrer, aceitarás este Sofrimento de bom grado porque te vem de Mim.</span></em></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:0;color:#ffffff;margin:0;">&#8230;</p>
<p><span style="font-size:78%;"><span style="color:#663366;">(Nota: este texto é pura ficção, embora se modele num documento que a minha dunya me dirigiu há alguns anos. O carácter ficcional vem-lhe das alterações que lhe introduzi, desde logo a transformação de um texto em que a escrava se dirigia ao Senhor noutro em que o Senhor se dirige à escrava. Também aparecem nele mencionados sentimentos meus que na altura não manifestei; se eu algum dia, por algum improvável acaso, voltar a ter uma escrava a quem ame, não voltarei a cometer o erro de não o referir. E é ficcional, finalmente, porque o compromisso para toda a vida referido no original acabou por não se realizar.)</span></span></p>
</div>]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[A MERCADORA DE ESCRAVAS (Romance de M’Ahmed ben Chérif Effendi)]]></title>
<link>http://omarkhayyam2.wordpress.com/2008/05/25/a-mercadora-de-escravas-romance/</link>
<pubDate>Sun, 25 May 2008 22:47:46 +0000</pubDate>
<dc:creator>Vanderdecken</dc:creator>
<guid>http://omarkhayyam2.wordpress.com/2008/05/25/a-mercadora-de-escravas-romance/</guid>
<description><![CDATA[Capítulo 2 Depois desta descrição longa mas necessária chegamos finalmente à história da chegada e e]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><p><a name="1123596255531879344"></a></p>
<div class="post-body entry-content">
<div style="text-align:center;"><span style="font-weight:bold;color:#663300;">Capítulo 2</span></div>
<p><span style="font-weight:bold;color:#663300;"><br />
</span></p>
<div style="text-align:center;"><a href="http://bp3.blogger.com/_UEfhPJXHLPM/SB9WtlZU_xI/AAAAAAAAAX0/rhISYBlmP48/s1600-h/re6IMG_9363d.JPG"><img style="cursor:pointer;margin:0 10px 10px 0;" src="http://bp3.blogger.com/_UEfhPJXHLPM/SB9WtlZU_xI/AAAAAAAAAX0/rhISYBlmP48/s400/re6IMG_9363d.JPG" border="0" alt="" /></a></div>
<p class="MsoNormal" style="color:#663300;">
<p class="MsoNormal" style="color:#663300;">
<p class="MsoNormal" style="color:#663300;">Depois desta descrição longa mas necessária chegamos finalmente à história da chegada e estadia do Príncipe Hassan-Khan. O Príncipe veio a casa de Manoubia para comprar uma esposa: a bela Djamila, pérola das pérolas, uma íntima amiga de infância da irmã dele, Kora. Djamila e Hassan já estavam apaixonados, já que a irmã lhe tinha contado da linda escrava, que depois veio a conversar frequentemente com ele na companhia da sua amiga Kora. Como Djamila tinha passado bastante tempo no palácio do Príncipe, tinha podido conhecer os seus futuros sogros e afeiçoar-se a eles; e no que a estes diz respeito, chegaram a endeusar a encantadora jovem. É portanto um amor puro aquele que atrai os dois jovens, misturado sem dúvida com aquele poderoso desejo sensual que só os orientais possuem em grau tão elevado.</p>
<p class="MsoNormal" style="color:#663300;">
<p class="MsoNormal" style="color:#663300;">
<p class="MsoNormal" style="color:#663300;">O Khan, que tipificava o homem circassiano em toda a sua beleza, tinha uma figura em que a força se combinava com a flexibilidade, o lado sombrio com um garbo encantador. Tinha na verdade a força do tigre e a agilidade da pantera. A sua testa larga e lisa prolongava-se num nariz recto, enquanto os olhos cinzentos como o aço exprimiam, ora uma ternura infinita, ora uma fria crueldade. Envolto no seu caftan negro bordado a prata, com o gorro de astracã enterrado na cabeça até ao meio da testa, sapatos de couro amarelado, tinha um aspecto verdadeiramente belo e majestoso. E quando entrou, montado num nobre cavalo, em casa de Manoubia, houve sem dúvida muitos lindos olhos, escondidos por véus orientais, virados com amor e desejo na direcção deste elegante cavaleiro.</p>
<p class="MsoNormal" style="color:#663300;">Hassan deixou os soldados da sua escolta a uma certa distância, apeou-se do cavalo cujas rédeas entregou a um servidor, e aproximou-se a pé do portal do palácio. A sua chegada já tinha sido anunciada, pois quando chegou aos pesados portões estes abriram-se e um serviçal apressou-se ao encontro do Príncipe para o aliviar do leve saco de viagem. Hassan tinha naturalmente a intenção de se restabelecer com um banho, depois de descansar algumas horas, dos esforços da longa cavalgada; e para este fim tinha trazido alguns artigos de higiene.</p>
<p class="MsoNormal" style="color:#663300;">Depois de atravessar a porta, encontrou-se num pátio revestido a mármore e rodeado por uma galeria gótica de colunas a que os arcos, duma irregularidade genuinamente árabe, davam uma impressão de movimento sem que por isso perdessem uma certa graciosidade. E nestas horas do crepúsculo, durante as quais os últimos raios ardentes do dia se perdem no infinito horizonte violáceo que se estende sob o firmamento como um oceano, a vista era com efeito magnífica. Entre as colunas, que a intervalos eram interrompidas por balaustradas semi-circulares, pendiam lâmpadas de ouro de correntes de prata; no meio encontrava-se uma fonte em mosaico, de cuja figura principal, que consistia num grupo de três leões, caía uma água fresca e clara. E as lágrimas destes leões, que talvez chorassem pelas suas belas fêmeas, corriam para um reservatório em que se reflectia a floresta de colunas e os arcos recortados da galeria circundante.</p>
<p class="MsoNormal" style="color:#663300;">Este pátio, a única parte do palácio original que permanecia inalterada, conservava a pura beleza do estilo oriental em todo o seu esplendor e simplicidade; tinha sido construída quando o Grande Mogul ainda residia em Djeli. E nas imediações uma inaudita acumulação de toda a sorte de verdura completava a impressão tão exótica como imponente suscitada por esta residência principesca em quem ainda mal lá tinha entrado…</p>
<p class="MsoNormal" style="color:#663300;">Manoubia estava à espera do seu visitante. Tinha posto de parte a sua habitual distância majestática para receber o seu hóspede real com a maior amabilidade. Entregou-o com grande dignidade aos cuidados de dois enormes negros com cerca de dois metros de estatura a quem encarregou de conduzir o Príncipe. Estes negros, vestidos de veludo vermelho e verde, assemelhavam-se a dois titãs que tivessem perdido o caminho da ilha de Cítera com os seus ornamentos de festa.</p>
<p class="MsoNormal" style="color:#663300;">Logo apareceu também o administrador da casa, o genro de Manoubia, que endereçou ao Khan estas palavras:</p>
<p class="MsoNormal" style="color:#663300;">– Poderoso Senhor! Allah abençoou a nossa casa ao permitir que os teus indignos servos te recebam por um momento – a ti, o grande Hassan-Khan, o Senhor tão amado como temido! Bendita seja a areia calcada pelo teu augusto pé! Que as flores em que descanse o teu olhar misericordioso nunca mais murchem! Que a fonte murmurante que ouvires nunca mais cesse de celebrar esse dia ditoso! Poderoso Senhor! Esta casa é tua, e nós, os teus servos insignificantes, esperamos com respeito as tuas ordens.</p>
<p class="MsoNormal" style="color:#663300;">O Khan agradeceu com um sorriso e prosseguiu o seu caminho para o pavilhão do meio. Ao chegar ao limiar a porta abriu-se, como que movida por uma força sobrenatural; o Príncipe deu alguns passos para dentro e encontrou-se num enorme vestíbulo, uma espécie de grande salão cujas paredes estavam ornadas com pinturas e tapeçarias artísticas de valor inestimável; os pés afundavam-se nos tapetes macios; sofás estofados a seda rodeavam a sala; banquinhos de pau-rosa, embutidos com madrepérola, espalhavam-se aqui e ali numa aparente desordem.</p>
<p class="MsoNormal" style="color:#663300;">De cada lado da porta estavam de pé dois rapazinhos, dois jovens Adónis, com bochechas coradas, o denso cabelo preto caindo aos caracóis. As bocas eram como cerejas, os dentes eram, nas palavras do poeta, “uma gota de leite numa rosa”. Estavam ambos ataviados com calções de seda azuis apertados sob os joelhos por bandas elásticas. As pernas roliças e carnudas estavam nuas. Traziam além disso camisas da mais fina cambraia, através das quais lhes reluzia a fresca pele do peito. Boleros escarlates cobriam-lhes as costas e as mangas arregaçadas deixavam ver os braços brancos e roliços. Uns chapelinhos árabes assentavam-lhes meio de esguelha na cabeça e as longas borlas caiam-lhes sobre os ombros.</p>
<p class="MsoNormal" style="color:#663300;">Enquanto o Khan admirava este quadro encantador, abriu-se lentamente no fundo da sala uma porta, e uma aparição, maravilhosa como um sonho, tornou-se visível. Era a bela Zima, neta de Manoubia, com cerca de vinte e dois anos de idade e duma beleza verdadeiramente invulgar. Poderíamos dar-lhe o nome de uma antiga Bacante ao vê-la assim no seu quimono japonês com ramos de roseira bordados. Dois solitários sumptuosos pendiam-lhe das pequenas orelhas rosadas, e uma fileira de diamantes rodeava-lhe a orgulhosa garganta alabastrina.</p>
<p class="MsoNormal" style="color:#663300;">O Khan tinha-se virado ao ouvir o fru-fru da seda e ficou imóvel e encantado perante esta bela aparição.</p>
<p class="MsoNormal" style="color:#663300;">Subitamente, com um movimento gracioso, Zima deixou escorregar para o chão o seu quimono e ficou de pé em todo o esplendor da sua carne nua. Ficou assim, por um momento, nesta pose encantadora e natural. Deixou que os olhos coruscantes do Príncipe lhe percorressem todo o corpo; e então deu três passos em frente, ajoelhou-se-lhe aos pés e beijou-lhe cheia de respeito as pontas dos sapatos. Achando que para exprimir todo o seu respeito não era suficiente ajoelhar-se perante o Khan, estendeu-se toda no chão sobre a barriga, abraçou os tornozelos do Príncipe e cobriu-os de beijos. Este curvou-se e fez deslizar suavemente as mãos sobre todo o corpo da jovem mulher. Experimentou um prazer infinito em beliscar e acariciar esta carne branca e firme, e a cada carícia sentia o corpo divino dela ser percorrido por um tremor lascivo.</p>
<p class="MsoNormal" style="color:#663300;">Também Hassan começou a dar mostras duma viva excitação. O seu membro ergueu-se por baixo das calças de montar e nos cantos dos lábios apareceu-lhe uma espuma esbranquiçada.</p>
<p class="MsoNormal" style="color:#663300;">Finalmente a jovem ergueu-se até ficar de joelhos e o Príncipe, galante, pegou-lhe pelos seios e obrigou-a assim a pôr-se de pé. Por um momento ainda permaneceu ela assim, imóvel sob aquele olhar masculino brilhante de desejo; então Hassan deu um passo para ela, apertou-a contra o peito e disse-lhe baixinho:</p>
<p class="MsoNormal" style="color:#663300;">– Quero, querida Zima, receber de ti o primeiro beijo que me for dado nesta casa.</p>
<p class="MsoNormal" style="color:#663300;">Com modo insinuante ela toma-o pela mão, condu-lo com delicadeza a um sofá e faz com que ele se sente. Ajoelha-se diante dele e abre-lhe as calças com cuidado e perícia. Depois de pôr assim a nu o sexo do Príncipe, segura-lhe o membro, sem lhe tocar com as mãos, com a boca e com a língua e mantém-no um momento comprimido entre os lábios: sente como ele fica cada vez mais erecto e como lhe bate contra o céu da boca.</p>
<p class="MsoNormal" style="color:#663300;">Recua para melhor recomeçar. Inclina o seu lindo, pálido rosto sobre esta vara rígida e avermelhada, comprime-a com as maçãs do rosto contra o ventre do homem e deixa-a percorrer todo o seu rosto. Sucede-se agora sem interrupção uma série das mais deliciosas carícias. Tão depressa introduz no sovaco o membro completamente erecto como o comprime com as mãos contra a maciez da barriga e das coxas, como ainda o envolve no seu exuberante cabelo castanho. Finalmente despe-lhe completamente as calças e senta-se com pequenos gritos fervorosos e suspiros contidos no colo do seu amante.</p>
<p class="MsoNormal" style="color:#663300;">– Estou contente contigo, Zima – disse ele. – Deita-te agora neste lugar onde já vais servir o meu desejo, e diz-me como te queres entregar a mim. Diz-me que alegria vais experimentar quando eu penetrar o teu corpo esbelto e doce. Diz-me que sensação vais ter quando a prova do meu amor inundar as tuas entranhas. Diz-me também que espécie de abraço preferes, para que no momento do clímax possamos ambos experimentar a mais alta felicidade.</p>
<p class="MsoNormal" style="color:#663300;">– Poderoso Senhor, – respondeu ela. – Eu não passo da tua escrava, o meu corpo pertence-te, farás com ele o que os teus desejos exigirem, e eu hei-de sofrê-lo, o meu amor por ti só aumentará com isso. Se me penetrares, Poderoso Senhor, ficarei feliz, porque és belo, és como eu te sonhei, o teu membro viril é imponente e atrai na sua direcção todo o meu corpo. Que o nosso abraço dure até à minha morte, de modo a que a prova do teu amor me avassale até à derradeira paixão! Poderoso Senhor, sou a tua escrava!</p>
<p class="MsoNormal" style="color:#663300;">Com um olhar ordena a um dos dois rapazes presentes que traga uma cadeia de ouro e manda-o prender-lhe os pulsos nas costas, como sinal de submissão ao seu Senhor. Este ergue-lhe gentilmente as pernas e ata-lhe os tornozelos com a ajuda duma fita de seda. Então introduz-lhe o membro entre as barrigas das pernas, que Zima se põe imediatamente a mexer para trás e para diante. Então ele começa a subir pelo corpo dela acima, tão devagar que mal se nota, até lhe chegar ao ventre com a ponta do pénis. Mais uma vez começa a passear a glande dura e vermelha pelo corpo branco da sua escrava, aconchega-a entre os dois seios macios, acaricia-lhe com ela os lábios húmidos, envolve-lha no cabelo. A uma ordem sua os rapazes libertam os rapazes os braços e as pernas de Zima dos seus grilhões, abrem-lhe ligeiramente as coxas e erguem-lhe os joelhos até ficarem encostados ao corpo. Zima espera nesta posição, completamente imóvel, o ataque vitorioso do seu Senhor; mas este não se apressa e oferece a visão do seu falo erecto aos dois rapazes, que observam com curiosidade este monstro que tanto se avantaja em tamanho às suas pilas. Quando Zima se apercebe disto, ordena a um, de seu nome Achmed, que segure na mão o objecto da sua curiosidade. O rapaz obedece imediatamente, mas mal toca o membro do Khan este dá um rugido e lança-se sobre a mulher como uma fera sobre a presa.</p>
<p class="MsoNormal" style="color:#663300;">Mas apesar deste movimento brusco Achmed não largou o membro, e aproveita para o apontar ao lugar certo, puxando para trás o prepúcio e afastando os pelos púbicos de Zima, que se tinham atravessado parcialmente sobre a entrada. O rapaz parece encontrar um grande prazer neste jogo, e o par permite-lhe que se entregue a ele, tolerando a lentidão intencional com que o faz. O calção de Achmed avoluma-se visivelmente no lugar do membro viril!</p>
<p class="MsoNormal" style="color:#663300;">Finalmente, no paroxismo da ânsia, o Príncipe introduz-se completamente, com um poderoso movimento das ancas, arrancando à sua escrava um grito de dor. Sem domínio sobre si próprio, morde-a nos ombros, e uma gota de sangue aparece como uma pérola sobre a neve da pele. Puxa o pau completamente para fora para imediatamente o introduzir de novo até ao fundo, enquanto ela executa com o ventre movimentos rotativos que aumentam ainda mais o desejo dos dois. Com a sua rija lança acaricia-lhe repetidamente o clitóris, ora por trás, ora pelos lados. Os seus corpos estão unidos, entrelaçados, pressionados um contra o outro e já constituem um só corpo. Os seus movimentos, apesar de desenfreados, mostram-se cheios de ritmo e harmonia. Ele abraça com as coxas as da escrava e arranha-lhe a pele com as unhas. Os lábios de um estão colados aos do outro e Zima suga com paixão a língua e a respiração do seu Senhor. Ele torna-se brutal, e ela, a escrava, permanece dócil e paciente.</p>
<p class="MsoNormal" style="color:#663300;">– Chega o rosto ao meu! – ordena ele – e não te mexas!</p>
<p class="MsoNormal" style="color:#663300;">Ou então:</p>
<p class="MsoNormal" style="color:#663300;">– Agora descanso eu, trabalha tu! Faz com que eu me venha, ou és chicoteada!</p>
<p class="MsoNormal" style="color:#663300;">E ela começa a trabalhar enquanto ele se mantém imóvel sobre ela; movimenta a parte inferior do corpo para a frente, para trás e em círculos, e acaricia-lhe a ponta do membro com os lábios da vulva: uma arte que poucas mulheres dominam.</p>
<p class="MsoNormal" style="color:#663300;">Subitamente os músculos dele contraem-se como por efeito de uma cãibra; ele entrelaça-se nela ainda mais apertado e aperta num derradeiro beijo os lábios contra o belo pescoço da mulher.</p>
<p class="MsoNormal" style="color:#663300;">Ela sente o membro dele a engrossar dentro dela – e sente o corpo inundado… Finalmente os nervos dele cedem e ele cai pesadamente sobre ela, onde descansa por algum tempo.</p>
<p class="MsoNormal" style="color:#663300;">Durante todo o tempo que durou este abraço quatro jovens negras vestidas de cambraia vermelha, verde e amarela, que tinham entrado despercebidas na sala, abanaram grandes leques sobre eles para impedir uma transpiração exagerada. E sobre um tamborete, numa taça de defumar, ardia uma mistura de âmbar e íris que enchia o aposento com um perfume entorpecente.</p>
<p class="MsoNormal" style="color:#663300;">No momento do climax as núbias largaram os leques, e a primeira tomou uma taça de ouro, a segunda uma esponja, a terceira uma toalha de seda e a quarta um vaporizador de perfume.</p>
<p class="MsoNormal" style="color:#663300;">O Khan tinha-se erguido e Zima levantou-se do sofá. Ajoelhando-se diante dele, lavou-lhe meigamente o membro com água perfumada e secou-o longamente com infinitos cuidados. E como o Príncipe se tinha libertado a pouco e pouco das suas roupas e estava quase nu, cobriu-o com um roupão longo de seda.</p>
<p class="MsoNormal" style="color:#663300;">A um sinal seu os dois rapazes ergueram um reposteiro e subiram todos ao primeiro andar, onde uma refeição aguardava o Príncipe: bolos e sorvetes em finas taças de porcelana, bebidas refrescantes em cálices de ouro e prata. Zima, ainda nua, estendeu-se sobre um dos numerosos sofás que davam à sala o seu carácter, enquanto o Príncipe se sentava ao seu lado à maneira turca sobre uma das almofadas de veludo que estavam espalhadas pelo chão.</p>
<p class="MsoNormal" style="color:#663300;">As quatro escravas núbias dispuseram então sobre o corpo de Zima os vários pratos em que consistia a refeição, e o Khan fez a sua refeição sobre a carne perfumada da sua amada, tomando-lhe um bolo da concavidade do pescoço ou um bombom da barriga, mordendo com os dentes uma peça de fruta que ela segurasse com as coxas. Ela oferecia-lhe por vezes, com os seus dentinhos brancos, um doce, ou então era ele que procurava com os lábios uma amêndoa que se lhe tivesse escondido no monte de Vénus. Os dois rapazes serviam-no de sumo de laranja e xarope gelado em taças de prata.</p>
<p class="MsoNormal" style="color:#663300;">Chegada ao fim a refeição, ela chegou-lhe, com os dedos rosados dos pés, um cigarro aceso, e ele fumou, fazendo com que se elevassem em direcção ao tecto as nuvens azuladas de tabaco oriental. O Príncipe tinha-se estendido sobre as almofadas, feliz por viver ainda no corpo os mesmos encantos que tão agradavelmente lhe cansavam os músculos…</p>
<p class="MsoNormal" style="color:#663300;">Demorou-se uma hora bem medida nesta inactividade, durante a qual Zima, para o distrair, mandou vir músicos, cantores e dançarinas mouras. Um alegre prelúdio instrumental abriu o concerto. Então seguiram-se ritmos cada vez mais lentos, cantilenas, odes frívolas e melodias sérias. A um sinal de Zima salta para o primeiro plano uma odalisca de pouco mais de quinze primaveras, retorcendo-se em movimentos lascivos à cadência do «Eoud», e executa uma «Rita», uma dança sensual e lenta. Quantos encantos se alojam nas linhas deste corpo insinuante, que as madeixas negras dos cabelos encobrem parcialmente! Com mais vivacidade do que uma gazela, mais flexível do que um junco, desdobra os membros como as ondas de um riacho sem deixar de transmitir a impressão de uma indolência sensual. Percute com os dedinhos rosados o seu tamborim e move-o para que não o abafem as mangas compridas.</p>
<p class="MsoNormal" style="color:#663300;">Chega a vez de quatro outras que se tomam pelas mãos, e ora se afastam, ora se aproximam umas das outras, ora se abraçam pelo pescoço e pela cintura, ora se repelem, e assim representam todas as fases do amor.</p>
<p class="MsoNormal" style="color:#663300;">Este espectáculo encantador espicaça de novo os sentidos do Khan, e nos seus olhos penetrantes brilha o desejo. Zima, atenta, apercebe-se disto e prepara-se para <span> </span>oferecer ao seu Senhor mais uma sessão de volúpia, ainda mais inventiva e lasciva do que a primeira. A sua intenção é que o Príncipe deixe a casa de Manoubia com o espírito enfeitiçado, o corpo exausto e os sentidos saciados; e está disposta para isso a inventar para ele encenações inauditas e requintes antigos. Por ordem sua os músicos e as dançarinas deixam a sala deixando-os sós com as quatro escravas núbias e com os dois rapazes.</p>
<p class="MsoNormal" style="color:#663300;">− Poderoso Senhor – começa Zima – a tua escrava notou que os teus desejos estão de novo despertos. Queres que estes dois rapazinhos insignificantes te acompanhem a um aposento onde te espera água fresca e perfumada para banhar o teu nobre corpo? Ajudar-te-ão a lavar e servirão também o teu desejo. Os seus lábios, vermelhos como a cereja madura, hão-de beijar respeitosamente as partes mais íntimas do teu corpo. Com as suas mãos ternas e macias hão-de acariciar a tua carne por toda a parte que queiras. Desvendarão ao teu olhar os seus prazeres secretos, mostrar-te-ão o que costumam fazer um com o outro quando estão sozinhos ao meio-dia, quando o Sol do Oriente lhes enerva os sentidos e os conduz à licenciosidade. Queres, Senhor, que nós os três te ajudemos a gozar? Permites esta honra aos teus escravos?</p>
<p class="MsoNormal" style="color:#663300;">− Vamos – respondeu o Príncipe laconicamente.</p>
<p class="MsoNormal" style="color:#663300;">Ergueu-se e seguiu a jovem mulher pelos longos corredores até à sala de banho.</p>
<p class="MsoNormal" style="color:#663300;">Esta sala merece ainda uma breve descrição, pois é verdadeiramente bela na sua simplicidade. O meio consiste num tanque de ónix vermelho, ao qual se desce por alguns degraus. Este tanque está rodeado por uma galeria de arcos redondos sustentados por colunas de mármore branco. As paredes estão ornamentadas com pinturas árabes pintadas à mão sobre a pedra nua. Aqui e ali alguns divãs, e é tudo. Não há cortinas, não há tapetes, só mármore e pedra.</p>
<p class="MsoNormal" style="color:#663300;">Hasan senta-se sobre um divã e Zima, ladeada pelos dois rapazes, ajoelha-se à sua frente. Puxa para si o rapaz mais novo, de seu nome Ali, despe-lhe o bolero e o calção, e diz, acariciando com os dedos a carne rosada e jovem do tronco nu:</p>
<p class="MsoNormal" style="color:#663300;">− Vê, poderoso Senhor, como é doce este corpo! Vê estes bracinhos roliços, debaixo dos sovacos já se nota uma pelagem macia. Vê esta barriguinha branca, as pregas amorosas da pele em que qualquer homem desejaria dar um beijo.</p>
<p class="MsoNormal" style="color:#663300;">Pouco a pouco despe-lhe os calções, e o rapaz, que pela primeira vez se vê despido perante um estranho, fica vermelho de vergonha.</p>
<p class="MsoNormal" style="color:#663300;">− Vê, Poderoso Senhor, estou-lhe a abrir o calção, e já se lhe entrevê a cabecinha do sexo; já a vais ver toda, Senhor, porque este corpo pertence-te. Ei-lo, aqui está o pauzinho; como é pequeno, meu Amo, em comparação com o teu grande membro, e como é agradável acariciá-lo! Já começa a erguer-se; o teu olhar, ao incidir sobre esta parte do seu corpo, faz com que o seu espírito seja presa de desejos sensuais. Se eu acariciar este pequeno membro, ele ejaculará, se quiseres, diante dos teus olhos; mas vou fazer isso com toda a suavidade para que o prazer dos teus olhos dure mais tempo. Ele está envergonhado mas feliz, porque tu estás a olhar enquanto eu o faço ejacular. Vê, o membro dele está a ficar intumescido e vermelho; puxo-lhe o prepúcio para trás, para que a sua excitação aumente… Agora faço uma pausa para te mostrar o seu lindo cuzinho. Observa esta carne firme e rosada; entre estas bochechas, Senhor, hás-de gozar, se for esse o teu desejo. A abertura é estreita porque ele ainda é virgem, mas tu terás o cuidado de não o rasgar. O teu pénis é tão grosso e o seu corpo tão pequeno.</p>
<p class="MsoNormal" style="color:#663300;">O Khan observava esta cena com enlevo, o seu membro crescia sob o leve tecido de seda que lhe envolvia o corpo. Mas dominou a sua ânsia ardente por mais um momento e ordenou:</p>
<p class="MsoNormal" style="color:#663300;">− Ali, tu és um homem! Mostra que o és! Esta mulher é uma cadela, mais do que isso, é a tua escrava, enfia-lhe o teu pau na boca!</p>
<p class="MsoNormal" style="color:#663300;">O jovem obedece, hesitante.−</p>
<p class="MsoNormal" style="color:#663300;">− Muito bem. Tira o pau para fora e mete-lhe na boca a tua bolsinha entre os lábios… isso mesmo, e tu, Zima, acaricia-o de novo, ou não estás a ver que ele tem vontade?</p>
<p class="MsoNormal" style="color:#663300;">A jovem mulher obedece. Passa um braço pela cintura do rapaz e apalpa-lhe com a mão livre os testículos, acaricia-lhe o pequeno membro, aperta-o com os lábios, esfrega-o com as pontas dos seios e toca-lhe com as pálpebras fechadas; depois toma-o ma boca e chupa-o ternamente, ao que o rapaz responde com suspiros entrecortados. Por fim torna-se necessária uma interrupção para evitar uma ejaculação imediata.</p>
<p class="MsoNormal" style="color:#663300;">− Está bem assim – diz o Príncipe. – Ali, é hoje que vais perder todas as tuas virgindades; agora vais-te servir desta mulher, que é tua. Mete-lhe a tua lança na parte de trás, para começar, e faz o que eu fiz: morde-a nas costas, percebes, ela é a tua escrava! Bom, agora entra-lhe pela frente e deita-te em cima dela; ela terá que te fazer como me fez a mim – mas não te venhas, que ainda tens mais coisas para fazer. Agora sai de dentro dela e escuta: tu és o senhor desta mulher, portanto bate-lhe, maltrata-a, a esta cadela que aqui está!</p>
<p class="MsoNormal" style="color:#663300;">O rapaz faz tudo o que o homem lhe ordena, e na sequência da última ordem bate na sua amiga com tanta força que de vez em quando lhe arranca um grito de dor. Os golpes chovem de todos os lados; primeiro palmadas nas nádegas, depois nas pernas, na barriga, entre as coxas e finalmente na cara…</p>
<p class="MsoNormal" style="color:#663300;">O príncipe, satisfeito, atira com o roupão para o chão, aproxima-se de Ali e mete-lhe o sexo na boca. Isto traz o rapaz finalmente ao paroxismo, já não se consegue dominar, o esperma esguicha-lhe do sexo e cai sobre as coxas do Khan. Este sorri e ordena a Zima que o limpe com a língua. Puxa para si o rapaz, que está ainda mais envergonhado, e introduz-lhe de novo o membro entre os lábios. Ali lambe com entusiasmo esta nova espécie de chupa-chupa enquanto Hassan lhe acaricia com a mão os longos caracóis castanhos… O Príncipe recua, mas Ali segura-lhe o membro com as mãos e introdu-lo de novo na boca, acariciando os testículos do seu Senhor como antes lho tinha feito Zima. Contudo pode observar-se nos seus movimentos alguma hesitação e uma certa timidez, pois não ousa fazer tudo aquilo a que os seus desejos o impelem: a vergonha modera-lhe ainda o desejo. Subitamente ergue a mão para o peito do seu senhor e os olhos dos dois encontram-se…</p>
<p class="MsoNormal" style="color:#663300;">Enlouquecido de desejo, o príncipe agarra ali pelas ancas e arremessa-o sobre um divã. Precipita-se sobre ele e tenta penetrá-lo. Mas Ali é virgem, e o obstáculo<span> </span>é tanto maior porque Hassan é fortemente constituído. Mas a dificuldade só lhe aumenta a fúria, o Khan já não se reconhece a si mesmo; Segura o membro com uma mão, e segurando-se assim dá uma estocada tão forte que se introduz completamente no corpo do rapaz. Este dá um salto de dor, o movimento do Príncipe foi tão rápido e brusco que ele se sente assassinado. O terror invade-o e contudo não ousa sequer gritar. Sente o membro do seu Senhor a mover-se dentro dele, e este membro parece-lhe de um comprimeto imensurável. O Khan morde-o na nuca e arranha-o com as mãos em garra, mas não consegue chegar a um clímax. A crise aproxima-se e afasta-se de novo no momento em que ele acredita que está mesmo à beira de se vir. Este impedimento irrita-o ainda mais, fá-lo dar urros, insultar o jovem, ameaçá-lo com as maiores crueldades, e põe nele a culpa da sua momentânea impotência enquanto lhe aperta nas mãos o pequeno pénis. Mas este começa de novo a sentir uma excitação extraordinária, começa a sentir prazer neste amplexo. Move agora por sua vez o cuzinho, mas só ousa fazê-lo docemente porque receia uma censura. Move-se também na mão que lhe segura o membro. Mais um momento, e gozará na mão do seu Amo, sente que está a ficar completamente rígido, e procura deter a ejaculação. Mas subitamente sente-se inundado, sente um líquido quente que jacto a jacto se lhe introduz no corpo, sente-o nas entranhas, e esta sensação é-lhe tão agradável que ele próprio não se contem e liberta na mão do Khan um copioso jacto de esperma.</p>
<p class="MsoNormal" style="color:#663300;">Assim ficam os dois deitados lado a lado com o corpo cansado e o espírito saciado, e parece que o prolongar deste abraço é para eles um novo prazer. Não querem separar-se, tão agradável é para cada um deles o calor do corpo do outro. Finalmente o Príncipe retira o membro do corpo do rapaz. Este experimenta um sentimento bizarro de dor e vergonha; contudo ergue-se imediatamente para ajudar Zima a lavar o sexo do Senhor. Hassan, sentado no divã, chama o rapaz para o seu lado, acaricia-lhe os caracóis castanhos e cobre-o de palavras ternas, abraça-o com sentimento, grato pelo prazer que Ali lhe deu, e agradece-lhe a oferta do seu corpo. Fazem um belo par: a cabeça rosada do rapaz junto do ombro do homem forma com o rosto severo do Khan um contraste digno do pincel de um artista! A relação entre os dois está estabelecida – e Manoubia acaba de vender mais um escravo. De resto, tudo o que até agora aconteceu tem apenas este único fim: o amor dos sentidos anda sempre nesta casa de mãos dadas com o amor do lucro…</p>
</div>
<div class="post-footer-line post-footer-line-1">
<p style="text-align:right;"><span class="post-timestamp"><em>(Publicado no Blogger em 05/05/08 )</em> </span></p>
</div>
</div>]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[Transacção]]></title>
<link>http://omarkhayyam2.wordpress.com/2008/05/14/transaccao/</link>
<pubDate>Wed, 14 May 2008 10:23:38 +0000</pubDate>
<dc:creator>Vanderdecken</dc:creator>
<guid>http://omarkhayyam2.wordpress.com/2008/05/14/transaccao/</guid>
<description><![CDATA[Clara teve finalmente que admitir perante si própria que já não se sentia escrava de Lúcio. Mais do ]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><p><a href="http://bp2.blogger.com/_UEfhPJXHLPM/Rua69nb8t1I/AAAAAAAAAJQ/MBVDUi5iSC4/s1600-h/dark_princess_4_by_crimsonvisions_stock.jpg"><img style="float:right;width:185px;cursor:pointer;height:264px;margin:0 0 10px 10px;" src="http://bp2.blogger.com/_UEfhPJXHLPM/Rua69nb8t1I/AAAAAAAAAJQ/MBVDUi5iSC4/s200/dark_princess_4_by_crimsonvisions_stock.jpg" border="0" alt="" /></a>Clara teve finalmente que admitir perante si própria que já não se sentia escrava de Lúcio. Mais do que isto: teve que admitir, o que de certa maneira foi ainda mais difícil, que Lúcio já não se sentia seu Senhor. Tornara-se dependente, possessivo e ciumento. Já não dispunha dela com a liberdade de outrora &#8211; uma liberdade esplêndida, insolente, que era quase uma displicência; em vez disto agarrava-se a ela com um amor timorato e inquieto.</p>
<div class="post-body entry-content" style="text-align:right;">
<p style="text-align:left;">Ela, por sua vez, sentia-se culpada: culpada de já não se sentir dele por mais que dissesse a si mesma que havia de o ser sempre. Cada vez mais se lembrava das palavras com que tinham selado, meses atrás, o seu pacto: «a tua única liberdade é deixares de ser minha escrava quando quiseres.» Muito bem; lindas palavras; mas para Clara o exercício desta liberdade, a mera admissão de que ela pudesse ser exercida, aparecia como uma traição e um fracasso.</p>
<p style="text-align:left;">E havia ainda Ricardo. Pensar em Ricardo, como Clara não se conseguia impedir de fazer, era outra deslealdade para com Lúcio. A maior traição, porém, a traição que Clara não perdoava a si própria, era o quadro que a sua imaginação lhe pintava com cada vez maior frequência &#8211; sempre inesperado, sempre súbito, sempre indesejado: ela própria aos pés de Ricardo em vez de aos de Lúcio: Ricardo, e não Lúcio, na posição de Senhor &#8211; um Senhor verdadeiro, mais atento, mais firme, mais seguro de si, mais exigente.</p>
<p style="text-align:left;">Culpada, portanto. Sabia-se culpada. Porque não via Lúcio que ela era culpada? Porque não a punia? Porque não se apoderava de novo dela, e a fazia sua, e lhe tirava da cabeça o pensamento indesejado de pertencer a outro?</p>
<p style="text-align:left;">A relação não terminou com um corte limpo nem repentino. Teve afastamentos e reconciliações, lágrimas, discussões, dias de felicidade quase perfeita. Durante um desses períodos de afastamento, Clara, sem saber se era livre ou não, começou a encontrar-se com Ricardo; e ao fim de alguns destes encontros teria sem dúvida chegado a ir para a cama com ele se ele se tivesse prestado a isso sem que estivessem perfeitamente definidos os seus direitos sobre ela.</p>
<p style="text-align:left;">- Não podes ter dois donos &#8211; disse ele no dia em que ela lhe ofereceu a boca num beijo.</p>
<p style="text-align:left;">Tão estranho é o coração humano que Lúcio, quando soube dos encontros entre Clara e Ricardo, se ressentiu mais desta infidelidade não consumada do que se teria ressentido da mais tórrida e apaixonada das ligações eróticas. Numa das últimas discussões que tiveram disse à amante, entre desencantado e furioso:</p>
<p style="text-align:left;">- Finalmente, não és minha escrava.</p>
<p style="text-align:left;">Clara ainda não estava preparada para admitir esta verdade. Foi buscar o chicote, disse a Lúcio que não a poupasse, e ele de facto não a poupou; mas no fim, perante as lágrimas dela e os vergões em carne viva que lhe cobriam o corpo, continuou a dizer:</p>
<p style="text-align:left;">- Não, Clara. Já não és a minha escrava.</p>
<p style="text-align:left;">Dias depois, durante a noite, quando ele tinha acabado de sair de dentro dela, ela murmurou, como tantas vezes antes, «sou tua».</p>
<p style="text-align:left;">- Pois se és minha &#8211; respondeu Lúcio &#8211; não te vais entregar ao Ricardo.</p>
<p style="text-align:left;">Clara não respondeu. Entregar-se a Ricardo era o seu maior desejo, e sobre isto não podia mentir. Além disso não tinha compreendido bem as palavras de Lúcio, que pareciam uma ameaça mas não tinham sido ditas em tom de ameaça. Só compreendeu quando ele continuou:</p>
<p style="text-align:left;">- Não te vais entregar a ele. Se não te pertences, não te podes entregar a ninguém. Quem te vai entregar ao Ricardo sou eu.</p>
<p style="text-align:left;">E sem mais palavras, surdo aos pedidos e às perguntas dela, levantou-se, vestiu-se a saiu. Nos dias que se seguiram, Clara não o encontrou nem em casa, nem nos lugares que ele costumava frequentar, e não conseguiu contactá-lo por meio nenhum. Durante este tempo todos os encontros que teve com Ricardo foram para falar de Lúcio, do estado de espírito de Lúcio, do medo que Clara tinha de que ele fizesse «alguma asneira».</p>
<p style="text-align:left;">Por fim foi Ricardo quem lhe disse:</p>
<p style="text-align:left;">- O Lúcio telefonou-me.</p>
<p style="text-align:left;">- Telefonou-te? A ti? Onde é que ele está?</p>
<p style="text-align:left;">- Está em Itália. Chega amanhã. Quer encontrar-se contigo e quer que eu esteja presente.</p>
<p style="text-align:left;">Clara ficou sem saber o que pensar. Ao fim de um longo silêncio, perguntou:</p>
<p style="text-align:left;">- E tu vais?</p>
<p style="text-align:left;">- Vou. E tu também. Vamos os dois. Mas esta noite dormes comigo.</p>
<p style="text-align:left;">Nessa noite, quando os corpos dos dois se uniram pela primeira vez, foi como se fossem amantes de longa data, reencontrados ao longo duma longa e penosa ausência. Amaram-se toda a noite com lágrimas e sorrisos, com denodo e temor, com violência e brandura. Mas nem por uma vez ele disse «és minha» ou ela disse «sou tua».</p>
<p style="text-align:left;">O encontro foi em casa de Lúcio, que os recebeu num compartimento mobilado como uma biblioteca. Convidou Ricardo a sentar-se numa poltrona e fez sinal a Clara que se sentasse no chão, como tantas vezes antes. Quando ela, corando, fez menção de se ajoelhar no seu lugar habitual em frente ao sofá, ele abanou a cabeça e indicou-lhe com o queixo o tapete à frente de Ricardo.</p>
<p style="text-align:left;">- Aceita um whisky? Um charuto?</p>
<p style="text-align:left;">- Com todo o gosto &#8211; respondeu Ricardo. &#8211; Mas só o whisky, por favor.</p>
<p style="text-align:left;">- Clara, queres servir-nos?</p>
<p style="text-align:left;">Clara, que já estava ruborizada, enrubesceu ainda mais ao ouvir esta frase que lhe pareceu cheia de segundos sentidos. Ao verter a bebida atrapalhou-se e deitou um pouco por fora de um dos copos. Poucos dias antes este lapso teria sido pretexto para um castigo severo, mas desta vez Lúcio limitou-se a dizer:</p>
<p style="text-align:left;">- Deixa estar, não faz mal. Depois a empregada limpa.</p>
<p style="text-align:left;">Parecia não estar com pressa: esperou que ela servisse os dois whiskies e se sentasse de novo no chão aos pés de Ricardo antes de perguntar:</p>
<p style="text-align:left;">- Diga-me, Ricardo, a Clara alguma vez lhe disse que me pertencia?</p>
<p style="text-align:left;">- Sim &#8211; respondeu Ricardo. &#8211; Várias vezes.</p>
<p style="text-align:left;">- Ah. E alguma vez lhe disse que tinha deixado de me pertencer?</p>
<p style="text-align:left;">- Não, nunca.</p>
<p style="text-align:left;">- Nem que lhe pertencia a si?</p>
<p style="text-align:left;">- Também não. Tanto quanto sei, a Clara considera-se propriedade sua.</p>
<p style="text-align:left;">Lúcio sorriu levemente.</p>
<p style="text-align:left;">- Nem nunca lhe disse que desejava ser sua?</p>
<p style="text-align:left;">- Os desejos da Clara &#8211; respondeu Ricardo, pausadamente &#8211; não contam.</p>
<p style="text-align:left;">Lúcio levantou-se do sofá e serviu-se doutro whisky.</p>
<p style="text-align:left;">- Da última vez que estive com a Clara &#8211; murmurou &#8211; disse-lhe que não queria que ela se entregasse a si. Queria ser eu a entregar-lha. Ela contou-lhe?</p>
<p style="text-align:left;">Ricardo assentiu com a cabeça e Lúcio continuou:</p>
<p style="text-align:left;">-Sabe, Ricardo? Há uma coisa sobre mim de que a Clara provavelmente nunca se deu conta. Não esteve comigo tempo suficiente para isso. Mas é importante que o saibam agora, ela e você.</p>
<p style="text-align:left;">Ricardo levantou uma sobrancelha e esperou polidamente que Lúcio prosseguisse.</p>
<p style="text-align:left;">- Sou um jogador, meu caro Ricardo Sempre o fui, desde que me conheço. Não por compulsão, nem por qualquer tendência auto-destrutiva. Pertenço à espécie rara dos que ganham mais do que perdem.</p>
<p style="text-align:left;">Ricardo inclinou um pouco a cabeça:</p>
<p style="text-align:left;">- Espécie rara, com efeito.</p>
<p style="text-align:left;">- Mas mesmo assim aprendi a perder &#8211; disse Lúcio, como se o não tivesse ouvido. E acrescentou, perdendo pela primeira vez um pouco da calma com que até então tinha conduzido a conversa:</p>
<p style="text-align:left;">- Aprendi a perder, e aprendi sobretudo a nunca jogar a feijões. Está-me a entender?</p>
<p style="text-align:left;">- Não &#8211; disse Ricardo. &#8211; Lamento, mas não estou a compreender aonde quer chegar.</p>
<p style="text-align:left;">Lúcio mostrava agora alguns sinais de agitação:</p>
<p style="text-align:left;">- Aonde quero chegar? Quero chegar aqui: sei que vou perder a Clara, se não a perdi já. Mas não quero que você a ganhe sem pagar um preço. Reflecti muito enquanto estive em Itália, e decidi isto: a Clara, nunca lha darei, mas vendo-lha. Se você a quiser e puder pagar, eu vendo-lha. Aceita?</p>
<p style="text-align:left;">Sentada no chão, Clara teve um sobressalto violento. Ter-se-ia levantado de repente se Ricardo, com um gesto imperioso, a não tivesse obrigado a ficar quieta.</p>
<p style="text-align:left;">- E já pensou no preço? &#8211; perguntou ele, serenamente.</p>
<p style="text-align:left;">Lúcio bebeu um trago de whisky e mencionou uma quantia que levou Clara a dar outro salto no lugar. Porquê isto? Lúcio era rico, bem mais rico que Ricardo. Nem precisava de dinheiro, nem era ganancioso: disto tinha Clara a certeza. E para Ricardo a quantia pedida era, sem ser ruinosa, significativa. Teria Lúcio tido em conta as circunstâncias do outro?</p>
<p style="text-align:left;">- Por esse preço não a quero &#8211; disse Ricardo, impassível. &#8211; Dou-lhe o dobro.</p>
<p style="text-align:left;">A estas palavras Lúcio ergueu o queixo.</p>
<p style="text-align:left;">- Peço-lhe que não me insulte. Pedi-lhe um preço por esta mulher, é esse preço que está em discussão.</p>
<p style="text-align:left;">- Tem razão &#8211; disse Ricardo. &#8211; Peço desculpa. Estou de acordo com o preço, naturalmente.</p>
<p style="text-align:left;">E sem mais palavras tirou do bolso o livro de cheques. Enquanto desenroscava a tampa da caneta virou-se para Clara:</p>
<p style="text-align:left;">- Descalça-te, Clara. Agora és propriedade minha.</p>
<p style="text-align:left;">Com as lágrimas a escorrer-lhe pelo rosto, Clara tirou os sapatos de salto muito alto com que Lúcio gostava de a ver e que tinha trazido calçados em homenagem a ele. Viu o cheque mudar de mãos. Aproximou-se de Ricardo, ajoelhou, beijou-lhe a mão.</p>
<p style="text-align:left;">À despedida, o sorriso que deu a Lúcio foi tanto de agradecimento como de compaixão. Os sapatos, deixou-os com ele.<a href="http://omarkhayyam.blogspot.com/2007/09/transaco.html"><br />
</a></p>
<p><em>(Publicado no Blogger a 08/09/07)</em></div>
<div class="post-footer-line post-footer-line-1"><span class="post-icons"><span class="item-control blog-admin pid-333793426"><a title="Editar mensagem" href="http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=11383160&#38;postID=1161943710579741941"></a></span></span></div>
<div class="post-footer-line post-footer-line-2"><span class="post-labels"><a rel="tag" href="http://omarkhayyam.blogspot.com/search/label/submissa"><br />
</a></span></div>
</div>]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[Belly Dance]]></title>
<link>http://omarkhayyam2.wordpress.com/2008/05/02/belly-dance/</link>
<pubDate>Fri, 02 May 2008 09:43:59 +0000</pubDate>
<dc:creator>Vanderdecken</dc:creator>
<guid>http://omarkhayyam2.wordpress.com/2008/05/02/belly-dance/</guid>
<description><![CDATA[(Publicado no Blogger a 28/01/07)]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><p><span class="post-icons"><span class="item-control blog-admin pid-333793426"><a title="Editar mensagem" href="http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=11383160&#38;postID=117001690637541386"> </a> </span> </span></p>
<div class="post-footer-line post-footer-line-2"><span class="post-labels"> </span></div>
<div class="post hentry"><a name="117000557350996082"></a></p>
<div class="post-body entry-content">
<p><a href="http://photos1.blogger.com/x/blogger/4369/921/1600/922701/Dancer%2051%20c.jpg"><img style="display:block;text-align:center;cursor:pointer;margin:0 auto 10px;" src="http://photos1.blogger.com/x/blogger/4369/921/400/236769/Dancer%2051%20c.jpg" border="0" alt="" /></a></p>
<p style="text-align:right;"><em>(Publicado no Blogger a 28/01/07)</em></p>
</div>
</div>
</div>]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[A DANÇA]]></title>
<link>http://omarkhayyam2.wordpress.com/2008/04/27/a-danca/</link>
<pubDate>Sun, 27 Apr 2008 22:27:46 +0000</pubDate>
<dc:creator>Vanderdecken</dc:creator>
<guid>http://omarkhayyam2.wordpress.com/2008/04/27/a-danca/</guid>
<description><![CDATA[Reloj detén tu camino porque mi vida se apaga. Ella es la estrella que alumbra mi ser, yo sin su amo]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><p><a href="http://photos1.blogger.com/blogger/4369/921/1600/Dancer%20set394018.jpg"><img style="float:left;cursor:pointer;width:209px;height:277px;margin:0 10px 10px 0;" src="http://photos1.blogger.com/blogger/4369/921/200/Dancer%20set394018.jpg" border="0" alt="" /></a></p>
<p class="MsoNormal" style="color:#993399;margin:0 0 6pt 204.3pt;"><span style="font-size:100%;"><em><span>Reloj detén tu camino<br />
porque mi vida se apaga.<br />
Ella es la estrella que alumbra mi ser,<br />
yo sin su amor no soy nada.</span></em></span></p>
<p class="MsoNormal" style="color:#993399;margin:0 0 6pt 204.3pt;"><span style="font-size:100%;"><em><span>Detén el tiempo en tus manos,<br />
haz esta noche perpetua,<br />
para que nunca se vaya de mí,<br />
para que nunca amañezca.</span></em></span></p>
<p class="MsoNormal" style="color:#660000;margin:0 0 6pt 204.3pt;"><span style="font-size:100%;color:#993399;"><span> </span></span><span style="font-size:100%;color:#993399;">Roberto Cantoral. <span style="text-decoration:underline;"><span>El reloj</span></span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:2pt;color:#660000;text-align:justify;"><span style="font-size:100%;">O bairro do Sacromonte é dos poucos lugares de Granada que não são dominados pela visão tutelar da Serra Nevada ou da Alhambra. A serra é escondida pela estreiteza das ruas e pela altura dos muros, que apenas a deixam ver de relance num ou noutro virar de esquina; e a acrópole mourisca está demasiado próxima para que a vista a abarque. Para ver um panorama desimpedido da serra haveria que subir aos próprios jardins do palácio; para o ter deste haveria, pelo contrário, que descer as ruelas íngremes até ao fundo do bairro e subir as da colina fronteira – Albacín, a medina – até ganhar distância e encontrar miradouro.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:2pt;text-indent:.5in;color:#660000;text-align:justify;"><span style="font-size:100%;">A vivenda que Ricardo e Mariana tinham tomado de empréstimo ficava no Sacromonte a meia encosta, no fundo de um <em>carmen</em> murado. Mas, se não viam a Alhambra, não deixavam de lhe sentir a presença no rendilhado dos portões de ferro, na privacidade dos jardins, na própria cor das pedras. Mariana tinha tratado de tudo. A vivenda, tinha-lha emprestado o galerista de Baltimore que lhe organizara a primeira exposição em solo americano, e que levara a generosidade ao ponto de lhe pôr à disposição o automóvel que guardava numa garagem escavada na rocha.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:2pt;text-indent:.5in;color:#660000;text-align:justify;"><span style="font-size:100%;">- </span><span style="font-size:100%;"><em><span>Don’t think about it</span></em></span><span style="font-size:100%;">.</span><span style="font-size:100%;"> </span><span style="font-size:100%;">– respondera, <span> </span>quando ela lhe tentara agradecer<em> – </em><em><span>The house needs to be aired. You will be doing me a favor, really. Just make sure you take out the Porsche at least once, it hasn’t been driven for two months</span></em></span><span style="font-size:100%;">.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:2pt;text-indent:.5in;color:#660000;text-align:justify;"><span style="font-size:100%;">As férias de Mariana tinham começado um dia mais cedo que as de Ricardo. À proposta deste, que se encontrasse com ele em Heidelberg e fizessem a viagem juntos, respondeu Mariana que não:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:2pt;text-indent:.5in;color:#660000;text-align:justify;"><span style="font-size:100%;">- Vou um dia antes, tenho ver como é a casa, preparar tudo condignamente para o meu dono…</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:2pt;text-indent:.5in;color:#660000;text-align:justify;"><span style="font-size:100%;">Ricardo não insistiu: se Mariana tinha feito planos não seria ele a estragá-los.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:2pt;text-indent:.5in;color:#660000;text-align:justify;"><span style="font-size:100%;">- Quero ver o que vai sair daí – limitou-se a dizer. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:2pt;text-indent:.5in;color:#660000;text-align:justify;"><span style="font-size:100%;">E com efeito, ao desembarcar do Talgo na estação de caminhos-de-ferro de Granada começou logo a ver, pelo sorriso travesso da amante, que havia ali grandes preparativos. Quando viu o Porsche no parque de estacionamento pensou que faria parte desses misteriosos preparativos e não estranhou quando ela lhe sugeriu, contra o habitual, que fosse ele a guiar. E não estranhou também em frente ao portão da vivenda quando ela lhe pediu para arrumar o carro, oferecendo-se para levar ela própria para dentro a mala dele e dando-lhe indicações para chegar à garagem. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:2pt;text-indent:.5in;color:#660000;text-align:justify;"><span style="font-size:100%;">Ao regressar a pé Ricardo não se apressou: queria dar tempo a Mariana de terminar o que quer que fosse que tinha preparado. O portão de ferro trabalhado estava apenas encostado: abriu-se com um rangido e Ricardo encontrou-se num jardim perfumado, num <em>carmen</em> andaluz. Era Fevereiro; já fazia calor; mas os dias ainda eram curtos e o sol esplendoroso que o tinha acolhido à chegada tinha dado lugar a um crepúsculo acentuado pela vegetação densa. Um carreiro de lajes polidas, flanqueado por duas filas de velas acesas, conduzia à entrada principal. Ricardo fechou o portão atrás de si, percorreu a rota de luzes que a amante lhe tinha marcado, e bateu à porta.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:2pt;text-indent:.5in;color:#660000;text-align:justify;"><span style="font-size:100%;">- Entra, está aberta. Vai-te sentando, eu já vou ter contigo.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:2pt;text-indent:.5in;color:#660000;text-align:justify;"><span style="font-size:100%;">A sala estava disposta de uma maneira que Ricardo achou estranha. Todo o mobiliário estava acumulado num dos extremos: um divã, almofadas, tapetes, uma mesa baixa. Sobre a mesa estavam dispostos pratinhos com tapas, frutas secas e pequenos doces; de um bule exalava-se um vapor com cheiro a menta, e a única chávena confirmava o convite de Mariana para que ele se sentasse sem esperar por ela.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:2pt;text-indent:.5in;color:#660000;text-align:justify;"><span style="font-size:100%;">Também a iluminação – quatro grossas velas em pedestais e mais duas sobre a mesa – estava toda do mesmo lado, deixando o outro numa obscuridade que mal permitia distinguir, a um canto, o que parecia ser um monte de panos pretos. Já Ricardo se tinha sentado e vertido para a chávena o chá de menta quando o monte de panos se mexeu e dele se destacou o corpo miúdo de Mariana; e foi quando ela se aproximou dele e da luz que Ricardo viu que estava nua, sem o menor adorno sobre o corpo. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:2pt;text-indent:.5in;color:#660000;text-align:justify;"><span style="font-size:100%;">A luz das velas reflectia-se-lhe no brilho dos olhos e na brancura do sorriso, mas não chegava para que se lhe distinguissem pormenores do rosto ou do corpo. Porém Ricardo via-a nitidamente com os olhos da memória: o ventre musculoso e liso; a cintura delgada; as ancas, que numa mulher menos delicada de corpo seriam estreitas mas que em Mariana, comparadas com os ombros e com a cinta, eram largas; os braços e as pernas musculadas, de dançarina ou ginasta. Um efeito de luz, talvez o tremeluzir das velas, fez com que Ricardo se lembrasse dos seios de Mariana quando eram os dois estudantes em Coimbra: cónicos, pequenos, mas com mamilos e aréolas bastante grandes. Mais tarde, das duas vezes em que Marta tinha ficado grávida, os seios tinham-lhe crescido, mas depois voltaram a diminuir e Ricardo nunca os chegou a ver nessa fase. Quando os viu de novo estavam outra vez tão pequenos como vinte anos antes: apenas um pouco descaídos, o que causava a Marta um pouco de desgosto. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:2pt;text-indent:.5in;color:#660000;text-align:justify;"><span style="font-size:100%;">Dois anos mais tarde, durante uma visita a Portugal, apareceu-lhe um nódulo no seio direito. Felizmente era benigno, mas era melhor retirá-lo; e porque não aproveitar a cirurgia, sugeriu o médico, já que Marta se lembrava com saudade dos seus seios de grávida, para colocar uns implantes? Marta teve dúvidas: ia ficar com um aspecto natural? Dependia da prótese que escolhesse, disse o médico. E dificultaria o diagnóstico de alguma coisa que aparecesse? Não: poderia fazer mamografias como antes, as próteses não encobririam nada. Pensando em como gostava de decotes, e na surpresa que ia fazer a Ricardo, Marta consentira; e tinha valido a pena: o peito, agora firme e generoso, parecia perfeitamente natural à vista e também ao toque, como comprovou Ricardo quando teve oportunidade de os sopesar.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:2pt;text-indent:.5in;color:#660000;text-align:justify;"><span style="font-size:100%;">Ao sair do monte de panos Mariana devia ter accionado um comando qualquer, porque subitamente se começou a ouvir música: <em>Estavam todas juntas, quatrocentas bruxas, à espera da lua cheia</em>… Ricardo recordou-se do dia em que Mariana lhe tinha oferecido esta música pelos anos, um LP do tempo do vinil: tinha sido no apartamento que ela partilhava com outras estudantes, onde ele as tinha ajudado a revestir o chão com quadrados de alcatifa adquiridos quase de graça. Já nesse tempo Marta gostava de dançar para ele, e tinha o hábito de o fazer marcando os movimentos sobre os quadrados de alcatifa, como agora, décadas mais tarde, sobre as lajes quadradas do pavimento. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:2pt;text-indent:.5in;color:#660000;text-align:justify;"><span style="font-size:100%;">Mas não era exactamente uma dança que Mariana executava, nem a música de Zeca Afonso se prestava a tal: era talvez uma mímica, a exposição de uma história, da história dos dois, do tempo em que Marta se sentava aos pés dele em posição de lótus e trocavam fantasias. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:2pt;text-indent:.5in;color:#660000;text-align:justify;"><span style="font-size:100%;">A ilusão que os movimentos de Mariana davam a Ricardo de ter diante de si a Marta de outros tempos era reforçada pelo facto de nada no corpo dela, com excepção dos seios, ter mudado nessas décadas. (Segundo ela, tinha havido outras mudanças; o rabo estava mais descaído, por exemplo, e algumas rugas estavam mais vincadas; mas Ricardo, em quem se somava a normal displicência masculina com a cegueira de amante, não conseguia ver a diferença).</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:2pt;text-indent:.5in;color:#660000;text-align:justify;"><span style="font-size:100%;">Em todo o caso bastou um segundo e uma mudança na música para que Marta passasse de novo dos vinte e tal aos quarenta e tal anos: a aparelhagem sonora (devia ser um gravador de bobinas, à moda antiga, e as fitas deviam ter sido gravadas por Mariana expressamente para esta ocasião) tocava agora canções de Caetano Veloso: No dia do seu primeiro reencontro tinham posto a tocar um CD, <em>Federico e Giulietta</em>, enquanto percorriam a estrada de Coimbra à Figueira da Foz e a Quiaios pela Serra da Boa Viagem. <span style="font-size:100%;">A voz de Caetano, agora em fita magnética, cantava de novo <em>Come Prima</em> e <em>Coimbra</em>; Marta e Ricardo partiam de novo de Coimbra e iam à praia <em>come prima</em>, como dantes.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:2pt;text-indent:.5in;color:#660000;text-align:justify;"><span style="font-size:100%;"><span style="font-size:100%;">Não, afinal não era uma mímica, mas os movimentos de Mariana invocavam os de Marta naquele dia, o caminhar pela praia, a procura du</span>ma rocha ao abrigo de olhares indiscretos, o penoso caminho de volta ao carro, a garrafa de água comprada à pressa no regresso porque no improviso do passeio se tinham esquecido de levar que beber… e agora em Granada o corpo dela, de si tão ágil e ligeiro, que nunca descaía os ombros nem arrastava os pés, lembrava o dele naquele dia, exausto e sedento. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:2pt;text-indent:.5in;color:#660000;text-align:justify;"><span style="font-size:100%;">A primeira noite que tinham passado juntos depois do reencontro tinha sido na praia da Tocha, num apartamento alugado, já no final desse Verão. Tinha sido um fim-de-semana sem música, mas se alguma música o pudesse traduzir seria a colecção de <em>boleros</em> que agora saía dos altifalantes escondidos na penumbra da sala. <em><span>Besame mucho… como se fuera esta noche la ultima vez … </span></em></span><span style="font-size:100%;">Mariana caiu de joelhos no chão de lajes e sentou-se sobre os calcanhares com as coxas separadas. Com um movimento impetuoso lançou para trás os cabelos, como fizera ao cavalgar Ricardo naquele apartamento em frente ao mar: de olhos fechados, de narinas frementes, arrebatada de paixão, retesos os músculos do ventre e os tendões do pescoço. O corpo curvado fremia de energia contida, como um arco pronto a disparar. Os seios, agora mais redondos e túrgidos do que naquele outro dia, suavizavam a dureza das clavículas e das costelas.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:2pt;text-indent:.5in;color:#660000;text-align:justify;"><span style="font-size:100%;"><em>Para que nunca amañezca</em></span><span style="font-size:100%;">, implorava a canção, e logo o solo de saxofone secundava a prece. Mas um dia havia de amanhecer: não tinha sido na Tocha, nem depois em Lisboa, Heidelberg, Brugges ou Paris; nem ia ser agora em Granada, mas algum dia, oxalá longínquo, poderia nascer uma manhã em que olhassem um para o outro como dois estranhos. Ricardo lembrava-se bem daquela noite, a primeira em que ele e Marta tinham feito amor depois de se reencontrarem: Marta tinha chorado então; agora exprimia sem lágrimas aquele pranto, no arquear do corpo e no erguer dos braços.</span></p>
<p><span><span style="font-style:italic;font-size:100%;color:#660000;">(continua)</span></span></p>
<p style="text-align:right;"><em>(Publicado no Blogger a 19/11/06)</em></p>
<p><a name="116395002972821287"></a></p>
<h3 class="post-title entry-title"><a href="http://omarkhayyam.blogspot.com/2006/11/dana.html"><br />
</a></h3>
</div>]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[OS BEIJOS DO DONO]]></title>
<link>http://omarkhayyam2.wordpress.com/2008/04/17/os-beijos-do-dono/</link>
<pubDate>Thu, 17 Apr 2008 16:36:53 +0000</pubDate>
<dc:creator>Vanderdecken</dc:creator>
<guid>http://omarkhayyam2.wordpress.com/2008/04/17/os-beijos-do-dono/</guid>
<description><![CDATA[Mariana estava à espera do amante em Bruxelas, na estação de caminhos-de-ferro. Depois de alguns min]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><p class="MsoNormal" style="text-indent:0;color:#990000;"><a href="http://photos1.blogger.com/blogger/4369/921/1600/dreamstimeweb_696464.jpg"><img style="float:right;cursor:pointer;width:196px;height:293px;margin:0 0 10px 10px;" src="http://photos1.blogger.com/blogger/4369/921/400/dreamstimeweb_696464.jpg" border="0" alt="" /></a><span style="font-size:100%;">Mariana estava à espera do amante em Bruxelas, na estação de caminhos-de-ferro. Depois de alguns minutos viu-o surgir-lhe apressado de entre os outros passageiros. Vinha embrulhado numa grande gabardina mal abotoada, batida por um vento que parecia soprar só sobre ele; e Mariana lembrou-se que sempre tinha sido assim, que em havendo vento o cabelo dele era o que mais depressa se despenteava, as suas roupas as que mais esvoaçavam, o seu guarda-chuva o que mais dificilmente se segurava aberto.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">Assim que Victor a viu, pousou a maleta, tomou-a nos braços e beijou-a longamente na boca.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">– Hmmm, – fez Mariana, e procurou enroscar-se nele tanto quanto as grossas roupas de Inverno o permitiam. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">Quando pararam para respirar, Mariana sorriu para Victor: </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">– Meu querido… Que bom…</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">– Este foi um beijo de namorado, – respondeu ele. – Agora vou dar-te um beijo de dono.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">E assim fez. Quem estivesse a olhar para eles não notaria a diferença, mas eles notavam, ou pensavam que notavam. Era um jogo que tinham inventado meses antes, e agora “um beijo de namorado”, “um beijo de dono”, “um beijo de escrava” eram parte do seu vocabulário amoroso. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">Para Mariana era uma deliciosa embriaguês poder beijar Victor assim em público, no anonimato de uma cidade distante, como nunca o tinha podido fazer em Lisboa. No mesmo dia em que tinham inventado este jogo, Mariana tinha dito a Victor que gostaria que um dia ele se lhe derramasse sobre o corpo, em vez de dentro dela, para ela ver.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">– Nunca viste?</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">Mariana corara: </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">– De frente, não… </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">Ele sorrira-lhe um sorriso de assentimento; depois tinha-a beijado ainda mais profusamente do que de costume.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">– Presta atenção, Mariana. Este beijo foi um beijo de namorado, ou de dono?</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">– De namorado…</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">– Não, foi de dono. De namorado é assim:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">E dava-lhe um novo beijo, em nada diferente do anterior: </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">– Já percebeste?</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">Mariana ria e entrava no jogo: </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">– Acho que sim… Agora dá-me outro de dono, para eu ter a certeza.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">– Sim… Mas a seguir dás-me tu um de escrava.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">Mariana rira e obedecera, mas misturada no riso ia alguma tristeza, porque este jogo lhe lembrava que todos os beijos que dava a Victor eram de escrava. Uns dias depois, numa carta, lançara o desafio para um novo jogo: “Também eu sou capaz de te dar beijos de dona.”</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">– Veremos. – Respondera Victor ao telefone.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">Agora que estava de novo nos seus braços, embrulhados os dois em várias camadas de roupa de Inverno, entregava-se de novo toda nos beijos que dava a Victor. E talvez fosse esta a resposta dele ao desafio: um longo beijo, terno mas firme, carregado de desejo; outorgado sem vergonha nem hesitação mas com uma ténue ponta de reserva, como que a dizer-lhe que o melhor estava para vir. Um beijo, ainda, de namorado.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">– Agora beija-me tu, – disse Victor no fim.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">Mariana obedeceu com toda a ternura de que era capaz naquele momento, mas uma pequena gargalhada de felicidade e malícia brincava-lhe no fundo do peito. Era a hora de saída dos empregos; à volta deles uma multidão apressada dividia-se como uma torrente à volta duma rocha, atenta apenas aos horários e aos relógios.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">– E agora um beijo de dona. Daqueles que também tu és capaz de dar.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">Como descrever a paixão que Mariana pôs neste beijo? Sabia que estava a ser testada: com um pequeno soluço de sofreguidão colou-se toda a Victor, tentando fazê-lo seu, sorvê-lo todo, incorporá-lo todo e para sempre dentro de si. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">– Ui, – disse ele por fim. – Se fosse há vinte anos, um beijo assim, e os nossos pais obrigavam-nos a casar. Mas não foi um beijo de dona, foi um beijo de escrava.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">E para mostrar a diferença deu-lhe ele um beijo de dono, este sim, fundo, insolente, impiedoso, como ela nunca seria capaz de lhe dar. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">Era verdade: o beijo dela tinha sido de escrava. Mas que arrogância a dele em dizê-lo! Não interessa: Mariana estava feliz. Abraçou-se a Victor ainda mais estreitamente, o corpo todo contra o dele, seios, tórax, ventre, sentindo-lhe a erecção mesmo por baixo das roupas grossas; e que lhe importava a ela que os seus beijos fossem de dona, de namorada ou de escrava, desde que nunca mais terminassem? </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">Foram para Brugges no pequeno automóvel utilitário que ela tinha comprado para as suas deslocações na Bélgica. Contrariamente ao que era hábito, Mariana pediu a Victor que conduzisse. Antes de sentar ao lado dele tirou o casacão comprido e estendeu-o no banco de trás; e depois de saírem da cidade subiu a saia, abrindo ligeiramente as pernas num convite a que ele a acariciasse. Victor depressa verificou que ela não trazia calcinhas. Nem soutien, de resto, como era evidente pelo cair do pullover. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">– Vês como te obedeço? – Disse-lhe Mariana. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">– Vejo como me serves, meu amor.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">Victor não se importava, antes pelo contrário, que Mariana tivesse mais prazer em servi-lo do que em obedecer-lhe; e não era necessário dizer que a vontade de servir implicaria sempre um dever de obediência. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">– Levanta a camisola, – ordenou; e quando ela lhe fez a vontade pôs-lhe a mão por dentro da roupa e tomou-lhe um mamilo entre os dedos. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">Assim a foi acariciando, alternando os toques no corpo dela com os gestos necessários à condução. Quando a largava era para lhe falar numa voz velada do que tinha sido o seu dia a dia durante o tempo em que tinham estado separados. Mas a conversa acabava sempre por recair no que fariam um ao outro quando chegassem a casa; e quando se davam conta de que tinham voltado a este assunto riam-se da impaciência que os consumia, tão pouco própria da sua idade e do seu conhecimento do mundo. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">No átrio de entrada do seu apartamento, a primeira coisa que Mariana fez foi tirar os sapatos e as meias. Descalçar-se logo que entrava em casa com o dono era para ela já um gesto automático, e fazia-o sempre sem hesitar e sem esperar que lhe fosse ordenado; mas nunca sem se lembrar daquele dia no Algarve: <em>De agora em diante, será para ti impensável – uma falta de respeito – ficares calçada quando estiveres sozinha comigo</em>.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">Depois de tirarem os casacos, e do primeiro beijo dentro de casa; e depois de ela se lhe ter ajoelhado aos pés, e de ele a ter erguido para a beijar de novo na boca – a primeira ordem de Victor a Mariana foi que vestisse uma saia rodada. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">– E põe o aquecimento mais forte.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">Pôr uma saia rodada sim, pensou Mariana. Mas por agora ainda não. Não estaria Victor cansado da viagem? Não quereria tomar nada?</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">– Quero-te a ti, e sem demora, – respondeu ele. – Oh, e um copo de água, pode ser da torneira; mas isso pode esperar até estares apresentável para mo servires. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">Mariana sentiu que a excitação que lhe tinha vindo a crescer durante a viagem diminuía um pouco; ou melhor, que era substituída por uma excitação diferente, mais cerebral, e temperada por uma ténue ansiedade. Decidida ainda a não obedecer depressa demais, aproximou-se de Victor e abraçou-o: </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">– Sim, meu querido. Já vou mudar de roupa. Senta-te. Podes pôr música se quiseres.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">Victor apertou-a nos braços e olhou-a fundamente nos olhos, sorrindo-lhe um sorriso cúmplice. Sem demasiada pressa de ser obedecido, começou a beijá-la nos olhos, na face, nas comissuras dos lábios. Mariana nunca tinha tido um amante que a beijasse tanto, nem que se satisfizesse tanto com beijá-la. E embora em relações anteriores não fosse dada a exageros neste tipo de manifestação amorosa, acolhia agora com avidez os beijos de Victor. Os beijos à volta da boca começaram a parecer-lhe uma tortura de Tântalo: porque não a beijava ele a sério, boca contra boca, língua contra língua? Tentou fazer-lho ela a ele, mas ele, mais alto e mais livre de movimentos, esquivou-se sem dificuldade. E sorria-lhe com os olhos, impudente, cruel. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">Por fim, quando Mariana se sentia prestes a gritar de frustração, sentiu-o descer sobre ela como um predador sobre a presa, os lábios esmagando os dela, a língua abrindo-lhe a boca e invadindo-a sem pedir licença, apaixonadamente, longamente. Um beijo de dono. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">– Agora vai, minha escrava. Vai fazer o que eu te mandei. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">Antes de a largar levantou-lhe ainda a saia. Por um segundo acariciou-lhe as nádegas nuas; e por fim Mariana, corada, sem fôlego, dirigiu-se ao quarto com o seu passo rápido de mulher pequena. Despiu-se rapidamente, lavou-se no quarto de banho, penteou-se, e pôs uma saia preta de algodão até aos pés, muito rodada. Por baixo vestiu as calcinhas e o soutien que tinha escolhido antes de sair de casa, duas peças minúsculas em renda preta. As calcinhas agradavam-lhe especialmente por terem a cinta alta e serem decotadas sobre a anca, de modo que lhe alongavam as pernas. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">Hesitou em pôr uma blusa transparente, mas decidiu escolher uma que fosse opaca: queria que o soutien fosse uma surpresa para o amante. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">Foi assim vestida que entrou na sala. Victor estava sentado no sofá. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">– Anda cá, – chamou-a. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">Mariana curvou-se para o beijar na boca e quando ele lhe puxou pela mão sentou-se ao lado dele. A casa estava a aquecer rapidamente, e nem mesmo Mariana, friorenta como era, sentia qualquer desconforto em encontrar-se vestida com roupas de Verão e descalça sobre os ladrilhos da sala. E de resto tudo na sala era agora aconchego, as luzes veladas, as persianas corridas para baixo, o tapete felpudo diante do sofá. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;"><em><span>Dieu, qu’on est bien</span></em></span><span style="font-size:100%;">, cantava Brel no leitor de CD’s. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">– Tens fome? – perguntou Mariana. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">Victor não tinha fome, mas ela sim. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">– Estou cheia de preguiça, – disse-lhe, dengosa. – Posso pedir-te uma coisa, meu amor?</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">Victor riu-se e disse que sim. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">– Podias trazer-me um iogurte. Mas quero que mo dês na boquinha.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">Na cozinha Victor tirou um iogurte do frigorífico, abriu-o e misturou-lhe uma colher de mel, como sabia que Mariana gostava. A brancura opaca do iogurte misturou-se com a transparência acastanhada do mel para dar um creme esbranquiçado e translúcido. Depois, sentado no sofá ao lado dela, começou a dar-lho às colheres, dizendo-lhe como se diz às crianças: </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">– Come, come tudo, vamos lá; agora é um Porsche a entrar na tua garagem; e agora é um comboio a entrar na estação: vem de Heidelberg, e eu venho nele. Agora&#8230; agora é o meu sexo a entrar na boquinha do teu corpo. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">–Mmmm! – Dizia Mariana. – Que bom!</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">E quando ele terminou sentou-se-lhe ao colo, de frente para ele, com a saia levantada e as pernas escanchadas de modo a sentir-lhe a excitação. Sob os joelhos sentia a cobertura do sofá, macia mas enrugada, e entre as coxas as calças grossas que Victor tinha vestidas. Quanto a ele, meio preso entre ela e as costas do sofá, tinha a liberdade de movimentos apenas suficiente para lhe passar as mãos pelo corpo, acariciando-lhe as costas e a nuca e descendo-lhe pelos flancos até aos quadris. A carícia tão depressa era leve como firme; mas nunca tão vigorosa e impaciente como a que ela lhe fazia a ele por sobre a roupa, com o sexo todo, girando as ancas num movimento redondo e largo.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">– Sim, meu amor, – ouviu-o dizer. – Dança para mim.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">Victor tinha-lhe posto as mãos por baixo da saia e acariciava-lhe as barrigas das pernas, as solas dos pés. Mariana esfregou-se sobre a erecção do amante, numa vigorosa dança do ventre, até que lhe sentiu as mãos por baixo da blusa: era altura de se despir, a blusa e a saia antes do soutien e das calcinhas. Mas antes disso queria despi-lo a ele. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">Para lhe desabotoar a camisa não precisava de sair da posição em que estava; mas quando quis tirar-lhe os sapatos e as calças teve de se sentar ao lado dele no sofá. Preparava-se para lhe pegar numa perna e atravessá-la sobre os joelhos de modo a poder descalçá-lo quando outra ordem a deteve: </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">– Assim não. De joelhos dá-te mais jeito.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">Mariana sorriu. Tinha sido apanhada a fazer batota e foi com uma pequena risada que se ajoelhou aos pés do amante, que lhe retribuiu com um sorriso. Victor trazia umas botas forradas, com solas de borracha, próprias para a chuva e para a neve. As peúgas eram grossas, de lã, tão apertadas que custaram um pouco a sair. Depois de o descalçar Mariana pegou-lhe num dos pés e ergueu-o até aos lábios para lho beijar. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">– Sim, meu amor, – disse Victor; mas quando ela ia fazer o mesmo ao outro pé ele fez força para baixo e não deixou.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">– Vou-te ensinar uma coisa, minha escrava.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">– O quê? – murmurou Mariana indistintamente, a boca colada aos pés dele. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">Mas Victor entendeu-a: </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">– Isto: de futuro, quando me beijares os pés, não mos levantes do chão; baixa-te tu até eles.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">Mariana riu-se: </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">– Está bem.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">Não era uma mulher humilde, como já tinha feito notar ao amante; pelo contrário, era orgulhosa; mas uma boa parte desse orgulho, punha-o em ser uma escrava perfeita, como também lhe tinha dito. Inclinando-se até ao chão beijou-lhe os pés, terna e aplicadamente; depois ergueu-se sobre os joelhos e puxou-lhe as calças para baixo. As cuecas eram uns calções de popeline às riscas, abertos à frente e sem botões. O melhor era deixar-lhas vestidas: entrever-lhe o sexo semi-erecto a espreitar de entre as sombras do púbis era mais excitante do que tê-lo já, todo nu e exposto, à sua frente. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">Foi com algum divertimento que notou o gesto discreto com que ele procurou tapar-se. Por pudor? Talvez; mas Victor nunca fora especialmente dado a esta virtude, pelo menos na presença dela. Ou por vontade de vê-la nua primeiro? </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">A ordem que se seguiu confirmou a segunda hipótese: </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">– Agora despe-te tu, minha escrava. Toda nua. Mas primeiro serve-me o copo de água que te pedi.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">Na cozinha Mariana aproveitou para ajeitar as roupas descompostas. Os ladrilhos brancos estavam frios, mas não tanto que os não pudesse suportar. Vestida para o servir, trouxe-lhe a água, que ele bebeu de um trago. Depois de lhe tirar da mão o copo vazio começou a despir a blusa, de pé à frente dele, atenta a que ele lhe visse bem o soutien: as rendas, as transparências, os brilhos acetinados, a florzinha vermelha bordada entre as copas. Victor sorriu-lhe, agradado: </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">– Ah, puseste um soutien. E preto, ainda por cima. Mas acho que gosto mais do que tinhas posto quando tomei posse de ti: aquele cinzento com as florzinhas cor-de-rosa.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">Mariana também achava que o outro soutien era mais bonito do que este; mas as calcinhas deste conjunto ficavam-lhe melhor. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">– Não concordas?</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">Victor continuou a olhá-la atentamente enquanto ela tirava a saia. E com efeito: à minúscula flor vermelha no soutien, entre os seios de Mariana, respondia outra, ligeiramente maior, nas cuecas, no ponto exacto em que as rendas transparentes deixavam ver o início dos pelos púbicos; e tudo em harmonia com os cabelos negros, as sobrancelhas carregadas, os olhos brilhantes de Mariana.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">Assim ficaram os dois, aparentemente esquecidos de que tinham começado a despir-se para fazer amor. Sentada aos pés do dono Mariana conversava e ria; de vez em quando levantava-se cheia de vivacidade para lhe mostrar uma fotografia ou um quadro, para pôr outro CD no leitor, ou simplesmente para o beijar na boca. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">O sofá era fundo, o tapete macio, o aquecimento eficaz. Dois candeeiros, dispostos em diagonal em cantos opostos da sala, davam uma meia-luz velada e quente. A excitação de Mariana e Victor não era menos intensa agora do que quando tinham começado; mas tinha perdido toda a urgência, e era agora algo para ser gozado lentamente mais do que imediatamente resolvido. Victor acariciava a face e os cabelos da amante, encantado com ela e tonto de felicidade. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">– Anda cá, – disse-lhe por fim. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">Mariana foi-se-lhe sentar de novo ao colo: desta vez atravessada sobre os joelhos dele, virando-se de modo a que ele não tivesse que lhe desapertar o soutien às cegas. Com a mão esquerda Victor procurou-lhe o sexo: as calcinhas eram tão exíguas que não foi preciso tirar-lhas, e bastou afastar-lhe para o lado a tira de tecido entre as pernas para lhe poder acariciar o sexo nu. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">Mariana, por sua vez, procurou com a sua pequena mão quase de criança o sexo do dono e acariciou-lho devagar, como ele gostava. Sentiu-o macio e confortável sob os dedos, quente do sangue que o enchia; e rijo como não tinha deixado de estar desde que se tinham beijado na estação, mas a essa rigidez não correspondia o vigor de movimentos e de gestos com que tinha entrado em casa dela pouco antes. Perscrutou-lhe o rosto: viu-lhe os olhos a começarem a raiar-se de vermelho, as olheiras a despontar.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">– Estás cansado, meu querido? Da viagem?</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">– Um pouco. E o dia também não foi muito bom. Mas isto passa: agora estou contigo. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">– Espera um pouco. Vou-te fazer um chá e vamos conversar.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">Enquanto Victor tomava o chá preto que Mariana tinha preparado ao gosto dele – muito forte e sem açúcar nem leite – foram conversando sobre as suas vidas quotidianas, os filhos, <span> </span>os afazeres profissionais, os colegas, os problemas, os projectos. Durante o tempo que esta conversa durou, Mariana não parou de acariciar ao de leve o sexo de Victor, sentindo-o ficar alternadamente mais duro ou um pouco mais flácido conforme a atenção se lhe ia focando mais na carícia ou na conversa. Enquanto Mariana preparava o chá e uns biscoitos para o acompanhar, Victor tinha posto o seu robe de cetim vermelho escuro, mas ela tinha-se deixado ficar nua. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">Victor bebeu várias chávenas de chá – chávenas de chá, nem menos de três, nem mais de trinta, costumava dizer a mãe de Marta – mas quase não tocou nos biscoitos. Mariana sabia que esta falta de apetite era nele sinal de cansaço, e depois de ele lhe entregar a chávena ordenou-lhe:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">– Agora vais tirar o robe, tomar um duche e deitar-te no sofá, para a tua escrava te dar uma massagem.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">Quando Victor começou o duche, Mariana juntou-se a ele:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">– Deixa-me lavar-te.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">Victor fechou os olhos, suspirou de contentamento e entregou-se nas mãos da amante, que o ensaboou e enxaguou três vezes da cabeça aos pés sem lhe descurar nenhuma prega do corpo. De cada vez, depois de o enxaguar, Mariana ajoelhava-se diante dele e tomava-lhe o sexo na boca enquanto ele, de olhos fechados, ia relaxando o corpo e murmurava:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">– Sim, minha querida… Meu amor… Minha escrava…</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">No fim secou-o com uma grande toalha felpuda que tinha posto previamente a aquecer no radiador: não com os movimentos vigorosos com que ele se esfregaria se fosse ele próprio a secar-se, mas com o cuidado e com a ternura com que se seca um bebé depois do banho.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">– Agora vai deitar-te no sofá, de barriga para baixo.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">De regresso à sala, Victor viu que Mariana tinha posto outro toalhão sobre o sofá. Deitou-se de bruços em cima dela e esperou com os olhos fechados, a cabeça apoiada sobre o antebraço, que Mariana pegasse no frasco de óleo para para bebé que utilizava para o massajar. Sentiu Mariana ajoelhar-se no sofá com uma perna de cada lado do corpo dele: o sexo dela sobre a sua pele era uma carícia complexa que combinava a macieza das mucosas húmidas com a relativa aspereza dos pelos púbicos. Também o calor do corpo feminino contrastava com a frescura do óleo quando ela lhe derramou sobre os ombros uma pequena porção. Depois as mãos dela, pequeninas, quase infantis, ternas, mas fortes e firmes a procurar-lhe os nódulos de tensão nos músculos do pescoço e dos ombros.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">Victor soltou um suspiro de prazer e abandonou-se às mãos de Mariana.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">A seguir foram os braços, músculo a músculo, e as mãos, dedo a dedo, desfazendo pacientemente tensões; e à medida que a amante lhe massajava cada membro, Victor sentia que essa parte do corpo lhe ficava como que mais pesada, abandonada à força da gravidade que a puxava de encontro à superfície mole mas firme do sofá.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">As costas foram exploradas vértebra a vértebra, numa carícia que por vezes o magoava um pouco, e só por via dessa ligeira dor é que Victor não era vencido pela sonolência que o tomava. Mariana moveu o corpo em direcção dos pés de Victor de maneira a deixar-lhe as nádegas livres para as massajar, mas antes de começar esta fase inclinou-se sobre ele e passou-lhe pelas costas, repetidamente, os bicos dos seios ao mesmo tempo que lhe dava pequenos beijos nos ombros e na nuca, numa carícia tão leve como o bater de asas duma borboleta.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">As nádegas foram trabalhadas primeiro com movimentos circulares, depois amassadas como que a fazer pão, e por fim repetidamente percorridas com um longo e vigoroso deslizar de ambas as mãos, do alto das coxas até aos rins, que não foram poupados a uma série de pancadas dadas com as arestas das mãos como golpes de <em>karate</em>.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">Para tratar das pernas do amante Mariana teve que o cavalgar de novo, sentando-se sobre as nádegas dele, mas desta vez virada para os pés. Victor tinha as coxas e as pernas duras, musculadas e muito tensas. Foi necessário que ela as acariciasse, que as beliscasse músculo a músculo, as amassasse e por fim lhes batesse com os punhos fechados, com toda a força, numa rápida chuva de golpes entremeados de beijos e carícias. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">– Estás a gostar?</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">– Sim… É bom…</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">– Estavas tão tenso… Estás a ficar melhor?</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">Victor sentia-se flutuar. Às solas dos pés, dedicou-lhes Mariana quase tanto tempo como tinha dedicado a tudo o resto, insinuando os dedos finos por todas as reentrâncias e relevos </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">Mas vem sempre um momento em que as lentidões mais lânguidas e aconchegadas dão lugar a frenéticas urgências: os beijos que os amantes trocavam agora, cada vez mais ávidos, deixavam para trás as outras carícias, que se mantinham suaves e lentas; e finalmente Mariana sentiu que não podia esperar mais. Tentou mudar de posição, acabar de despir o amante e sentar-se-lhe ao colo com as coxas abertas, de modo a empalar-se nele; mas ele, com sábia crueldade, prendeu-a pela cintura, obrigou-a a manter-se na posição em que estava e continuou a acariciar-lhe o sexo. Mariana não queria esta carícia cheia de delongas: não queria este prazer vazio, este orgasmo que se aproximava sem que ela o pudesse evitar ou retribuir. O clímax, quando lhe veio, veio-lhe entre risos e lágrimas. Durante todo o tempo que lhe durou, e depois durante o refluxo, Victor apertou-a nos braços, cobrindo-a de beijos, consolando-a. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">Mariana sentia-lhe a erecção contra a coxa e começou a roçar-se meigamente contra ele. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">– Sim, meu amor, – disse-lhe Victor quando a viu de novo sorridente. – Quero vir-me assim, contra o teu corpo. Como me convidaste a fazer no outro dia, lembras-te?</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">E mais tarde, enquanto ela, toda aninhada nele, o beijava ternamente, segredou-lhe ao ouvido: </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">– Vou possuir-te agora entre os seios. Dás-mos, meu amor? Dás-me os teus seios?</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">Dava; certamente que dava. Pois não se tinha dado já toda, de corpo e alma? </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">A uma ordem dele tirou as calcinhas e deitou-se de costas no tapete, em frente do sofá. Mariana considerava-se uma mulher com experiência e mundo, e era-o de facto, mas nunca tinha visto o esperma a jorrar dum pénis. O contentamento que sentia vinha da oportunidade de ver com os olhos um fenómeno que até aí só tinha conhecido por senti-lo dentro do corpo. E vinha também de poder servir o amante sem reservas, de sentir que ele se lhe entregava todo, finalmente. Seguiu-o com os olhos enquanto ele se dirigia, com os shorts ainda vestidos, à mala que tinha trazido e voltava para junto dela com uma pequena lata de vaselina na mão. Para não lhes doer, disse ele.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">– Mas isto não dói, – disse Mariana.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">– A ti, não, mas pode-me doer a mim.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">Mariana nunca tinha tido na cama um homem tão delicado de pele. Parecia uma mulher ou uma criança, e das mais mimosas. Viu-o tirar da lata, com as pontas dos dedos, uma porção de vaselina e sentiu uma ténue impressão de frio quando ele começou a espalhar-lha nas faces interiores dos seios. Depois sentiu-se requebrar sob as mãos quentes que lhe deslizavam, lúbricas, por todo o peito. Quando ele se lhe deitou por cima apertou os seios com as mãos, tentando criar para ele um canal tão fácil como o de que ele se servia habitualmente, mas mais apertado se possível. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">Levantando a cabeça podia ver em primeiro plano a glande rosada que lhe avançava em direcção à cara e se lhe recolhia de novo entre os seios, num vaivém cada vez mais rápido. Vista assim de perto a abertura na ponta parecia tão larga como uma mangueira de jardim, e Mariana fantasiou toda uma torrente que jorrando dela a havia de avassalar. Para assistir mais confortavelmente a esta erupção estendeu o braço para o sofá e pegou numa almofada, que pôs por baixo da nuca. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">Victor levou largos minutos a atingir o orgasmo. Mariana sentiu-o antes de o ver, um jacto cremoso e quente que lhe atingia o peito e o pescoço, e depois, expandida a maior força, um fluido branco que se derramava em borbotos cada vez mais débeis. Logo que o amante parou de se mover Mariana limpou-se com um lenço de papel. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">– Não porque os teus fluidos me incomodem, meu senhor; pelo contrário. Mas não vale a pena sujar o tapete. Não te importas?</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">– Não me importo que te limpes com o lenço, mas a mim quero que me limpes com a tua boca.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">Mariana riu-se. Depois de se limpar inclinou-se sobre Victor e começou a lamber-lhe e a chupar-lhe o sexo, delicadamente. Mas não deixou por isso de o lavar como era seu costume depois de fazerem amor – quando o sentia preguiçoso demais para tomar duche – com um toalhete perfumado e água morna. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">Com isto começaram uma conversa longa, lânguida e bastante tonta sobre os cheiros e os sabores do sexo.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">– A que sabe então o meu esperma?</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">– Hmmm… Deixa ver… A pêssegos. E a minha cona?</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">– A caviar.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">– Não vale, essa tiraste-a da Dona Flor!</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">– Então sabe a bacalhau.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">– Estúpido! Diz-me a que é que sabe a minha cona, ou então começo a fazer-te cócegas até te obrigar a pedir misericórdia!</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">– Está bem, agora a sério. A tua cona… A tua coninha querida… sabe à água da chuva, durante uma tempestade de Verão, a escorrer-me pela cara.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;"><span> </span>E esta conversa conduziu-os, em devido tempo, a um renovar do desejo; e este desejo levou a que de novo fizessem amor; mas o amor que fizeram dessa vez pertence a outra história. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">Debaixo deles o espesso tapete beige titilava-lhes os corpos. À volta, se estendessem a mão, sentiriam o ladrilho que revestia o chão; e no calor da sala a frescura deste toque era um conforto. O sofá onde tinham estado antes era cor de tabaco, e erguia-se-lhes diante dos olhos como uma montanha. Nas paredes brancas, os quadros de Mariana: nus femininos, alguns auto-retratos, naturezas mortas, pintadas com cores fortes e pinceladas vigorosas.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#990000;"><span style="font-size:100%;">E um retrato a óleo de Victor numa cervejaria famosa de Bruxelas, sentado a uma mesa de madeira cor de mel. No retrato aparecia ligeiramente corado, vestido com uma T-shirt preta: a única indicação de que era Inverno lá fora era o grosso sobretudo pendurado num canto, juntamente com as luvas, o cachecol e o boné de tweed. Sobre a mesa um cinzeiro de latão vazio, um candeeiro Tiffany aceso, uma base de copos em cartão e o amarelo cádmio duma caneca de cerveja. Uma gota de líquido escorrera para a mesa. </span></p>
<p><span><span style="font-size:100%;color:#990000;">Via-se que tinha acabado de pousar a caneca, e que estaria talvez a cumprimentar alguém que tivesse acabado de chegar. O olhar com que olhava para fora do quadro tinha a mistura de ironia e ternura que lhe era peculiar. O cabelo era uma melena romântica, revolta e comprida. Os lábios estavam húmidos da cerveja; e por baixo do nariz tinha uma réstia de espuma, branca e translúcida, da cor do esperma que Mariana lhe tinha visto sair aos borbotos do sexo entumescido.</span></span></p>
<p style="text-align:right;"><em>(Publicado no Blogger a 20/08/06)</em></p>
</div>]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[De joelhos]]></title>
<link>http://omarkhayyam2.wordpress.com/2008/04/16/de-joelhos/</link>
<pubDate>Wed, 16 Apr 2008 22:05:28 +0000</pubDate>
<dc:creator>Vanderdecken</dc:creator>
<guid>http://omarkhayyam2.wordpress.com/2008/04/16/de-joelhos/</guid>
<description><![CDATA[- Terias que ser minha escrava &#8211; disse ele. Dúnia não hesitou: - Sempre fui tua escrava&#8230;]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><p><a href="http://photos1.blogger.com/blogger/4369/921/1600/De%20joelhos.jpg"><img style="float:right;cursor:pointer;margin:0 0 10px 10px;" src="http://photos1.blogger.com/blogger/4369/921/400/De%20joelhos.jpg" border="0" alt="" width="196" height="198" /></a>- Terias que ser minha escrava &#8211; disse ele.</p>
<p>Dúnia não hesitou:</p>
<p>- Sempre fui tua escrava&#8230;</p>
<p>No outro extremo da ligação telefónica fez-se um longo silêncio. Por fim ouviu-se a voz dele, mais grave, e com um laivo de ternura (ou seria respeito?) que Dúnia nunca lhe tinha ouvido antes:</p>
<p>- Dás-te conta do que estás a dizer? Sabes o que implica ser escrava de um homem como eu?</p>
<p>Tudo o que Dúnia sabia era que o adorava como a um Deus, que já tinha sofrido muito por ele e que estava disposta a sofrer muito mais, contanto que ele nunca a deixasse: não era isso ser escrava? Mas reuniu forças para responder:</p>
<p>- Não sei&#8230; Mas não me importo, faz de mim o que quiseres.</p>
<p>Então ele explicou-lhe: era ele ter todos os direitos sobre ela e ela nenhuns sobre ele &#8211; nem sequer sobre si própria; era estar sempre disponível para ele, com todas as aberturas do seu corpo; era contentar-se com qualquer migalha de amor que ele lhe atirasse; era obedecer-lhe em tudo &#8211; não só no que lhe desse prazer a ela, mas também, e principalmente, no que mais lhe custasse fazer e no que mais lhe parecesse arbitrário e sem sentido; era estar pronta a ser punida quando lhe desagradasse e a não ser recompensada quando lhe agradasse; e era sobretudo nunca mais se pertencer a si própria.</p>
<p>- Só terás um direito: o de deixares de ser minha escrava quando quiseres.</p>
<p>Dúnia ouviu isto tudo sem verdadeiramente ouvir, aturdida por uma sensação de volúpia que a fazia como que dissolver-se nas palavras pausadas que lhe chegavam pelo telefone e das quais se destacava, como um farol no nevoeiro, a palavra amor. A palavra amor na voz dele.</p>
<p>- Compreendes bem o que eu te estou a dizer, Dúnia?</p>
<p>- Sim, compreendo&#8230;</p>
<p>- E consentes em tudo?</p>
<p>- Sim&#8230;</p>
<p>- Então diz: sim, meu senhor.</p>
<p>Foi a vez de Dúnia fazer um longo silêncio. Se esta exigência lhe era tão doce, porque é que lhe custava tanto obedecer-lhe? Por fim conseguiu dizer:</p>
<p>- Sim, <span style="font-size:78%;">meu senhor</span>.</p>
<p>Teve medo que ele não tivesse ouvido o murmúrio final, e que a mandasse repetir tudo. Mas não, ele nada lhe exigiu, parecia aguardar que ela continuasse a falar. Dúnia respirou fundo e acrescentou:</p>
<p>- Vamo-nos encontrar? <span style="font-size:78%;">Meu Senhor</span>.</p>
<p>- Sim, estou aí dentro de hora e meia ou duas horas, depende do trânsito. Espera por mim de saia ou vestido, não te quero ver de calças. Sem nada por baixo. E descalça.</p>
<p>Dúnia admirou-se:</p>
<p>-Descalça porquê?</p>
<p>- Porque eu to ordeno &#8211; respondeu ele com um sorriso na voz. &#8211; Não chega?</p>
<p>E logo, num tom mais sério, sem lhe dar tempo a responder:</p>
<p>- Por três razões: porque eu to ordeno, porque uma mulher descalça é sempre bela, e porque os pés nus são um símbolo de submissão muito antigo, e que me diz muito. Espera-me descalça, é importante.</p>
<p>Mal desligou, Dúnia pôs-se a preparar tudo. Só hora e meia! Talvez nem isso: de Heidelberg, onde ele vivia, a Freiburg, onde vivia ela, pelas auto-estradas alemãs, leva-se uma hora no máximo. Mas talvez ele precisasse de tempo para se arranjar, e com isso lhe desse oportunidade de arrumar a casa, comprar flores, velas e comida, preparar o jantar, lavar-se, perfumar-se, vestir-se, enfeitar-se&#8230;</p>
<p>Uma hora e meia depois Dúnia tinha tudo pronto e estava à espera, vestida com uma saia larga de algodão castanho que lhe dava pelo tornozelo, com um top de alças de côr alaranjada e calçada com umas chinelas havaianas enfeitadas com missangas de cores quentes &#8211; certamente era isso que ele tinha querido dizer quando lhe tinha ordenado que o esperasse descalça, não era? Não tinha que ser descalça mesmo, com certeza, e as chinelas eram tão lindas&#8230;</p>
<p>A campainha da porta sobressaltou-a. Pegou no intercomunicador. Era ele.</p>
<p>- Sobe.</p>
<p>Com o coração a bater descompassado, Dúnia abriu a porta do apartamento, que deixou encostada, e pôs-se à espera, atenta ao barulho do elevador. Sentiu-o arrancar e depois parar, arrancar de novo. Estava a subir! No momento em que ouviu o som das portas a abrir-se pensou em correr até ao quarto e descalçar-se. Porque é que não se tinha descalçado? Agora não havia tempo, ele estava aí, estava à porta. Recuou para a sombra, para onde ele não a visse logo.</p>
<p>Sentiu-o mexer na porta:</p>
<p>- Está aberta, entra!</p>
<p>Ele entrou. Trazia um pequeno saco que devia trazer uma muda de roupa e alguns artigos de toilette. Estava mais magro? Sim, estava mais magro. Ela é que tinha engordado: de repente sentiu-se uma matrona balofa e pesada à beira dele, e ao ver que ele a olhava de cima a baixo sentiu-se ruborizar.</p>
<p>- Estás mais bonita, Dúnia.</p>
<p>Mais bonita, ela? Com aqueles pneus? Como podia ele achá-la bonita? Mas antes que tivesse tempo de se convencer completamente que estava feiíssima, ouviu-o dizer:</p>
<p>- Desobedeceste-me. Tinha-te dito que me esperasses descalça.</p>
<p>- Era mesmo preciso? Estou praticamente descalça. Não são bonitas estas chinelas? &#8211; e lançou-lhe os braços ao pescoço para o beijar.</p>
<p>Ele abraçou-a e retribuiu-lhe o beijo: ao princípio com ternura, depois, logo a seguir, com avidez e paixão. Era este, então, o sabor da boca dele! Dúnia tinha esperado tão longamente por estes braços, por esta boca, e agora bebia dela, insaciável. Colada contra ele, sentiu-lhe a erecção mesmo através do sobretudo grosso. «Ele deseja-me!» E abraçou-se a ele com mais força.</p>
<p>Mas cedo, demasiado cedo, sentiu que ele a afastava e pousava a sacola no chão.</p>
<p>- Ajoelha-te.</p>
<p>As mãos dele nos ombros dela confirmavam a ordem. Um pouco contrafeita, ajoelhou-se no chão do hall de entrada, sobre o tapete; para que ele não lhe visse a cara virou a cabeça para o lado e para baixo e apertou a face esquerda contra o corpo dele, só para lhe sentir a dureza do pénis por baixo da roupa.</p>
<p>- Beija-me a mão.</p>
<p>Beijar-lhe a mão? Não era assim que Dúnia tinha imaginado este primeiro encontro, mas não lhe custou obedecer. Ser escrava era isto? Não era muito difícil, pelo contrário. As mãos dele eram bonitas, delicadas, com dedos finos, quase de mulher &#8211; mas quando a agarraram pelos braços para a pôr de pé, a força que exerceram era a dum homem.</p>
<p>Depois de a apertar contra si e de a beijar de novo, ele pediu-lhe que lhe indicasse a casa de banho. Era à direita do hall. A porta a seguir dava para a cozinha, e passada esta estava-se na sala. Dúnia pegou-lho no sobretudo, no chapéu, nas luvas e no cachecol e pendurou tudo no armário da entrada.</p>
<p>A mesa na sala já estava posta com dois lugares.</p>
<p>- Queres beber alguma coisa, meu querido?</p>
<p>Ele sentou-se no sofá.</p>
<p>- Quero, minha escrava &#8211; respondeu ele. &#8211; Traz-me um copo de água. Tenho sede.</p>
<p>E quando ela, meio atordoada pela naturalidade com que ele lhe tinha chamado escrava, se começava a afastar em direcção à cozinha, acresentou:</p>
<p>- E descalça-te para mo servires.</p>
<p>Era mesmo verdade, então, que ele a queria descalça. Depois de deixar as chinelas no quarto, Dúnia foi à cozinha para deitar água num copo. Depois levou-o para a sala e ia entregar-lho, mas ele não lhe pegou.</p>
<p>- Serve-me de joelhos. Quando me servires alguma coisa deves fazê-lo sempre de joelhos.</p>
<p>Desta vez Dúnia não achou tão estranho ajoelhar-se diante dele, talvez porque nessa posição lhe era mais fácil entregar-lhe o copo. À medida que bebia a água em pequenos goles ele acariciava-lhe os cabelos. Ela, na posição em que estava, não podia mais do que beijar-lhe as mãos. Às vezes tentava soerguer-se para o beijar na boca, mas ele não lho consentia: em vez disso inclinava-se ele e, puxando-a pelos cabelos, punha-lhe o rosto a jeito para a beijar.</p>
<p>Conversaram assim durante algum tempo, ele sentado no sofá, ela de joelhos diante dele, beijando-lhe as mãos e ouvindo as regras por que de futuro se regeria. Estava calor, Dúnia tinha posto o aquecimento no máximo: a meio da conversa ele teve que despir o pullover para ficar em mangas de camisa.</p>
<p>Durante o jantar Dúnia experimentou pedir-lhe que lhe permitisse calçar-se, o que ele recusou tranquilamente mas com firmeza. No fim da refeição ela pôs a tocar um CD de Loreena McKennit que ele lhe tinha oferecido meses antes pelos anos, quando ainda eram apenas bons amigos; e enquanto ele o ouvia sentado no sofá ela levantou a mesa e arrumoun rapidamente a cozinha. Por fim foi ajoelhar-se aos pés dele (sem que ele lho ordenasse, desta vez) e recomeçou a beijar-lhe as mãos. Desta vez, porém, ele não se mostrou tão esquivo: não só não a proibiu de se levantar como a puxou para cima, beijando-lhe a boca e metendo-lhe a mão no decote para lhe rolar os mamilos entre os dedos. Os seios estavam nus por baixo do top, tal como ele tinha ordenado. Os dedos dele apertavam-lhe os mamilos com força, fazendo-lhe doer: como teria ele adivinhado que era isso que ela queria?</p>
<p>Também as nádegas estavam nuas por baixo da saia, como a mão exploradora dele não tardou muito a confirmar. Quando sentiu a mão dele a tocá-la no sexo húmido, ela quis-lhe desapertar as calças: ele consentiu mas obrigou-a a continuar de joelhos. Tinha o pénis um pouco curto mas bastante grosso, curvado para cima, e circuncidado.</p>
<p>- Posso beijá-lo? &#8211; perguntou Dúnia.</p>
<p>- Sim, mas pede como deve ser.</p>
<p>- Posso beijá-lo, meu Senhor?</p>
<p>- Começa por beijá-lo, sim. Depois vou ensinar-te a lambê-lo e a chupá-lo a meu gosto: aprende bem, porque tenciono possuir-te muitas vezes pela boca. Mas primeiro põe-te nua.</p>
<p>Dúnia era suficientemente pudica para nunca ter tirado a parte de cima do bikini na praia, porém não tanto que nunca nenhum namorado a tivesse visto nua. Mas nunca assim, nunca como lhe estava agora a ser exigido: o normal, para ela, era ir descartandoa roupa à medida que as carícias iam progredindo, ou então despir-se sozinha na casa de banho e dar meia dúzias de passos apressados para a cama, cobrindo-se logo com os lençóis. Despir-se assim, na sala, pelas suas próprias mãos, perante um homem sentado e vestido que não parava de olhar para ela com um pequeno sorriso indecifrável &#8211; isso ela nunca o tinha feito. Tinha mesmo que ser?</p>
<p>- Tem mesmo que ser, minha escrava. Quero que te dispas para mim.</p>
<p>Dúnia deu um suspiro, pôs os olhos no chão para ele não a ver ruborizar e tirou o top, ficando com os seios à mostra. Tinha os mamilos rosados e as aréolas muito claras. Lentamente, sentindo os olhos dele postos nela, dobrou o top e colocou-o sobre uma das cadeiras da sala.</p>
<p>- Anda cá, Dúnia&#8230;</p>
<p>Ainda de olhos baixos, aproximou-se dele, que lhe pôas as mãos nos ombros, a fez ajoelhar e começou a beijá-la na boca, acariciando-lhe os seios ao mesmo tempo.</p>
<p>- Continua&#8230;</p>
<p>Levantou-se para tirar a saia, mas antes que o fizesse ele deteve-a:</p>
<p>- Primeiro solta os cabelos.</p>
<p>Dúnia começou a tirar um por um os ganchos e alfinetes que lhe prendiam o cabelo e a pousá-los na mesinha baixa ao lado do sofá. Os seios nus oscilavam a cada movimento. Dúnia queria virar-se de costas para os esconder, mas o olhar dele prendia-a. À medida que o cabelo se lhe espalhava pelos ombros também o rubor se lhe espalhava pelo rosto e pelo peito sardento.</p>
<p>- Já está&#8230;</p>
<p>- Agora o resto &#8211; disse ele.</p>
<p>Dúnia desatou a fita com que a saia se apertava e tirou-a por baixo, equlibrando-se ora num pé, ora noutro. Dobrou a saia à frente do corpo, adiando assim o momento em que ele lhe veria o fundo do ventre. Quando teve de se virar para pousar a saia na cadeira sentiu os olhos dele como uma queimadura sobre as nádegas brancas e redondas. Sem tirar os olhos do chão virou-se de novo para ele com as mãos a tapar o sexo.</p>
<p>- Agora despe-me a mim.</p>
<p>Dúnia inclinou-se sobre ele para lhe desabotoar e despir a camisa. Ele sorriu-lhe, beijou-a ao de leve e ordenou-lhe:</p>
<p>- Beija-me os mamilos.</p>
<p>Dúnia não sabia que os homens também gostavam de ser beijados nos mamilos, nenhum dos seus namorados anteriores lho tinha alguma vez pedido; mas aplicou-se com prazer nesta tarefa até ele lhe ordenar que continuasse a despi-lo. Ajoelhou-se, e ia desapertar-lhe o cinto quando ele lhe segurou os pulsos, a beijou, e disse:</p>
<p>- Não, minha escrava, assim não. Primeiro os sapatos.</p>
<p>Era inverno lá fora, e nevava. As botas almofadadas de camurça preta eram difíceis de tirar, tal como as grossas peúgas verdes, iguais às usadas pelo exército suíço. Dúnia teve que fazer força. Depois soergueu-se para lhe desapertar o cinto e puxar as calças para baixo. Por fim, as cuecas, molhadas à frente, junto ao elástico, pelo líquido que a excitação dele produzira.</p>
<p>- Beija-o agora, escrava.</p>
<p>Lentamente, humildemente, com a palavra escrava a ecoar-lhe nos ouvidos, Dúnia inclinou a cabeça em direcção ao sexo erecto do seu Senhor. Sabia que mais tarde ele a acompanharia ao quarto e se deitaria com ela na cama limpa e perfumada, já preparada para os receber; mas neste momento tudo o que queria era ficar assim a servi-lo, eternamente de joelhos.</p>
<p style="text-align:right;"><em>(Publicado a 03/08/06)</em></p>
</div>]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[Oásis]]></title>
<link>http://omarkhayyam2.wordpress.com/2008/04/15/oasis/</link>
<pubDate>Tue, 15 Apr 2008 18:40:24 +0000</pubDate>
<dc:creator>Vanderdecken</dc:creator>
<guid>http://omarkhayyam2.wordpress.com/2008/04/15/oasis/</guid>
<description><![CDATA[Naquele jardim secreto em que és a minha escrava, O meu deslumbramento, quando te revejo, É, como a ]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><p><a href="http://photos1.blogger.com/blogger/4369/921/1600/Vinho%20e%20uvas.1.jpg"><img style="float:left;cursor:pointer;margin:0 10px 10px 0;" src="http://photos1.blogger.com/blogger/4369/921/400/Vinho%20e%20uvas.0.jpg" border="0" alt="" width="192" height="287" /></a><span style="font-size:102%;font-family:lucida grande;color:#330099;">Naquele jardim secreto em que és a minha escrava,<br />
O meu deslumbramento, quando te revejo,<br />
É, como a dor, pungente, e enorme como um beijo<br />
Que começa no fundo do tempo e não acaba.</span></p>
<p><span style="font-size:102%;font-family:lucida grande;color:#330099;">Ali, envolta em véus translúcidos de linho,<br />
Danças, obediente à voz do meu desejo.<br />
Depois trazes baixelas, pratas, nozes, queijo<br />
E serves-me descalça a fruta, o pão e o vinho.</span></p>
<p><span style="font-size:102%;font-family:lucida grande;color:#330099;">Ó meu amor querido! Os teus pés nus! Os seios<br />
Que descobres e dás à minha mão de dono!<br />
O teu corpo que se abre em flor à minha frente!</span></p>
<p><span style="font-size:102%;font-family:lucida grande;color:#330099;">Tu és a água e és a sede; os nós, os veios,<br />
A seiva, a fonte fresca, a boca que abandono<br />
Para beber da taça funda do teu ventre.</span></p>
<p style="text-align:center;"><span style="font-style:italic;font-size:102%;font-family:lucida grande;color:#330099;">Vanderdecken</span></p>
<p style="text-align:right;"><em>(Publicado no Blogger a 19/07/06)</em></p>
</div>]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[Porque gosto de mulheres descalças?]]></title>
<link>http://omarkhayyam2.wordpress.com/2008/04/14/porque-gosto-de-mulheres-descalcas/</link>
<pubDate>Mon, 14 Apr 2008 18:21:38 +0000</pubDate>
<dc:creator>Vanderdecken</dc:creator>
<guid>http://omarkhayyam2.wordpress.com/2008/04/14/porque-gosto-de-mulheres-descalcas/</guid>
<description><![CDATA[Os gostos não se explicam, não é? Pois &#8230; mas o facto é que nem por isso deixamos de procurar e]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><p><a href="http://photos1.blogger.com/blogger/4369/921/1600/iStock_000000688793Small.jpg"><img style="float:left;cursor:pointer;margin:0 10px 10px 0;" src="http://photos1.blogger.com/blogger/4369/921/320/iStock_000000688793Small.jpg" border="0" alt="" /></a><span style="color:#993300;">Os gostos não se explicam, não é?</span></p>
<p><span style="color:#993300;">Pois &#8230; mas o facto é que nem por isso deixamos de procurar explicação para eles.</span></p>
<p><span style="color:#993300;">Gosto de mulheres descalças porque os pés nus são de há muito um sinal de submissão e respeito. Moisés tirou as sandálias no cimo do monte Sinai, os muçulmanos descalçam-se para entrar na mesquita &#8230; sinal de submissão, portanto.</span></p>
<p><span style="color:#993300;">Mas também, paradoxalmente, sinal de liberdade: que o digas tu, leitora, de cada vez que chegas a casa exausta e atiras com os sapatos para o outro canto da sala. Que o digam todos aqueles &#8211; e conto-me entre eles &#8211; que sempre que podem tiram os sapatos, na praia ou no jardim público.</span></p>
<p><span style="color:#993300;">Sinal de sensualidade, também: o prazer de sentir sob os pés, ora uma textura, ora outra, a areia fina grossa da praia, a poeira fina do caminho, a pedra rugosa ou lisa do passeio, o mármore, a madeira, a carpete &#8230;</span></p>
<p><span style="color:#993300;">Andar descalço, diz-nos John Updike, é uma maneira mais discreta de fazer nudismo. Acho que tem razão: expor ao ar e ao vento partes do corpo que habitualmente andam tapadas, ainda que sejam só os pés, é uma forma de contacto com a natureza &#8211; com a Mãe Terra, dirão os mais místicos &#8211; que nos recorda que somos algo mais que o software instalado nos nossos cérebros.</span></p>
<p><span style="color:#993300;">Mas a principal razão por que gosto de ver uma mulher descalça não é nenhuma destas, é outra muito mais simples: uma mulher descalça é mais bela. Não, eu não disse «mais bonita»: disse «mais bela». Não é a mesma coisa.</span></p>
<p><span style="color:#993300;">Portanto, leitora, se hoje te apetece ficar mais bonita, uma das maneiras de o fazeres é calçar uns bonitos sapatos. E se os que tens em casa não te satisfazem, pega no teu cartão de crédito e vai comprar aquele par &#8211; tu sabes quais são, são aqueles que viste na montra e não compraste porque custavam uma pipa de massa.</span></p>
<p><span style="color:#993300;">Mas se o teu objectivo de hoje é a beleza; se queres ser hoje Ishtar e Afrodite; se queres que hoje sejam lançados por ti ao mar, como por Helena, mil navios &#8211; então, querida leitora, deixa para outro dia os tais sapatos, e descalça-te.</span></p>
<p style="text-align:right;"><span style="color:#cc33cc;"><em>(Publicado no Blogger a 18/11/05)</em></span></p>
</div>]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[Mulher]]></title>
<link>http://omarkhayyam2.wordpress.com/2008/04/14/mulher/</link>
<pubDate>Mon, 14 Apr 2008 18:04:32 +0000</pubDate>
<dc:creator>Vanderdecken</dc:creator>
<guid>http://omarkhayyam2.wordpress.com/2008/04/14/mulher/</guid>
<description><![CDATA[O passo descalço Seguro e meigo Sobre a terra. As ancas como as velas De um navio No regresso. O can]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><p><img class="alignright size-full wp-image-1223" title="da-n-s-07-sk" src="http://omarkhayyam2.wordpress.com/files/2008/04/da-n-s-07-sk.jpg" alt="da-n-s-07-sk" width="260" height="453" /><a name="112973248983053098"></a></p>
<p><span style="color:#003300;">O passo descalço</span><br />
<span style="color:#003300;">Seguro e meigo</span><br />
<span style="color:#003300;">Sobre a terra.</span></p>
<p><span style="color:#003300;">As ancas como as velas</span><br />
<span style="color:#003300;">De um navio</span><br />
<span style="color:#003300;">No regresso.</span></p>
<p><span style="color:#003300;">O canto, a dor, o riso,</span><br />
<span style="color:#003300;">O choro</span><br />
<span style="color:#003300;">A completude</span><br />
<span style="color:#003300;">Da fêmea.</span><br />
<span style="color:#ffffff;">.</span><br />
<span style="color:#ffffff;">.</span><br />
<span style="color:#ffffff;">.</span><br />
<span style="color:#ffffff;">.</span><br />
<span style="color:#ffffff;">.</span><br />
<span style="color:#ffffff;">.</span><br />
<span style="color:#ffffff;">.</span><br />
<span style="color:#ffffff;">.</span></p>
<p><span style="color:#003300;"><br />
</span></p>
<p><span style="color:#003300;"><br />
</span></p>
<p><span style="color:#003300;"><br />
</span></p>
<p><span style="color:#003300;"><br />
</span></p>
<p style="text-align:right;"><em> (publicado no Blogger a 19/10/05)</em></p>
</div>]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[Dia a dia]]></title>
<link>http://omarkhayyam2.wordpress.com/2007/06/16/dia-a-dia/</link>
<pubDate>Sat, 16 Jun 2007 16:35:00 +0000</pubDate>
<dc:creator>Vanderdecken</dc:creator>
<guid>http://omarkhayyam2.wordpress.com/2007/06/16/dia-a-dia/</guid>
<description><![CDATA[É assim: Viro para a minha rua. Os faróis do carro varrem a janela do quarto. Tu estás na sala, mas ]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><p><img class="alignright size-medium wp-image-776" title="kn-11-i" src="http://omarkhayyam2.wordpress.com/files/2007/06/kn-11-i.jpg?w=211" alt="kn-11-i" width="180" height="256" />É assim:<br />
Viro para a minha rua. Os faróis do carro varrem a janela do quarto. Tu estás na sala, mas apercebes-te do clarão.<br />
Estaciono o carro junto ao muro do jardim. Tu, entretanto, foste à janela e viste que era eu. Sabias que era a hora e estás quase pronta.<br />
Saio do carro devagar, a dar-te tempo.  Abro a cancela. Subo os degraus para a porta da entrada, com cuidado para não escorregar no gelo. Faço uma pausa. Meto a chave na fechadura. Ouço os teus passos: estás a correr descalça, e não és propriamente levezinha.<br />
Entro. Penduro o casaco. Limpo os óculos, que embaciaram com o calor da casa. Abro a porta da sala.<br />
Estás à minha espera como te ordenei. De joelhos, descalça, seios nus, saia rodada, bijuterias sobre todo o corpo.<br />
Tens a mesa posta. Cheira àquelas comidas alentejanas que tu  gostas de fazer. Estou com fome. Mas não me dirijo à mesa, dirijo-me a ti.</p>
</div>]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[TALISMÃ]]></title>
<link>http://omarkhayyam2.wordpress.com/2006/09/03/talisma-2/</link>
<pubDate>Sun, 03 Sep 2006 16:37:00 +0000</pubDate>
<dc:creator>Vanderdecken</dc:creator>
<guid>http://omarkhayyam2.wordpress.com/2006/09/03/talisma-2/</guid>
<description><![CDATA[Victor chegou pontualmente às oito e vinte. Quando dunya ouviu a chave dele na porta, correu do quar]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><div style="text-align:left;"><a href="http://bp1.blogger.com/_UEfhPJXHLPM/SApZTstLWAI/AAAAAAAAAWU/wOvxLHpQhGk/s1600-h/harem+girl.jpg"><img style="float:right;cursor:pointer;margin:0 0 10px 10px;" src="http://bp1.blogger.com/_UEfhPJXHLPM/SApZTstLWAI/AAAAAAAAAWU/wOvxLHpQhGk/s400/harem+girl.jpg" border="0" alt="" width="196" height="263" /></a><span style="color:#333300;">Victor chegou pontualmente às oito e vinte. Quando dunya ouviu a chave dele na porta, correu do quarto, onde se encontrava, para a sala, que era onde ele lhe tinha ordenado que o esperasse. Sabia que o </span><span style="font-style:italic;color:#333300;">slap slap</span> apressado dos seus pés nus, impossível de confundir com qualquer outro ruído de passos, podia ser ouvido da entrada, onde Victor estava neste momento a pendurar o sobretudo e o chapéu.</p>
<p><span style="color:#333300;">A mesa estava posta para os dois, a comida estava pronta a ser servida e dunya estava vestida como ele tinha ordenado: pés e seios nus, mamilos pintados da cor dos lábios, cabelos soltos; um </span><span style="font-style:italic;color:#333300;">sarong </span><span style="color:#333300;">preto com franjas compridas à roda das ancas, anéis tanto nos dedos dos pés como nos das mãos, bijuteria nos tornozelos, nos pulsos, no pescoço. Ajoelhou-se junto do sofá, virada para a porta da sala, como mandava o ritual, de modo que ele a visse imediatamente ao entrar.</span></p>
<p><span style="color:#333300;">- Baixa os olhos &#8211; ouviu-o dizer, ainda do vestíbulo.</span></p>
<p><span style="color:#333300;">Grata por Victor lhe ter lembrado esta regra e um pouco irritada consigo própria por ser preciso lembrar-lha, dunya baixou os olhos. Isto fez com que só visse do seu Senhor, quando ele se aproximou dela, as calças de bombazine pretas e as botas próprias para a neve. Não resistiu a erguer os olhos um pouco para lhe ver a zona da carcela: a protuberância por baixo do tecido denunciava o sexo erecto, e dunya sentiu-se enlanguescer ao ver que o amante tinha ficado excitado só de a ver.</span></p>
<p><span style="color:#333300;">Quis olhá-lo nos olhos e sorrir-lhe, ver a disposição dele, mas conteve-se. Via-lhe as mãos, primeiro a que ele lhe apresentou para beijar, depois a outra, a esquerda, onde ele segurava um pedaço de tecido preto que pareceu a dunya ser de seda ou cetim.</span></p>
<p><span style="color:#333300;">Quando ele se pôs por trás dela, dunya olhou de novo para o chão. Sentiu que ele lhe afastava os cabelos com a mão, viu num relance o tecido preto à frente do rosto.</span></p>
<p><span style="color:#333300;">- Fecha os olhos.</span></p>
<p><span style="color:#333300;">Victor nunca a tinha vendado antes. Porque o faria agora, precisamente agora, quando ela tinha tanto que fazer, o jantar para servir?</span></p>
<p><span style="color:#333300;">- Toca com a testa no chão.</span></p>
<p><span style="color:#333300;">Para obedecer, dunya ficou com o rabo empinado. Sentiu que o amante lhe levantava o </span><span style="font-style:italic;color:#333300;">sarong</span><span style="color:#333300;">, lhe acariciava brevemente as nádegas e lhe inseria um dedo inquisitivo no sexo, que estava molhado.</span></p>
<p><span style="color:#333300;">- Levanta-te.</span></p>
<p><span style="color:#333300;">Com dificuldade, sem ver nada, pôs-se de pé. Victor ajudou-a e conduziu-a na direcção, pareceu-lhe, da mesa de jantar.</span></p>
<p><span style="color:#333300;">- Ajoelha-te. Senta-te sobre os calcanhares. Abre bem as pernas. Levanta a cabeça. Agora fica assim, não te mexas.</span></p>
<p><span style="color:#333300;">A venda estava bem posta e bem firme e não permitia espreitar por baixo. Dunya ouviu o amante a mexer na louça e nos talheres que ela tinha disposto sobre a mesa, dirigir-se à cozinha, mexer nos armários e no fogão. Ouviu os bifes que ela tinha temperado a grelhar na frigideira. Sentiu-o pôr nas travessas o puré, a salada, os bifes. Depois ouviu-o regressar e soube pelo cheiro que trazia a comida para a sala.</span></p>
<p><span style="color:#333300;">Soube que ele se estava a sentar à mesa pelo arrastar da cadeira.</span></p>
<p><span style="color:#333300;">- Chega-te para mais perto de mim.</span></p>
<p><span style="color:#333300;">Dunya obedeceu. Sentiu-o servir-se. Pensou: </span><span style="font-style:italic;color:#333300;">Vai ser assim, hoje? Até o privilégio de o servir me vai ser tirado?</span><span style="color:#333300;"> Mas não disse nada. Victor, pelo contrário, não parava de falar entre uma garfada e outra, chamando-lhe minha querida, minha escrava, minha cadela, e de vez em quando acariciava~lhe os cabelos com uma mão distraída. Dunya estava com fome mas não se atrevia a perguntar se podia comer.</span></p>
<p><span style="color:#333300;">- Abre a boca.</span></p>
<p><span style="color:#333300;">Era uma colher pequena, de sobremesa. Tinha puré. Passado algum tempo Victor chegou-lhe aos lábios, com as pontas dos dedos, um pouco de salada e depois, a intervalos, mais salada, pedacinhos de carne, colherzinhas de puré. Para beber, um ou dois goles de vinho, mais nada. Quando o sentiu levantar e o ouviu levar a louça para a cozinha, dunya ainda tinha fome.</span></p>
<p><span style="color:#333300;">Passado algum tempo ele sentou-se de novo</span></p>
<p><span style="color:#333300;">- Abre a boca.</span></p>
<p><span style="color:#333300;">Desta vez era fruta, que ele tinha descascado e partido em bocadinhos pequenos para lhe dar com os dedos. Dunya esticava o pescoço e os lábios na direcção em que lhe parecia estar a mão do dono e recebia em recompensa pequenos pedaços de comida que no fim a deixaram quase saciada, mais pela demora do que pela quantidade. </span><span style="font-style:italic;color:#333300;">Ora aqui está uma boa maneira de perder peso,</span><span style="color:#333300;"> pensou.</span></p>
<p><span style="color:#333300;">- Fica como estás.</span></p>
<p><span style="color:#333300;">Nesta parte da sala não havia tapete e os joelhos de dunya começavam a doer-lhe contra o chão de madeira. Mas apesar do desconforto ficou assim por largos minutos, talvez meia hora, talvez uma hora inteira: de joelhos, sentada sobre os calcanhares, a cabeça baixa, só a erguendo, como uma corça sobressaltada, para tentar seguir pelo ouvido o que o amante estava a fazer.</span></p>
<p><span style="color:#333300;">Primeiro ouviu-o a levantar a mesa, a lavar a louça, a arrumar a cozinha &#8211; tarefas que lhe competiam a ela, escrava, e que hoje estava proibida de desempenhar. Depois ouviu a água do duche a correr na casa de banho, os armários e as gavetas do quarto a abrir e a fechar. Por fim ouviu os passos de Victor, calçado não já de botas, mas com as babuchas de cabedal macio que trouxera de Marrocos. Com o sentido da audição aguçado pela falta de visão, ouviu como as palmilhas de couro lhe batiam levemente, ao andar, nas solas dos pés, e percebeu por este ligeiríssimo estalar que ele não trazia peúgas.</span></p>
<p><span style="color:#333300;">Sentia-o agora junto dela, quase encostado. Cheirava a sabonete e a dentífrico e trazia o roupão de cetim.</span></p>
<p><span style="color:#333300;">- Levanta-te. Anda comigo.</span></p>
<p><span style="color:#333300;">Com a mão na mão dele, seguiu-o às cegas para a casa de banho.</span></p>
<p><span style="color:#333300;">- Toma. Já tem pasta.</span></p>
<p><span style="color:#333300;">Era a escova de dentes.</span></p>
<p><span style="color:#333300;">- Toma o teu copo.</span></p>
<p><span style="color:#333300;">Dunya bochechou, escovou os dentes, bochechou de novo. Cuspiu a água para o lavatório. Sentiu Victor a abrir a torneira e a lavar a bacia, salpicando-a um pouco.</span></p>
<p><span style="color:#333300;">- Queres ir à sanita?</span></p>
<p><span style="color:#333300;">- Sim &#8211; disse dunya, que precisava urgentemente de urinar.</span></p>
<p><span style="color:#333300;">Victor conduziu-a à sanita, depois ao bidé, depois ao lavatório para lavar as mãos, e por fim de novo para a sala, onde a fez ajoelhar no tapete virada para o sofá.</span></p>
<p><span style="color:#333300;">- Apoia os cotovelos na almofada.</span></p>
<p><span style="color:#333300;">Dunya assim fez, e sentiu-o desatar-lhe o nó do </span><span style="font-style:italic;color:#333300;">sarong</span><span style="color:#333300;">, deixando-a nua. A mão dele a acariciar-lhe as nádegas. Uma leve palmada. Outra carícia. Quis perguntar ao amante se ele a ia sodomizar, mas não se atreveu. Dunya nunca tinha sido sodomizada. Tinha ouvido dizer que doía muito.</span></p>
<p><span style="color:#333300;">- Pode doer muito, ou pouco, ou até nada. Depende de como eu fizer. Na altura decidirei &#8211; dissera-lhe Victor quando ela tinha ousado perguntar.</span></p>
<p><span style="color:#333300;">Mas quando ele parou de lhe acariciar as nádegas não foi para a sodomizar. De repente, sem aviso, dunya ouviu um silvo que tão bem conhecia e imediatamente sentiu uma dor atroz, como uma queimadura, nas duas bochechas do rabo. Deu um salto no lugar e não conseguiu evitar um grito.</span></p>
<p><span style="color:#333300;">- Quieta.</span></p>
<p><span style="color:#333300;">Dunya pôs-se de novo em posição e afundou a cara nas almofadas do sofá para não gritar. Tinha medo que os vizinhos ouvissem. Victor nunca a tinha punido assim de chofre; habitualmente começava por a acariciar com a vergasta, depois vergastava-a levemente e ia tornando os golpes gradualmente mais fortes.</span></p>
<p><span style="color:#333300;">Mas o pior não era isto, o pior era não ver, não seguir com os olhos os movimentos do amante, não controlar nada.</span></p>
<p><span style="color:#333300;">Uma segunda vergastada, mais acima. Dunya não conseguiu conter as lágrimas e sentiu como lhe empapavam a venda. E uma terceira, muito mais dolorosa, na parte superior das coxas, junto ao vinco das nádegas. Preparou-se para receber uma quarta vergastada, e uma quinta, se era assim que ele se queria servir dela hoje, era assim que ela o queria servir.</span></p>
<p><span style="color:#333300;">Mas não, as vergastadas pararam à terceira. A uma ordem de Victor, levantou a parte superior do corpo e recuou um pouco de modo a dar-lhe espaço entre ela e o sofá. Sentiu-o passar por ela, o cetim do robe roçando-lhe o corpo nu, e sentar-se diante dela com as pernas um pouco abertas.</span></p>
<p><span style="color:#333300;">Ia servir-se dela pela boca, então. Dunya respirou fundo, agora sabia o que fazer. Primeiro, a saudação necessária: inclinou-se para o chão, procurou às apalpadelas os pés do dono e começou a beijá-los lentamente, com um respeito infinito. Para os ver, não dispunha dos olhos, só das mãos, dos lábios e da língua. Por isso se esmerou ainda mais do que de costume em acariciá-los, em beijá-los, em lambê-los por entre os dedos.</span></p>
<p><span style="color:#333300;">Uma carícia dele deu-lhe a entender que a homenagem estava concluída; era altura de começar a dar-lhe outro tipo de prazer. Devagar, começou a beijar o amante pelas pernas acima. Admirou-se por não sentir o menor vestígio de impaciência e por a lentidão lhe ser tão agradável: era por não o ver, comprendeu. Para contemplar o corpo dele só tinha as mãos e os lábios e isto tornava necessário que cada centímetro quadrado de pele fosse acariciado e beijado. E apercebeu-se de que ele também não tinha pressa: a carícia que lhe fazia nos cabelos não era leve por displicência ou arrogância, como a que lhe tinha feito enquanto jantava, mas pelo propósito de não a distrair da sua tarefa.</span></p>
<p><span style="color:#333300;">Era estranho como o corpo dele, sentido com as mãos e com a boca, lhe parecia diferente do corpo visto com os olhos. Havia partes que lhe pareciam mais duras ou mais moles, superfícies mais ásperas e mais macias, refegos de pele mais fundos ou mais planos. A pouco e pouco dunya foi-se entregando toda à exploração do corpo de Victor, os lábios a e língua nos joelhos dele, nas coxas, nas virilhas, por fim no pénis, e as mãos erguidas para o peito como as duma suplicante.</span></p>
<p><span style="color:#333300;">- Agora, escrava.</span></p>
<p><span style="color:#333300;">Dum movimento só dunya engoliu o pénis do dono e começou a mover a cabeça para cima e para baixo, tendo o cuidade de não o tocar com os dentes. A venda, longe de lhe dar a ilusão de estar a chupar um pénis qualquer, permitia-lhe concentrar-se mais do que nunca nas características próprias que faziam do pénis de Victor tão reconhecível para ela como o rosto. E permitia-lhe também concentrar-se nos movimentos e carícias que tinha aprendido com ele e de que sabia que ele gostava: o lento deslizar dos lábios ao longo da haste, os chupões vigorosos na glande, a exploração com a língua da grossa veia de baixo, os movimentos à volta da glande, as pequenas estocadas na abertura da ponta.</span></p>
<p><span style="color:#333300;">Estava cansada, os múscuos do maxilar doiam-lhe, mas não queria parar. Sentiu a mão do dono na nuca e pensou que ele a quisesse acariciar ou forçá-la a engoli-lo ainda mais fundo &#8211; mas não, o que ele fez foi retirar-lhe a venda num movimento rápido.</span></p>
<p><span style="color:#333300;">Das luzes da sala, estava apenas aceso o candeeiro com a lâmpada mais fraca &#8211; mas que mesmo assim dava luz suficiente para que dunya visse, com os seus olhos habituados à escuridão, o membro viril que tinha diante dos olhos.</span></p>
<p><span style="color:#333300;">E foi como se o visse pela primeira vez. Cada pormenor, cada veia azulada, o rosado escuro e a prodigiosa macieza da glande; a não menos prodigiosa tesão que o arqueava para cima; a grossura invulgar; a cor de mármore; as rugas finíssimas; a pele delicada: o ligeiro pulsar; o modelado subtil das formas &#8211; tudo naquele momento contribuía para transformar o pénis de Victor em algo mais real que a realidade &#8211; um raio de luz, um ceptro de realeza ou divindade, um talismã.</span></p>
<p style="text-align:left;"><span style="color:#333300;">Dunya sentiu que um êxtase a possuía; e foi neste êxtase que inclinou de novo a cabeça como quem diz uma oração; que o tomou de novo na boca como quem recebe um sacramento; e que o adorou com todo o seu ser até a boca e a garganta se lhe inundarem de luz e de esperma.</span></p>
</div>
</div>]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[A Sombra]]></title>
<link>http://omarkhayyam2.wordpress.com/2006/08/06/a-sombra/</link>
<pubDate>Sun, 06 Aug 2006 17:46:00 +0000</pubDate>
<dc:creator>Vanderdecken</dc:creator>
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<description><![CDATA[Ó cores virtuais que jazeis subterrâneas [...]. Camilo Pessanha [...] J&#8217;eusse aimé vivre auprè]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><p class="MsoNormal" style="margin-left:3in;"><span style="font-size:12px;"> </span></p>
<p><a href="http://photos1.blogger.com/blogger/4369/921/1600/Respeitosa.0.jpg"><img style="float:left;cursor:pointer;margin:0 10px 10px 0;" src="http://photos1.blogger.com/blogger/4369/921/200/Respeitosa.0.jpg" border="0" alt="" /></a><span style="color:#660000;font-size:100%;"><em>Ó cores virtuais que jazeis subterrâneas [...].</em></span><span style="color:#660000;font-size:100%;"><br />
</span></p>
<div style="text-align:right;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Camilo Pessanha </span></div>
<p class="MsoNormal" style="margin-left:3in;color:#660000;"><span style="font-size:100%;"> </span></p>
<p><span style="color:#660000;font-size:100%;"><em><span lang="FR"> [...] J&#8217;eusse aimé vivre auprès d&#8217;une jeune géante[...];</span></em><em><span lang="FR"><br />
Parcourir à loisir ses magnifiques formes;</span></em><em><span lang="FR"><br />
Ramper sur le versant de ses genoux énormes, </span></em><em><span lang="FR"><br />
Et parfois en été, quand les soleils malsains,</span></em><em><span lang="FR"><br />
Lasse, la font s&#8217;étendre à travers la campagne,</span></em><em><span lang="FR"><br />
Dormir nonchalamment à l&#8217;ombre de ses seins,</span></em><em><span lang="FR"><br />
Comme un hameau paisible au pied d&#8217;une montagne.</span></em></span><span style="color:#660000;font-size:100%;" lang="FR"><br />
</span></p>
<div style="text-align:right;color:#660000;"><span style="font-size:100%;" lang="FR">Baudelaire </span></div>
<p class="MsoNormal" style="margin-left:3in;color:#660000;"><span style="font-size:100%;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Circe surgiu no apartamento de Mariana em resposta a um anúncio: “Artista (f) procura modelo feminino. Não precisa de ser magra nem jovem. Deverá ser capaz de posar nua, em posições incómodas e por períodos prolongados. Belezas menos convencionais serão especialmente bem-vindas.” </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">O anúncio, em francês e holandês, apareceu durante três dias no jornal de maior circulação de Brugges; e um igual esteve afixado durante uma semana no supermercado onde Mariana fazia as suas compras. Mas durante muito tempo as respostas que houve vieram de mulheres e raparigas tão feias e tristes, ou pior, tão banalmente bonitas, que Mariana quase desanimou. Um dia finalmente, à hora de jantar, quando já começava a acreditar que não existia em toda a região uma figura de mulher que lhe interessasse, encontrou o que procurava. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Primeiro foi uma voz ao telefone, mais uma numa longa série. Mas se por uma voz se pode tirar uma aparência, a desta mulher devia ser notável. Era uma voz grave como a de um homem, mas feminina na cor e na textura: uma voz de veludo negro. Se Mariana fosse desafiada a explicar como é que uma voz pode ter cor, não saberia fazê-lo; mas insistiria em que esta a tinha claramente. E de resto: se no rigor abstracto da óptica o negro é ausência de cor, na concreta materialidade dos pigmentos ele pode ser, pelo contrário, a sua saturação extrema: de modo que bastará a mais ligeira diluição para que um pó aparentemente negro se revele no seu verdadeiro azul, carmim, castanho, roxo. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Era assim o negro desta voz. Mariana pôs-se a imaginar como seria a sua possuidora, e a imagem que se lhe formou na mente foi a duma Madona de Murillo, leitosa e túrgida, com longos cabelos negros apartados ao meio. Mas menos meiga e menos doce: a voz era acariciante e carinhosa, mas também havia nela autoridade. Uma enfermeira, talvez, ou uma professora, experiente e segura de si, competente a gerir emoções e a domar rebeldias. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Mas na manhã seguinte quem se lhe apresentou à porta foi uma negra enorme, com quase dois metros de altura, ombros massivos e ancas que ameaçavam não caber nos umbrais. Estava toda vestida de azul-escuro: os tons eram vários, mas todos opacos, alguns quase negros; e em todos os tecidos a pureza do azul era quebrada por um leve matiz de poeira, como se o próprio deserto se tivesse misturado nas tintas de os tingir. As roupas ocultavam-lhe as formas do corpo: véus e écharpes, um turbante, um caftan, numa profusão de panos artesanais que só lhe deixavam ver a face, as mãos, e os pés calçados de sandálias. A pele era dum negro perfeito, com reflexos azulados, e mal contrastava, a não ser pela textura luzidia, com a escuridão das roupas. Não trazia jóias nem outros enfeites, e não sorriu ao cumprimentar Mariana. No todo sombrio só se diferençavam os olhos enormes e luminosos, com pupilas de um castanho dourado.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#660000;"><span style="font-size:100%;" lang="FR">– <em>Bonjour. Je m&#8217;apelle </em>Circe,<em> et je viens pour l&#8217;annonce</em>. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Seja qual for a língua que de momento falamos, o nosso nome dizemo-lo quase sempre com a pronúncia da nossa: Circe pronunciou o dela em português e Mariana respondeu-lhe na mesma língua.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">– Bom dia, faça favor de entrar.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Para passar a soleira da porta Circe baixou um pouco a cabeça, embora não tivesse necessidade de o fazer. Com ela em pé lá dentro a sala parecia mais pequena; Mariana, meio maravilhada, e consciente do contraste que a sua pequena estatura fazia com a da visitante, apressou-se a convidá-la a sentar-se no sofá. Este era um móvel sólido e espaçoso, capaz de acolher nas suas funduras qualquer corpo humano, por grande que fosse; e a sala pareceu que recuperava as suas dimensões habituais. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Mas depressa se tornou evidente que Mariana e Circe tinham mais em comum do que as suas diferenças físicas fariam supor. No falar eram ambas calmas, comedidas, e nos modos mostravam uma reserva benevolente que contribuiu, mais do que o teria feito uma loquacidade indiscriminada, para que depressa se sentissem à vontade uma com a outra. Quando Mariana lhe mostrou os seus quadros os comentários da jovem foram pertinentes e sem elogios excessivos. Tratava-se de alguém com gosto e cultura, o que agradou a Mariana. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Circe falava português sem qualquer sotaque que Mariana pudesse identificar: nem sotaque africano, nem brasileiro, nem de qualquer região de Portugal, nem ainda qualquer dos sotaques que uma longa permanência no estrangeiro faz adquirir. Pela fala, portanto, não era possível determinar-lhe a origem. Nem pela aparência: passada a surpresa inicial Mariana começou a reparar que excepto pela cor a sua gigantesca visitante não tinha traços de africana; nem de índia, ou indiana, ou melanésia, ou aborígene australiana. Na forma da cabeça, na ossatura da face, fazia antes lembrar uma gitana andaluz, ou talvez, pensou Mariana, uma actriz italiana do pós-guerra: Sofia Loren, Claudia Cardinale. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Enquanto se observavam reciprocamente, as duas mulheres tomaram chá, conversaram, falaram de horários e de remunerações; e no momento de decidir foi a própria jovem que disse, com a naturalidade de alguém a quem a profissão de modelo não é estranha:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">– Quer que me ponha nua? </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Agora, sem os panos de Tuaregue que a escondiam, a sua compleição era mais obviamente europeia: um corpo mítico de valquíria. Não era gorda, mas sim apenas a versão em ponto grande de uma bela jovem saudável e em forma. Os pulsos, que seriam robustos numa pessoa de estatura normal, eram delicados em proporção com o seu corpo gigantesco; os dedos eram longos e finos; o pescoço gracioso. Tinha a cinta alta, o tórax curto; e não tinha os calcanhares salientes duma africana. Todo este conjunto assentava firmemente em dois grandes pés de tipo grego, redondos e grossos como os duma lavradeira mas bonitos e bem proporcionados. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Mas nenhuma deusa escandinava ou grega, <em>ragazza</em> romana ou camponesa ibérica, ou mesmo cigana andaluz, poderia, por mais sol que tivesse apanhado ao longo da vida, ter a pele de um negro tão carregado. Que um corpo tão caucasiano na estrutura estivesse revestido por uma pele tão retintamente africana era sem dúvida motivo de espanto; e Mariana teve de se esforçar por compreender porque é que encontrava nele qualquer coisa de familiar. Por fim lembrou-se das formas idealizadas das estátuas gregas: Vénus de Milo, Vénus de Cirene, todas as deusas nuas do Louvre: bastava imaginá-las esculpidas em basalto negro em vez de mármore branco para reconhecer em Circe as suas formas. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Mais espantoso, porque sem relação com nada que Mariana alguma vez tivesse conhecido, era o volume deste corpo, sustentado na sua postura erecta por uma larga, sólida ossatura. Os braços, as pernas, o tronco deixavam entrever as formas dos bíceps, deltóides, peitorais maiores e menores, abdominais, glúteos, trapézios, toda uma pletora de formas e relevos que se lhe moviam e deslizavam por baixo da superfície do corpo como se cada um tivesse a sua vida própria. As nádegas eram firmes e imponentes: por baixo da pele era possível adivinhar a disposição dos músculos, como num mapa anatómico, apenas velados por uma fina camada de gordura subcutânea. A cintura varonil parecia estreita em contraste com as ancas e os ombros; os seios generosos eram nela pequenos; e as sandálias, quando as tirou, ficaram<span> </span>em evidência no vestíbulo, vastas, sólidas, conspícuas, impossíveis de arrumar num canto como os discretos sapatinhos de Mariana.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">De onde poderia ter vindo este ser prodigioso? Dias mais tarde, quando Mariana finalmente se atreveu a perguntar-lho, a resposta foi: – Do Egipto, nasci no Egipto, mas levaram-me de lá ainda menina.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Depois vivera em Portugal, perto de Coimbra, e já nem sequer falava árabe. Mariana conhecia bem Coimbra, e não se lembrava de alguma vez ter visto mencionar uma figura como a de Circe, que dificilmente passaria despercebida numa cidade tão pequena. E não queria que um ser assim pudesse ter vindo prosaicamente de Coimbra, ou mesmo do Cairo: só podia ter vindo doutra dimensão, doutra galáxia, duma civilização mais forte e mais justa do que a nossa; ou então, por meio de uma qualquer máquina do tempo, do futuro distante; ou ainda do passado longínquo, de quando as raças humanas ainda não se tinham separado e sobre a terra caminhavam gigantes. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Começou a desenhá-la logo no primeiro dia, a pintá-la em todas as posições, nua ou vestida, sentada, deitada, de pé, com os braços erguidos de modo a realçar a musculatura das costas e dos ombros; ou então em posições contorcidas, esforçadas, a ponto de as formas representadas no papel ou na tela se tornarem dificilmente reconhecíveis como partes dum corpo humano e assumirem os traços duma paisagem fantástica. Tudo isto Circe aceitava com uma paciência infinita, como se o movimento e a imobilidade, o conforto e o desconforto, lhe fossem iguais. Nunca falava, a menos que para comunicar uma informação necessária; e tudo o que dizia era claro, articulado e directo, o sim sim, o não não, cada conclusão extraída das premissas sem relutância nem esforço. Nos intervalos da pose vestia o caftan azul, e punha-se por vezes a arrumar a casa, com uma economia de movimentos que transfigurava a lida doméstica numa serena coreografia. Mariana limpava os pincéis, punha em ordem os crayons, os boiões, os tubos de tinta, e punha música a tocar; e entretanto Circe dava a volta à casa, cuidadosa e interessada, arrumando, ajeitando, limpando. Quando falava era para dizer “estas janelas já estão outra vez a precisar de ser limpas ” ou “não sei de onde vem tanto cotão”; e ao fazer estas observações práticas a sua voz grave tornava-se ainda mais macia. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Em breve Mariana viu tanta ordem na sua mansarda boémia como a que reinava na sua casa em Lisboa; e embora não tivesse a certeza que este estado de coisas lhe agradasse totalmente, gostava de ser assim mimada, de não ter que lavar sempre a louça, limpar tantas vezes o chão, a casa de banho, as janelas. E de resto toda esta actividade deu-lhe assunto para uma série de quadros que mais tarde veio a ter grande êxito: Circe com os braços esticados, prendendo as cortinas nas sanefas; ou curvada sobre a vassoura; ou sentada no chão com as pernas cruzadas, pregando um botão. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Mariana sentia-se grata pela ajuda mas constrangida. Por fim foi a jovem ela própria quem formalizou a situação: </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">– Eu podia fazer-lhe as limpezas, se a senhora quisesse. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">E não era preciso que Mariana lhe pagasse muito; já ganhava bem a posar para os quadros.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Mariana nunca teria ousado fazer ela própria esta proposta, e sentiu-se aliviada. Mas depressa se viu que os horários de Circe como empregada doméstica e modelo nem sempre eram compatíveis. Nem de resto as prioridades das duas: Mariana tendia a sacrificar as tarefas domésticas à pintura, enquanto que Circe não tolerava deixar sequer um prato a escorrer no lava-loiça. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Até que uma manhã quem apareceu a Mariana foi, não uma, mas duas jovens gigantes. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">– Esta é a minha irmã. Chama-se Atena e vem-me ajudar.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">E acrescentou, desnecessariamente: </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">– Ela e eu somos gémeas.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Dizer que Mariana ficou surpreendida seria dizer pouco. Sabia que Circe tinha uma irmã; mas não imaginara que fossem gémeas idênticas, e ao ver ali em duplicado, no patamar estreito dum prédio citadino, uma figura que mesmo no singular era suficientemente vasta para não passar despercebida nas amplidões do Valhalla, sentiu que algo de fundamental se alterava na sua noção do possível. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Atena. Circe e Atena. Os olhos garços da recém-chegada tinham um tom mais acinzentado do que os da irmã, mas esta foi a única diferença entre elas de que Mariana se pôde aperceber naquele momento. Ao princípio a função de Atena consistia em ocupar-se ocasionalmente da casa quando a irmã estava demasiado ocupada com o seu dever principal, mas com o tempo as funções das duas foram-se tornando intermutáveis. Não foi pedido a Mariana que pagasse a Atena, nem ela se ofereceu para o fazer. A sua combinação era com Circe, a quem afinal pagava dois salários; e Circe por sua vez combinava com a irmã a divisão do dinheiro e do trabalho. O sistema era vantajoso para todas: Mariana nunca sabia de antemão qual das duas irmãs lhe ia comparecer no apartamento, ou se iam comparecer as duas, mas sabia que podia contar sempre pelo menos com uma. O cozinhar reservava-o Mariana quase sempre para si própria, especialmente quando o amante a visitava: preparar-lhe o comer, servir-lho à mesa, eram prazeres a que não renunciava. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Poucos dias depois de ser apresentada a Victor, Circe chegou ao apartamento com uma muda de roupa num saco e fechou-se imediatamente no quarto de banho. Quando saiu vinha completamente transformada: o vestido, num xadrez miúdo cor de salmão e branco, ficava-lhe dois centímetros abaixo do joelho, e era rematado no pescoço por um colarinho branco de pontas redondas. Branco era também o avental, com duas alças largas que se cruzavam nas costas. Nos pés, umas alpergatas de pano-cru. Era até ao último pormenor um uniforme de empregada doméstica numa casa portuguesa. Mariana admirou-se que Circe o tivesse encontrado numa loja de Brugges, e à sua medida. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">No dia seguinte foi a vez de Atena vir fardada. Sem dizer nada a Mariana tinham adquirido ou confeccionado uma colecção de uniformes, iguais em tudo menos nas cores do xadrez: cor-de-rosa e branco, beije e branco, amarelo e branco, azul claro e branco. Quando uma se vestia assim a outra conservava os seus panejamentos sombrios; e era sempre esta que se despia para servir de modelo a Mariana. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Os papéis desempenhados estavam assim claros: num canto do palco o modelo, noutro a criada. Mas porque se haviam elas de dar a tanto trabalho e despesa? Só para definir os seus papéis? Em Lisboa as empregadas de Marta nunca tinham usado uniforme. E agora eram precisamente estas duas, estas deusas ou feiticeiras surgidas das brumas, que pelas suas próprias razões se vestiam como duas criadinhas de Cascais ou do Restelo. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">O que tornava o disfarce inverosímil, porém, era a sua escala massiva: e comparando uma no seu uniforme doméstico com a outra nos seus panos exóticos ninguém podia deixar de ver na primeira a figura mais incongruente. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Quanto à intenção deste jogo, tinha alguma coisa a ver com Victor, ou melhor, com Mariana e Victor. Por alguma razão os uniformes tinham aparecido logo a seguir à primeira visita deste. Em breve se tornou aparente que as duas irmãs estavam na disposição de permanecer no apartamento, a desempenhar as suas tarefas, mesmo na presença do amante de Mariana: como se se tivessem apercebido duma vontade desta de lhe oferecer à chegada todo um teatro feminino em que o cenário, a iluminação e o guarda-roupa se encontrassem ao serviço de um mesmo encantamento. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Mariana não sabia se queria ou não oferecer a Victor este teatro, mas intuía que o amor, no seu luxo maior, na sua mais elaborada tradição, <span> </span>requer criadas, ajudantes, intendentes, se não mesmo pajens e eunucos; e era claramente este papel que Circe e Atena tinham reservado para si próprias. De discreta, a sua presença foi-se transformando em tutelar, como se tivessem assumido como seu encargo particular o favorecimento dos amores a que assistiam. De resto era sempre possível deixar os amantes sozinhos no quarto ou na sala, que tinham boas e sólidas portas de carvalho, e procurar que fazer noutra parte da casa. Deste modo podiam reaparecer no momento oportuno com um sumo de frutos, um copo de água, uma chávena de chá: luxos orientais para quem descansa de refregas amorosas.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Numa destas ocasiões Circe entrou no quarto, silenciosa e descalça, quando os dois amantes repousavam nus depois do amor. Estava calor, e não queriam sobre o corpo nem o peso dum lençol. Circe pousou o tabuleiro, pegou num leque que Mariana tinha posto na parede como decoração, sentou-se sobre os calcanhares junto da cama e começou refrescá-los suavemente, entoando baixinho uma cantilena que podia ser de embalar ou de outra coisa. Sonolentos, os amantes não eram capazes de distinguir as palavras, só de sentir a frescura do ar sobre a pele nua como mais uma carícia.. E foi assim que recomeçaram a acariciar-se, uns minutos ou talvez uma hora mais tarde, sem se importarem com a presença da jovem, tão silenciosa, tão discreta. <span> </span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Nesse ano, em meados de Maio, Victor fez a Mariana uma visita prolongada. Tão prolongada, desta vez, que não sentiram a necessidade de dedicar cada minuto a abraçar-se, a beijar-se, a fazer amor, num frenesim que mal deixa de ser o da chegada já é o da despedida; tiveram tempo de passear, de ir às compras e aos espectáculos, de caminhar ao longo dos canais. E tiveram tempo, para deleite de ambos, de fazer a sua vida quotidiana na presença um do outro. Sentado ao computador, com os óculos de ver ao perto empoleirados na ponta do nariz, um monte de fichas em cima da secretária, Victor escrevia; e perto dele, diante dum cavalete, enfiada numa decrépita <em>sweat-shirt,</em> Mariana desenhava ou pintava. Durante longos minutos não falavam; e quando algum deles saía da sua concentração era para encontrar o olhar do outro e trocar com ele um sorriso de perfeito contentamento. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">O único embaraço, e ainda assim momentâneo, neste idílio resultou de Mariana estar por esta altura a trabalhar num quadro de Circe. Neste quadro, um nu de grande formato, a jovem aparecia reclinada, de frente para o espectador, usando apenas o seu turbante azul, e Mariana não se sentia no direito de lhe pedir que posasse nua na presença de Victor. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">A própria Circe resolveu este dilema ao dizer que naquela semana Atena estava sem nada que fazer e podia vir arrumar a casa, que já estava a precisar. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">– E entretanto, se o senhor não se importar que eu me ponha nua, eu e a senhora podíamos continuar com o quadro do turbante.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Quando chegou o momento de Circe se estender no divã, Victor mostrou-se circunspecto, mas não desdenhoso ou indiferente, perante a sua magnífica nudez; e passado um olhar admirativo inicial continuou a trabalhar com a mesma concentração. Mariana ainda experimentou um certo escrúpulo, misturado com uma réstia de ciúme; mas estes sentimentos depressa se dissiparam à medida que o trabalho se ia tornando mais absorvente. E Atena, nas suas alpergatas silenciosas, entrando e saindo do atelier com chávenas de café, contribuía para o ar de normalidade de toda a cena dando-lhe um ar de domesticidade confortável.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Assim se foi estabelecendo, a pouco e pouco, uma convivência a quatro. Discretas, silenciosas, hieráticas, as duas irmãs foram participando cada vez mais na intimidade dos dois amantes: duas sombras enormes e benévolas que pareciam protegê-los, ao mesmo título que as paredes e as cortinas, do frio exterior e do olhar dos vizinhos. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">A única pequena modificação nesta rotina veio a dar-se quando as raparigas se aperceberam da verdadeira natureza da relação entre Mariana e Victor. Um ou outro beijo dela na mão dele, nem sempre tão discreto que passasse despercebido; um circunspecto ajoelhar, uma secreta deferência no servir das refeições; um murmúrio apenas audível, meu senhor, meu dono; tudo isto junto teve para as gémeas um significado que não as escandalizou nem repeliu; e por sinais igualmente subtis tiveram artes de exprimir a sua aprovação. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Menos discretas eram as saias rodadas de Mariana, os pés descalços, a bijutaria profusa e os decotes extremos que punha para receber o amante; e nestas ocasiões Circe e Atena habituaram-se a ficar também elas descalças, uma no seu uniforme de criada, a outra nos seus panejamentos azulados; não em deferência a ele, mas a Mariana, a quem serviam.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">No princípio desse Verão choveu muito em Brugges, e esteve frio e nevoeiro. Para as férias Mariana tinha arrendado uma casa no Algarve, e mal podia esperar pelo dia em que caminharia com Victor sob o sol escaldante, respirando um ar perfumado e seco, vibrante com o zumbir dos insectos. Também Circe e a irmã estavam fartas do frio e da humidade, e ofereceram-se para os acompanhar. A casa arrendada era espaçosa; e com as gémeas a assegurar as tarefas domésticas os dois amantes sempre teriam as compras feitas e a comida pronta quando chegassem da praia. Além disso Mariana continuaria a dispor de um modelo, o que permitiria prolongar as férias por um mês ou mais; e depois de um ano sob os céus cinzentos da Flandres estavam todos a precisar dumas longas férias ao sol. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">A casa tinha-a Mariana arrendado a um amigo, um pintor de origem algarvia que a herdara dos pais. Era uma casa antiga, tradicional, caiada de branco com uma faixa azul na parte de baixo. A toda a volta cresciam alfarrobeiras, e a partir do meio-dia um enorme pinheiro manso projectava no pátio a sua sombra densa. Neste pátio, protegido por uma densa sebe de olhares estranhos, Victor e Mariana recuperaram o seu gosto antigo de fazer amor ao ar livre. Um carreiro dava acesso à praia: e a mesma praia servia uma urbanização de luxo. Algumas famílias, particularmente se tinham crianças, levavam as criadas em uniforme completo para a areia, onde lhes era permitido tirar os sapatos e sentar-se debaixo do guarda-sol. As patroas mais liberais permitiam-lhes mesmo que se pusessem em fato de banho, mas só ao fim de uma hora ou duas de permanência: tempo suficiente para não haver engano quanto aos estatutos sociais. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Passado o primeiro dia também Circe e Atena começaram a ir para a praia vestidas de criadas. Se este quase disfarce tinha como objectivo exprimir um comentário irónico aos hábitos locais, conseguia-o perfeitamente: o efeito que as jovens produziam, pela estatura, pela cor da pele, pela altivez do porte, era o exacto oposto do apagamento imposto às outras criadas. E ao circularem pelos acessos à praia, descalças, à vontade; ao pisarem com firmeza e displicência, com os seus vastos pés de virgens guerreiras, os pavimentos do condomínio e o carreiro pedregoso do acesso, exibiam mais desenvoltura do que geralmente se admite em serviçais. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Mas o objectivo maior do traje era outro, mais subtil mas igualmente conseguido: criar um pano de fundo para a história de Mariana. Por isso se encarregaram de lhe meter nas malas, além dos vestidos de Verão e das saias rodadas que gostava de usar à beira-mar, um guarda-roupa em tudo semelhante ao de Circe no primeiro encontro; e foram estas as roupas de Tuaregue que ela acabou por usar quase sempre durante o tempo que duraram as férias. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Quem as observasse às três – Mariana muito pequena, muito morena, com os olhos muito brilhantes a espreitar da fundura dos véus; e um pouco atrás dela, flanqueando-a como duas guarda-costas disfarçadas, duas negras, silenciosas e enormes – pensaria talvez numa princesa árabe ou milionária levantina, rigorosamente vigiada, em férias no Ocidente. Mas esta fantasia era desmentida assim que Mariana tirava os panejamentos azuis que a cobriam como um tchador e surgia num diminuto bikini amarelo ou branco, muitas vezes sem a parte de cima, num impudor de europeia emancipada. E havia Victor, com os seus cabelos e olhos claros, sorrindo-lhe, atencioso e cúmplice, trocando com ela comentários e carícias. A este ninguém o tomaria por árabe, arménio, libanês ou egípcio. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Quanto aos homens que frequentavam a praia, não tinham olhos senão para as jovenzinhas felinas e bronzeadas que por vezes paravam junto deles: filhas, sobrinhas, amigas, namoradas de luxo, segundas ou terceiras esposas. Mariana e Victor não lhes interessavam; nem, passado o <em>frisson</em> inicial, Circe e Atena, que embora atraentes eram demasiado exóticas para serem apresentáveis no universo provinciano das elites portuguesas.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Os dois amantes chegavam sempre cedo à praia. Com eles vinham as gémeas, carregando sem esforço aparente os dois guarda-sóis, o tapa-vento, o saco com as toalhas, os protectores solares, a espreguiçadeira de lona para Victor se estender a ler. Tiradas as roupas, Victor ficava com uns calções de praia aos quadrados, Mariana com o seu bikini, e as raparigas com uns grandes fatos de banho pretos e baços, muito subidos no peito e nas costas, que conjuntamente com o negro da pele pareciam absorver a luminosidade do dia. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Por volta das dez e meia, quando começava a haver gente demais, Mariana e Victor pegavam nas toalhas e no guarda-sol mais pequeno e começavam a caminhar ao longo da praia, que naquela zona tinha vários quilómetros de extensão. Passadas poucas dezenas de metros a multidão começava a ser mais esparsa; e, passada mais uma aglomeração ou duas de banhistas, a praia ficava suficientemente deserta para que nela não houvesse outras pegadas além das dos quatro, e das várias espécies de aves que a visitavam vindas da laguna próxima. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Uma vez seguiram por mais de um quilómetro um grupo de aves que corriam ao longo da praia, ao rés da salsugem, levantando voo para aterrar mais adiante quando os humanos se aproximavam demais ou quando uma onda se lhes atravessava no caminho. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Assim que Mariana e Victor se viam sós armavam o guarda-sol, despiam-se completamente e entravam na água de mãos dadas. Assim, nus, o mar parecia-lhes mais quente e acolhedor do que quando eram obrigados a usar fato de banho; e uma réstia de frio que tivessem dissipavam-na num abraço. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Entretanto Circe e Atena voltavam a casa, recolhiam no caminho o outro guarda-sol, punham sanduíches e bebidas numa geleira e regressavam, nos seus uniformes claros, para junto de Mariana e Victor. A atenção que despertavam não parecia afectá-las: carregadas, possantes, impassíveis, seguiam serenamente o rasto dos patrões. Chegadas ao seu destino montavam o guarda-sol maior e o tapa-vento, punham a geleira à sombra, armavam a cadeira de lona e despiam-se calmamente, dobrando e guardando cada peça de roupa à medida que a tiravam. Depois entravam no mar sem a mínima jóia ou enfeite, ou qualquer apontamento de cor: só com os seus fatos de banho negros. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Nestes primeiros dias Mariana e Victor vestiam também os fatos de banho quando saíam da água. Mas voltar a vestir-se, depois de se ter estado gloriosamente nu nas águas castas do mar, é uma humilhação e uma indecência; e nos dias seguintes, à medida que os dois amantes foram adiando cada vez mais o momento de se cobrirem, também Circe e Atena foram fazendo menos questão de baixar os olhos perante a sua nudez.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Foi talvez este à-vontade que tornou possível a ordem que Victor deu uma vez a Circe, no pátio onde tinham acabado de jantar: que rapasse os pelos púbicos de Mariana. Mariana, que não tinha sido consultada, esboçou um pequeno gesto de recusa, ou talvez de surpresa, mas quando a criada trouxe a tesoura, uma gilette nova, o gel de barbear de Victor e o bálsamo hidratante estendeu-se obedientemente de costas sobre a mesa, que Atena tinha coberto com uma toalha de banho lavada.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Primeiro manteve as pernas juntas enquanto Circe desbastava o grosso dos pelos, que em Mariana eram esparsos de natureza. Depois teve que as abrir para que a tesoura lhe aparasse os pelos à volta da vagina e do ânus. E por fim, quando chegou a altura de aplicar o gel de barbear, teve que se escanchar toda, os joelhos contra os seios, como nunca até aí fizera na presença duma mulher. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Atena trouxera uma pequena bacia com água muito quente, uma pequena bacia de cobre, comprada em Marrocos, que até então tivera apenas fins decorativos, e algumas pequenas toalhas de pano turco que Circe começou a humedecer na água quente e a aplicar sobre a púbis de Mariana. Quando esta se habituou à temperatura e a água quente lhe começou a parecer morna, Circe espalhou-lhe o gel sobre a pele molhada da púbis, massajando-a com as pontas dos dedos em pequenos movimentos circulares até criar uma espuma branca e densa que pareceu a Mariana um pouco adstringente. Depois, cuidadosamente, esticando entre dois dedos os refegos da pele, começou a rapar-lhe os pelos, primeiro na barriga, e depois na zona mais sensível entre as coxas. Devagar, com infinito cuidado, de modo a não ferir as tenras mucosas mas também a não deixar ficar um único pelo, Circe foi passando a lâmina, repetidamente, primeiro num sentido e depois noutro, de modo a que os dedos, passando a seguir à lâmina, não sentissem a mínima aspereza. Pouco a pouco a espuma foi sendo retirada, e no fim, depois de Circe, e depois Atena, e por fim Victor terem passado a mão sobre o sexo de Mariana e declarado que estava suficientemente liso, a zona foi de novo lavada com água morna, secada com uma toalha felpuda e massajada com o bálsamo hidratante que Victor usava na cara.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">A operação terminou com um beijo de Victor no sexo macio de Mariana. Só um pequeno beijo, sob o olhar impassível das gémeas. Mas depois, à noite, a sós com ela na cama, Victor deu a Mariana bem mais do que um beijo: introduziu-lhe a ponta da língua entre os lábios interiores do sexo, procurou-lhe o clítoris e fê-lo intumescer, para em seguida o sorver gulosamente juntamente com as pregas delicadas dos pequenos lábios, ou para lhe introduzir de surpresa a língua na vagina. Assim, alternando estas e outras carícias, Victor levou a sua escrava Mariana a uma série de orgasmos, tantos que ela lhes perdeu a conta, e gritou, gritou sem se importar que as gémeas ouvissem, ou que a ouvissem nas casas em redor.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">No dia seguinte Mariana não sabia se se sentia humilhada ou não pela modificação que o dono tinha ordenado no seu corpo. Se era humilhação, aceitava-a de bom grado, como dizia a si mesma ser o seu dever; mas talvez não fosse humilhação, talvez fosse outra coisa de que não sabia o nome e que a deixava mais terna e mais doce diante de Victor. Num plano mais pragmático, depressa se apercebeu duma vantagem inesperada de ter o sexo rapado: a partir de agora, quando o dono a proibisse de usar calcinhas, não tinha mais que se preocupar com a maior ou menor transparência do vestido, já que não existiria a sombra da púbis para lhe denunciar a nudez. Mas um dia em que não tivesse uma acólita para lhe fazer esta toilette, como seria? Seria capaz de se rapar a si própria, talvez com o auxílio dum espelho? Ou fá-lo-ia o próprio Victor? Em todo o caso a operação teria que ser frequente, não queria o desconforto duns pelos curtos e duros entre as coxas macias.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Na praia, por fim, já que todos os quatro se tinham habituado a ver corpos dos outros, e já que os restantes frequentadores daquela parte da praia pareciam estar, tanto quanto a distância e a claridade excessiva o permitiam determinar, também eles nus, acabou por parecer mais natural despirem-se as duas jovens do que vestirem-se Mariana e Victor. Na segunda semana de férias Circe e Atena habituaram-se a já nem trazer os fatos de banho por baixo dos vestidos. Antes de se juntarem na água aos patrões ficavam as duas por uns momentos de pé a olhar para o mar, como duas estátuas de bronze no meio de um deserto. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Nuas, de tão negras, negro sobre negro os cabelos da púbis, davam à praia calcinada e plana a única sugestão de sombra; e Mariana reparava que onde o sol se lhes reflectia na pele o reflexo já não era azulado, como no Inverno em Brugges, mas cor de cobre. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Depois banhavam-se os quatro, nadavam, comiam. Mariana e Victor deitavam-se nas toalhas, ou sentavam-se, ele na cadeira, ela no chão aos pés dele, e conversavam. Circe procurava algas e moluscos que depois empregava em cozinhados de sabor estranho; e a irmã lia, olhava o horizonte, ou aplicava a Mariana o protector solar. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Ou então conversavam. Um dia Atena contou a seguinte parábola: </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">– Um homem estava nu na praia deserta. Tinha trazido consigo uns calções e uma toalha, mas ao chegar ao lugar que escolhera tinha-os arrumado fora de vista; e olhando à volta não via mais do que a areia, o céu, as aves, e o mesmo mar de há cinco mil anos. Nas dunas havia a vegetação própria do lugar; e debaixo da areia, sabia-o, havia vida: bivalves, crustáceos, insectos. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Tudo o que o homem desejava era ser parte deste mundo. Olhava para o seu próprio corpo e via-o feito de carne, como os corpos dos outros animais. No caminho para aquele lugar o homem tinha seguido, como Mariana e Victor, um pequeno grupo de aves que caminhavam ao longo da borda de água. As patinhas com que caminhavam eram rosadas e nuas como as mãos e os pés dos homens; e por baixo, na superfície com que pisavam a areia, estavam estriadas de linhas e rugas semelhantes.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Para o homem e para as aves a aspereza e a consistência da areia eram as mesmas; como eram as mesmas a temperatura e a salinidade da água, o brilho do sol e a velocidade do vento. E contudo quem se atreveria a dizer que o homem e as aves estavam a passar pela mesma experiência? </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Os olhos com que o homem olhava para o mar eram os mesmos com que tinha lido Homero, Camões, Melville e Conrad. O coração que se lhe sobressaltava com o rugido das ondas era o mesmo que se comovera com o naufrágio de Sepúlveda. O que ele via e sentia, o que ouvia e cheirava, era inseparável dessas memórias. As negras naus de Ulisses, Sila e Caríbdis, as velas brancas do Gama, Marlon Brando no papel de Mr. Christian, amotinado contra o capitão Bligh; Eneias abandonando Dido; o Holandês Voador e a sua jura tremenda; Sandokan, o Tigre da Malásia; as palavras da mãe, não vás ao banho ainda, não fizeste a digestão; e do lado da terra: a areia, o deserto, Beau Geste, Lawrence da Arábia, o calor, a sede sofrida e narrada por gerações de viajantes – de tudo isto se faziam os sentidos com que o homem sentia a textura da areia, o sopro do vento, a frescura do mar, a queimadura do sol. Se em vez de estudioso fosse pescador ou marinheiro, mesmo assim tudo o que agora sentia estaria codificado em gírias, condicionado por disciplinas, ancorado em lembranças. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Despido de todas as roupas, separado de todos os artefactos visíveis, o homem trazia ainda dentro de si um artefacto invisível feito de símbolos, palavras e memórias, com que via, ouvia, saboreava, cheirava e tocava o mundo. Nenhum homem, concluía Atena, pode experimentar directamente a Natureza. A natureza é no homem cultura, e a cultura é no homem Natureza. Mas nem por isso o sonho de enfrentar sem protecção o sol, o vento, o mar, a sede, deixa de ser um belo e nobre sonho; e possam sempre os homens livres partilhar a nudez esplêndida dos deuses. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Nos dias seguintes a esta fábula a rotina do grupo mudou perceptivelmente: os gestos de tirar a roupa, estender-se ao sol, entrar na água, comer, beber, adquiriram um matiz cerimonial, como se tudo se fizesse em homenagem aos elementos. Tudo se tornou mais lento e moderado. A água na geleira já não precisava de estar tão fria, nem a comida de ser tão abundante. Os movimentos, especialmente os de Circe e Atena, pareciam coreografados. E quando as duas se deitavam na areia faziam-no sempre, num rito invariável, uma de cada lado dos amantes: Circe a nascente, a irmã a poente, com o tapa-vento e os guarda-sóis a completar um círculo protector. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;"><span style="font-size:12px;"><span style="color:#660000;font-size:100%;">E por vezes, ao fim da tarde, quando as carícias preguiçosas de Mariana e Victor lhes acendiam nos corpos o desejo, viravam-se as duas de costas para eles, imperscrutáveis como esfinges. E se o sol ia baixo, e não havia mais ninguém na praia; se as sombras se alongavam; se o vento tinha deixado de soprar; se ao rugido do mar, transformado em murmúrio, se juntava o canto das cícadas; então, por vezes, os amantes – sedentos de humidade, sedentos um do outro, repassados de sol e de espaço – uniam lentamente os corpos; e faziam amor à sombra de Atena.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;"><span style="font-size:12px;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;"><span style="font-size:12px;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;"><span style="font-size:12px;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:.5in;"><span style="font-size:12px;"> </span></p>
</div>]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[Noiva submissa]]></title>
<link>http://omarkhayyam2.wordpress.com/2006/07/16/noiva-submissa/</link>
<pubDate>Sun, 16 Jul 2006 17:35:39 +0000</pubDate>
<dc:creator>Vanderdecken</dc:creator>
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<description><![CDATA[]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><p><a href="http://bp2.blogger.com/_UEfhPJXHLPM/SASC9qtG7xI/AAAAAAAAAV4/p9RogDVO6ao/s1600-h/Barefoot+bride+2.0.jpg"><img style="display:block;text-align:center;cursor:pointer;margin:0 auto 10px;" src="http://bp2.blogger.com/_UEfhPJXHLPM/SASC9qtG7xI/AAAAAAAAAV4/p9RogDVO6ao/s400/Barefoot+bride+2.0.jpg" border="0" alt="" /></a></p>
</div>]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[A Vidraça]]></title>
<link>http://omarkhayyam2.wordpress.com/2005/08/28/a-vidraca/</link>
<pubDate>Sun, 28 Aug 2005 17:07:09 +0000</pubDate>
<dc:creator>Vanderdecken</dc:creator>
<guid>http://omarkhayyam2.wordpress.com/2005/08/28/a-vidraca/</guid>
<description><![CDATA[Alguns dias depois, foi Doce-Amiga ao balneário do palácio. As outras escravas esmeraram-se em dar-l]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><p><a href="http://1.bp.blogspot.com/_UEfhPJXHLPM/SYxvum-c_QI/AAAAAAAAAt0/plUjP_0M9S0/s1600-h/Da+d.c+a+26+sk.JPG"><img style="float:right;cursor:pointer;margin:0 0 10px 10px;" src="http://1.bp.blogspot.com/_UEfhPJXHLPM/SYxvum-c_QI/AAAAAAAAAt0/plUjP_0M9S0/s400/Da+d.c+a+26+sk.JPG" border="0" alt="" width="189" height="260" /></a><span style="color:#990000;"><span style="font-style:italic;font-size:85%;">Alguns dias depois, foi <span>Doce-Amiga</span> ao balneário do palácio. As outras escravas esmeraram-se em dar-lhe o melhor dos banhos. Lavaram-lhe as pernas, os braços, a cabeça; massajaram-na; usaram caramelo para a depilar; esfregaram-lhe almíscar puro nos cabelos; tingiram-lhe as unhas das mãos e dos pés; alongaram-lhe as pestanas e as sobrancelhas, sombreando-as; queimaram-lhe aos pés braseiros de incenso e âmbar, perfumando-a toda; depois, lançaram-lhe sobre o corpo uma toalha rescendente a flores de laranjeira e a rosas, envolveram-lhe os cabelos numa outra toalha, fumegante, e conduziram-na por fim à câmara que lhe fora reservada e onde a mulher do vizir, a mãe do belo <span>Ali-Nur</span>, a esperava.</span></span></p>
<p class="epigrafe" style="text-align:right;" align="right"><span style="color:#990000;text-decoration:underline;"><span>O Livro Das Mil e Uma Noites</span></span><span style="color:#990000;">.</span></p>
<p class="moby-dick"><span> </span></p>
<p class="moby-dick" style="color:#660000;margin:0 -4.6pt .0001pt 0;"><span>Marta acordou quando Camila entrou no quarto e correu as cortinas.</span></p>
<p class="moby-dick" style="color:#660000;margin:0 -4.6pt .0001pt 0;"><span>&#8220;Venho ajudá-la a vestir-se. Vai estar muito calor, hoje.&#8221;</span></p>
<p class="moby-dick" style="color:#660000;margin:0 -4.6pt .0001pt 0;"><span>Ao passar pela jovem, que a esperava à porta do quarto de banho, Marta roçou-lhe ao de leve, com a sua carne nua, o blusão de couro eriçado de enfeites metálicos. Mais uma vez se surpreendeu ao notar-lhe a frágil estatura: a rapariga era tão enérgica e senhora de si que parecia maior do que realmente era. &#8220;A dois metros de distância,&#8221; pensou Marta, &#8220;parece tão grande como os meus filhos; mas ainda é mais pequena do que eu.&#8221;</span></p>
<p class="moby-dick" style="color:#660000;margin:0 -4.6pt .0001pt 0;"><span>Camila seguiu-a até à banheira. Não a deixou lavar-se sozinha: molhou-a e ensaboou-a toda com um sabonete que cheirava a folhas verdes, pôs-lhe shampoo no cabelo, três vezes, enxaguando bem de cada vez; depois secou-a, penteou-a, vestiu-a e levou-a ao dono, que a esperava na biblioteca. </span></p>
<p class="moby-dick" style="color:#660000;margin:0 -4.6pt .0001pt 0;"><span>Ali tomaram os três o pequeno almoço, servidos por uma grande rapariga submissa e loira, chamada Rosa, contratada temporariamente para o serviço doméstico. Duas grandes portas envidraçadas davam para o jardim. Assim que Rosa levantou a mesa e se retirou o amante de Marta fechou a porta. </span></p>
<p class="moby-dick" style="color:#660000;margin:0 -4.6pt .0001pt 0;"><span>&#8220;Agora quero ver-te bem. Caminha um pouco pela sala.&#8221;</span></p>
<p class="moby-dick" style="color:#660000;margin:0 -4.6pt .0001pt 0;"><span>Marta caminhou com a cabeça erguida, descalça como tinha vindo do quarto. Ao virar-se para o dono pôs as mãos na nuca, fazendo escorrer entre os dedos o cabelo, que tinha escuro e longo. Este movimento fez com que se erguesse o curto bolero que trazia, mostrando a parte inferior dos seios: não estavam tão bronzeados como o resto do corpo, e o azul das veias transparecia sob a pele dourada. O bolero era vermelho escuro, ricamente bordado a ouro. A saia tinha a cintura muito baixa, de modo que deixava a descoberto a maior parte do ventre; era uma peça cor de açafrão, quase transparente, que lhe chegava aos tornozelos. Debaixo do tecido, o triângulo muito escuro do púbis era apenas uma sombra entre outras, talvez a mais negra. O cinto que segurava a saia era feito de pequenas moedas de ouro. </span></p>
<p class="moby-dick" style="color:#660000;margin:0 -4.6pt .0001pt 0;"><span>Quando Marta alongou o corpo Camila reparou em como os músculos das costas se lhe moviam debaixo da pele, e não pôde deixar de se comover com as duas covinhas gémeas logo acima das nádegas, com o sulco ao longo da espinha. Miguel viu-a erguer os braços, e notou o requebro com que a sua escrava se lhe oferecia. O ventre distendeu-se com este movimento; um umbigo perfeito marcava-lhe o centro. Viu-a atirar a cabeça para trás num movimento de dança e pôr um pé para a frente, só com as pontas rosadas dos dedos a tocar no chão envernizado. A racha ao longo da saia abriu-se, descobrindo a coxa esquerda e revelando, à volta do tornozelo, uma argola de moedas iguais às do cinto. </span></p>
<p class="moby-dick" style="color:#660000;margin:0 -4.6pt .0001pt 0;"><span>A um sinal do amante Marta correu para ele, risonha, com um tilintar de moedas, e atirou-se-lhe nos braços numa brincadeira destinada a fazer-lhe perder o equilíbrio; mas ele agarrou-a e dançou com ela à volta da biblioteca, rindo e beijando-lhe a cara, e passando-lhe os dedos pelo cabelo. Depois despiu-lhe o bolero, fazendo-lho deslizar sobre a cabeça; e Marta ajudou-o erguendo de novo os braços. O rubor que a coloriu até aos seios devia-se tanto à excitação que começava a sentir como à consciência de que qualquer pessoa que passasse no jardim &#8211; a criada Rosa, ou o homem que vinha tratar das plantas &#8211; a poderia ver, assim nua, através das vidraças. Marta estava de costas para a varanda, e quando sentiu as mãos do amante sobre as nádegas soube que este gesto seria imediatamente visível a quem olhasse para dentro da sala. </span></p>
<p class="moby-dick" style="color:#660000;margin:0 -4.6pt .0001pt 0;"><span>Abraçado a ela, de pé, o amante afagou-a com a mão, começando nas nádegas e percorrendo toda a extensão das costas até à nuca, numa longa carícia. Ao segurar-lhe a cabeça sentiu sob os polegares a pele macia da face. Muito terno agora, quase hesitante &#8211; enquanto ela se lhe enlaçava, os braços à roda do pescoço, a boca suplicando beijos; e se erguia no bico do pé direito, tentando rodear-lhe a cintura com a coxa esquerda; e fazia tilintar as moedas que lhe pendiam do tornozelo, na tentativa de subir por ele acima &#8211; ele tacteava-lhe suavemente o rosto com as pontas dos dedos, como um cego, aprendendo-o todo, acariciando a textura de pêssego junto aos ouvidos, percorrendo o delineamento onduloso dos lábios. Marta tentava beijar-lhe os dedos, no ávido esforço de lhe reter o toque; e ele sentiu este apelo, mas ainda assim, com cruel deliberação, não demorou a carícia, nem aceitou os lábios que ela lhe oferecia. Em vez disso puxou-a para si abruptamente, desequilibrando-a. Susteve-a então nos braços; curvou-se para lhe beijar o pescoço; e chupou-lhe e mordeu-lhe a carne morena até a deixar coberta de marcas avermelhadas. Depois segurou-a pelos ombros e olhou-a nos olhos:</span></p>
<p class="moby-dick" style="color:#660000;margin:0 -4.6pt .0001pt 0;"><span>&#8220;Tira o resto da roupa,&#8221; ordenou. &#8220;Deixa ficar a corrente que tens no tornozelo.&#8221;</span></p>
<p class="moby-dick" style="color:#660000;margin:0 -4.6pt .0001pt 0;"><span>Quando a viu nua abraçou-a de novo. Com os dedos abertos de uma das mãos segurou-a pela cinta; a outra estava-lhe assente nas nádegas, puxando-lhe o corpo de encontro ao dele. </span></p>
<p class="moby-dick" style="color:#660000;margin:0 -4.6pt .0001pt 0;"><span>Marta procurou obedecer a esta pressão apertando-se contra ele ainda com mais força; depois libertou-se gentilmente e ajoelhou-se para o despir. Quando terminou ergueu-se de novo de encontro ao amante, que pôde finalmente sentir-lhe o corpo sem impedimento: a dureza das costelas no fundo do tórax; a firmeza elástica do ventre; e o mais macio de tudo, a ternura absoluta dos seios. </span></p>
<p class="moby-dick" style="color:#660000;margin:0 -4.6pt .0001pt 0;"><span>Como um gato que brinca com a presa capturada antes de a consumir, assim o amante de Marta se pôs a brincar com ela. Beijou-lhe a boca de fugida, primeiro num dos lábios, depois noutro, depois na comissura dos dois, e depois várias vezes no mesmo sítio. De vez em quando, subitamente, enrolava a língua na dela, mas antes que ela conseguisse corresponder já ele tinha voltado à tarefa minuciosa de lhe beberricar beijos à roda da boca. Ao mesmo tempo esticava o braço para baixo, por trás do corpo dela, apalpando-lhe as nádegas e procurando, apesar da diferença de estaturas, introduzir-lhe a mão entre as coxas. Embora ela se erguesse em bicos de pés para o ajudar os dedos dele não conseguiam chegar-lhe ao sexo: ficou-se-lhe a carícia pelo rego macio entre o ânus e a vagina. </span></p>
<p class="moby-dick" style="color:#660000;margin:0 -4.6pt .0001pt 0;"><span>Para Marta, este afago era delicioso. Era também tantalizante: a qualquer momento, pensou, ia conseguir despojar-se do seu próprio peso, que a prendia ao chão, e flutuar ao encontro do amante. Parecia-lhe que estava quase a conseguir; quando chegasse lá acima ia enfim sentir-lhe a carícia dos dedos no clitóris, e a boca, finalmente firme, contra a sua.</span></p>
<p class="moby-dick" style="color:#660000;margin:0 -4.6pt .0001pt 0;"><span>Por fim ele decidiu curvar-se para a beijar de vez, num trago fundo e prolongado que lhes matasse a sede aos dois. Sentiu os lábios femininos que se abriam para ele e comprimiu-os com os seus, e delineou-os firmemente com a língua antes de lha introduzir profundamente na boca.</span></p>
<p class="moby-dick" style="color:#660000;margin:0 -4.6pt .0001pt 0;"><span>Finalmente.</span></p>
<p class="moby-dick" style="color:#660000;margin:0 -4.6pt .0001pt 0;"><span>O tempo tinha parado. Sentada numa poltrona, Camila olhava os dois amantes, com um livro esquecido no regaço. Uma ligeira brisa matinal soprou da janela, perturbando a imobilidade das cortinas e acariciando-lhes os corpos nus. Um perfume seco, estival, a carqueja e glicínias, insinuou-se na sala. A boca de Marta parecia querer fundir-se, de tão macia, na do amante; ao beijar-lhe os lábios, ele teve a sensação que a ia sorver toda num hausto, que ia encher os pulmões com a sua substância; que o corpo da fêmea se tinha tornado desprovido de peso e que se estava a transformar numa espécie de nuvem, num fluído cor de carne, morno, tangível, inebriante, e que este fluído o ia permear todo.</span></p>
<p class="moby-dick" style="color:#660000;margin:0 -4.6pt .0001pt 0;"><span>Marta trepava por ele e à roda dele, erguia-se para ele como um perfume, um farrapo de fumo, um génio saído de uma lâmpada, até que acabou por lhe fazer sentir na ponta do pénis a maciez húmida dos lábios vaginais, que o beijavam famintos. Tinha conseguido subir o suficiente: podia agora deixar-se descer de novo, lentamente, empalando-se no sexo erecto com um único, continuado movimento. Durante a penetração não interromperam o beijo. Ele, carregado com ela e de pé, mal se podia mexer; e ela começou a rolar suavemente as ancas de modo a compensar-lhe a incapacidade de executar o vaivém regular e ritmado de que ambos precisavam.</span></p>
<p class="moby-dick" style="color:#660000;margin:0 -4.6pt .0001pt 0;"><span>Cansados deste esforço, e sem fôlego devido ao beijo, acabaram por ter que se apartar. O pénis estava tão rígido, e a vagina de Marta tão apertada à volta dele, que quando ele a deixou Camila ouviu um pequeno som molhado, <span>plop</span>, como o desrolhar de uma garrafa. Com uma ligeira palmada nas nádegas nuas de Marta, o amante conduziu-a em direcção uma grande mesa de trabalho junto à janela: </span></p>
<p class="moby-dick" style="color:#660000;margin:0 -4.6pt .0001pt 0;"><span>&#8220;Anda depressa.&#8221; </span></p>
<p class="moby-dick" style="color:#660000;margin:0 -4.6pt .0001pt 0;"><span>Fê-la deitar-se atravessada sobre o tampo da secretária, os seios achatados contra a frescura do vidro, pernas abertas, os pés fincados no chão. Quando o amante lhe segurou os pulsos, Marta disse: &#8220;Vais amarrar-me.&#8221; Como se tivesse estado à espera desta deixa, Camila tirou de uma gaveta quatro grossos cordões de seda vermelha. </span></p>
<p class="moby-dick" style="color:#660000;margin:0 -4.6pt .0001pt 0;"><span>&#8220;A pequena sabia,&#8221; pensou Marta. &#8220;Sabia exactamente onde estavam as cordas.&#8221; Este pensamento fez com que lhe esmorecesse a excitação. O que lhe estava agora a acontecer obedecia talvez a uma encenação concebida noutro tempo e noutro lugar. Tudo à sua roda, a sala aprazível, a brisa suave, ganhou os contornos de um cenário, de um mundo irreal e distante onde talvez a mesma representação se viesse repetindo desde há muito.</span></p>
<p class="moby-dick" style="color:#660000;margin:0 -4.6pt .0001pt 0;"><span>Como num sonho, sentiu que o amante lhe atava os pulsos e os tornozelos às quatro pernas da secretária. Para fazer isto, ele teve que lhe passar pela frente mais do que uma vez, com o pénis rígido ao nível dos olhos dela. Marta via-lhe claramente a ponta rosada, as veias perto da superfície, os sucos que ela própria produzira e que o cobriam como um verniz ainda húmido. Virando a cabeça para o lado podia ver um dos cordões vermelhos que a prendiam; e lembrou-se doutra ocasião, em Brugges, quando ele lhe tinha amarrado os pulsos com as fitas de seda vermelha que ela própria lhe oferecera.</span></p>
<p class="moby-dick" style="color:#660000;margin:0 -4.6pt .0001pt 0;"><span>O dono montou-a por trás. Desde o primeiro contacto, logo que a glande lhe tocou no sexo, Marta acendeu-se no mais estranho dos orgasmos: um clímax lento, um fogo subterrâneo que lhe pareceu prolongar-se por várias horas, mas que na realidade só durou o tempo em que ele a possuiu. Impedida, pelas cordas que a prendiam, de ver o amante, contentou-se com escutar-lhe os sons do prazer. E foi com alegria &#8211; <em>mas as cordas, como é que Camila sabia</em> &#8211; e com um sentimento de triunfo &#8211; <em>e quantas outras mulheres</em> &#8211; e finalmente com uma espécie de êxtase, que ela lhe sentiu o apressar do fôlego, e lhe ouviu a voz enrouquecer de excitação, e suportou finalmente os últimos embates impiedosos que lhe comprimiram o ventre contra a dureza do vidro.</span></p>
<p class="moby-dick" style="color:#660000;margin:0 -4.6pt .0001pt 0;"><span>O amante de Marta sentiu o seu próprio orgasmo avolumar-se-lhe nas raízes do corpo. A posição em que estava não lhe permitia beijá-la na boca, mas ainda tinha nos lábios a memória do beijo violento que tinham trocado antes. Ainda sentia o sabor da boca da mulher, levemente salgada por uma gota de sangue. Sangue dele ou dela? Os aromas do sexo combinavam-se com o cheiro a sabonete do chuveiro matinal. Tanto a pele dela como a dele estavam molhadas e escorregadias nos pontos de contacto, secas e macias onde só as tocava a brisa do jardim. Por trás de Marta, olhando-a, viu-a abanar a cabeça para a esquerda e para a direita num gesto de recusa ou avidez; e pareceu-lhe que o corpo dela estava a reagir aos impulsos nervosos do seu próprio cérebro, que os gestos dela exprimiam o seu próprio avassalamento perante a enormidade das sensações que o invadiam &#8211; sim agora é agora, sim, não, ainda não; sim. Sim! &#8211; e os sons que ela produzia, de dor ou prazer, tornavam-se os únicos sons do mundo, e estes sons de fêmea corriam para dentro dele e inundavam-no, e enchiam-no até a pressão se tornar quase intolerável, e finalmente derramavam-se para fora dele, transmutados na sua própria voz, no seu próprio esperma: como se o ar que se lhe escapava num largo sopro pela laringe, e o líquido que lhe corria incontido pelas raízes do corpo, fossem o mesmo fluído torrencial e ingovernável.</span></p>
<p class="moby-dick" style="margin:0 -4.6pt .0001pt 0;"><span><span style="color:#660000;">Marta mal notou que o dono a desamarrava. Da biblioteca passava-se por uma porta para um pequeno quarto de banho, para onde ele a conduziu. Com a assistência de Camila, o amante ajudou-a a lavar e a secar. No fim levaram-na os dois para um grande sofá e sentaram-se junto dela, um de cada lado: ele tinha-se vestido, e Camila trazia, como sempre, as suas calças de ganga preta, blusão de cabedal, e botas. Durante quase uma hora Marta permaneceu nua entre os dois, quase sem falar, a ouvir-lhes a conversa e a responder-lhes às carícias, e sentindo no corpo &#8211; mas só ela é que o sentia &#8211; o leve sopro de Verão que entrava pelas janelas.</span></span></p>
</div>]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[A VERGASTA]]></title>
<link>http://omarkhayyam2.wordpress.com/2005/04/18/a-vergasta-2/</link>
<pubDate>Mon, 18 Apr 2005 21:12:00 +0000</pubDate>
<dc:creator>Vanderdecken</dc:creator>
<guid>http://omarkhayyam2.wordpress.com/2005/04/18/a-vergasta-2/</guid>
<description><![CDATA[Ela jamais compreendera, mas acabou por reconhecer como uma verdade inegável e importante, a confusã]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><p class="moby-dick" style="margin-right:-4.6pt;text-align:center;" align="center"><span> </span></p>
<p class="moby-dick" style="color:#663300;margin:0 -4.6pt .0001pt 0;"><a href="http://2.bp.blogspot.com/_UEfhPJXHLPM/SYjiOrJN-3I/AAAAAAAAAtM/rbhVCrO-n1I/s1600-h/hoogendijk.jpg"><img style="float:left;cursor:pointer;width:194px;height:280px;margin:0 10px 10px 0;" src="http://2.bp.blogspot.com/_UEfhPJXHLPM/SYjiOrJN-3I/AAAAAAAAAtM/rbhVCrO-n1I/s400/hoogendijk.jpg" border="0" alt="" /></a><span style="font-style:italic;">Ela jamais compreendera, mas acabou por reconhecer como uma verdade inegável e importante, a confusão contraditória e cons­tante dos seus sentimentos; amava a ideia do suplício mas, quando o sofria, teria traído o mundo inteiro para lhe escapar; quando acabava, sentia-se feliz por tê-lo sofrido, tanto mais feliz quanto mais cruel e mais longo tivesse sido.<br />
</span></p>
<p class="moby-dick" style="color:#663300;margin:0 -4.6pt .0001pt 0;">
<p class="moby-dick" style="text-align:right;color:#330000;margin:0 -4.6pt .0001pt 0;"><span><span style="color:#663300;"> Pauline Réage, História de O</span><br />
</span></p>
<p class="moby-dick" style="color:#330000;margin:0 -4.6pt .0001pt 0;"><span><br />
Uma tarde o dono de Mariana disse-lhe: &#8220;Uma das próximas vezes que vier ter contigo vou trazer um chicote.&#8221; </span></p>
<p class="moby-dick" style="color:#330000;margin:0 -4.6pt .0001pt 0;"><span>Estavam os dois na cama. Mariana nunca tinha sido castigada fisicamente. Tinham acabado de fazer amor com va­gar e com ternura e ela estava debruçada sobre o amante, dando-lhe pequenos bei­jos no peito. Quando, desorientada pelas palavras dele, quis ob­jectar, ele pôs-lhe um dedo sobre os lábios e começou a retribuir-lhe os beijos, e depois derrubou-a de costas sobre os lençóis amarrotados para lhe beijar e chu­par os seios, e o ventre, e o sexo, até que ela se abriu para ele e se esqueceu do que ia dizer; mas não era uma objecção importante. </span></p>
<p class="moby-dick" style="color:#330000;margin:0 -4.6pt .0001pt 0;"><span>Uma noite, havia vários meses, o amante tinha-lhe dado duas ou três palmadas nas nádegas com a mão aberta enquanto faziam amor. Mas isto não se podia chamar um verdadeiro castigo, e não contava. </span></p>
<p class="moby-dick" style="color:#330000;margin:0 -4.6pt .0001pt 0;"><span>Horas antes, na praia, tinham jogado um risonho jogo de esquivas: &#8220;Não te obedeço. Não sou tua. Que farás se a tua escrava não te obedecer?&#8221; Noutra vida, noutro mundo, Mariana era Marta; tinha um marido e uma profissão, e hábitos de autonomia. Mariana era o seu heterónimo de escrava: dócil ou rebelde conforme a hora. O amante, com a voz velada, entrava-lhe no jogo: &#8220;Castigo-te. Se não me obedeceres bato-te.&#8221; </span></p>
<p class="moby-dick" style="color:#330000;margin:0 -4.6pt .0001pt 0;"><span>Mas nessa noite longínqua a fome tinha sido outra, saciada ainda pelo riso mas já também pela ternura; e o castigo, quando veio, veio tímido e tarde, como um intruso. Havia lon­gos minutos que ela e o amante se acariciavam e beijavam, ofegantes e meigos, e Mariana sentia no sexo o florescer húmido do desejo. Ela própria tinha iniciado o jogo: &#8220;Olha. Não tens muita sorte. Sou uma escrava desobediente.&#8221; À primei­ra palmada nas nádegas sentiu esmorecer a excitação; à segunda sentiu que o sexo se lhe contraía e secava, mas ainda assim não quis protestar. À terceira todo o de­sejo tinha desaparecido e Marta rolou para o outro lado da cama. &#8220;Desactivaste-me.&#8221;</span></p>
<p class="moby-dick" style="color:#330000;margin:0 -4.6pt .0001pt 0;"><span>A ele nunca lhe tinha ocorrido esta palavra para exprimir o fim da excitação. Olhou para ela muito atento e muito sério, mas sem sinais de contrição; e se continuou a acariciá-la e beijá-la, Mariana viu bem que a carícia era agora de ternura e não de desejo. Também ele estava <em>desactivado, </em>como se as palmadas que lhe tinha dado tives­sem tido sobre ele o mesmo efeito que sobre ela. </span></p>
<p class="moby-dick" style="color:#330000;margin:0 -4.6pt .0001pt 0;"><span>Mas não exacta­mente o mesmo efeito: enquanto a desacti­vação de Mariana se tinha produzido em três fases instantâneas, coincidentes com os golpes recebidos, a dele estava a ser lenta e gra­dual. O quarto de hotel em que se encontravam era acolhedor e o barulho das on­das chegava-lhes pela ja­nela aberta. Sobre os lençóis amarrotados, muito brancos, destacava-se o pequeno corpo moreno e macio de Mariana. No fundo dos olhos do amante, que falava com ela em tom sereno e voz pausada, podia ver-se uma centelha de riso. A paixão que minutos antes os possuíra tinha desa­parecido &#8211; ou melhor, tinha ficado latente sob a ternura dos gestos e das pala­vras. </span></p>
<p class="moby-dick" style="color:#330000;margin:0 -4.6pt .0001pt 0;"><span>Mas um pouco mais tarde, de repente, sem que Mariana se desse conta da transição, a excitação do amante tinha voltado; o pénis que se com­primia contra as suas coxas estava erecto de novo. Ela própria se encontrou subitamente <em>activada</em>, embora com uma excitação diferente da que tinha sentido antes. Sem querer reflectir em que consistia a di­ferença, inclinou-se sobre o corpo do amante:</span></p>
<p class="moby-dick" style="color:#330000;margin:0 -4.6pt .0001pt 0;"><span>&#8220;Deixa-me fazer. Meu senhor.&#8221;</span></p>
<p class="moby-dick" style="color:#330000;margin:0 -4.6pt 6pt 0;"><span>Não era frequente, nesse tempo, que Mariana tratasse o amante por Senhor, nem que lhe tomasse o sexo na boca &#8211; carícia que ela já tinha confessado ser-lhe penosa e que ele, de resto, quase nunca lhe exigia. Desta vez aplicou-se em dar-lhe todo o prazer de que foi capaz; quando ele, perto do fim, lhe fez sinal de que não conseguiria evitar a ejaculação por mais tempo, redobrou de esforços para lha provocar, e recebeu-a no fundo da garganta. Ainda se abraçou a ele por alguns segundos antes de se levantar e de ir para a casa de banho.</span></p>
<p class="moby-dick" style="color:#330000;margin:0 -4.6pt .0001pt 0;"><span>Tudo isto tinha acontecido havia meses. Entretanto várias coisas se tinham passado entre Mariana e o dono: tinha-se habituado, por exemplo, a descalçar-se diante dele, a soltar os cabelos, em sinal de respeito e submissão; tinha aprendido a reco­nhecer e a aceitar, em si mesma e nele, a crescente dor da ausência; e uma tarde, num banco de jardim, por palavras da sua própria boca, e quase por sua própria iniciativa, tinha confessado e feito explícito o seu estatuto de escrava. Abraçada ao seu senhor, nessa tarde, falando-lhe ao ouvido, sem querer olhar para ele, tinha enunciado uma a uma as condi­ções e as consequên­cias da sua escravidão. Mas tinha havido uma condição e uma consequência que ela não tinha mencionado, uma condição e uma consequência em que não queria sequer pensar: a sujeição ao castigo, a necessária sujeição ao castigo. Mariana lembrava-se das muitas ve­zes que perguntara ao amante, &#8220;que farás se a tua escrava não te obedecer&#8221;. </span></p>
<p class="moby-dick" style="color:#330000;margin:0 -4.6pt .0001pt 0;"><span>&#8220;Castigo-te,&#8221; respondia ele sempre. Talvez fosse por recear uma resposta mais explícita que Mariana tinha começado a fazer-lhe a pergunta menos vezes. E embora tanto a pergunta como a resposta fossem parte de uma representação, de um desafio, a verdade é que cada vez mais correspondiam a uma real perplexi­dade: o que faria ele, o que fariam am­bos, no momento inevitável em que ela não quisesse ou não pudesse cumprir a servidão que se impusera? </span></p>
<p class="moby-dick" style="color:#330000;margin:0 -4.6pt .0001pt 0;"><span>Um Senhor não é um marido, não amua, não retalia com frasezinhas veneno­sas ou silêncios estudados. Qualquer punição que o dono de Mariana lhe viesse a impor seria ne­cessariamente física. Era isto que ela não ousava admitir, como não ousava admitir que a perspectiva a fascinava &#8211; não pelo prazer que o castigo físico lhe pu­desse dar, que era nenhum, mas pelo que significava de submissão. Mas ele não tinha voltado a puni-la, nem ela o tinha que­rido, desde a noite em que a tinha <em>desactivado</em>. </span></p>
<p class="moby-dick" style="color:#330000;margin:0 -4.6pt .0001pt 0;"><span>Se o seu senhor alguma vez viesse a castigá-la, não o faria, pensava ela, para satisfazer o seu próprio prazer; nem para lhe dar prazer a ela. E sobretudo nunca o faria para resolver brutalmente um conflito ou uma frustração. Mariana dizia a si mesma que estava pronta a ser castigada pela primeira razão, embora lhe parecesse pouco provável que o amante alguma vez lho exigisse. Para ter ela própria prazer, não; a dor não lhe dava prazer. E era claro para ela que o amante nunca desceria a castigá-la pela terceira razão. </span></p>
<p class="moby-dick" style="color:#330000;margin:0 -4.6pt .0001pt 0;"><span>Estava portanto a salvo. Além destas três razões, não conseguia imaginar mais nenhuma que pudesse levar um homem a querer punir fisicamente a mulher amada, ou esta a aceitar ser punida. Mas estava a enganar-se a si mesma, sabia-o bem. Havia uma quarta razão possível para o amante a punir. Se estivesse verdadeiramente a salvo, nem sequer lhe ocorreria, a ela ou ao amante, pensar no assunto; e muito menos abordá-lo. E de resto, quantas vezes não tinha querido ela própria arranhar, morder, magoar os que lhe estavam mais próximos? Sim, até a mãe, o marido, as amigas mais íntimas; até os filhos. E não para tirar daí prazer, obviamente; nem, o que seria igualmente grotesco, para lhes dar prazer; nem mesmo para vencer discussões ou libertar violências reprimidas &#8211; mas sim, precisamente, para melhor os possuir. Para os amar, se tal palavra se pode dizer neste contexto sem empalidecer de terror. </span></p>
<p class="moby-dick" style="color:#330000;margin:0 -4.6pt .0001pt 0;"><span>&#8220;Para o meu dono me castigar,&#8221; reconhecia Mariana finalmente, &#8220;basta que me queira possuir.&#8221; Não era necessária outra razão para o castigo: eis o que lhe custava a aceitar. Não queria sofrer, mas queria per­tencer ao amante &#8211; e para isso teria de estar sujeita não sabia a que sofrimentos, sem poder tirar deles um prazer masoquista, e sem se poder consolar com a ideia que lhe estava a dar a ele um prazer sádico.<span> </span></span></p>
<p class="moby-dick" style="color:#330000;margin:0 -4.6pt .0001pt 0;"><span>Um dia, em Lisboa, perto da Praça da Figueira, Marta passou pela montra de um seleiro. Lá dentro, entre estribos e botas de montar, viu uma pequena ver­gasta de bambu, fina e flexível, com um punho de couro e acabamentos em latão brilhante. Era uma bonita peça artesanal, forte e delicada, de um castanho quase negro e com o brilho discreto que só um fabrico perfeito pode dar. Marta en­trou na loja e pediu que lha mostrassem: era do ta­manho exacto para o saco de viagem que costumava levar nos seus encon­tros. Ao pagar ainda se perguntou o que estava a fazer; mas não quis ou não pôde responder à sua própria pergunta.</span></p>
<p class="moby-dick" style="color:#330000;margin:0 -4.6pt .0001pt 0;"><span>Alguns dias depois Mariana mostrou a vergasta ao amante: &#8220;É para ti. Para mim.&#8221;</span></p>
<p class="moby-dick" style="color:#330000;margin:0 -4.6pt .0001pt 0;"><span>O amante sorriu-lhe, aparentemente desatento à impossível ousadia desta dádiva, beijou-a ao de leve, e pousou a vergasta sobre o toucador aos pés da cama. Depois fez com que ela se despisse e mandou-a ajoelhar. </span></p>
<p class="moby-dick" style="color:#330000;margin:0 -4.6pt .0001pt 0;"><span>Mariana já se tinha dado conta que quando o amante a possuía pela boca o prazer dele era mais intenso, mas muito mais demorado, do que quando a pe­netrava pelo sexo. Desta vez foi-a penetrando alternadamente nas duas aberturas, durante o que a ela lhe pareceu horas. Por fim fê-la gemer num or­gasmo intermi­nável ao mesmo tempo que se lhe esvaía no fundo da vagina. Depois de tudo terminado ele deitou-se de costas e puxou-a para si. E foi nesta posição que Mariana acabou por adorme­cer, a meio da conversa: uma coxa sobre as pernas dele, os cabelos pretos espalhados sobre o peito masculino; e nunca chegou a saber que o dono tinha ficado acordado muito tempo a velar-lhe o sono. </span></p>
<p class="moby-dick" style="color:#330000;margin:0 -4.6pt .0001pt 0;"><span>De manhã, quando estavam os dois a fazer as malas, a primeira coisa que ele guardou foi a vergasta. Antes de a arrumar no fundo do saco passou-lhe os dedos por todo o comprimento: &#8220;Obrigado, Mariana. É muito bonita. Vou passar a trazê-la sempre comigo quando nos encontrarmos.&#8221; E assim fez, mas nos encontros seguintes não chegou a tirá-la da pasta; Mariana, aliviada, chegou a pensar que ele não tencionava usá-la nunca. </span></p>
<p class="moby-dick" style="color:#330000;margin:0 -4.6pt .0001pt 0;"><span>E com efeito só veio a usá-la alguns anos mais tarde, já depois de terem ido viver para fora de Portugal e regressado. Foi no Inverno, numa casinha de pedra no Gerês, ao calor da lareira. Mariana tor­ceu-se de dor sob os golpes, que a queima­vam como ferros em brasa. Pela tercei­ra ou quarta vez desde que se conheciam chorou na presença do amante; mas as lágrimas anteriores tinham sido de felicidade, ou de saudade pelos anos perdidos, ou de angústia pelo futuro, e era impossível dizer qual destes elementos predominava. Nas de hoje não havia ambiguidade, eram de dor e revolta: talvez viesse desta certeza a sensação de liberdade que a invadia. </span></p>
<p class="moby-dick" style="margin:0 -4.6pt .0001pt 0;"><span><span style="color:#330000;">Mariana nunca tinha chorado um choro assim desfeito. No fim do castigo perscrutou o rosto do amante, e viu-o angustiado, tão pálido como a serra sob o céu cinzento. Abraçou-se a ele toda nua, como que para o consolar, molhando-lhe a roupa com as últimas lágrimas e sentindo-lhe as mãos na carne ainda dorida. Depois, quase a medo, fizeram amor. Uma acha crepitou na fogueira. Lá fora nevava, e ouvia-se o vento, e um ramo molhado vergastava a vi­draça.</span></span></p>
<p class="moby-dick" style="margin:0 -4.6pt .0001pt 0;"><span> </span></p>
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